Sinopse:

Em tupi, a palavra Tabatinga significa argila mole, com certo teor de matéria orgânica, encontrada nas cores amarela, branca ou esbranquiçada. É um material utilizado para moldar cerâmicas utilizadas por alguns povos indígenas e por povos de Terreiro. Mas Tabatinga é também o nome da cidade localizada na Tríplice Fronteira Amazônica, onde se conectam Brasil, Colômbia e Peru. Povos originários vivem nessa região desde antes do território ganhar as delimitações urbanas atuais, sendo os Ticuna e os Kokama os mais numerosos vivendo em comunidades e a possuírem Organizações Indígenas no território.

Como apontado por Reginaldo Silva (2015), também há registros de Terreiros de Umbanda - ou do “povo da macumba” - na então Vila do Marco desde o início dos anos 1980. A partir de 2011, José Miguel Nieto Olivar, em suas incursões etnográficas, começa a acompanhar os/as jovens do babado — como algumas dessas pessoas nomeavam as trocas sexuais por dinheiro —, e da Umbanda, alguns com ascendência indígena (Olivar, 2023).

Então chegou a vez de Samara. Seu cabelo longo e forte girava, cintilando com a luz e espalhando umidade ao seu redor. Seu riso ficou mais alto. Era uma mulher grande ali! Mas a possessão não durou muito. A entidade era muito nova naquela cabeça, e o corpo-cabeça possuído ainda não estava firme o suficiente para que a entidade assumisse o controle. Essa, pelo menos, foi a explicação que me deram (tradução nossa, Olivar, 2023, p. 13).

Mais de uma década depois, Michel Furquim inicia seu trabalho etnográfico e passa a acompanhar Samara — agora Mãe de Santo — e suas Entidades no Terreiro do Pai Jairo. Suas 18 Entidades firmadas até o momento guiam Filhas e Filhos de Santo, além de compor essa rede “sociotécnica” em constante crescimento (Latour, 1994). O fluxo, a transformação e a pluralidade produzem e moldam como um oberó — ou uma quartinha — possibilidades outras de existir. Visões fixas de corporeidade e de mundo limitam e, de certo modo, negam a condição dinâmica de existência e de vida.

Os registros fotográficos aqui tornam possível observar as mudanças, a produção e a manutenção das relações florescentes com Mãe Samara em um território transfronteiriço. As Entidades que seguem Orí-entando os caminhos etnográficos de pesquisa e as reflexões sobre corpo, fronteira, Encantados e tantos outros temas, também fazem parte dessa rede de relações aqui nutridas.

No trabalho etnográfico, algumas vezes compartilhado e outras tantas vezes distinto, as complexas interações tecidas entre Entidades e corpos vão se produzindo em relações horizontais, mas também, muitas vezes, hierárquicas, tensionando tanto as experiências dos “cavalos”, como são chamadas as pessoas que são incorporadas pelas entidades no Terreiro de Umbanda em questão, quanto das agências mais que humanas (Tsing, 2021) que frequentam o Terreiro. As festas, as materialidades dos corpos, as relações com o mundo dito contemporâneo recebem interferências dessas Entidades. Ao passo que um corpo dissidente re(des)arranja as relações generificadas da própria Umbanda.

As fronteiras desses/nesses encontros reelaboram e se produzem nos limites da pele, do território, das possibilidades de gênero e de redes de relações, dialogando com a concepção de Anzaldúa (1987). A trajetória de Mãe Samara contribui como um ponto de observação empírico e encarnado, a partir do qual a condição transfronteiriça se revela como uma física multidimensional, como território de relações e redes. Nessa confluência, território, espiritualidade e corpo se compõem, coexistem e se coproduzem. E como Silvana Nascimento (2022) destaca, “viver na fronteira é estar-no-mundo em fronteira”.

Diário de Campo: Cruzando os pontos:

“Eu, como Mãe Samara, já tenho uns três anos que me tornei uma Sacerdotisa de Umbanda. Tenho meus filhos, não tenho uma casa ainda aberta, mas frequento os trabalhos também na casa de meu Pai de Santo [Pai Jairo] que é a casa de Iansã. Travesti, Mãe de Santo, sou também ativista, né? Luto muito pelas lutas, e eu acho que eu sirvo de um tudo. Então, por eu ser uma mulher trans, já morei muitos anos também em São Paulo, já fui profissional do sexo. Hoje em dia faço uma faculdade de enfermagem, Mãe de Santo, tudo isso. Eu tenho o maior orgulho de ser umbandista, de ser trans, de ser ativista, de estar sempre na luta, porque eu sei que não é fácil, por ser Mãe de Santo e ser trans. Porque só pelo papel de ser trans, por dizer que sou trans, o preconceito nesse mundo já é grande. Mas, estamos pra luta, estamos aí com a força dos Guias, dos Orixás, estamos pra erguer a cabeça e seguir em frente”.

