Um outro modo de pertencer: A acção moral dos sem-abrigo

João Aldeia

Resumo


De forma generalizada, os sem-abrigo são representados e tratados pelos não-sem-abrigo como sujeitos amorais e anormativos, o que diminui de forma fundamental as suas possibilidades de vida. Esta expulsão dos sem-abrigo das esferas da moral e da normatividade dominante traduz-se num laço de tipo particular que liga estes sujeitos à colectividade com que partilham um espaço-tempo na exacta medida em que os desqualifica face a todos os outros sujeitos. Devido a isto, diversos sem-abrigo exploram possibilidades de constituição de uma forma de pertença à colectividade que não os menorize, o que, necessariamente, tem de se processar como um exercício de reintegração moral e normativa dos sujeitos. Contra as expectativas de que sejam amorais, diversos sem-abrigo repetidamente expressam um impulso moral de responsabilização pelo outro necessitado de ajuda, concretizado através de dádivas de si mesmo ao outro. É a imediaticidade da necessidade do outro que dá origem a estes actos, que dispensam quaisquer outras considerações. Mas, na sucessão de tais acções morais efectivadas como dom, estes sujeitos reivindicam e procuram gerar um outro tipo de laço com a colectividade, que não os inferiorize e lhes permita constituírem-se como sujeitos ao mesmo nível dos restantes.

Palavras-chave: Dom. Moral. Sem-abrigo.


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