Antropologia da Ética e da Moral

Antropologia da Ética e da Moral

Revista Anthropológicas 2019.1

Chamada para Dossiê – Até 31 de maio de 2019

Editores Convidados

Roberta Bivar Carneiro Campos (PPGA/UFPE)

Eduardo Dullo (PPGAS/UFRGS)

Maya Mablin (University of Edinburgh)

 

O que exatamente queremos dizer quando falamos de uma Antropologia da Moral?

A Antropologia se desenvolveu, desde os primórdios do século XX, descrevendo, analisando e questionando as regras e normas sociais, os processos de julgamento e atribuição de responsabilidade, as formas de sanção e punição, as prescrições e proibições, bem como os efeitos sociais das transgressões. A problemática da moralidade na vida social não é, portanto, estranha ou inovadora para a nossa disciplina, mas constitutiva de nossos repertórios de pesquisa e análise. Ainda assim, a temática não encontrou um terreno tão fértil na Antropologia quanto nas ciências vizinhas psicologia e filosofia. Autores como Jarret Zigon atribuem esse fato ao colapso da moral produzido por Durkheim: se o social e o moral se confundem, por que buscar este último como um domínio particular da experiência? Não obstante, algumas discussões, notadamente nos últimos quinze anos, vêm tentando renovar a abordagem etnográfica a respeito da moral e da ética, contribuindo para redefinir a especificidade das contribuições da Antropologia para o tema.    

O presente número especial visa dar prosseguimento a este repertório. Tendo início  com o debate sobre a tensão entre o universalismo moral e o relativismo das moralidades locais, passando pela redefinição dos conceitos de moral e ética sob a ótica específica da Antropologia, esta agenda teórico-metodológica volta-se principalmente para uma preocupação com novos recortes empíricos como as figuras exemplares, as conceituações de “liberdade” e “responsabilidade”, as práticas de cuidado (care), os processos de recuperação após momentos críticos, as respostas sociais a tragédias, entre tantos outros recortes que observem seja o evento ordinário seja o extraordinário momento de quebra ou (re)instituição da moral. Tendo em vista que a virada antropológica para os fenômenos éticos ainda não recebeu atenção por parte dos periódicos brasileiros, este número especial visa, portanto, contribuir para o avanço desta discussão junto aos pesquisadores e público nacional.

Propomos aos autores que trabalhem a partir de abordagens como: a “ética ordinária” tal como proposta por Veena Das e Michael Lambek; “a ética da virtude” e sua preocupação com as relações éticas constitutivas da subjetividade, derivadas da relação de si para consigo e de si para com outrem (sejam humanos, não-humanos e/ou objetos), notadamente as com inspiração em Foucault, como Talal Asad, James Laidlaw, Saba Mahmood e James Faubion; as reflexões sobre “economia moral” tal como feitas por Didier Fassin, bem como a discussão levantada por este autor a respeito da reflexividade do antropólogo ao colocar em perspectiva sua própria filiação moral quando esta se choca com a de seus sujeitos de pesquisa; os questionamensos acerca dos “valores culturais”, tal como elaborada por Joel Robbins; a investigação de semióticas da ética como sugerida por Webb Keane,   entre outros.

Seguindo, portanto, a proposta de James Laidlaw, uma antropologia que se volte para fenômenos éticos e morais comporá, necessariamente, uma chave analítica transversal às mais diversas temáticas: religião, política, economia, família e parentesco, saúde e bem-estar, natureza e animais, direito, gênero e sexualidade etc. Convidamos à submissão de manuscritos derivados de pesquisa empírica dessas (e de outras) temáticas, em diálogo (crítico) com alguma das recentes propostas analíticas elencadas acima, no esforço de repensar o fenômeno da moral e da ética na antropologia contemporânea.

Adiantamos que o dossiê contemplará contribuições originais de autores de diferentes instituições nacionais e incluirá a tradução de dois artigos de referência, de autores citados acima, ainda não publicados em português.