Cuidado de netos no envelhecimento: repercussões na vida e na saúde dos avós

Renata Mirella Brasil da Silva Lima1, Alana Vieira Lordão2, Bianca Freitas Régis3, Samara da Silva Santos4, Amanda Ellen Costa da Silva5, Edilene Araújo Monteiro6, Maria de Lourdes de Farias Pontes7

1,2,3,4,5,6,7Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa (PB), Brasil.

Introdução

O aumento da expectativa de vida e o envelhecimento populacional, no âmbito internacional e nacional, tem refletido pessoas idosas cada vez mais ativas na sociedade e dentro do contexto familiar, evidenciando maior participação social e funcional. Entretanto, tal avanço demográfico não necessariamente se traduz em melhorias proporcionais nas condições de saúde dessa população.1-3

Somado a isso, as transformações na estrutura familiar têm favorecido uma maior inserção da pessoa idosa no núcleo familiar, intensificando sua participação nas relações intergeracionais. Nesse contexto, passam a assumir, de forma mais expressiva, os papéis de avô e avó, colaborando ativamente no cuidado e/ou criação dos netos, o que evidencia a relevância da avosidade nas dinâmicas familiares contemporâneas.4-5

Para além de caracterizar o estado de ser avô ou avó, a avosidade refere-se à dinâmica funcional da relação entre avós e netos, envolvendo dimensões afetivas e sociais no contexto familiar, tratando-se de um conceito que supera a noção estritamente consanguínea, por estar associado à participação dos avós na vida dos netos, bem como à transmissão intergeracional de valores.5

Essa relação entre diferentes gerações (intergeracionalidade), é essencial para uma sociedade preparada e instruída na forma de agir e pensar sobre o envelhecimento, uma vez que há uma constante transição demográfica nesse sentido. Portanto, são elencados como benefícios dessas relações: a melhora do convívio e relacionamento interpessoal, criação de vínculos, promoção de novas formas de inclusão, respeito, diminuição da discriminação, além do compartilhamento de vivências e trocas afetivas, principalmente no núcleo familiar.6

Tais relações podem ser, muitas vezes, isentas de obrigações e responsabilidades, proporcionando uma forma mais leve de envelhecer, como a dos avós com os netos. Contudo, quando é acrescida a função de cuidar a essa relação intergeracional, pode gerar-se uma sobrecarga física ou emocional, cooperando para o prejuízo das condições de saúde da pessoa idosa, principalmente quando o cuidado é intenso e frequente.7-8

Dados internacionais apontam que avós idosos que cuidam com maior intensidade, na condição de coparentalidade ou custódia legal, relatam maiores prejuízos nas condições de saúde, quer seja no adoecimento ou na redução da prática de atividades, quando comparados aos que prestam o cuidado ocasionalmente.8

Além disso, o cuidado intergeracional, muitas vezes, pode ser assumido por obrigação e dever social de ajudar o filho ou filha, culminando em limitações e empecilhos na vida dos avós idosos.9-10 Também pode haver repercussões na saúde emocional, visto que o tempo de cuidado e responsabilidade dos avós, muitas vezes, é intensificado, e a confusão de papéis e atribuições dos integrantes da família na criação das crianças pode se tornar uma realidade, capaz de subsidiar possíveis conflitos.11-12

Dados nacionais observaram a partir da perspectiva de avós acadêmicos que ofertam algum tipo de cuidado com os netos, que a tutoria desses netos é capaz de causar efeitos negativos, afetando a qualidade de vida da pessoa idosa, como a sobrecarga financeira, física e emocional.12

Apesar da temática relevante e atual, a produção de científica na área ainda está em processo expansão. Assim, evidências que trazem as repercussões na vida e na saúde dos avós idosos abordados de maneira pessoal e narrativa são incipientes. Portanto, a fim de compreender a narrativa desse público dentro da realidade regional, onde a produção científica na área é escassa, objetivou-se compreender as repercussões na vida e saúde dos avós idosos que cuidam de netos.

