“A Viagem da Volta”: Recife, o antigo território como local de luta e (re)existência

Sinopse:

O ensaio fotográfico, realizado no dia 26 de outubro de 2016, foi registrado durante o ato de protesto executado por diversos povos indígenas do estado de Pernambuco, na Rodovia BR 101, em Recife, Pernambuco. O protesto contou com uma interdição realizada por uma corrente humana, formada por indígenas e indigenistas, sem o uso de outras barreiras. O mesmo tinha como finalidade a defesa dos direitos dos povos indígenas e também contra o Projeto de Emenda Constitucional 241/2016 (PEC 241). As fotografias foram feitas de modo coletivo, por Pollydayane Cavalcanti, Walter Andrade e Gilvanildo Ferreira. Como o campo da museologia bem define, o modelo adotado foi a da curadoria compartilhada, não por aqueles que foram fotografados, mas por quem propôs as imagens. Já a seleção das fotografias e a parte escrita do ensaio, foram executadas por Gilvanildo Ferreira e Walter Andrade. O protesto atendia uma demanda nacional e ocorria em todo território brasileiro. Entre os povos indígenas, especificamente, o ato tinha como alvo principal às portarias do Ministério da Saúde, relacionadas à autonomia financeira e orçamentária da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis), que, em suma, pretendiam estadualizar essas políticas. A mudança era vista como prejudicial pelos povos indígenas. Para eles, atualmente a manutenção da autonomia da municipalização da saúde indígena era (e continua sendo) o modo mais satisfatório para guiar as politicas públicas na área da saúde dos povos indígenas (ver fotos número 11 e 12). O movimento indígena se organizou na noite anterior ao protesto, se deslocando do agreste e sertão pernambucanos com destino a capital do estado. Ônibus, vans, carros particulares serviram de veículos de deslocamento para levar centenas de indígenas com destino ao Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC – UFPE), para a interdição de uma das principais vias de acesso e saída da cidade. Uma verdadeira caravana foi formada ainda na madrugada para que pudessem estar às sete (07:00 h) horas da manhã preparados para a interdição da via. Historicamente, os povos indígenas da região nordeste ocupavam grande parte da faixa litorânea das atuais cidades e estados do Nordeste. Com a invasão europeia, depois as expulsões feitas por fazendeiros e as guerras consequentes a esses processos, os povos indígenas foram se “interiorizando” para dentro dos respectivos estados. Os locais que outrora pertenceram aos indígenas, hoje formam grandes regiões metropolitanas. São os centros financeiro, comercial e político dessas áreas, assim como era para seus antigos moradores indígenas – com todos os holofotes direcionados “para si”, um outdoor, onde tudo (ou quase tudo) é visto e disseminado. Nesse sentido, a produção das imagens foi pensada desde o princípio como um trabalho de campo, contudo, de início, sem elaboração profunda sobre qual abordagem seria feita, pois, a primeira preocupação foi registrar as imagens, devido ao encontro inusitado e de última hora de nossa parte; a concepção etnográfica se deu em momento doravante ao ensaio, ou seja, na seleção das fotografias. Nessa ocasião posterior, a analogia com a primeira parte do título do livro organizado pelo antropólogo João Pacheco de Oliveira, “A viagem da Volta: Etnicidade, Política e Reelaboração Cultural no Nordeste