Sinopse:
A etnia Fulni-ô está localizada na região hidrográfica do São Francisco, na sub-bacia do rio Ipanema, no sertão e agreste nordestino, envolvida pelo município de Águas Belas, no Estado de Pernambuco. O grupo étnico tem quatro séculos de ‘contato cultural’ em sua história (DÍAZ, 2015), na qual desenvolveu ao longo dos anos formas de adaptação e obtenção de recursos em uma ‘sociedade de meios escassos’ (REESINK. REESINK, 2007). O turismo comunitário indígena e as performances das cafurnas - surgidas na década de 80 - são formas de inserção socioeconômica no contexto artístico e religioso, que buscam melhorar a qualidade de vida étnica através da autogestão territorial por meio de “alianças” entre grupos sociais. Logo, o ambiente das caatingas e do sertão que é visto pela óptica hegemônica nacional como um lugar inóspito, seco e de difícil convivência ganha novas projeções. Pois,o modelo de convivência territorial Fulni-ô revelam adaptações e meios de produção singulares que ganham novas possibilidades de trocas simbólicas e de produção cultural.
Geralmente, no contexto do turismo indígena e étnico há uma exotização da vida indígena (MAGNANI, 2014; GRUNEWALD, 2009, 2020), entretanto, é possível destacar a dinamicidade cultural por meio das práticas que demonstram uma ‘continuidade em transformação’ (REESINK, 2016), à exemplo do indígena que utiliza da pintura corporal para proteção ao mesmo tempo em que registra o ato de se pintar com seu celular. Ou, a transformação das casas de palha que eram as antigas moradias e que hoje são utilizadas como locais sagrados dos antepassados e de rememoração dos trajetos históricos vivenciados. Tais ações evidenciam o ‘contato cultural’ (FERNANDES, 2009 [1975]) e as maneiras com que os Fulni-ô lidam com sua tradição (HOBSBAWN, 1997), que criativamente resguarda um modelo de organização que seleciona características e emblemas culturais (BARTH, 1969).
Nestas atividades do turismo indígena os Fulni-ô através das cafurnas e demais expressões culturais contam, cantam e dançam a sua etnohistória dramatizando a vida indígena e realizando maneiras pedagógicas de aprendizado aos “turistas”, ao destacarem como os indígenas sobreviveram durante anos de invizibilização. É desta maneira, que os Fulni-ô mostram que existem indígenas no Nordeste do Brasil com língua viva (yaathe) e modelos plurais de exercício da autonomia territorial.
As pinturas, cafurnas e artesanatos são formas xamânicas dos Fulni-ô apresentarem sua tradição e um modelo particular de convivência com o bioma da caatinga, das pedras e das palhas do coqueiro do ouricouri (Syagrus coronata), logo, pintar-se e trançar as palhas tem um significado de vestir-se desse território que compõe a condição sine qua non da identidade e sobrevivência étnica. Pois, como cantam os indígenas: “índio é terra e ninguém vai separar!”.
Tal ensaio foi produzido em Fevereiro de 2019 durante a etnografia da pesquisa de doutorado – Fluxos de Comunicação Fulni-ô: territorialidade, cosmologia e performance, a qual demonstra uma articulação na produção imagética entre pesquisador e indígenas.
Sinopsis:
The Fulni-ô ethnic group is located in the São Francisco hydrographic region, in the sub-basin of the Ipanema river, in the sertão and agreste northeast, surrounded by the municipality of Águas Belas, in the State of Pernambuco. The ethnic group has four centuries of cultural contact in its history (DÍAZ, 2015), in which it has developed over the years ways of adapting and obtaining resources in a 'society of scarce means' (REESINK, REESINK, 2007). Indigenous community tourism and performances by cafurnas - which emerged in the 1980s - are forms of socioeconomic insertion in the artistic and religious context, which seek to improve the quality of ethnic life through territorial self-management through “alliances” between social groups. Therefore, the environment of the caatingas and the sertão, which is seen from the national hegemonic point of view as an inhospitable, dry and difficult place to live, gains new projections. Well, the Fulni-ô model of territorial coexistence reveals adaptations and unique means of production that gain new possibilities for symbolic exchanges and cultural production.
