Edição

Sinopse:

Neste ensaio visual o objetivo é sublinhar o papel fundamental dos objetos rituais no feriado de Finados. As fotografias foram obtidas a partir de trabalho de campo realizado em 2017, no Cemitério Municipal Cristo Rei em Toledo, no Paraná. Os objetos focalizados são principalmente as flores e as velas que têm relação direta com o cuidado dos mortos, seja adorno, seja intercessão, seja memória e podem ser visualizados nos momentos de cuidado da sepultura e de orações no cruzeiro.

Ao caminhar pelo cemitério perseguindo os objetos, vi e ouvi muitas negociações e dúvidas dos enlutados a respeito da disposição de flores e velas. Por isto mesmo, aposto que dar mais atenção a presença e o uso dos objetos rituais pode nos levar a compreender certos consensos coletivos mínimos que são construídos no território do cemitério que embora seja um espaço público plural tem uma lógica cristã marcada. Os pontos centrais dos consensos giram em torno das etapas do ritual e fazem com que aqueles que vão a necrópole no feriado dialoguem num mesmo idioma de sentidos. Os objetos constroem e reforçam as relações entre vivos em mortos.

A disposição dos objetos nos túmulos e no cruzeiro demonstram grande cuidado e atenção por parte dos enlutados. As flores cumprem um papel fundamental de adornar os túmulos com seu colorido e suas formas e os enlutados passam muitos minutos – algumas vezes horas – estudando minuciosamente a posição e a disposição para depositá-las. Já as velas se referem ao aspecto da intercessão. Nelas há que se ressaltar a essencialidade da chama, tanto que muitos enlutados fazem uma grande engenharia para mantê-las acesas. Alguns túmulos já possuem suporte para a colocação das velas. Em outros casos, pedaços de tijolo, cerâmica, papelão e pau servem de abrigo. “Iluminar o caminho”, “ajudar a aplacar as angústias”, “ajudar na passagem para o outro mundo”. Estas foram algumas das justificativas que ouvi dos enlutados para a utilização da vela nos túmulos dos seus parentes.

O fogo e as velas coletivas estão no cruzeiro. As chamas formadas por inúmeras delas se propagam com maior intensidade como extensão do rito comunitário. No cruzeiro o fogo e as preces constroem as labaredas e fumaça na qual os enlutados se inserem e ativamente intercedem pelas almas no purgatório num grande esforço comum. Outros objetos cristãos são depositados no cruzeiro e permanecem entre a fumaça e as chamas sendo aquecidos e queimados.

Mais do que acessórios, os objetos rituais são centrais para a dinâmica e para o sucesso do ritual. Afinal, é a partir deles que os enlutados se organizam e é para depositá-los que se dirigem a necrópole todos os anos no “Dia dos Mortos”. Através dos objetos rituais é que finados se constrói.

Palavras Chave

objetos; ritual; finados.

synopsis

In this visual essay the aim is to underline the fundamental role of ritual objects in the holiday of the Dead. The photographs were obtained from fieldwork conducted in 2017 at the Cristo Rei Municipal Cemetery in Toledo, Paraná. Focused objects are mainly flowers and candles that have a direct bearing on the care of the dead, be it adornment, be it intercession, or memory, and can be viewed at times of caring for the grave and prayers on the cruise.

As I walked through the cemetery chasing the objects, I saw and heard many negotiations and doubts from the mourners regarding the arrangement of flowers and candles. For this reason, I bet that paying more attention to the presence and use of ritual objects can lead us to understand certain minimum collective consensuses that are built in the territory of the cemetery that although it is a plural public space has a marked Christian logic. The central points of consensus revolve around the ritual stages and make those who go to the necropolis on holiday dialogue in the same language of meaning. Objects construct and reinforce relationships between the living in the dead.

The arrangement of the objects in the tombs and the cruise show great care and attention on the part of the mourners. Flowers play a key role in decorating the tombs with their color and their forms, and the mourners spend many minutes - sometimes hours - minutely studying the position and disposition to deposit them. The candles, however, refer to the aspect of intercession. In them we must emphasize the essentiality of the flame so much that the mourners make a great engineering to keep them burning. Some tombs already have support for the placement of the candles. In other cases, pieces of brick, ceramics, cardboard and wood serve as shelter. "Enlighten the path," "help placate the anguish," "help in the transition to the other world." These were some of the justifications I heard from the mourners for the use of the candle in the tombs of their relatives.

The fire and the collective sails are on the cruise. The flames formed by countless of them propagate with greater intensity as extension of the community rite. In the cruise the fire and the prayers together build the flames and smoke in which the mourners insert and actively intercede in a great common effort. Other Christian objects are deposited on the cruise and remain between the smoke and the flames being heated and burned.

More than accessories, ritual objects are central to the dynamics and success of the ritual. After all, it is from them that the mourners organize themselves and it is to deposit them that they go to the necropolis every year in the "Day of the Dead". Through ritual objects it is that the day of the dead are built.

Keywords:

objects; ritual; Dead.

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