O PIANO NO CONTEXTO DAS PAISAGENS SONORAS DE AVALOVARA, DE OSMAN LINS

MARTHA COSTA GUTERRES PAZ

Resumo


Resumo: Preenche o romance Avalovara um elaborado tecido de sonoridades, impregnando as diferentes cenas com vitalidade e significados, algumas delas estabelecendo-se como marcos sonoros identificadores de personagens e de contextos dramáticos. A mescla de sons musicais, sons naturais e ruídos oriundos da sociedade tecnológica delineia os contornos de inúmeras paisagens sonoras que ornamentam a obra literária com um rico caleidoscópio sonoro. As expressões musicais presentes na narrativa consistem de referências à peças eruditas e populares, com ênfase aquelas executadas em instrumentos de teclado. Este trabalho aborda o piano e suas representações ao longo do romance. Os sons do piano revelam, em diferentes momentos da vida dos protagonistas, estados de agregação familiar e de felicidade enquanto que o seu silêncio acompanha situações de degradação, como símbolo de conexão entre um passado repleto de vida e de esperança e um presente preenchido apenas por recordações nostálgicas. O personagem músico Julius Heckethorn, no tema P, toca piano e cravo e constrói um sofisticado relógio musical, em cujo soar das horas ouvem-se fragmentos da introdução da Sonata K 462, de Scarlatti. O simbolismo do relógio de Julius fica evidenciado em sua presença solene nos momentos crucias do relacionamento amoroso entre Abel e a Inominada. Sua complexa arquitetura musical está intrinsecamente relacionada à estrutura do romance de Osman Lins. Em contraposição ao estilo elegante e contido do soar dos trechos aparentemente desconexos da sonata de Scarlatti que soam nas horas cheias do aparato mecânico de Julius Heckethorn, toca nos momentos lascivos dos encontros entre os dois amantes, a cantata Catulli Carmina, de Carl Orff, em que quatro pianos, juntamente com instrumentos de percussão, executam acordes de sonoridades ásperas e intensamente ritmadas. Osman Lins promove na narrativa o encontro entre os contrários, representados pelo convívio do sagrado com o profano, do erudito com o popular, do festivo com o soturno, assumindo o piano um elo simbólico entre situações opostas, ocorrendo em momentos diferentes.

 

Palavras chave: Piano. Paisagem sonora. Avalovara. Osman Lins.


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Referências


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DOI: https://doi.org/10.19134/eutomia-v1i13p230-243

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