Objetos rituais em finados

Andreia Vicente da Silva

Resumo


Neste ensaio visual o objetivo é sublinhar o papel fundamental dos objetos rituais no feriado de Finados. As fotografias foram obtidas a partir de trabalho de campo realizado em 2017, no Cemitério Municipal Cristo Rei em Toledo, no Paraná. Os objetos focalizados são principalmente as flores e as velas que têm relação direta com o cuidado dos mortos, seja adorno, seja intercessão, seja memória e podem ser visualizados nos momentos de cuidado da sepultura e de orações no cruzeiro.

Ao caminhar pelo cemitério perseguindo os objetos, vi e ouvi muitas negociações e dúvidas dos enlutados a respeito da disposição de flores e velas. Por isto mesmo, aposto que dar mais atenção a presença e o uso dos objetos rituais pode nos levar a compreender certos consensos coletivos mínimos que são construídos no território do cemitério que embora seja um espaço público plural tem uma lógica cristã marcada. Os pontos centrais dos consensos giram em torno das etapas do ritual e fazem com que aqueles que vão a necrópole no feriado dialoguem num mesmo idioma de sentidos. Os objetos constroem e reforçam as relações entre vivos em mortos.

A disposição dos objetos nos túmulos e no cruzeiro demonstram grande cuidado e atenção por parte dos enlutados. As flores cumprem um papel fundamental de adornar os túmulos com seu colorido e suas formas e os enlutados passam muitos minutos – algumas vezes horas – estudando minuciosamente a posição e a disposição para depositá-las. Já as velas se referem ao aspecto da intercessão. Nelas há que se ressaltar a essencialidade da chama,  tanto que muitos enlutados fazem uma grande engenharia para mantê-las acesas. Alguns túmulos já possuem suporte para a colocação das velas. Em outros casos, pedaços de tijolo, cerâmica, papelão e pau servem de abrigo. “Iluminar o caminho”, “ajudar a aplacar as angústias”, “ajudar na passagem para o outro mundo”. Estas foram algumas das justificativas que ouvi dos enlutados para a utilização da vela nos túmulos dos seus parentes.

O fogo e as velas coletivas estão no cruzeiro. As chamas formadas por inúmeras delas se propagam com maior intensidade como extensão do rito comunitário. No cruzeiro o fogo e as preces constroem as labaredas e fumaça na qual os enlutados se inserem e ativamente intercedem pelas almas no purgatório num grande esforço comum. Outros objetos cristãos são depositados no cruzeiro e permanecem entre a fumaça e as chamas sendo aquecidos e queimados.

Mais do que acessórios, os objetos rituais são centrais para a dinâmica e para o sucesso do ritual. Afinal, é a partir deles que os enlutados se organizam e é para depositá-los que se dirigem a necrópole todos os anos no “Dia dos Mortos”. Através dos objetos rituais é que finados se constrói.


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ENSAIO

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