“Tudo bonitinho”: Pensando ética na prática e pelo avesso nas pesquisas sobre o Vírus Zika no Recife/PE
DOI:
https://doi.org/10.51359/2525-5223.2022.252163Palavras-chave:
epidemia do Vírus Zika, antropologia da ciência, Recife, PernambucoResumo
Na região do Recife/PE, entre 2015 e 2019, centenas de cientistas, de várias áreas e de vários países, se concentraram no estudo do Vírus Zika (VZ) e da Síndrome Congênita do Vírus Zika (SCVZ). As mulheres, mães e cuidadoras das crianças com a SCVZ, que conhecemos em nossa própria pesquisa etnográfica na mesma época, descreveram os momentos em que consultas, exames e comportamentos lhes marcaram como particularmente incômodos, injustos, incompreensíveis. Esse artigo propõe uma discussão sobre ética científica a partir das formulações vindas dos sujeitos de pesquisa e suas acompanhantes, elaboradas a partir dos encontros concretos com cientistas e, sobretudo, partindo do que foi apontado como anti-exemplos. A ideia é partir da “tensão ética” (Neves, 2018) e da “ética empírica” (Pols, 2018) para tentar entender o que essas famílias recifenses sugerem para complementar as normativas éticas brasileiras e aprimorar o cuidado que se oferece às crianças com a SCVZ.
Referências
AKRICH, Madeleine. 2016. To what extent is embodied knowledge a form of science and technology by other means? Conferência de abertura apresentada na 4S-EASST Meeting, Barcelona – Espanha.
AKRICH, M., BARTHE, Y. & REMY, C.2011 “As investigações ‘leigas’ e a dinâmica das controvérsias em saúde ambiental”.Sociologias,13(26):84-127.
AKRICH, M. & BERG, M. 2004. “Introduction – bodies on trial: performances and politics in medicine and biology”. Body & Society, 12:1-12.
BRASIL. 2020. Boletim Epidemiológico. Brasília: Secretaria de Vigilância Sanitária, Ministério da Saúde, 51(47). Novembro.
BORGES, Antonádia. 2003. Tempo de Brasília: etnografando lugares-eventos da política. Rio de Janeiro: Relume Dumará/Núcleo de Antropologia da Política/UFRJ.
CALLON, M. & RABEHARISOA, V. 2008. “The growing engagement of emergent concerned groups in political and economic life: lessons from the French Association of Neuromuscular Disease Patients”.Science, Technology, & Human Values, 33(2):230-261.
CAMARGO, Ana Claudia. 2020. “Se você abrir o armário do meu filho, só tem remédio”: Reflexões antropológicas sobre os medicamentos no cenário da Síndrome Congênita do Zika vírus em Recife/PE. Trabalho de Conclusão de Curso. Brasília: Universidade de Brasília.
CASTRO, Rosana. 2018. Precariedades oportunas, terapias insulares: economias políticas da doença e da saúde na experimentação farmacêutica. Tese de Doutorado. Brasília: Universidade de Brasília.
DINIZ, Debora. 2016. Zika: Do sertão nordestino à ameaça global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
FISCHER, Michael. 2007. “Four genealogies for a recombinant Anthropology of Science and Technology”. Cultural Anthropology, 22(4):539-615.
FLEISCHER, Soraya. 2018. “Uma antropóloga em um comitê de ética em pesquisa social: um relato pessoal”.Amazônica, 10(2):468-490.
FONSECA, Claudia. 2015. “Situando os Comitês de Ética em Pesquisa: o sistema CEP (Brasil) em perspectiva”. Horizontes Antropológicos, 21(44):333-369.
FONSECA, C. & BRITES, J. 2003. “Ritos de recepção: Nomes, batismos, e certidões como formas de inscrição da criança no mundo social”. In SOUSA, Sônia M. (ed.): Infância e adolescência: múltiplos olhares, pp. 11-34. Goiânia: Editora da UCG.
GREEN, D. & MACKENZIE, C. 2007. “Nuances of informed consent: the paradigm of regional anesthesia.”HSS journal: the musculoskeletal journal of Hospital for Special Surgery,3(1):115-118.
LATOUR, Bruno. 2004. “Entrevista: Por uma antropologia do centro”. Mana, 10(2):397-414.