Indígena” (1999), foi percebida como uma possibilidade de problematização sobre locais de visibilidade dos povos indígenas de Pernambuco. É importante enfatizar que a relação traçada vai além da simples e pura analogia ao título da obra citada, é também diretamente sobre o seu conteúdo, pois se trata de uma reflexão sobre etnicidade, política e o que João Pacheco de Oliveira chama de reelaboração cultural. O ensaio representa o momento da chegada dos povos indígenas ao protesto, a manifestação e por fim a saída dos indígenas do local. Nas imagens há um caleidoscópio de adornos, graças à diversidade de etnias presentes naquela ocasião. Os diferentes adornos se misturavam a uma variedade de pessoas (fotos número 2 e 13), os indígenas não eram figuras únicas no protesto, havia também a presença de muitos não-indígenas. Fato curioso foi que algumas pessoas durante o protesto só conseguiam diferenciar os indígenas dos não-indígenas somente se os primeiros estivessem trajando algum adorno considerado pertencente aos povos tradicionais (fotos 1, 2 e 8). As imagens trazem essa impressão relatada, de não haver um fenótipo indígena que caracterize e diferencie o não-indígena do indígena da região nordeste, principalmente. Essa junção de informações, com a presença de muitas personagens, entre elas etnias indígenas, atrelado a policiais rodoviários, indigenistas e curiosos, sem dúvida impôs muitas dificuldades ao mesmo tempo em que estimulou o maior cuidado em capturar as melhores imagens que se considerou naquele momento. Nesse sentido, o nosso olhar curatorial (da criação de narrativa através de imagens) se preocupou com a seleção das fotos que compõe este ensaio e que consideramos transmitir a ocupação de povos indígenas numa grande metrópole. Os desafios enfrentados pelos povos indígenas para que seus direitos sejam realmente cumpridos são muitos, e por se localizarem em regiões de difícil acesso e distantes das regiões politicamente importantes, as dificuldades se tornam ainda maiores. “A Viagem da Volta” se dá no momento que decidem ir aos centros políticos com o intuito de tornar “visível” aquilo que protestam, voltando aos locais de morada de tempos remotos, e não de um regresso para algum imaginário nostalgicamente reverenciado e sem conexão ao presente no qual vivemos. Obviamente, as lutas travadas pelos povos indígenas acabaram se tornando mais visíveis, contudo, apesar do fato dessas questões terem recebido um pouco mais de notoriedade política, esses povos necessitam dos amplos cartazes que são as grandes cidades, com poder extraordinário de impacto social. O percurso não é apenas um ato político, o valor simbólico/sentimental também pode ser considerado fundamental nessas ocasiões, pois, como dito, estes espaços foram historicamente ocupados por eles – e ocupados não pela força do acaso, mas por se tratarem de lugares estratégicos para a sobrevivência. Ocupar espaços como uma rodovia de tráfego pesado, pode ser percebido por alguns como absurdo, mas, metaforicamente, não seria tranquilamente aceitável e justificável para os povos indígenas, pelo simples fato de um dia aquele espaço ter pertencido a seus antepassados? “A Viagem da Volta” remete aos povos indígenas de Pernambuco a questão da existência, do resistir e re-existir. “A Viagem da Volta” é, na verdade, a viagem de um percurso secular, não de um espaço utópico, de outros tempos, mas real e aqui, agora.

