Vivências negras nos Afoxés em Pernambuco

Renata Do Amaral Mesquita

Resumo


O trabalho em questão apresenta um recorte narrativo de acontecimentos a partir do olhar de uma mulher negra e integrante de afoxé. O registro foto-documental surgiu a partir de uma pesquisa de campo que buscou investigar os processos de autoafirmação e fortalecimento racial de mulheres negras, considerando suas vivências e trajetórias nos afoxés da região metropolitana do Recife/PE. 

O afoxé se caracteriza como uma manifestação cultural negra em Pernambuco, popularmente conhecido pelos brincantes como “Candomblé de rua”, uma vez que tem suas raízes na religião de matriz africana, mais especificamente no Candomblé. Em yorubá, a palavra afoxé significa “o enunciado que faz acontecer”. Segundo os autores Antônio Risério e Carneiro, o afoxé tem suas origens nos antigos cortejos dos Reis do Congo. Essa manifestação tem em seu surgimento, uma ligação com o Movimento Negro Unificado, segundo aponta Monteiro (2008), Ivaldo (2009) e Souza (2016), no sentido de uma organização política negra, de luta, resistência e valorização do povo negro. 

De acordo com a tradição, o afoxé é fundado por uma Yalorixá (mãe de santo) ou um Babalorixá (pai de santo), pessoas que zelam pelo orixá, tendo cada afoxé um orixá patrono que traz consigo uma força ancestral. 

Dessa forma, todos os afoxés se desenvolvem a partir desse referencial, o Orixá, que rege e direciona os caminhos a serem seguidos, tal como: as cores, os cânticos que o evocam e exaltam; a vestimenta e, conseguinte, toda uma estética negra conforme a linhagem do orixá. 

Os grupos são compostos por integrantes que tem uma ligação religiosa com o terreiro, mas também por admiradores e/ou simpatizantes chamados de desfilantes que saem apenas no período do carnaval; ou ainda os que não tem nenhuma ligação com o terreiro, mas fazem parte do afoxé. Vale ressaltar que o candomblé e por conseguinte os afoxés, sãos espaços que aceitam e recebem o outro independente da cor/raça, etnia, orientação sexual, possibilitando que as pessoas adentrem nesse universo religioso e cultural, que perpassa gerações.

No tocante às mulheres negras, diante de um modelo ocidental, branco e europeu de padronização dos corpos, do ser e do saber, o afoxé enquanto movimento cultural, religioso e político tem seu papel na desconstrução de estereótipos, bem como na afirmação da auto-identificação das mulheres como negras. 

Nessa perspectiva, uma vez que a cor da pele seja um elemento determinante na sociedade brasileira, Piedade (2017) aponta que a população negra e mais especificamente as mulheres negras, estão inseridas em um contexto de opressões, violências, racismo, sexismo e feminicídio. Todavia, os indivíduos e  grupos sociais possuem suas próprias dinâmicas e estratégias para questionar as estruturas e a lógica do sistema em que vivem.

Dessa forma, os afoxés, possuem como bandeira maior a luta contra o racismo e todas as formas de opressões, sendo esses espaços de fortalecimento, troca e partilha. Nesses espaços, as mulheres negras transfiguram a dor do racismo que adoece e silencia, na possibilidade de luta através do canto, do corpo, da dança, da memória ancestral e da musicalidade.

Nesse sentido, o registro imagético foi realizado em março de 2019, durante o Encontro de Afoxés realizado anualmente no Pátio do Terço, local de grande importância para a memória da cultura negra, no tocante, às tradições ligadas principalmente ao culto do candomblé, bem como o surgimento dos primeiros terreiros nagôs liderados pelas Yalorixás: Tia Eugênia, Dona Sinhá, Dona Iaiá e Tia Badia.


Palavras-chave:  Gênero, Raça, Identidade, Afoxé.

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