A metáfora do sangue e os suicídios de fumicultores no Vale do Rio Pardo, RS, Brasil

Autores

  • Laila Mayara Drebes Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará

DOI:

https://doi.org/10.51359/2525-5223.2023.258366

Palavras-chave:

etnia, parentesco, tabaco, teuto-brasileiros

Resumo

O artigo analisa como o sangue é metaforicamente empregado no Vale do Rio Pardo para explicar uma possível relação entre morte, etnia e parentesco diante de vários suicídios em diferentes gerações de famílias de fumicultores de descendência alemã. Os dados foram coletados em pesquisa de campo em 2017, por meio de entrevistas semiestruturadas e observações assistemáticas. No Vale do Rio Pardo, o sangue é empregado metaforicamente como símbolo da etnia germânica e do parentesco consanguíneo, construindo uma narrativa socialmente aceita de que os fumicultores teuto-brasileiros cometem suicídio por supostas questões biológicas atreladas à etnia e à família, passadas e perpetuadas geneticamente entre gerações. Embora sem amparo científico, a narrativa vem sendo explorada por segmentos da sociedade regional para proteger a cadeia de produção e processamento do tabaco de vinculações com as mortes dos fumicultores teuto-brasileiros. Por meio da metáfora do sangue o suicídio deixa de ser uma problemática social.

Biografia do Autor

Laila Mayara Drebes, Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará

Docente do Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia (PDTSA) e da Faculdade de Educação do Campo (Fecampo), do Instituto de Ciências Humanas (ICH) da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Marabá/PA, Brasil. E-mail: drebes.laila@unifesspa.edu.br.

Referências

ALTENHOFEN, Cléo Vilson; MORELLO, Rosângela. (Orgs.). 2018. Hunsrückisch: inventário de uma língua do Brasil. Florianópolis: Editora Garapuvu.(https://www.ufrgs.br/projalma/wp-content/uploads/2014/08/eBook_Livro-do-Invent%C3%A1rio-do-Hunsr%C3%BCckisch_2018-1.pdf, acesso em 10/04/23).

BERTHO, Béatrice. 2016. “‘Le sang ne ment pas!’ Conflits de paternitéau Burkina Faso”. Journal des Anthropologues, (144-145): 169-189. (https://journals.openedition.org/jda/6409, acesso em 11/04/23).

BOURDIEU, Pierre. 2001. Meditações Pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

CUNHA, Jorge Luiz da. 1988. Os colonos alemães de Santa Cruz e a fumicultura: Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, 1849-1881. Dissertação de Mestrado. Curitiba: Universidade Federal do Paraná. (https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/27080/D%20-%20CUNHA,%20JORGE%20LUIZ%20DA.pdf?sequence=1, acesso em 27/06/18).

DREBES, Laila Mayara. 2019. Suicídio de fumicultores familiares:

construções de um problema social”. Tese de Doutorado. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria. (https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/18608/TES_PPGER_2019_DREBES_LAILA.pdf?sequence=1&isAllowed=y, acesso em 17/11/20).

DREBES, Laila Mayara; MARIN, Joel Orlando Bevilaqua. 2022 “Suicídio e trabalho na fumicultura: o caso do Vale do Rio Pardo/RS”. In: SAUER, Sérgio; GRISA, Cátia; GOMES, Ramonildes; OLIVEIRA, Valter Lucio; DIAS, Janise Bruno (Orgs.). Estudos Rurais: entrelaçando reflexões sobre desenvolvimento, natureza, políticas públicas e lutas no campo, pp. 258-276. São Leopoldo: Oikos.

CARSTEN, Janet. 2011. “Substance and relationality: blood in contexts”. Annual Review of Anthropology, 40: 19-35. (https://www.annualreviews.org/doi/10.1146/annurev.anthro.012809.105000, acesso em 11/04/23).

CARSTEN, Janet. 2013. “Introduction: blood will out”. Journal of the

Royal Anthropological Institute, s./n.: 01-23. (https://rai.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/1467-9655.12013, acesso em 11/04/23).

CARSTEN, Janet. 2014. “A matéria do parentesco”. Revista de Antropologia da UFSCar, 6(2):103-118. (https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1862313/mod_resource/content/1/J_Carsten_Mat%C3%A9ria_do_parentesco.pdf, acesso em 11/04/23).

CARUSO, Juliana Lima; MARINI, Marisol; GARCÍA, Sandra Portela. 2020. “Introdução: o que nos carregou até o sangue?” Aceno Revista de Antropologia do Centro Oeste, 7 (14): 28-29. (https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/aceno/article/view/11514, acesso em 11/04/23).