LIRA, L. SCOTT, P. & MOURA, F. 2017. “Trocas, Gênero, Assimetrias e Alinhamentos: experiência etnográfica com mães e crianças com síndrome congênita do Zika”. Revista Anthropológicas, 28(2):206-237.
LÖWY, Ilana. 2019. Zika no Brasil: história recente de uma epidemia. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.
LUSTOSA, Raquel. 2020. “É uma rotina de muito cansaço”: Narrativas sobre cansaço na trajetória das mães de micro em Recife/PE. Dissertação de Mestrado. Recife: Universidade Federal de Pernambuco.
MACEDO, Juliana L. 2017. “Quando a Ética se Torna Moral: considerações sobre o sistema CEP no Brasil”. Revista Mundaú, 2:54-66.
MATOS, Silvana S. 2018. Nada sobre nós sem nós: Associativismo e deficiência na Síndrome Congênita do Zika Vírus. Trabalho apresentado na 31ª Reunião Brasileira de Antropologia, Brasília-DF.
MOL, Annemarie. 2014. “Language trails: ‘lekker’ and its pleasures”. Theory Culture Society, 31:93-119.
MOL, Annemarie. 2018. “Multiple bodies, political ontologies and the logic of care: an interview with Annemarie Mol”. Interface,22(64):295-305.
MOREIRA, Tiago. 2015. “Understanding the role of patient organizations in health technology assessment”. Health Expect, 18(6):3349-3357.
NEVES, Ednalva M. 2018. “Trajetória de pesquisa e tensões éticas: entre persistências e resistências”. Amazônica, 10(2): 444-466.
NUNES, J., FILIPE, Â. & MATIAS, M. 2010. “Os novos actores colectivos no campo da saúde: o papel das famílias nas associações de doentes”. Alicerces, 3(3):119-128.
POLS, Jeannette. 2018. “Empirical ethics and the study of care”. Somatosphere. (http://somatosphere.net/2018/11/a-readers-guide-to-the-anthropology-ofethics-and-morality-part-iii.html; acesso em 24/10/2021).
POLS, Jeannette. 2014. “Knowing patients: turning patient knowledge into science”.Science, Technology, & Human Values, 39(1):73-97.
POLS, J. & WILLEMS, D. 2010. “Goodness! The empirical turn in health care ethics”. Medische Antropologie, 22(1):161-170.
RABEHARISOA, Vololona et al. 2012. “The dynamics of causes and conditions: the rareness of diseases in French and Portuguese patients’ organizations’ engagement in research”.CSI Working Papers Series026, Centre de Sociologie de l’Innovation (CSI), Mines ParisTech.
SCHUCH, P. & VICTORA, C. 2015. “Pesquisas envolvendo seres humanos: reflexões a partir da Antropologia Social”. Physis - Revista de Saúde Coletiva, 25(3):779-796.
SCOTT, Parry et al. 2017. “A epidemia de Zika e as articulações das mães num campo tensionado entre feminismo, deficiência e cuidados”. Cadernos de Gênero e Diversidade, 3(2):73-92.
SCOTT, Parry et al. 2018. “Itinerários terapêuticos, cuidados e atendimento na construção de ideias sobre maternidade e infância no contexto da Zika”. Interface, 22(66):673-684.
SILVA, A. C., MATOS, S. & QUADROS, M. 2017. “Economia Política do Zika: Realçando relações entre Estado e cidadão”. Anthropológicas, 28(1):223-246.
SILVA, Vagner G. 2000. O antropólogo e sua magia: trabalho de campo e texto etnográfico nas pesquisas antropológicas sobre as religiões afro-brasileiras. São Paulo: Edusp.
SIMAS, Aissa. 2020. Ciência, saúde e cuidado: Um estudo antropológico sobre a pesquisa clínica no contexto da epidemia do Zika (Recife/PE). Trabalho de Conclusão de Curso. Brasília: Universidade de Brasília.
SOBOTTKA, Emil A. 2015. “Regulamentação, ética e controle social na pesquisa em ciências humanas”. Revista Brasileira de Sociologia, 3(5):53-77.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2022 Soraya Fleischer

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
Direitos Autorais para textos publicados na Revista ANTHROPOLÓGICAS são do autor, com direitos de primeira publicação para a revista.
Authors retain the copyright and full publishing rights without restrictions.