Método

Trata-se de um estudo descritivo exploratório, de abordagem qualitativa, desenvolvido com 9 pessoas idosas de um instituto de envelhecimento do nordeste brasileiro. Teve como critérios de elegibilidade pessoas idosas, que atuassem no suporte ao cuidado e/ou criação de netos crianças, em tempo parcial ou integral, cadastrados na instituição.

O estudo adotou o recorte etário de netos com até 9 anos pois segue as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Ministério da Saúde, e da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC), que considera “criança” aos indivíduos de 0 a 9 anos. Além disso, corresponde a uma fase da infância que demanda maior supervisão e auxílio nas atividades, necessitando de um debruçamento singular de atenção e cuidado, no qual condições diversas nas relações são capazes de influenciar no seu crescimento e desenvolvimento cognitivo, socioemocional e comportamental.13-14

O local do estudo possui 1.178 pessoas idosas inscritas e oferece diversas atividades como: dança, desenho, rodas de conversa, cinema, flauta, artes marciais. Para o cadastro, são realizadas avaliações geriátricas prévias e testes cognitivos, pela equipe de profissionais responsáveis, para garantir que os idosos tenham sua autonomia preservada. Nesse sentido, a escolha deste local foi motivada pela ambientação científica que o ambiente proporciona.

Inicialmente, os participantes foram abordados durante as atividades do Instituto, e possuindo os critérios de elegibilidade e interesse eram contactados posteriormente, via telefônica, para agendamento da entrevista. Esta, composta por um roteiro semiestruturado e registrada por gravação de áudio, em local privativo, realizada individualmente, nas dependências do Instituto, de julho a setembro de 2023, por um único entrevistador, a fim de que a acurácia dos dados obtivesse maior consistência e continuidade durante a sua condução, reduzindo variáveis externas e corroborando para a interpretação e análise dos resultados.

As entrevistas foram compostas por questões referentes a dados sociodemográficos para caracterização dos participantes (idade, sexo biológico, escolaridade, renda familiar, ocupação, conjuntura familiar, quantidade e idade dos netos) e questões norteadoras fundamentadas a partir do objeto de estudo: o que é ser avó/avô; com que frequência você cuida do seu neto, e como funciona esse cuidado; como o fato de cuidar do seu neto pode interferir na sua saúde; como o fato de cuidar do seu neto pode interferir no desempenho das suas atividades; como você resumiria a sua experiência como avó/avô.

As gravações foram transcritas e codificadas em editor de texto, após a observação de padrões repetidos nas respostas e ausência de elementos novos foi identificada suficiência e saturação dos dados,15 sendo finalizados os registros. Os dados foram processados pelo software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (iramuteq ® 0.7 alpha 2 2020) e 3 classes foram geradas, servindo de base para a nomeação das categorias temáticas.16

As categorias foram sistematizadas sob a perspectiva da análise de conteúdo de Bardin,17 seguindo as fases de pré-análise, com a organização do material e ideias iniciais emergidas; sistematização e codificação do material; e tratamento dos dados obtidos, com a categorização, interpretação e discussão do conteúdo das entrevistas para além das palavras ditas.

Foi utilizado o recurso de Classificação Hierárquica Descendente (CHD), função que estratifica as palavras a partir do seu valor semântico em classes, considerando a frequência no texto e relevância das palavras considerando seu chi2. Para a condução metodológica da pesquisa, foi adotado o guia Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ), indicado para estudos qualitativos.18

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Instituição pública de ensino que oferece suporte ao local de estudo, sob o parecer nº 6.033.181, em conformidade com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

Resultados

O estudo foi composto por nove avós, nomeados de E1 a E9, com netos dos nove meses aos nove anos de idade. Dentre os participantes, seis eram mulheres, com faixa etária entre 65 e 75 anos, todos eram aposentados, cinco (55,56%) concluíram o ensino superior, três (33,33%) concluíram o ensino médio, um (11,11%) concluiu o fundamental; quatro (44,44%) deles residiam com cônjuge, dois com a família (incluindo filho/filha, genro/nora, netos) e três (33,33%) moravam sozinhos. Além disso, foram registradas as rendas familiares mensais, que variaram entre três e quinze salários-mínimos.