São nessas palavras que Mãe Samara traduz suas experiências como ativista, Mãe de Santo e travesti. Além disso, ela é vice-presidenta da Associação Gays, Lésbicas e Travestis da Tríplice Fronteira (AGLTTF) e estudante de enfermagem.

Dona Baiana chega na cabeça da Samara, após ter bisbilhotado a nossa conversa e pedido licença à Cabocla Dona Iracema. Ela está fogosa, com um olhar safado, sotaque carregado e bebendo a espumosa gelada, uma atrás da outra. Pede pro seu ajudante — e marido da Samara — colocar música no celular.“Mais de 15 anos esperando por esse cargo de Mãe de Santo.... Super atrasada… E ainda tem muitos por aí se perguntando... Eu sou entidade, eu sei o que falo... Muitos por aí perguntando… Os próprios filhos de Santo da Dona Samara, perguntando: ‘e aí, será que ela vai sair como mãe ou como pai?’... Oxe, meu filho, como diz o seu Jairo: ‘tá desatualizado, né?’ E muito!”, conclui Baiana Maria do Alto do Morro. [Diário de campo de José Miguel - Tabatinga - Outubro de 2022].

“Eu queria ir pra São Paulo, me plastificar. Pedi pra Dona [Maria] Padilha [das Almas]. Ela autorizou, mas disse que eu ia voltar logo. Fui pra Manaus, fiquei um tempo lá, mas já conversando com a cafetina de São Paulo que pagou minhas passagens e fui. Em menos de três meses eu já tava toda feita. Já tinha colocado prótese, tudo. Minha senhora é tudo na minha vida”. Quando pergunto sobre voltar para São Paulo, me diz que “hoje eu tenho minhas filhas e filhos de Santo aqui. Não tem como. Só se for de férias. ‘A mãe vai pra São Paulo de férias, comportem-se’”, concluiu Mãe Samara em gargalhadas. [Diário de campo de Michel – Tabatinga - Dezembro de 2024].

Sinopsis:

In Tupi, the word Tabatinga means soft clay, with a certain organic content, found in yellow, white, or off-white hues. It is a material used to shape ceramics by some Indigenous peoples and by Terreiro communities. But Tabatinga is also the name of the city located in the Amazonian Triple Frontier, where Brazil, Colombia, and Peru meet. Indigenous peoples have lived in this region since before the territory acquired its current urban boundaries, with the Ticuna and the Kokama being the most numerous, living in communities and maintaining Indigenous Organizations in the area. As noted by Reginaldo Silva (2015), there are also records of the Terreiros of Umbanda, or “povo da macumba”, in the then Vila do Marco since the early 1980s. From 2011 onward, José Miguel Nieto Olivar, in his ethnographic incursions, began to follow the “jovens do babado” - as some of these people referred to sexual exchanges for money - and members of Umbanda, some of whom had Indigenous ancestry (Olivar, 2023).

Then it was Samara’s turn. Her long, strong hair spun, shimmering in the light and spreading moisture around her. Her laughter grew louder. She was a big woman there! But the possession did not last long. The entity was very new in that head, and the possessed body-head was not yet firm enough for the entity to take control. That, at least, was the explanation they gave me (our translation, Olivar, 2023, p. 13).

More than a decade later, Michel Furquim began his ethnographic work and started accompanying Samara - now a Mother of Saint - and her Entities at Terreiro of Father Jairo Her eighteen Entities firmly established to date guide daughters and sons de Saint, while also composing this ever-growing “sociotechnical” network (Latour, 1994). Flow, transformation, and plurality produce and shape—like an oberó or a quartinha—other possibilities of existence. Fixed views of corporeality and of the world limit and, in a certain sense, deny the dynamic condition of existence and life.

In ethnographic work - sometimes shared and at other times distinct - the complex interactions woven between Entities and bodies are produced in horizontal relations, but also, quite often, in hierarchical ones. These interactions tension both the experiences of the “cavalos”, as the people who are incorporated by entities in the Umbanda Terreiro in question are called, and the more-than-human agencies (Tsing, 2021) that frequent the Terreiro. Festivities, the materialities of bodies, and relations with the so-called contemporary world are affected by these Entities. At the same time, a dissident body re(dis)arranges the gendered relations of Umbanda itself.

The borders of these/within these encounters are reworked and produced at the limits of skin, territory, gender possibilities, and networks of relations, dialoguing with Anzaldúa’s (1987) conception. Mother Samara’s trajectory contributes as an empirical and embodied point of observation from which the transborder condition is revealed as a multidimensional physics, as a territory of relations and networks. In this confluence, territory, spirituality, and body are composed, coexist, and are co-produced. And, as Silvana Nascimento (2022) emphasizes, “to live on the border is to be-in-the-world on the border.”.

