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Sinopse:

Para que o chamado ‘etnoturismo’ (ou o ‘turismo comunitário’ de um determinado grupo social) se estabeleça, necessita-se oferecer algo específico, particular, próprio, ou melhor ainda, práticas e objetos considerados como ‘autênticos’ pelos potenciais visitantes. Ou seja: há de haver uma diferença diacrítica que encerre certo exotismo. Dentro deste contexto, os Uru do lago Titicaca, no lado do Peru, inserem-se dentro do sistema econômico e turístico peruano, procurando com isto garantir sua reprodução sociocultural e uma autonomia possível.

O lago Titicaca em si é um atrativo geográfico para a indústria do turismo, por ser reputado o lago navegável mais alto do mundo, localizado numa depressão entre duas cordilheiras principais dos Andes, a uma altitude de 3.810 metros. O lago se estende por algo mais de oito mil quilômetros quadrados, estando um pouco mais da sua metade no Peru e o restante na Bolívia; situando-se entre a cidade de Puno do lado peruano, e a pequena cidade de Copacabana, as ilhas do Sol e da Lua, e o famoso sítio do Tiwanaku do lado boliviano.

Desde o período pré-incaico, diferentes povos e reinos floresceram nesta região. Já no período incaico, tanto os Incas, com sua língua Quéchua, quanto os Aymara, com sua própria língua, ampliaram sua presença, continuando esse movimento mesmo depois da Conquista. Entre estes povos pregressos, reconhecidamente por todos como anteriores, encontram-se os povos Urus. Eles foram sistematicamente discriminados e assimilados pelos povos mais poderosos (Quéchua e Aymara), incluindo aí pelos espanhóis, e, posteriormente, pelas administrações peruana e boliviana. Aos poucos, suas áreas de ocupação, sempre ligadas à água, encolheram e nos anos setenta do século passado só restavam quatro grupos: os Uru das ilhas flutuantes perto de Puno; três outros na Bolívia – um pequeno grupo perto do lago Titicaca, um ligado ao lago Poopo e os Chipaya, também ligados a um rio (Wachtel 1978; 1996). Devido à forte dominação dos vizinhos, passaram a falar a língua Aymara; apenas os Chipaya conseguiram manter sua língua original viva (em nada relacionada às línguas dos outros povos), hoje mais conhecida como a língua Uru-Chipaya.

Os Uru têm uma grande afinidade com as águas. Tradicionalmente, eram preferencialmente pescadores e caçadores; muitas vezes moravam em ilhas e casas construídas por eles, feitas de totora – uma espécie de cana grande que cresce abundantemente em alguns lugares no lago. Estes predicados eram vistos como muito negativos pelos povos ligados à terra, à agricultura e à criação de lamas e alpacas. De uma maneira geral, todos os diferentes povos da região concordam em considera-los como os seus primeiros e originários habitantes. Porém, para os Uru, eles são os únicos sobreviventes de um tempo escuro e de uma grande enchente, tempo este ocorrido antes do tempo do sol. Não à toa, e ao contrário dos seus vizinhos indígenas, para os Uru, o sol não é uma divindade da maior importância.

Nos anos setenta, os quatro grupos remanescentes do Uru, que não se conheciam, ataram relações importantes para uma trajetória de revitalização étnica. A partir desse tempo, o turismo aumentou cada vez mais na região, e exemplos de etnoturismo no lago Titicaca serviram de inspiração para os Uru. Ironicamente, são os Uru do lago Titicaca, perto de Puno, que estão na posição mais favorável de aproveitar essa nova conjuntura do ‘etnoturismo’, em especial, devido as suas características diacríticas: são os mais ‘exóticos’, pois visivelmente muito diferentes, bem mais do que os seus vizinhos indígenas que os discriminavam.

Com a sua habilidade de viver um modo de vida nas águas, pela totora (com a qual fazem ilhas, casas, balsas e camas), e com o seu território próximo da cidade, hoje os Uru se constituem ponto obrigatório do turismo do lago Titicaca. As famílias das diversas ilhas montaram um esquema de visitas em que todos se beneficiam dos visitantes, com balsas especiais e com artesanato, incluindo também sua reconhecida habilidade de produzir tecidos. O turismo possibilitou certo reconhecimento e uma revalorização étnica que ajuda os Uru de persistir; mesmo que, na direção contrária, nas condições atuais de ‘modernidade’, muitos também se mudam para a cidade.