Generally, in the context of indigenous and ethnic tourism there is an exoticization of indigenous life (MAGNANI, 2014; GRUNEWALD, 2009, 2020), however, it is possible to highlight the cultural dynamism through practices that demonstrate a 'continuity in transformation' (REESINK, 2016), like the indigenous person who uses body paint for protection while recording the act of painting himself with his cell phone. Or, the transformation of the thatched houses that were the old dwellings and that today are used as sacred places of the ancestors and of remembrance of the historical paths experienced. Such actions show cultural contact (FERNANDES, 2009 [1975]) and the ways in which the Fulni-ô deal with their tradition (HOBSBAWN, 1997), which creatively safeguards an organization model that selects cultural characteristics and emblems (BARTH, 1969 ).
In these indigenous tourism activities, the Fulni-ô, through cafurnas and other cultural expressions, tell, sing and dance their ethnohistory, dramatizing indigenous life and performing pedagogical ways of learning for “tourists” by highlighting how the indigenous people survived during years of invisibility. It is in this way that the Fulni-ô show that there are indigenous people in Northeast Brazil with a living language (yaathe) and plural models of exercising territorial autonomy.
Paintings, cafurnas and handicrafts are shamanic ways the Fulni-ô present their tradition and a particular model of coexistence with the caatinga biome, stones and straw from the ouricouri coconut tree (Syagrus coronata), therefore, painting and braiding the straws has a meaning of dressing up in this territory that composes the sine qua non condition of ethnic identity and survival. Because, as the indigenous people sing: “Indians are land and no one will separate them!” Such an essay was produced in February 2019 during the ethnography of the doctoral research - Fulni-ô Communication Flows: territoriality, cosmology and performance, which demonstrates an articulation in the imagery production between researcher and indigenous people.
Palavras-chave:
turismo comunitário indígena, performance, cafurna, pintura corporal, xamanismo.
Keywords:
indigenous community tourism, performance, cafurna, body painting, shamanism.
Referências:
BARTH, Fredrik. Ethnic Groups and Boundaries. Boston: Little, Brown and Company, 1969.
DÍAZ, Jorge Hernández. “Los Fulni-ô: lo sagrado del secreto. Construccíon y defesa de la identidad en un pueblo indígena del nordeste brasileño”. Quito: Ed. Abya-Yala, 2015.
FERNANDES, Florestan. A investigação etnológica no Brasil e outros ensaios. São Paulo: Ed. Global, 2o ed.. 2009 [1975].
GRÜNEWALD, Rodrigo de Azeredo. The Contingency of Authenticity Intercultural Experiences in Indigenous Villages of Eastern and Northeastern Brazil. In: Vibrant – Virtual Brazilian Anthropology, v. 6, n. 2. July to December, 2009.__________. Jurema. Campinas/ SP: Mercado de Letras, 2020.
HOBSBAWM, Eric. Introdução: a invenção das tradições. Em HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
MAGNANI, José Guilherme Cantor. O circuito: proposta de delimita\cão da categoria. Revista Ponto Urbe [Online], 15, 2014.
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REESINK, Mísia; REESINK, Edwin. Entre romeiros e turistas: a busca do turismo religioso como alternativa econômica em um município do sertão baiano. Recife: Revista de Estudos de Sociologia, vl 13, no 1, 2007, pp. 195-217.
Ficha técnica:
Autores: Miguel C. Bittencourt, Tayho (Bruno) Fulni-ô, Rafael Fulni-ô.
Direção, pesquisa e edição: Miguel C. Bittencourt e Tayho (Bruno) Fulni-ô e Rafael Fulni-ô.
Datasheet:
Authors: Miguel C. Bittencourt, Tayho (Bruno) Fulni-ô, Rafael Fulni-ô.
Direction, photography e Edition: Miguel C. Bittencourt e Tayho (Bruno) Fulni-ô e Rafael Fulni-ô.