A trajetória intelectual de Ruy Mauro Marini: notas sobre “estruturas de sentimentos” e o pensamento crítico latino-americano

Adelia Maria Miglievich Ribeiro, Vinìcius Tomaz Fernandes

Resumo


Trazemos aqui a história de vida de Ruy Mauro Marini, intelectual orgânico nos termos gramscianos e um dos principais formuladores da Teoria Marxista da Dependência. Ao eleger Ruy Mauro Marini, nosso intento foi estudar a atmosfera de mudanças experimentada por uma específica geração latino-americana, quando ainda se forjava a utopia da realização do socialismo e da vitória sobre o imperialismo, paradoxalmente, em tempos de repressão política. Para tal, fazemos uso do conceito de “estruturas de sentimentos”, de Raymond Williams, propositor do materialismo cultural que insere o debate da cultura como lócus da luta política no marxismo. No exame de trajetórias de vida de pessoas e grupos enredados na biografia de Marini, descobrimos a configuração da unidade concreta das experiências sentidas pelos intelectuais críticos em sua resistência no exílio. A pesquisa leva-nos a concluir acerca de uma contra-hegemonia verificada na consciência prática de uma rede de intelectuais que fez germinar uma das mais férteis criações teóricas a partir da periferia e participa do empenho maior de se remapear as trajetórias destes indivíduos e círculos nos anos 1960-70 na América Latina.


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Referências


De prosopon (“caráter” ou “pessoal”) mais graphein (“escrever”), o termo prosopografia firmou-se no campo da história antiga para designar “biografia coletiva”. A intenção básica consiste no exame dos laços familiares e das carreiras de um número considerável de pessoas numa dada sociedade, num determinado período, com vistas ao estabelecimento de interferências a respeito da estrutura social e do sistema político. Cf. Miceli, 1980, p. 3.

“pensamento tal como sentido e sentimento tal como pensado: a consciência prática de um tempo presente, numa continuidade viva inter-relacionada” (Williams, 2003, p. 134-5).

O que me parece especialmente importante nessas estruturas de sentimentos em transformação é que elas costumam preceder as transformações mais reconhecíveis do pensamento e da crença formais que compõem a história habitual de consciência e que, embora correspondam muito de perto a uma verdadeira história social de homens vivendo em relações sociais reais e em transformação, precedem, mais uma vez, as alterações mais reconhecíveis nas instituições formais e nas relações sociais que constituem a história mais acessível e, de fato, mais habitual (WILLIAMS, 2011, p. 35).

“todos são intelectuais (...). Porque não existe atividade humana da qual se possa excluir alguma intervenção intelectual” (Gramsci, 1975, p. 1516).

A partir do momento em que um grupo subalterno se torna realmente autônomo e hegemônico, suscitando um novo tipo de Estado, nasce concretamente a exigência de construir uma nova ordem intelectual e moral, ou seja, um novo tipo de sociedade e, portanto, a exigência de elaborar os conceitos mais universais, as armas ideológicas mais sofisticadas e decisivas (Gramsci, 1975, p. 1509).

“(...) conquistas ... são tão mais rápidas e eficazes quanto mais o grupo em questão elaborar simultaneamente seus próprios intelectuais orgânicos” (Gramsci, 1982, p.9).

Em 1948, foi criada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe) que aliou o chileno Raul Prebisch e o brasileiro Celso Furtado, e se desenvolveu como uma escola de pensamento que entendia a industrialização como aglutinadora do desenvolvimento, progresso e democracia política. Nos termos cepalinos, a implementação do processo de substituição de importações levaria à superação do subdesenvolvimento desses países, assim como à alteração estrutural de sua inserção na divisão internacional do trabalho. Apesar de ter representado um avanço frente à teoria ortodoxa do desenvolvimento, suas propostas não tocavam nas estruturas de poder existentes e pensavam o desenvolvimento como um continuum. Cf. Rodríguez, 1981.

As teorias do desenvolvimento, em voga nos Estados Unidos e nos centros europeus, se me revelaram, então, como o que realmente eram: instrumento de domesticação dos povos oprimidos do Terceiro Mundo e arma com a qual o imperialismo buscava fazer frente aos problemas criados no após-guerra pela descolonização. Começa, então, o meu afastamento em relação à Cepal, fortemente influenciado, ademais, pela minha crescente adscrição ao marxismo (Marini, 2005, p. 62-63).

Cabe registrar o papel aglutinador desta revista para a formação da Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (ORM – PO, mais conhecida como Polop). “A revista Movimento Socialista teve um papel importante no trabalho político de articulação que permitiu a aproximação entre os ‘grupos de distinta origem, como a pequena Liga Socialista, de inspiração luxemburguista, de São Paulo, membros da Mocidade Trabalhista de Minas Gerais, ex-trotskistas e egressos do PCB’ e do PSB” (Coelho E Santos, 2011, p. 4).