Synopsis:

In order to implement the so-called ‘etnotourism’ (or ‘community tourism’ of a certain social group), one has to offer something specific, special, proper, or even better, practices and objects considered to be ‘authentic’ to potential visitors. In other words, there has to be a diacritical difference that carries a certain exoticism. In this sense, the Uru people from the Peruvian side of the Titicaca lake have been seeking to guarantee their sociocultural reproduction and a feasible mode of autonomy by taking part in the Peruvian economic and tourist system.

The Titicaca lake is in itself a geographical attraction for the tourist industry because of its reputation of being the highest navigable lake in the world and of its location at an altitude of 3810 meters in a depression between two major mountain ranges of the Andes. The lake extends to over eight thousand square kilometers, almost half of this this area in Peru and the remainder in Bolivia; it runs from the city of Puno in Peru to the small town of Copacabana, the islands of the Sun and the Moon, and the famous archeological site of Tiwanaku, on the Bolivian side.

From pre-Inca times many peoples and states have flourished in this region. In Inca times, both the Inca, with their Quechua language, and the Aymara, with their own language, consistently amplified their presence, while this movement continued even after conquest. Among the pre-existing peoples, and recognized as such by all, are the Uru peoples. These were systematically discriminated against and assimilated into by the more powerful peoples, first the Quechua and Aymara, then the Spanish, and afterwards by the Peruvian and Bolivian administrations. The areas occupied by the Uru, always related to water, slowly diminished and by the end of the seventies of the last century, only four groups remained: the Uru on the fluctuating islands near Puno: three others in Bolivia – as small group near Titicaca lake, one near Poopo lake, and the riverine Chipaya (Wachtel 1978; 1996). Because of the strong domination by their neighbours, most adopted the Aymara language and only the Chipaya maintained their own language (unrelated to the other languages of the region). Today the language is usually known as Uru-Chipaya.

The Uru demonstrate a great affinity with water. Traditionally they used to be fisherman and hunters while constructing and living on islands and in houses made themselves out of totora – a kind of large reed that grows abundantly in some places of the lake. These characteristics were very negatively valued by peoples dedicated to the earth, agriculture and the raising of lamas and alpacas. In general, all peoples of the region consider them to be the first and original inhabitants of this area. However, only the Uru affirm they are the sole survivors of a time of darkness and a great flood, events that occurred before the time of sun. Not coincidently, and in stark contrast to their indigenous neighbours, the sun is not deity of major significance.

In the seventies of the last century, after a time when the different Uru groups did not know about each other, they came into a contact that stimulated a trajectory of ethnic revitalization for all. About this time tourism augmented in the region and examples of indigenous ethnotourism on lake Titicaca inspired the Uru. Ironically, the Uru near Puno on lake Titicaca enjoy a favourable position for the new conjuncture of ethnotourism because of their special diacritical characteristics: they are more ‘exotic’, visibly quite different, and more so than the indigenous population that discriminated them.

With their capacity to live a way of life on water, because of the totora (with which they construct the islands, houses, rafts and beds) and because their territory is being located near the city, the Uru have become an obligatory tourist venue on Titicaca lake. The different families of the several islands have mounted a schedule for visits that is meant to benefit all of the population when visitors come to buy all kinds of artifacts, including their valued weavings, and enjoy trips with specially constructed rafts. Tourism enabled a certain recognition and ethnic revitalization that aids the Uru to persist even when, given the current conditions of ‘modernity’, many go on to live in the city.

Palavras-chave:

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Keywords:

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Ficha técnica:

Autores: Mísia Lins Reesink e Edwin Reesink.

Direção, pesquisa e edição: Mísia Lins Reesink e Edwin Reesink.

Datasheet:

Authors: Mísia Lins Reesink e Edwin Reesink.

Direction, research and editing:: Mísia Lins Reesink e Edwin Reesink.

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