Palavras-chave:

Povos indígenas de Pernambuco; a viagem da volta; protesto; Curadoria compartilhada

Ficha técnica:

Autores: Walter Andrade e Gilvanildo Ferreira

Fotografias: Pollydayane Cavalcanti, Walter Andrade e Gilvanildo Ferreira

Direção: Walter Andrade e Gilvanildo Ferreira

Edição de Imagem e Texto: Walter Andrade e Gilvanildo Ferreira

“A Viagem da Volta”: Recife, the ancient territory how place of fight and existence/resistence.

Synopsis:

The photographic essay, carried out on October 26 (2016), was captured during the protest executed by several indigenous people of the state of Pernambuco, on Highway “BR-101”, in Recife, Pernambuco. In this occasion the protest was carried out by a human chain, formed by indigenous and indianist, without the use of other barriers. The purpose of the protest was defend the rights of indigenous people and also prostest against the Draft Constitutional Amendment 241/2016 (PEC 241). As the photographs were done collectively by Pollydayane Cavalcanti, Walter Andrade and Gilvanildo Ferreira. As the field of museology explain, the model adopted was the “shared curatorial”, not by those who are photographed, but by whom proposed as images. The selection of the photographs and the text of this essay were performed by Gilvanildo Ferreira and Walter Andrade. The protest was connected with a national demand in all country. Among indigenous people, specifically, the main target of the Brazilian Department of Health, related to the financial and budgetary autonomy of the Secretaria Especial de Saúde Indígena/Special Secretariat of Indigenous Health (Sesai) and Distritos Sanitários Especiais Indígenas/Special Sanitary Districts (DSEIS), which try turn these policies in a state assignment. The change was seen as harmful by the Indians. For them the most satisfactory way to guide public policies in keeping the health care an assignment of local authority, in this case the municipal (see photos 11 and 12). The indigenous movement organized the night before the protest, moving from the “agreste” and “sertão” of Pernambuco to the capital Recife. Buses, vans and private cars served as displacement vehicles to take hundreds of Indians to the Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco/University Hospital of the Federal University of Pernambuco (HC – UFPE) for the interdiction of one of the must important routes to access and exit the city. A caravan was formed very early morning for prepared the protest and for the interdiction of the road. Historically, the indigenous people of the northeastern region occupied much of the coastal strip of present-day cities and northeastern states. With the European invasion and later when the farmers to throw off the native residents, the indigenous people are "internalizing" themselves to into the states. The places that once belonged to the natives, today form great metropolitan regions. Today there’s big areas the financial, commercial and political centers, before areas from their indigenous residents – with all the focus directed "for themselves," one in the open, where everything (or almost everything) is seen and publicized. Thus, the images production was thought from the outset with an ethnographic look, initially, without deep theoretical elaboration, because the first objective was capture some images, above all for the reason that our encounter was unexpected. Subsequent to the records, a simple analogy with a first part of the title of the book organized by the anthropologist João Pacheco de Oliveira, "A viagem de volta” (The Return Journey), was perceived as a possibility to question on places of visibility of the indigenous people of Pernambuco. It is important to emphasize that the relation drawn here is less about the content of the book – but, in a way, as it is a reflection on ethnicity, politics and what João Pacheco de Oliveira calls cultural (re)elaboration – than on his title. The essay represents the moment of the arrival of the indigenous people to the protest, a manifestation in itself and finally the withdrawal of the natives. In the images, we see a kaleidoscope of multiple ornaments, they thank the diversity of indigenous ethnic groups present in this event. The different adornments mingled with a variety of people present (photos number 2 and 13), because they are indigenous are not unique figures as common in the media. The most diversity are also captured by images, but difficult to separate because, due to the contact of the so-called "Brazilian matrixes": an indigenous, European and African, there is no indigenous phenotype that characterizes this differentiates. They are not great indigenous’ differences of the northeast or north region. This juncture of information, with the presence of many people, among them and indigenous people, coupled with road police, indianist and curious, undoubtedly many difficulties while stimulating the greatest care in capturing the best images for the moment. The challenges faced by indigenous people for their rights to be truly fulfilled are many and because they are located in regions that are difficult to reach and far from politically important regions, the difficulties are even greater. "A Viagem de Volta" happens when they decide to go to the political centers in order to make "visible" what they protest, returning to the places of residence of remote times. Obviously, their present territories and their internal struggles have become more visible, however, despite the fact that the indigenous issue has received a little more political notoriety – and why not human too ?! - it is not intended and unfortunately can not be compared to the large posters that are the big cities, with extraordinary power of social impact. The route is not only a political act, the symbolic / sentimental value can also be considered fundamental in these occasions, because, as said, these spaces were historically occupied by them – and occupied not by the force of chance, but because they were strategic places for survival. To occupy spaces like a highly trafficked highway may be perceived by some as absurd, but would not this fact be easily acceptable to indigenous people, simply because one day that space belonged to their ancestors? "A Viagem de Volta" refers to the indigenous people of Pernambuco the question of existence, of resisting and re-existing. "A Viagem de Volta" is, in fact, the journey of a secular journey.

Keywords:

Indigenous peoples of Pernambuco; a viagem da volta; protest; shared curatorship

Credits:

Authors: Walter Andrade e Gilvanildo Ferreira

Photografics: Pollydayane Cavalcanti, Walter Andrade e Gilvanildo Ferreira

Direction: Walter Andrade e Gilvanildo Ferreira

Image editing and Text: Walter Andrade e Gilvanildo Ferreira

Apontamentos

  • Não há apontamentos.




Revista de Estudos e Investigações Antropológicas
AV. Prof. Moraes Rêgo, 1.235. 13° andar
Cidade Universitária
50.670-901 - Recife - PE – Brasil
reiappga@gmail.com