A colheita do amendoim no Recôncavo da Bahia

Autores/as

DOI:

https://doi.org/10.51359/2526-3781.2023.260432

Palabras clave:

Colheita, Antropologia Visual, Retratos, Agricultura Familiar, Bahia

Resumen

O amendoim carrega consigo a poesia do encontro, tanto como ícone da festança junina, espaço de celebração popular da cultura nordestina, quanto no próprio ato de sua colheita, em que amigos e amigas, compadres e achegados são convocados, e seguem, ao fim da labuta, entre presentes e comilanças. Sendo assim carrega a síntese do mês de Junho, o mais amado por nosso povo, a síntese de uma cultura banhada no catolicismo popular, que celebra os santos de forma sagrada e profana, e está, ele mesmo, imbricado com o calendário católico. Por tradição se planta no dia de São José, 19 de março e se colhe para a celebração de São João e São Pedro, 24 e 29 de junho. Assim me foi contado por Balbina, Erenita e Francisco, donos do pedaço de chão que abriga e nutre os amendoins das fotos que se seguem. Mas essa não é a regra, tudo depende das chuvas e do acompanhamento diário do fruto. A colheita é um evento coletivo, mobilizando família e amigos. Duas funções são bem marcadas, quem colhe o ramo, com o corpo abaixado e as mãos esticadas, e quem "despenca" os frutos. A roda para despencar o fruto das raízes é formada, e a conversa se prolonga, assim o amendoim vai se acumulando nos caixotes, num ciclo de terra e mãos. O segredo, segundo Binho, filho de Balbina, é arrancar o ramo inteiro, e de uma só vez. Outro segredo são as capinas das plantas ao redor, só se pode fazer duas no terreno pós plantação, é preciso deixá-los compartilhar a terra com as outras espécies.

O ensaio que segue busca dar conta dessas inúmeras instancias mobilizadas e atravessadas no instante em que a colheita do amendoim se realiza, em especial a sociabilidade ali engendrada, a visibilização dos sujeitos que fomentam essas práticas, a disposição dos corpos, as relações de gênero, e assumidamente a técnica em si de retirada e despenque do amendoim, as mãos e as rodas que se formam nesse devir. Seguindo Cpoque (2012), a imagem fotográfica portanto, aparece como espaço de registro e dialogo, onde o sujeito enunciador, no processo de feitura da imagem, revela a partir de gestos, poses, enquadramentos aparentemente banais, encenações e máscaras os seus valores e significados, de forma simbólica, corporificada, performada, sendo assim possível rastrear as relações sociais, sentidos e significados que se articulam ao redor das mesmas.

Publicado

2023-12-19 — Actualizado el 2023-12-19

Versiones

Número

Sección

Ensaios Fotográfico