A Maioria Perseguida: religião, ciência e democracia na audiência pública sobre aborto no STF

Autori

  • Mariana Azevedo Universidade Estadual de Campinas
  • Roberto Efrem Filho Universidade Federal da Paraíba; Universidade Federal de Pernambuco, Programa de Pós-Graduação em Antropologia

DOI:

https://doi.org/10.51359/2525-5223.2021.251138

Parole chiave:

aborto, religião, ciência, democracia, Supremo Tribunal Federal

Abstract

O presente artigo busca contribuir para a compreensão das atuais configurações da religião na controvérsia pública sobre a descriminalização do aborto no Brasil. Para tanto, volta-se à análise da audiência pública realizada no Supremo Tribunal Federal como parte do processamento da ADPF 442, mas sobretudo às 24 exposições realizadas por representantes de entidades autodenominadas religiosas e pelos demais expositores que citaram a religião para a construção de seus argumentos contrários ou favoráveis à descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Tais exposições oportunizam intensas disputas – interiores a uma linguagem de direitos – em torno do conhecimento científico, de diferentes concepções de democracia e da própria religião. Nessas disputas, atores religiosos não raro se identificam como uma maioria perseguida pelos ‘excessos ideológicos’ característicos de um ‘ativismo judicial’ protagonizado pelos ministros do STF e contrário ao que seria a ‘moral do povo’ brasileiro.

Biografie autore

Mariana Azevedo, Universidade Estadual de Campinas

Doutoranda em Ciências Sociais junto à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestra em Sociologia e graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco.

Roberto Efrem Filho, Universidade Federal da Paraíba; Universidade Federal de Pernambuco, Programa de Pós-Graduação em Antropologia

Professor do Departamento de Ciências Jurídicas da Universidade Federal da Paraíba e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco.

Riferimenti bibliografici

AGUIÃO, Silvia. 2017. “Quais políticas, quais sujeitos? Sentidos da promoção da igualdade de gênero e raça no Brasil (2003-2015).” Cadernos Pagu, 51(1):75-107.

ALMEIDA, Ronaldo de. 2019. “Bolsonaro presidente: conservadorismo, evangelismo e a crise brasileira.” Novos Estudos Cebrap, 38(1):185-213.

CAMURÇA, Marcelo. 2017. “A questão da laicidade no Brasil: mosaico de configurações e arena de controvérsias.” Horizonte: revista de estudos de teologia e ciências da religião, 15(47):855-886.

CAMPOS, R., GUSMÃO, E. & MAURICIO JUNIOR, C. 2015. “A disputa da laicidade: uma análise das interações entre Jean Wyllys e Silas Malafaia.” Religião e Sociedade, 35(2):165-188.

CASANOVA, José. 1992. “Private and public religions.” Social Research, 59(1):16-56.

CASANOVA, José. 2010. “A globalização do catolicismo e o retorno à uma igreja universal.” Rever:Revista de Estudos da Religião, 10:17-45.

CARRARA, Sérgio. 2015. “Moralidades, racionalidades e políticas sexuais no Brasil contemporâneo.” Mana, 21(2):323-345.

CARRARA, S., FRANÇA, I. & SIMÕES, J. 2018. “Conhecimento e práticas científicas na esfera pública: antropologia, gênero e sexualidade.” Revista de Antropologia, 61(1):71-82.

CESARINO, Letícia. 2007. “Nas fronteiras do ‘humano’: os debates britânico e brasileiro sobre as pesquisas com embriões.” Mana, 13(2):347-380.

COACCI, Thiago. 2020. “A queima dos laudos: controvérsias e reconfigurações dos saberes e direitos trans na ADI 4275.” Direito & Práxis, 11(2):1188-1210.

CORRÊA, Sonia. 2018. “A ‘política do gênero’: um comentário genealógico.” Cadernos Pagu, 53(1):85-101.

DINIZ, Debora. 2014. “A arquitetura de uma ação em três atos: anencefalia no STF.” UNB: Revista de Direito da Universidade de Brasília, 1(2):161-183.

DINIZ, D., MEDEIROS, M. & MADEIRO, A. 2017. “Pesquisa nacional de aborto 2016.” Ciência e Saúde Coletiva, 22(2):653-660.

EFREM FILHO, Roberto. 2019. “Os evangélicos como nossos ‘outros’: sobre religião, direitos e democracia.” Religião e Sociedade, 39(3):124-151.

EFREM FILHO, Roberto. 2014. “Os ciúmes do direito: o desejo pelas uniões homoafetivas e a repulsa a Amor Divino e Paixão Luz.” Sexualidad, Salud y Sociedad: revista latinoamericana, 16:10-30.

FRASER, Nancy. 1995. “What’s Critical about Critical Theory? The Case of Habermas and Gender.” In MEEHAN, J. (ed.): Feminists read Habermas: Gendering the Subject of Discourse, 21-26. New York: Routledge.

FREIRE, Lucas. 2016. “Sujeitos de papel: sobre a materialização de pessoas transexuais e a regulação do acesso a direitos.” Cadernos Pagu, 48(1):64-81.

FRY, P. & CARRARA, S. 2016. “Se oriente, rapaz! Onde ficam os antropólogos em relação a pastores, geneticistas e tantos ‘outros’ na controvérsia sobre as causas da homossexualidade?”. Revista deAntropologia, 59(1):258-280.

