A Política, corpo e vestimenta
A Marcha das Vadias Recife
DOI:
https://doi.org/10.51359/2526-3781.2025.265523Palabras clave:
Marcha das Vadias, Vestimenta, Corpo, PoliticaResumen
Este ensaio busca refletir sobre a relação entre manifestações sociais e expressões políticas. Assim, parto do ponto em que os corpos unidos nas ruas são capazes de transmitir significados políticos não apenas por meio do discurso, escrito ou falado, mas por meio de danças, músicas, objetos, adornos e as mais diversas formas de construir performatividades, produzindo significados subversivos e estéticas políticas revolucionárias (Butler, 2018). O movimento que me atenho é a Marcha das Vadias Recife e, apesar de ter acompanhado a mesma entre 2017 e 2019, o ensaio tem foco no ato que aconteceu em 2019. No referido ano, contexto em que acontecia o primeiro ano do governo Bolsonaro, amparado em um conservadorismo latente, a Marcha foi as ruas em 24 de agosto e teve sua concentração na praça Oswaldo Cruz (tradicionalmente iniciava na Praça do Derby), caminhou pela Avenida Conde da Boa Vista e finalizou na Rua da Aurora (comumente era finalizada na Praça do Diário). Apesar de ainda se concentrar na região central do Recife, a escolha do caminho buscava diminuir o trajeto para minimizar possíveis retaliações e garantir o bem estar das participantes.
A Marcha das Vadias se iniciou em Toronto, no Canadá, no ano de 2011, com o nome Slutwalk, protestando contra o alto índice de assédio e estupro na Universidade de York. Em palestras organizadas na época, um segurança afirmou que uma forma de prevenir os estupros seria se as alunas parassem de se vestir como “vadias”. Após essa declaração, as mulheres se organizaram e foram às ruas com roupas consideradas “provocantes”, se declarando “vadias”, questionando o significado da palavra, reivindicando autonomia por seus corpos e protestando pelo fim da cultura do estupro (Gomes, 2018; Tavares, 2020).
A Marcha chegou ao Brasil, e em Recife, ainda no mesmo ano. Os elementos das “vadias” são transformados em críticas à moralidade, onde adornos, nudez e pintura nos corpos se constituem como formas singulares de protesto, por seu poder de subversão e de ressignificação, bem como força estética e discursiva. O corpo, igualmente, é considerado uma linguagem, e quando se alia à moda, constitui um conjunto que reforça esse discurso. Enquanto texto, a moda é sempre plural, pois não se limita a falar sobre roupas, mas também reflete a estrutura sociocultural em que diversos valores são formulados. Assim, o vestuário deve ser analisado dentro de seu contexto social, já que representa uma das formas mais notáveis e significativas de expressão, articulada e moldada pela cultura humana (Castilho, 2004).
Ao compreender a ocupação do espaço público por mulheres como ato político, que incorpora à luta feminista ferramentas que se tornaram marcas da Marcha das Vadias, como a irreverência, o deboche e a ironia (Rago, 2013), é possível refletir sobre as intersecções entre cidade, corpo, adornos, performance e feminismo, entendendo como esses elementos se entrelaçam na construção de uma expressão política.
Citas
BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. 1 ed – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
CASTILHO, Kathia. Moda e Linguagem. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2004.
GOMES, Carla de Castro. Corpo, emoção e identidade no campo feminista contemporâneo brasileiro: a Marcha das Vadias do Rio de Janeiro. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS, 2018.
RAGO, Margareth. A aventura de contar-se: Feminismos, escrita de si e invenções da subjetividade. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.
TAVARES, A. O. A. “Tô de minissaia, não te devo nada”: vestimenta como elemento político na Marcha das Vadias Recife – PE. 2020. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2020.
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