A Caminho de Yauyos: uma campanha eleitoral em segundo plano

Autores

DOI:

https://doi.org/10.51359/2526-3781.2022.254528

Palavras-chave:

fotografia, antropologia visual, campanha política e eleitoral

Resumo

Quem sai de Lima, Peru, pela estrada Panamericana sentido sul, vislumbra uma paisagem que margeia o frio oceano Pacífico de um lado, enquanto se avolumam os pálidos morros esbranquiçados de outro. Não raro se aparecem favelas e moradias populares à vista, subindo as íngremes encostas peladas e num relance de pensamento não sabemos como as casas permanecem em pé na areia em declive. A paisagem se torna dramática também porque as casinhas são vistas contrapostas às praias de veraneio dos limeños de classe média alta com suas chamativas mansões de temporada.

Ao se chegar em San Vicente de Cañete para subir a serra próxima da capital peruana, o verde dos vales começa a se pronunciar e os rios que correm para o mar são ladeados por colinas. Neste ponto do trajeto que um estranho plano de fundo prendeu minha atenção e originou a narrativa aqui exposta.

Parte desse recorrido no fim de dezembro de 2010 era guiado por imagens recorrentes: passando por cidades e vilas chegando até o espaço rural, que nos dá impressão de remoto, a campanha visual de Keiko Fujimori (filha do ex-mandatário do país vizinho) para presidência do Peru em 2011 quase não dá trégua.

Durante o trajeto, nas situações menos esperadas, “Fuerza Keiko” estava lá, sempre em segundo plano. Asia, Lunahuana, Zuñiga, Catahuasi, Capillucas e outras pequenas localidades no caminho de Yauyos, nosso destino. Eventualmente só “K” nos relembra da política partidária nos lugares recônditos. Procissão, festa, desfile, trabalho de pastoreio, uma efervescência de acontecimentos, e a campanha eleitoral do partido de direita Força Popular acompanhava o percurso. Curiosamente, num golpe de captura Che Guevara se intromete, mostrando que as forças políticas se chocam até nos detalhes. Foi nesse “acidente”, um olhar que escaneia lentamente as imagens feita no passado, que me deparei mais propriamente com o que Benjamin (1985) denominou de inconsciente óptico, especialmente considerando o tempo que se interpõe neste caso entre o registro das fotografias em campo e a reflexão (Leal, 2013).

Na época que as fotografias foram realizadas, havia a sensação de que tudo era movente e transitório, menos as pinturas de Keiko no fundo. No aparelho de captura técnica acionado aqui e ali (Flusser, 2011), o que esvanece e permanece (Soulages, 2010) parecem entrar em conflito nas imagens. Mas as próprias imagens já indicavam uma possível novidade que se tornaria velha logo. Nem Keiko venceu esse pleito, altamente conflitivo e litigioso no Peru como tem sido nas últimas décadas, nem desistiu da candidatura nas eleições seguintes, ficando estas pinturas logo apagadas, talvez substituídas por outras, e pouco propensas a chamar a atenção dos que vivem nessas terras, nem a despertar qualquer sentimento de mudança social por meio da política. A vida seguiu com festas, procissões, desfiles, pastoreios.

Biografia do Autor

Guilherme F. W. Radomsky, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Professor do departamento de sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Referências

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e literatura: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense. 4. ed. 1985. (Obras escolhidas, v. 1). p.165-196.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Annablume, 2011.

LEAL, Ondina F. Paisagem etnográfica: paisagens, inscrições e memória nos cadernos de campo. Iluminuras, v. 14, n. 34, p. 62-84, 2013.

SOULAGES, François. Estética da fotografia: perda e permanência. São Paulo: Senac, 2010.

A Caminho de Yauyos: uma campanha eleitoral em segundo plano

Publicado

2022-12-21

Edição

Seção

Ensaios Fotográfico