Performance das cafurnas Fulni-ô na “Reserva Canto dos Guerreiros”

Autores

DOI:

https://doi.org/10.51359/2526-3781.2022.256870

Palavras-chave:

turismo comunitário indígena, performance, cafurna, pintura corporal, xamanismo

Resumo

A etnia Fulni-ô está localizada na região hidrográfica do São Francisco, na sub-bacia do rio Ipanema, no sertão e agreste nordestino, envolvida pelo município de Águas Belas, no Estado de Pernambuco. O grupo étnico tem quatro séculos de ‘contato cultural’ em sua história (DÍAZ, 2015), na qual desenvolveu ao longo dos anos formas de adaptação e obtenção de recursos em uma ‘sociedade de meios escassos’ (REESINK. REESINK, 2007). O turismo comunitário indígena e as performances das cafurnas - surgidas na década de 80 - são formas de inserção socioeconômica no contexto artístico e religioso, que buscam melhorar a qualidade de vida étnica através da autogestão territorial por meio de “alianças” entre grupos sociais. Logo, o ambiente das caatingas e do sertão que é visto pela óptica hegemônica nacional como um lugar inóspito, seco e de difícil convivência ganha novas projeções. Pois,o modelo de convivência territorial Fulni-ô revelam adaptações e meios de produção singulares que ganham novas possibilidades de trocas simbólicas e de produção cultural.

Geralmente, no contexto do turismo indígena e étnico há uma exotização da vida indígena (MAGNANI, 2014; GRUNEWALD, 2009, 2020), entretanto, é possível destacar a dinamicidade cultural por meio das práticas que demonstram uma ‘continuidade em transformação’ (REESINK, 2016), à exemplo do indígena que utiliza da pintura corporal para proteção ao mesmo tempo em que registra o ato de se pintar com seu celular. Ou, a transformação das casas de palha que eram as antigas moradias e que hoje são utilizadas como locais sagrados dos antepassados e de rememoração dos trajetos históricos vivenciados. Tais ações evidenciam o ‘contato cultural’ (FERNANDES, 2009 [1975]) e as maneiras com que os Fulni-ô lidam com sua tradição (HOBSBAWN, 1997), que criativamente resguarda um modelo de organização que seleciona características e emblemas culturais (BARTH, 1969). Nestas atividades do turismo indígena os Fulni-ô através das cafurnas e demais expressões culturais contam, cantam e dançam a sua etnohistória dramatizando a vida indígena e realizando maneiras pedagógicas de aprendizado aos “turistas”, ao destacarem como os indígenas sobreviveram durante anos de invizibilização. É desta maneira, que os Fulni-ô mostram que existem indígenas no Nordeste do Brasil com língua viva (yaathe) e modelos plurais de exercício da autonomia territorial.

As pinturas, cafurnas e artesanatos são formas xamânicas dos Fulni-ô apresentarem sua tradição e um modelo particular de convivência com o bioma da caatinga, das pedras e das palhas do coqueiro do ouricouri (Syagrus coronata), logo, pintar-se e trançar as palhas tem um significado de vestir-se desse território que compõe a condição sine qua non da identidade e sobrevivência étnica. Pois, como cantam os indígenas: “índio é terra e ninguém vai separar!”

Tal ensaio foi produzido em Fevereiro de 2019 durante a etnografia da pesquisa de doutorado – Fluxos de Comunicação Fulni-ô: territorialidade, cosmologia e performance, a qual demonstra uma articulação na produção imagética entre pesquisador e indígenas.

Biografia do Autor

Miguel Colaço Bittencourt, Universidade Federal de Pernambuco, Programa de Pós-Graduação em Antropologia

Doutor e mestre em antropologia (PPGA-UFPE), bacharel em comunicação social (FMN).

Referências

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Performance das cafurnas Fulni-ô na “Reserva Canto dos Guerreiros”

Publicado

2022-12-21

Edição

Seção

Ensaios Fotográfico