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Paisagem, agenciamentos e etnoecologia: a relação pessoa-mato em uma perspectiva interdisciplinar/Landscape, agency and ethnoecology: the person-bush relationship in an interdisciplinary perspective

Joana Braun Bassi, Rumi Regina Kubo, Gabriela Coelho-de-Souza

Resumo


Sinopse:

Em uma paisagem na Mata Atlântica do Rio Grande do Sul, junto a habitantes que compartilham vínculos com fundos de vales, atentamos para as experiências mobilizadas na relação pessoa-mato partindo de uma questão central: considerando as relações sociais nas suas dimensões humanas e não humanas, como o mato é constitutivo desta socialidade?

A localidade, denominada Confim das Águas, situa-se em contexto estratégico para as políticas preservacionistas globais, incidindo sobre ela uma série de regulamentações quanto ao manejo dos recursos biológicos. No entanto, transitando por uma série de caminhos habitados na paisagem, orientando-se pelas pessoas em suas múltiplas experiências, reconhecemos um mato que desconstitui a lógica da purificação entre espaços naturais e culturais, onde sua aparente imperatividade e uniformidade comporta uma pluralidade de vivências, criações e invenções.

A trajetória empírica revelou variadas perspectivas etnoecológicas de pensar e viver o mato em sua indissociabilidade da dinâmica das atividades produtivas. O tema mato distendeu-se em narrativas[1] e agenciamentos que explicitaram suas diferentes relações e significados, pretéritos e presentes, mas fundamentalmente integrado à dinâmica da paisagem, das experiências, dos aprendizados e dos ritmos cotidianos da vida das pessoas.

As experiências registradas imageticamente revelaram um conjunto de interações sociais imanentes à relação pessoa-mato, implicando em um entrelaçamento tático de ciclos humanos e não humanos. Evocaram, também, um conhecimento tácito e experimental inscrito no corpo pelo processo de engajamento direto com experiências e tarefas habituais - habilidades corporais não acessíveis discursivamente.

Mobilizou-se um mato pensado e vivido a partir de uma perspectiva que problematiza os limites disciplinares entre a antropologia e a ecologia[2], visando um enfoque interdisciplinar das relações entre humanos e seus ambientes, o que incorre também na construção de uma narrativa visual[3] sensível a esta perspectiva.

Tirando brejo nos mato: a samambaia-preta

Acompanhar Bento na coleta da samambaia-preta, planta que emerge nas capoeiras, faz aguçar a percepção de que, através das experiências de uma trajetória de vida, se participa ativamente da produção de uma paisagem em conexão com outras pessoas, plantas, bichos e meio. Com um passo característico de quem observa e reconhece rapidamente os caminhos já trilhados, o movimento de Bento acompanha as curvas dos morros. Na perspectiva do antropólogo Tim Ingold[4], o contorno da paisagem não é tão medido quanto sentido; ele é diretamente incorporado à experiência do corpo. A agilidade e destreza de Bento em tirar, ajeitar, apertar, amarrar, levantar e, por fim, carregar quase cinquenta quilos de samambaia nas costas expressa uma experiência incorporada em seus 30 anos de convívio com a planta, a partir de habilidades constituídas neste processo de engajamento na atividade extrativista: É jeito, e não força – diz ele.

Tem que ser na lua certa: manejando madeiras, balaios e fibras

O manejo das madeiras, da corda da embireira, taquaras e cipós segue impreterivelmente a lua: É que antigamente tudo se trabalhava com a lua [...] – esclarece dona Margarida, após revelar que a época ideal para o corte da madeira de lei é no inverno, na minguante de junho ou julho. Sugerindo tratar-se de um conhecimento que aprendeu por conta, Bento diz reconhecer as madeiras pelo tronco, pelas folhas e pelo cheiro, o que revela no processo de ensinar-me, tirando pedaços da casca com seu facão para realçar sua cor e textura e chamando atenção para os aromas e formas das folhas. A feitura do balaio pelo Seu João demanda uma habilidade de todo o corpo: os pés firmam as primeiras urdiduras, compondo seu fundo a partir de um fio mestre, guia para os demais. Com ele vai se trançando todo o balaio, até chegar em sua boca, envolvendo um acabamento minucioso a fim de garantir que o emaranhado não se abra.

