“Eu nem sinto os meus pés no chão”
DOI:
https://doi.org/10.51359/2526-3781.2020.245912Palavras-chave:
suspensão corporal, corpo, body modification, sensaçõesResumo
Esse ensaio visual é um recorte de minha pesquisa de mestrado em Antropologia Social na Universidade Federal de Pelotas. O estudo objetivava compreender as técnicas do processo da suspensão corporal contemporânea e as diferentes percepções entre os praticantes. A suspensão é uma das técnicas de body modification - conceito usado para definir procedimentos de modificações corporais feitas por uma motivação cultural (irreversível ou não). Essa é uma alteração temporária, que consiste na inserção de ganchos de aço cirúrgico em zonas do corpo e usa um sistema de cordas e roldana para a elevação no ar, em diversas posições.
Dessa forma, as representações corporais são centrais nesse estudo, uma vez que se buscou compreender quais as motivações e significados que a alteração voluntária tem para os participantes. Essa técnica usa o corpo como meio de refletir sobre seus próprios limites. Há um gozo pela extremidade, pela brincadeira, a graça está em até onde o corpo é capaz de suportar. Analisando os discursos dos adeptos, concluí que a suspensão contemporânea é uma manifestação corporal que faz sentido em relação ao conjunto de símbolos desse grupo e gira em torno do hedonismo e das práticas do bem-viver.
A narrativa fotográfica que segue resulta de incursões em campo entre os anos de 2016 e 2018, nas cidades de Porto Alegre e Esteio, ambas no Estado do Rio Grande do Sul e em Florianópolis, Capital de Santa Catarina, todas no Brasil. As imagens foram produzidas em diferentes eventos coordenados por diferentes equipes ou responsáveis pela suspensão, assim: o evento Suspensão na Ilha foi organizado pelas equipes Mente Suspensa e Independent Suspensions Brazilian Group; o Encontro de suspensão do Sul organizado pelos Diabos Mutantes e pela Surreal Crew - esta última equipe também foi a responsável por uma sessão de suspensão privada que pude participar -; e na Performance De Suspensão Por Ganchos e Cordas a direção era de João Alien, a execução técnica de João Alien e Zé Martini a produção de Naya Pimentel e a performer também era Naya Pimentel.
A prática empírica foi facilitada, a partir da inserção da fotografia como método relacional entre eu e o grupo, já que existe uma seletividade e uma forte limitação à aproximação à intimidade das equipes de suspensão. A câmera apareceu como meio de “negociação do campo”. Portanto, narrativas visuais foram fundamentais para apreensão e reflexão sobre o processo.
A suspensão corporal é uma prática espetacular e extremamente visual para quem assiste. Para além do sangue, a prática põe o corpo em uma situação incomum, os momentos da perfuração e da subida causam expectativa e portam forte valor estético. Para o suspenso, há também o valor narcísico comprovado na abundância de máquinas fotográficas o que também confere sentido à prática, além das outras motivações.
A utilização das fotos permite que o leitor visualize melhor o tema, reforçando o empenho da pesquisa. Tratei de expor e dar importância aqui para a sequência dos procedimentos da suspensão, ou seja, para o passo a passo da técnica (materiais utilizados, preparação, a própria suspensão e cuidados posteriores), independentemente da cronologia e dos locais em que os eventos foram realizados.
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