GOMES, Edilaine. 2009. “Fé racional e abundância: família e aborto a partir da ótica da Igreja Universal do Reino de Deus.” Sexualidad, Salud y Sociedad: revista latinoamericana, 2:97-120.

GONÇALVES, Alexandre. 2019. “Religião, política e direitos sexuais: controvérsias públicas em torno da ‘cura gay’”. Religião & Sociedade, 39 (2):175-199.

HABERMAS, Jurgen. 2006. Entre naturalismo y religión. Barcelona: Paidós.

HARAWAY, Donna. 1995. “Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial.” Cadernos Pagu, 5:7-41.

LEITE, Vanessa. 2019. “Em defesa das crianças e da família: refletindo sobre discursos acionados por atores religiosos ‘conservadores’ em controvérsias públicas envolvendo gênero e sexualidade.” Sexualidad, Salud y Sociedad: revista latino-americana, 32:119-142.

LUNA, Naara. 2018. “O julgamento no Supremo do aborto anencefálico – ADPF 54: uma etnografia da religião no espaço público.” Horizontes Antropológicos, 24(52):165-197.

LUNA, Naara. 2013. “O direito à via no contexto do aborto e da pesquisa com células-tronco embrionárias: disputas de agentes e valores religiosos em um estado laico.” Religião & Sociedade, 33(1):71-97.

MACHADO, Lia Zanotta. 2017. “O aborto como direito e o aborto como crime: o retrocesso neoconservador.” Cadernos Pagu, 50(1):75-94.

MACHADO, L., MOTTA, A. & FACCHINI, R. 2018. “Quem tem medo dos antropólogos? Dilemas e desafios para a produção e práticas científicas – Apresentação.” Revista de Antropologia. 61(1):09-32.

MACHADO, Bernardo Fonseca. 2019. “Moral do controle: sobre inquietações e propostas para pensar ‘ideologia de gênero’ e o Escola Sem Partido.” Cadernos de Campo, 28(2):32-38.

MACHADO, Maria D. 2018. “O discurso cristão sobre a ‘ideologia de gênero’.” Revista Estudos Feministas, 26 (2):47-63.

MACHADO, Maria D. 2000. “O tema do aborto na mídia pentecostal.” Revista Estudos Feministas, 8:200-211.

MARIANO, Ricardo. 2011. “Laicidade à brasileira: católicos, pentecostais e laicos em disputa na esfera pública.” Civitas, 11(2):238-258.

MIGUEL, L. F., BIROLI, F. & MARIANO, R. 2017. “O direito ao aborto no debate legislativo brasileiro: a ofensiva conservadora na Câmara dos Deputados.” Opinião Pública, 23 (1):230-260.

MONTERO, Paula. 2006. “Religião, pluralismo e esfera pública no Brasil.” Novos Estudos Cebrap,74:47-74.

MONTERO, Paula. 2009a. “Secularização e espaço público: a reinvenção do pluralismo religioso no Brasil.” Etnográfica, 13(1):7-16.

MONTERO, Paula. 2009b. “Jürgen Habermas: religião, diversidade cultural e publicidade.” Novos Estudos CEBRAP, 84:199-213.

MONTERO, Paula. 2012. “Controvérsias religiosas e esfera pública: repensando o religioso como discurso.” Religião e Sociedade, 32 (1):167-183.

OLIVEIRA, Alcilene. 2009. “O movimento Católicas pelo Direito de Decidir na América Latina: experiências em prol dos direitos sexuais e reprodutivos.” E-Cadernos CES, 4:157-176.

PISCITELLI, Adriana. 2017. “#queroviajarsozinhasemmedo: novos registros das articulações entre gênero, sexualidade e violência no Brasil.” Cadernos Pagu, 50(1):75-98.

RAQUENTAT JÚNIOR, Cesar A. 2011. “Ciência e religião: os debates em torno das pesquisas com células-tronco embrionárias no Brasil.” Ciências Sociais e Religião, 12(13):37-56.

ROSADO-NUNES, Maria J. 2012. “O tema do aborto na Igreja Católica: divergências silenciadas.” Ciência & Cultura, 64(2):23-31.

RUIBAL, Alba M. 2020. “A controvérsia constitucional do aborto no Brasil: inovação na interação entre movimento social e Supremo Tribunal Federal.” Direito & Práxis, 11(2):1166-1187.

SAID, Edward W. 2007. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras.

SALES, Lilian. 2014. “A controvérsia em torno da liberação das pesquisas com células tronco embrionárias no Brasil: posições e argumentos dos representantes da Igreja Católica.” Revista de Antropologia, 57(1):179-214.

SALES, Lilian. 2015. “Em defesa da vida humana: moralidades em disputa em duas audiências no STF.” Religião e Sociedade, 35(2):143-164.

SERRA, Cris. 2019. Viemos para comungar: os grupos católicos LGBTI brasileiros e suas estratégias de permanência na Igreja. Rio de Janeiro: Editora Metanoia.

VAGGIONE, Juan M. 2012. “La ‘cultura de la vida’: desplazamientos estratégicos del activismo católico conservador frente a los derechos sexuales y reproductivos.” Religião e Sociedade, 32(2):57-80.

VIEIRA, A. & EFREM FILHO, R. 2020. “O rei está nu: gênero e sexualidade nas práticas e decisões no STF.” Direito e Práxis, 11(2):1084-1136.

Pubblicato

2022-01-24

Fascicolo

Sezione

Dossiê