GUINTIVANO, Jerry et al. 2014. “Identification and Replication of a Combined Epigenetic and Genetic Biomarker Predicting Suicide and Suicidal Behaviors”. Am J Psychiatry, 171(12): 1287-1296. (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7081376/, acesso em 11/04/23).

KLEIN, Cleci Eulália Favero. 1984. “Aparência e realidade social no Brasil: o caso de Teutônia”. Estudos Ibero-Americanos, 10(1): 41-77.

LEAL, Ondina Fachel. 1992. “Honra, morte e masculinidade na cultura gaúcha”. In: TEIXEIRA, Sérgio Alves; ORO, Ari Pedro. Brasil e França: ensaios de antropologia social, pp. 141-150. Porto Alegre: Editora da Universidade UFRGS.

MISHARA, Brian; TOUSIGNANT, Michel. 2004. Compreendre le suicide. Les Presses de l’Université de Montréal: Québec.

MOURANT, Arthur Ernest. 1962. “L’hématologie: base de l’anthropologie moderne”. Transfusion, (03-04): 213-218. (https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S037212486280037X, acesso em 11/04/23).

PÉREZ, Andrea Lissett. 2015. Suicidio y sufrimiento en campesinos de América del Sur. Trabalho apresentado no IV Congresso Latino-americano de Antropologia. Cidade do México, México.

RODRIGUES, Carlos Alberto Bizarro; SCHRAMM, Fermin Roland. 2019. “Corpo e paradigma da imunização: reflexões sobre território, saúde e gênero a partir da metáfora do sangue”. Saúde em Debate, 43(7): 114-125. (https://www.scielo.br/j/sdeb/a/T6mxyqLxdF6gzw3NCD5XNns/abstract/?lang=pt, acesso em 11/04/23).

SCHNEIDER, David Murray. 1980. American Kinship: a cultural account. 2 ed. Chicago/London: The University of Chicago Press.

SECRETARIA ESTADUAL DA SAÚDE DO RIO GRANDE DO SUL. 2011. Prevenção do suicídio no nível local: orientações para a formação de redes municipais de prevenção e controle do suicídio e para os profissionais que as integram. Porto Alegre: CORAG, 2011. (https://www.polbr.med.br/ano11/034704do1ao64.pdf, acesso em 17/10/18).

SECRETARIA ESTADUAL DA SAÚDE DO RIO GRANDE DO SUL. 2018. Boletim de Vigilância Epidemiológica de Suicídio e Tentativa de Suicídio. Porto Alegre: SESRS. (https://cevs.rs.gov.br/upload/arquivos/201809/05162957-boletim-de-vigilanciaepidemiologica-de-suicidio-n1-2018.pdf, acesso em 15/04/19).

SEYFERTH, Giralda. 1986. “Imigração, colonização e identidade

étnica: notas sobre a emergência da etnicidade em grupos de origem europeia no Sul do Brasil”. Revista de Antropologia, (29): 57-71. (https://www.revistas.usp.br/ra/article/view/111143/109450, acesso em 11/04/23).

SEYFERTH, Giralda. 1994. “A identidade teuto-brasileira numa perspectiva histórica”. In: MAUCH, Cláudia; VASCONCELLOS, Naira (Orgs.). Os alemães no Sul do Brasil: cultura, etnicidade, história, pp. 11-27. Canoas: Editora da Ulbra.

SEYFERTH, Giralda. 2000. “As identidades dos imigrantes e o melting

pot nacional”. Horizontes Antropológicos, 6(14): 143-176. (https://www.scielo.br/j/ha/a/gK3bVRDv5Zn85XKdC7Yw7Lh/?lang=pt, acesso em 11/04/23).

VOGT, Olgário Paulo. 1994. A produção de fumo em Santa Cruz do

Sul,

RS (1894 - 1993). 1994. Dissertação de Mestrado. Curitiba: Universidade Federal do Paraná.(https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/27825/D%20-%20VOGT%2c%20OLGARIO%20PAULO.pdf?sequence=1&isAllowed=y, acesso em 08/11/18).

WOORTMANN, Ellen. 1988. “Keim e parentesco: reflexões sobre uma

categoria cultural de colonos teuto-brasileiros”. Revista Brasileira de Estudos da População, 5(1): 21-35. (https://www.rebep.org.br/revista/article/view/579/pdf_551, acesso em 11/04/23).

WOORTMANN, Ellen. 1995. Herdeiros, parentes e compadres:

Colonos do Sul e sitiantes do Nordeste. Hucitec/Edunb: São Paulo/Brasília.

Downloads

Publicado

2024-05-06

Edição

Seção

Artigos