Synopsis:

In a landscape in the Atlantic Forest of Rio Grande do Sul, along with inhabitants who share ties with bottoms of valleys, we consider the experiences mobilized in the person-bush relationship starting from a central question: considering social relations in their human and non-human dimensions, how the bush is constitutive of this society?

The locality, named Confim das Águas, is located in a strategic context for global preservation policies, with a series of regulations ruling the management of biological resources. However, through a series of paths inhabited in the landscape, guided by people in their multiple experiences, we recognize the bush that deconstitutes the logic of purification between natural and cultural spaces, where its apparent imperativity and uniformity entails a plurality of experiences, creations and inventions.

The empirical trajectory revealed several ethnoecological perspectives of thinking and living the bush in their inseparability from the dynamics of productive activities. The theme the bush was spread in narratives and agencies that explained their different relationships and meanings, past and present, but fundamentally integrated with the dynamics of the landscape, the experiences, the learning and the daily rhythms of people's lives.

The experiences recorded in image revealed a set of social interactions immanent to the person-bush relationship, implying a tactical interlacing of human and non-human cycles. They also evoked a tacit and experimental knowledge inscribed in the body by the process of direct engagement with habitual experiences and tasks - bodily abilities not accessible discursively.

The bush was thought and lived from a perspective that problematizes the disciplinary limits between anthropology and ecology2 , aiming at an interdisciplinary approach of the relations between humans and their environments, which also implies the construction of a visual narrative3 sensitive to this perspective.

Taking out brejo in the kill: the samambaia-preta

To accompany Bento in the collection of the samambaia-preta, a plant that emerges in the capoeiras, enhances the perception that, through the experiences of a life trajectory, one actively participates in the production of a landscape in connection with other people, plants, animals and environment. With a characteristic step of one who observes and recognizes quickly the paths already trod, the movement of Bento follows the curves of the hills. From the perspective of the anthropologist Tim Ingold4 , the outline of the landscape is not as measured as sense; it is directly incorporated into the experience of the body. Bento's agility and dexterity in pulling, squeezing, tightening, tying, lifting, and finally carrying almost fifty kilos of fern on his back expresses an experience embodied in his 30 years of living with the plant, from the skills built up in this process of engagement in extractive activity: It is way, not force - says he.

It has to be on the right moon: handling woods, balaio and fibers

The management of the wood, the rope of the embireira, taquaras and vines follows the moon: It is that once everything worked with the moon ... - clarifies Dona Margarida, after revealing that the ideal time for cutting the wood is in the winter, in the waning of june or july. Suggesting to be a knowledge he has learned on account, Bento recognizes the wood by the trunk, by the leaves and by the smell, which reveals in the process of teaching me, taking pieces of the bark with his machete to enhance its color and texture and drawing attention to the smells and shapes of the leaves. The making of the balaio by Seu João demands a skill of the whole body: the feet firm the first warps, composing its bottom from a master wire, guide for the others. With it he weaves all the balaio, until arriving in his mouth, involving a thorough finish in order to guarantee that the tangle does not open.

Palavras-chave:

Paisagem, Agua, Ecologia

Key-words:

Landscape, Water, Ecology

Ficha técnica:

Autor: Joana Braun Bassi

Câmera/Camera: Câmera Semiprofissional Sony Cyber Shot, Lente Carl Zeiss, 10.1 mega pixel.

Apoio/Support: Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural/UFRGS

Período dos registros/Records period: março de 2009 à maio de 2011

Credits:

Author:Joana Braun Bassi

Camera:Câmera Semiprofissional Sony Cyber Shot, Lente Carl Zeiss, 10.1 mega pixel.

Support: Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural/UFRGS

Records period: março de 2009 à maio de 2011


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ENSAIO

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