"O que adianta conhecer muita gente e no fim das contas estar sempre só?" O desafio da maternidade em tempos de Síndrome Congênita do Zika Vírus.

Raquel Lustosa da Costa Alves, Soraya Resende Fleischer

Resumo


Três anos após o surto do Zika Vírus no Brasil diferentes impactos na população brasileira podem ser evidenciados, em especial na vida das mulheres que tiveram filhos nestas circunstâncias. Pernambuco, onde a pesquisa de campo tem sido realizada, foi o estado com mais casos de nascimentos de bebês com a Síndrome Congênita do Zika Vírus -  confirmados pelo Ministério da Saúde. Diante disso, tem-se um cenário de muitos desafios tanto por parte das instituições públicas, dos profissionais de saúde, das crianças atingidas como, e principalmente, da parte de suas cuidadoras. A existência de redes de apoio à essas famílias, composta majoritariamente por mulheres que enfrentam uma situação de vulnerabilidade social anterior à epidemia, contribui tanto para a esfera econômica quanto afetiva das “mães de micro” - como se intitulam essas mulheres em decorrência à microcefalia de seus filhos. Mas, ainda assim, a carga de tarefas direcionadas à essa mulher, seja ela mãe, avó ou tia, é instransponível. É ela a responsável pelos cuidados diários desse bebê, é ela quem enfrenta árduos trajetos nos itinerários terapêuticos e, é ela quem vivencia, juntamente a sua filha ou a seu filho, a discriminação de uma sociedade tão pouco preparada a lidar com as especificidades de um indivíduo deficiente (DINIZ, 2010). A partir da etnografia realizada com as “mães de micro” o presente trabalho busca refletir as relações de ambiguidade produzidas neste cenário; por um lado existe um sujeito se empoderando com as relações construídas através das redes de apoio, por outro lado tem se uma mãe viajante e cansada que vivencia itinerários solitários e cumpre uma agenda de tarefas dedicadas exclusivamente a um filho com demandas especificas, como nos conta uma de nossas anfitriãs: “O que adianta conhecer muita gente e no fim das contas estar sempre só?”. Neste sentido, o olhar antropológico nos ajuda a compreender como essas mulheres tem ressignificado a maternidade e, sobretudo, como a solidão tem se repercutido em suas trajetórias, tencionando a intersecsionalidade de gênero, classe, raça e deficiência.


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