Sinopse:

Este ensaio aborda as experiências fílmicas sobre o processo de criação, roteirização e edição do documentário Da vida das plantas dirigido pelos autores deste manuscrito. Este documentário tem sido resultado do Projeto de Pesquisa, Ensino e Extensão (CGPrits PEEX 2022) “O quanto somos interdisciplinares? Ensino, pesquisa e extensão nas práticas pedagógicas no Ensino Superior”, financiado pelo CNPq e vinculado à Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação Tecnológica da Universidade Federal do Oeste do Pará. O projeto contou com duas bolsas de iniciação científica e um mestrando desta IES.

Este projeto tem quatro planos de trabalho em execução. O plano de trabalho contemplado com o documentário foi o "Plantas medicinais: uma sabedoria que cura”. A ideia original era produzir um documentário que construísse imagens em planos americano e fechado, jungindo-as com passagens que fizessem evocação ao delírio e à fantasia. O uso do plano americano – o personagem ao fundo, movimentando-se – teve a intencionalidade de circunscrever como os interlocutores agem em sua rotina diária.

A concepção do ator natural e sua inserção no mundo onde vive e cria suas redes de significado, na perspectiva de O'Flaherty (GONÇALVES 2019), foi focada e privilegiada, buscando interferir o mínimo no que elas falavam sobre si e as plantas. Foi usada uma câmera Canon TSi para gravar as imagens, microfone externo e tripé. As passagens de cenas foram pensadas a partir da ideia de que trazer conceitos-chave para pensar as falas dos interlocutores possibilita o alcance e compreensão do espectador que tem pouco contato com a linguagem fílmica. Ideias-síntese.

Pensamos a proposta do documentário centrada no conceito de circuitos e redes e como os atores sociais estão interligados no sistema de medicina popular viabilizada pelas plantas medicinais (LATOUR 2012). Sendo assim, nossa narrativa fílmica foi construída com atores que tiveram vivência institucional com o trato das plantas medicinais, outra com o cultivo, promoção e venda de plantas medicinais para população que não tem acesso a tratamento alopático, ou até mesmo evita esse tipo de autocuidado com a saúde.

Segundo Langdon e Wiik (2010), nas sociedades vigoram diversas concepções de saúde-doença e estas estão assentadas na cultura em que os atores foram construídos e inseridos, perfazendo o que os autores denominam como um sistema cultural de saúde. Os vendedores de ervas do mercado público faz parte do outro pólo do circuito-rede das plantas medicinais porque eles oferecem diversos tipos de remédios caseiros como banhas, pomadas, xaropes, sementes, produtos de natureza animal (banha de sucuri, por exemplo) e artefatos minerais para o tratamento da saúde. Ora, a narrativa fílmica abre um relevante aspecto desse circuito-rede que é o processo sutil de industrialização desses artefatos e a venda em escala além-comunidade.

As ervas vêm de diversos lugares da região do Baixo Amazonas, o que compreende um complexo circuito de circulação de coisas e pessoas, o que já sinalizava Weinstein (1983). O pajé e também antropólogo dá um testemunho relevante quando pensa que o uso das ervas compreende não apenas o seu aspecto objetivo, dado; mas também o tratamento da saúde-doença, povoado de sistemas onde não-humanos circulam e criam significados para saúde, doença, sorte, azar, mau-olhado (CORDEIRO E AQUINO 2016).

Desse modo, as plantas medicinais, chamadas aqui também como ervas, são veículos onde ideias, concepções e crenças de mundo se interligam, gerando engajamentos e filiações. A conversa pontual entre a cliente e a vendedora do mercado sintetiza esse argumento e demarca como cenário o universo rico de crenças que alimentam o imaginário amazônico e constrói um mundo de sentidos e práticas para o cotidiano e além dele.

Sinopsis:

This documentary tells the personal experiences of people closely linked to the care of medicinal plants and how this relationship was built over time. We have Antônio who has a wealth of knowledge built on medicinal plants and their benefits for human health. Margareth tells how this experience was being built within the Base Ecclesiastical Communities in the Conquista neighborhood in Santarém, in addition to Helton's experience as a merchant selling herbs, baths and oils. Paulo Borari, the shaman and also an anthropologist, gives a relevant testimony when he thinks that the use of herbs includes not only their objective, given aspect; but also the treatment of health-disease, populated by systems where non-humans circulate and create meanings for health, illness, luck, bad luck, the evil eye.

The narrative of the documentary video ends with Lioni's witty and sensitive speeches and her careful treatment with plants and how her life is intertwined with the life of plants. In this way, medicinal plants, also called herbs here, are vehicles where ideas, conceptions and beliefs about the world are interconnected, generating engagements and affiliations. The specific conversation between the customer and the market seller summarizes this argument and defines as a setting the rich universe of beliefs that feed the Amazonian imagination and builds a world of meanings and practices for everyday life and beyond.

Palavras-chave:

plantas medicinais; documentário; preservação; Baixo Amazonas; Santarém.

KeyWords:

medicinal plants; documentary; preservation; Lower Amazon; Santarém.

Ficha técnica:

Autores: Rubens Elias Duarte Nogueira; Igor Oliveira da Silva; Alessandro Vitor Mota Gomes; Ana Akel Sampaio da Silva.

Direção, pesquisa e edição: Rubens Elias Duarte Nogueira; Igor Oliveira da Silva e Ilgner Juan.

Datasheet

Authors: Rubens Elias Duarte Nogueira; Igor Oliveira da Silva; Alessandro Vitor Mota Gomes; Ana Akel Sampaio da Silva.

direction, investigation and edition: ubens Elias Duarte Nogueira; Igor Oliveira da Silva e Ilgner Juan.

REFERÊNCIAS

Cordeiro, Maria da Conceição da Silva; Aquino, Jânia Perla. “Doença de feitiço: aspectos socioculturais de um modo de adoecer e sarar”. REA / ABANNE, UFAL, Maceió, AL, 2016.

Gonçalves, Marco Antonio. “O SORRISO DE NANOOK E O CINEMA DOCUMENTAL E ETNOGRÁFICO DE ROBERT FLAHERTY”. Sociologia & Antropologia 9, no. Sociol. Antropol., 2019 9(2) (May 2019).

Langdon, Esther Jean, and Flávio Braune Wiik. “Anthropology, Health and Illness: An Introduction to the Concept of Culture Applied to the Health Sciences”. Revista Latino-americana De Enfermagem 18, no. Rev. Latino-Am. Enfermagem, 2010 18(3) (May 2010).

Latour, B. “Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede”. Salvador: EDUFBA-Edusc, 2012.

Weinstein, Barbara. “The Amazon rubber boom”, 1850-1920. Stanford University Press, 1983.

CONTATOS

Rubens Elias Duarte Nogueira: hellazer09@gmail.com / https://orcid.org/0000-0002-6704-6367.

Igor Oliveira da Silva: E-mail: iggor.3@gmail.com / https://orcid.org/0000-0002-8559-1895.

Alessandro Vitor Mota Gomes: E-mail: alessandroavmg@gmail.com.

Ana Akel Sampaio da Silva: anaakelsasil@gmail.com.

Andrei Santos de Morais: andrei.morais@ufopa.edu.br.