Inaugurada em 21 de abril de 1962, sob inspiração de um grupo liderado por Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Frei Matheus Rocha e contando com a colaboração de Oscar Niemeyer e Lucio Costa, a Universidade de Brasília representou, no contexto brasileiro, uma revolução na vida acadêmica. Em torno dos que conceberam a Universidade, reuniram-se professores comprometidos com as reformas de que o país necessitava para se modernizar, para se democratizar e para construir uma sociedade melhor, mais justa e mais igualitária. Era o protótipo da universidade cidadã (Dias, 2013, p. 15).

Marcha era um periódico semanal fundado por Carlos Quijano em 1939. Conforme Pablo Rocca, seus preceitos, mantidos desde sua fundação, eram o nacionalismo latino-americano, o antiimperialismo, o socialismo com algumas notas liberais e antimilitaristas. O semanário uruguaio aglutinou os brasileiros e outros exilados latino-americanos, a exemplo de Darcy Ribeiro e do crítico literário argentino Noé Jitrik. Os círculos de Marcha se estendiam, porém, para além do Uruguai e marcou várias gerações intelectuais na América Latina. Cf. COELHO, 2002.

Esta condição poderia ter resultado na escolha de outro candidato que não Allende, pois os partidos da UP constituíam minoria em ambas as câmaras. No entanto, havia, no Chile, a firma tradição do candidato com a maioria dos votos sempre ser aprovado quando da realização da sessão conjunta, sete semanas após a eleição geral (Davis, 1990, p. 21).

Allende conquistou 36,22% dos votos, enquanto o segundo colocado Jorge Alessandri ficou com 34,9% e Radomiro Tomic, 27,1% (Bandeira, 2008).

Além do MIR, que buscava fazer frente às ações terroristas do Patria y Libertad, organização neofascista que visava à desestabilização do governo chileno, outras organizações de esquerda se encontravam fora da Unidade Popular, são elas: a Vanguardia Organizada Del Pueblo (VOP), que nasceu de um racha do MIR em 1969; o Movimento Revolucionário Manuel Rodríguez (MR-2), também surgida de uma fração do MIR; e o Partido Comunista Revolucionário (PCR), grupo que conciliava as tradições trotskystas e maoistas, caracterizava o governo Allende como “burguês-reformista”. Cf. Davis, 1990.

Aprendi muito cedo, com Ruy, que a teoria da dependência não era um subproduto ou uma alternativa acadêmica à teoria desenvolvimentista da Cepal; essa teoria encontrava suas raízes nas concepções da nova esquerda que surgia em toda a América Latina e que buscava se contrapor à ideologia desenvolvida pelos partidos comunistas, que começaram a incorporar as ideias cepalinas a partir das teses da deterioração dos termos de troca, do dualismo estrutural, da existência de uma suposta burguesia nacional e da viabilidade de um desenvolvimento capitalista autônomo. Isso os levava a sustentar a ideia da revolução democrático-burguesa, antifeudal e anti-imperialista, herdada da Terceira Internacional (Gutiérrez, 2005, p. 253-254).

Sobre os embates com Cardoso, abrimos uma breve observação: o conjunto das obras de Marini, dentre elas Dialética da Dependência, era de circulação proibida no Brasil, enquanto que Fernando Henrique Cardoso contava com ampla divulgação de seus escritos, mesmo no auge da repressão militar. Em fins da década de 1970, Cardoso escreveria, junto a José Serra, o texto As desventuras da dialética da dependência, em que ambos criticavam vorazmente as formulações de Marini. No Brasil, o artigo de Cardoso e Serra foi publicado na revista Estudos do CEBRAP, em seu número 23, de 1979, porém sem a resposta de Marini. Algo a causar estranheza uma vez que o artigo havia sido primeiramente publicado em 1978 na Revista Mexicana de Sociologia, incluindo, em seguida, a resposta de Marini: Las razones del neodesarrollismo (respuesta a F. H. Cardoso y J. Serra). Vale notar ainda que o primeiro livro de Marini publicado no Brasil foi America Latina:dependência e integração, apenas no ano de 1992. O cerco teórico a Ruy Mauro Marini não partia, portanto, apenas da ditadura militar, mas também de setores da academia brasileira. Cf. Prado, 2011.

Há uma distinção teórica simples entre o alternativo e o opositor, isto é, entre alguém que meramente encontra um jeito diferente de viver e quer ser deixado só e alguém que encontra uma maneira de viver e quer mudar a sociedade. Mas à medida que a área necessária de dominação efetiva se estende esse mesmo significado ou prática pode ser visto pela cultura dominante não apenas como desprezando-a ou desrespeitando-a, mas como um modo de contestá-la. (Williams, 2011, p. 58).


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