OS CASTROS VÊM TOCAR: fé e festa para São Benedito em Almeirim

Vanessa Lima Brasil de Figueiredo, Michel Michel Ribeiro de Melo e Silva, Luciana Gonçalves de Carvalho

Resumo


Festividades em homenagem a santos católicos são eventos tradicionais e muito populares na Amazônia, ainda hoje, comuns em várias localidades da região. Além de ritos religiosos propriamente ditos, normalmente celebrados em igrejas ou capelas, as festas de santo, como são genericamente designadas, compõem-se de práticas de troca e reciprocidade que fazem circular entre humanos e não humanos diversos tipos de dons materiais e simbólicos. Em geral, esses eventos estendem-se de três a mais de vinte dias, durante os quais mobilizam emoções, tradições e trocas rituais de alto valor para seus participantes. Estes, por sua vez, percorrem espaços variados ao longo dos festejos: residências, praças públicas, barracões e sedes comunitárias, além de rios e igarapés, nos quais se realizam procissões fluviais. No baixo curso do rio Amazonas, entre os estados do Amazonas e do Pará, algumas festas de santo ⸺ a de São Pedro, em Maués (AM), e as de São Benedito, em Aveiro, Gurupá e Almeirim (PA) ⸺ são acompanhadas de uma expressão musical baseada no toque ritualístico de três tambores feitos de madeira e pele de animal, que é conhecida como “gambá”. São, por tal motivo, também denominadas “festas do gambá”. Em Almeirim, essa celebração centenária é realizada anualmente, de 20 a 30 de junho. No decorrer dos dias e das noites de festa, diversos ritos são executados, mobilizando devotos, pagadores de promessa, foliões, autoridades políticas e religiosas, além de São Benedito, então representado por uma antiga imagem que, nesse período, sai da igreja local para circular pelas ruas da cidade e comunidades rurais nas adjacências. Há uma série de missas, atrações no arraial, procissões terrestres e fluviais, e refeições servidas aos foliões e demais membros da comitiva do santo, no almoço e no jantar. É sobretudo nessas ocasiões que o gambá acontece, como forma de retribuição dos foliões aos anfitriões, que os recebem com fartura de alimentos e alegria. Após a refeição, o grupo entoa, ao som dos tambores e instrumentos como raspadores e milheiros, o cântico “Agradecimento da Mesa”, que é lento e solene. Em seguida, simula uma despedida, até que os convivas lhes peçam para ficar, tocar e dançar o gambá. Enquanto os foliões ⸺ todos homens ⸺ tocam, dançarinos de ambos os sexos executam passos próprios de cada música. Tanto a festividade de São Benedito quanto os ritos do gambá, em Almeirim, têm sido preservados e transmitidos, desde 1957, por uma família negra: os Castros. Raimundo Castro da Fonseca, então residente na margem do rio Paru, era o antigo festeiro, responsável por celebrar São Tomé e São Benedito com muitas noites de mesas fartas, música e dança. Atualmente, seus descendentes, até a quarta geração, são os responsáveis pela continuidade das tradições festivas que, na década de 1970, migraram do Paru para a sede municipal, tornando-se um dos mais expressivos eventos locais. Junto de amigos e parentes com os quais compuseram um grupo, eles mantêm, até hoje, a prerrogativa de iniciar, conduzir e encerrar o gambá, bem como de acompanhar o santo nos vários percursos que realiza durante os festejos. Os Castros vêm tocar, portanto, assinala a presença e o papel fundamental dessa família na celebração de São Benedito, em Almeirim, ao mesmo tempo que revela, em uma etnografia audiovisual, as características peculiares da festividade.


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