Edição

Sinopse:

Questões inerentes à saúde e a doença tem sido estudadas direta ou indiretamente por antropólogos desde o final do século XIX, possibilitando por meio da descrição e da análise etnográfica um acúmulo de conhecimento acerca das diferentes experiências de grupos sociais sobre esses fenômenos (Nakamura, 2009:27). Sustenta-se que estas questões devam ser pensadas a partir dos contextos socioculturais específicos nos quais ocorrem, uma vez que as diferenças culturais podem influenciar na maneira como cada doente assume o papel de enfermo (Alves: 1993). Partindo deste pressuposto viajei para Moçambique, contando com financiamento da CAPES e apoio do Ministério da Saúde de Moçambique – MISAU para realizar uma etnografia junto as mulheres que vivem com Fístula Obstétrica naquele país.

Esta série fotográfica tem como objetivo oferecer uma experiência reflexiva sobre corpo, saúde e doença, a partir do olhar sobre a complexidade e experiências de mulheres que vivem com Fístula Obstétrica. Doença resultante de complicações no trabalho de parto prolongado ou obstruído sem a devida assistência de um profissional de saúde e que provoca perda crônica de urina e/ou fezes. Devido à falta de recursos para compra de fraldas descartáveis, elas acabam utilizando pedaços de pano para tentar segurar a urina, mas rapidamente ficam encharcados, provocando o mau cheiro e feridas na pele devido ao ácido úrico. Os altos índices da doença em Moçambique refletem a precariedade da rede de atendimento à saúde materna no país, mas também envolvem fatores culturais e econômicos que atingem principalmente as mulheres de países em desenvolvimento, como é o caso da maioria dos países africanos.

Estas pacientes são provenientes de distritos afastados e procuraram o Hospital Central de Maputo, por ser uma referência no tratamento da doença. Ao entrar pela primeira vez no Serviço de Urologia do HCM, me deparei com um turbilhão de sons e um cheiro muito forte de urina. A maioria dessas mulheres foram “devolvidas” as famílias pelos maridos e muitas ficaram estéreis após desenvolverem a doença. Passando a viver comunitariamente dentro da enfermaria durante meses, enquanto aguardam vaga para cirurgia de reparação da fístula. É um grupo unido pelo sentimento de viver com a doença, como se houvesse uma parede invisível ao redor destas mulheres, que as separa dos outros pacientes, mas que as une no seu próprio mundo. Elas passam a dividir as angústias do dia-dia e a cuidar umas das outras. Não apenas dando apoio no tratamento, mas também criando estratégias para arrecadar dinheiro com a venda de créditos de celular ou outros produtos como biscoito e sumo aos pacientes que não podem sair das enfermarias. Passam o dia na varanda fazendo crochê e cuidando da beleza, pintando as unhas de verniz ou trançando os cabelos, tudo para recuperar sua autoestima.

Ainda que cada mulher na enfermaria tenha sua própria história, elas chegam ali procurando o mesmo tratamento e com um objetivo comum que é a cura para esta condição que se encontram. Acredito que ao colocar estas mulheres, que são tão estigmatizadas pela sociedade, como protagonistas deste ensaio estou de certa forma contribuindo para diminuir o preconceito contra as vítimas da Fístula Obstétrica, doença pouco conhecida, mas que atinge aproximadamente dois milhões de mulheres no mundo (OMS: 2010).

Synopsis:

Issues related to health and disease has been studied directly or indirectly by anthropologists from the late nineteenth century, allowing through the description and ethnographic analysis an accumulation of knowledge about the different experiences of social groups on this phenomenon (Nakamura, 2009: 27). It’s argued that these issues should be thought from the specific socio-cultural contexts in which they occur, as cultural differences may influence the way each patient assumes the role of sick (Alves 1993). Under this assumption I traveled to Mozambique, with funding support from CAPES and the Ministry of Health of Mozambique - MOH to conduct an ethnography with women living with obstetric fistula in the country.

This photographic series aims to provide a reflective experience of body, health and disease, from the look of the complexity and experiences of women living with obstetric fistula. Disease resulting from complications of prolonged labor or obstructed without proper assistance of a health professional and that causes chronic loss of urine and / or feces. Due to lack of resources to buy disposable diapers, they end up using pieces of cloth to try to hold urine, but quickly get soaked, causing the bad smell and skin sores due to uric acid. The high rates of the disease in Mozambique reflect the precariousness of maternal health care network in the country, but also involve cultural and economic factors that mainly affect women in developing countries, as is the case in most African countries.

These patients come from outlying districts and sought the Central Hospital of Maputo, to be a reference in the treatment of disease. When entering for the first time in HCM Urology Service, I came across a whirlwind of sounds and a very strong smell of urine. Most of these women were "returned" families by husbands and many were sterile after developing the disease. Going to live communally in the ward for months while awaiting vacancy for fistula repair surgery. It is a group united by the feeling of living with the disease, as if an invisible wall around these women, separating them from other patients, but that unites them in their own world. They come to share the anxieties of daily life and take care of each other. Not only supporting the treatment, but also creating strategies to raise money with the mobile credit sales or other products such as cookies and juice to patients who can not leave the wards. They spend the day on the balcony crocheting and taking care of beauty, painting the nail varnish or braiding the hair, all to recover their self-esteem.

Although each woman in the ward has its own history, they come here looking for the same treatment and with a common goal which is the cure for this condition they are in. I believe that by putting these women who are so stigmatized by society as protagonists of this essay I am somehow helping to reduce prejudice against the victims Fistula Obstetric, little known disease but affects approximately two million women in the world (WHO : 2010).

Palavras-chave:

Fístula Obstétrica;Antropologia;Saúde Materna;Moçambique

Key-words:

Obstetric Fistula;Anthropology;Maternal Health;Mozambique.

Ficha técnica:

Autora:Lúcia Helena Guerra

Fotografias: Lúcia Helena Guerra

Direção, Edição de Imagem e Texto:Lúcia Helena Guerra

Credits:

Author: Lúcia Helena Guerra

Photographs: Lúcia Helena Guerra

Direction, image editing and text: Lúcia Helena Guerra

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