Crossing points:

I, as Mother Samara, for about three years now, have become an Umbanda Priestess. I have my children; I don’t yet have an open house of my own, but I also take part in the work at my Father of Saint’s house [Father Jairo], which is the house of Iansã. Travesti, Mother of Saint, I’m also an activist, right? I fight many struggles, and I think I serve a bit of everything. So, because I’m a trans woman, I also lived for many years in São Paulo, I was a sex worker. Nowadays I’m studying nursing at university, Mother of Saint, all of this. I’m very proud to be Umbanda, to be trans, to be an activist, to always be in the struggle, because I know it’s not easy, being a Mother of Saint and being trans. Because just by being trans, by saying I’m trans, the prejudice in this world is already huge. But we’re here for the struggle, we’re here with the strength of the Guias, of the Orixás, we’re here to raise our heads and move forward.”.

It is in these words that Mother Samara translates her experiences as an activist, Mother of Saint, and travesti. In addition, she is vice-president of the Association of Gays, Lesbians, and Travestis of the Triple Frontier (AGLTTF) and a nursing student.

Dona Baiana arrives in Samara’s head, after having eavesdropped on our conversation and asked permission from Cabocla Dona Iracema. She is fiery, with a lewd gaze, a strong accent, and drinking ice-cold beer, one after another. She asks her helper—and Samara’s husband—to play music on his cellphone. “More than fifteen years waiting for this position of Mother of Saint… Way overdue… And there are still many out there wondering… I am an entity, I know what I’m saying… Many out there asking… Even Dona Samara’s own sons of Saint, asking: ‘So, will she come out as mother or as father?’… Oxe, my son, as Seu Jairo says: ‘You’re outdated, right?’ Very much so!” concludes Baiana Maria do Alto do Morro. [José Miguel’s field diary – Tabatinga – October 2022].

“I wanted to go to São Paulo to get ‘plasticized.’ I asked Dona Maria Padilha das Almas. She authorized it but said I would return soon. I went to Manaus, stayed there for a while, but already talking to the madam in São Paulo who paid for my tickets, and then I went. In less than three months I was already completely done. I had implants, everything. My lady is everything in my life.” When I ask about returning to São Paulo, she tells me that “today I have my daughters and sons of Saint here. There’s no way. Only if it’s for vacation. ‘Mom is going to São Paulo on vacation, behave yourselves,’” Mother Samara concludes, laughing loudly. [Michel’s field diary – Tabatinga – December 2024].

Palavras-chave:

Amazônia; Umbanda; Travesti; LGBT; Etnografia;.

KeyWords:

Amazon; Umbanda; Travesti; LGBT; Ethnographic;.

Ficha técnica:

Autores: Michel de Oliveira Furquim, Samara Soares e José Miguel Nieto Olivar.

Direção, pesquisa e edição: Michel de Oliveira Furquim.

Ficha técnica:

Authors: Michel de Oliveira Furquim, Samara Soares e José Miguel Nieto Olivar.

Direction, investigation and edition: Michel de Oliveira Furquim.

BIBLIOGRAPHIC REFERENCES:

ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La Frontera: the new mestiza. São Francisco: Aunt Lute Books, 2012.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. Editora 34, 1994.

NASCIMENTO, Silvana de Souza. Fugas e contrapontos na fronteira: reflexões etnográficas sobre transitividades corporais e de gênero no Alto Solimões/AM. Revista de Antropologia da UFSCar, [S. l.], v. 11, n. 1, p. 524–551, 2019. DOI: 10.52426/rau.v11i1.299. Disponível em: https://www.rau2.ufscar.br/index.php/rau/article/view/299. Acesso em: 10 dez. 2025.

OLIVAR, José Miguel Nieto. A Terreiro That’s “Too Young, Too gay”: Technologies of Persistence and growth in the W/world. Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology, v. 20, p. e20603, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/vb/a/v8PRwZjv8WnXTrmNBJ5MPYD/?format=pdf&lang=en. Acesso em: 19 maio. 2025.

SILVA, Reginaldo Conceição da. “Na gira da Umbanda”: Exercício etnográfico sobre expressões de Afrorreligiosidade na “fronteira” e no Terreiro da Cabocla Jurema em Tabatinga, Amazonas. Dissertação de Mestrado, Cartografia Social e Política da Amazônia, Universidade Estadual do Maranhão - São Luiz, 2015. Disponível em: https://repositorio.uema.br/jspui/handle/123456789/430. Acesso em: 20 maio. 2025.

SOUZA, Samantha Vallentine Cabral. Transnarrativas sobre a relação das travestis e pessoas trans e a empregabilidade. Recife, 2023. 49f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciência Sociais), Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/54591.

TSING, Anna Lowenhaupt. O antropoceno mais que humano. Ilha Revista de Antropologia, Florianópolis, v. 23, n. 1, pp. 176–191, 2021. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ilha/article/view/75732. Acesso em: 16 maio. 2025.