Apesar da predominância de avós do sexo feminino, essa prevalência não pode ser considerada uma tendência populacional neste estudo, devido ao pequeno contingente amostral, restringindo a generalização dos resultados, mesmo que a literatura evidencie, em estudos de amostra mais robusta, a tendência de avós que cuidam dos netos.

Quanto aos dados referentes às questões norteadoras fundamentais dessa pesquisa, a partir das três classes geradas, emergiram as seguintes categorias temáticas: categoria 1 - Relação de cuidado entre avós e netos (classe 3); categoria 2 - Experiência de ser avó/avô (classe 2); e categoria 3 - Repercussões na saúde e nas atividades cotidianas de avós que cuidam de netos (classe 1).

Na fig. 1, pode-se observar a representação gráfica das palavras mais citadas e de maior relevância, correspondentes a cada classe emergida, num panorama amplo dos resultados obtidos. O valor de X², chi-quadrado ou qui-quadrado, se refere ao teste utilizado para avaliar a relação entre as variáveis de forma quantitativa, nesse caso, a partir do valor de X², nos é informada a relação da palavra com a classe emergida, tendo relevância importante valores maiores que 3,8. Sendo assim, quanto maior o valor, maior a frequência do termo durante as entrevistas e, consequentemente, a relação com a classe vinculada.

Figura 1 - Dendograma da Classificação Hierárquica Descendente (CHD). Dados da pesquisa (N=9). João Pessoa (PB), Brasil, 2023.

Deve-se considerar que as classes aparecerão ao longo do texto na ordem de melhor sequência lógica, para compreensão do objetivo do estudo.

Categoria 1 - Relação de cuidado entre avós e netos (classe 3)

Essa categoria discorre sobre a rotina e o cotidiano dos avós participantes e como a relação de cuidado com o neto é incluída no seu dia a dia, a fim de identificar o grau de responsabilidade desse cuidado. A partir das entrevistas realizadas, denota-se a heterogeneidade da responsabilização, tanto no formato do cuidado, como na relação percebida por eles. Enquanto uns auxiliavam em necessidades esporádicas, de forma voluntária, outros tinham a responsabilidade quinzenal, semanal ou diária, o que se observa nas falas abaixo.

“[...] o de 7 anos mora vizinho lá de casa, fica muito lá. O de 2 anos, fico com ele quando a mãe precisa trabalhar no sábado. Eu pego na creche 3 dias na semana e fico com ele lá em casa até ela chegar do trabalho.” E1, 65 anos

“[...] o de 8 anos vem pra cá todos os dias, porque os pais trabalham, quando é 12h vai tomar banho e almoçar pra ir para o colégio. Mariana, de 5 anos, fica mais com a outra avó, às vezes quando ela precisa sair pra algum canto, ela deixa aqui [...].” E5, 74 anos

“[...] a escola dela é integral, mas no dia que não pode ir, quando está doente, a mãe não manda, eu fico, ou quando precisa de alguma coisa. [...].” E6, 67 anos

Eu não tenho obrigação, mas na hora que precisa de mim, eu estou pronta.[...]. E7, 74 anos

“[...] o meu filho tem 2 do primeiro casamento, que mora com a mãe, a minha dedicação é de 15 em 15 dias, que é o dia que ele vai pegar pra ficar o final de semana, vou pra lá pra ajudar a tomar conta. [...].” E9, 65 anos

Para além das falas trazidas, durante as entrevistas, foi percebido que possuir autonomia e independência permitiu que eles “escolhessem” quando ajudar, não tendo a responsabilidade na criação dos netos. Além disso, estar disponível para o cuidado foi descrito como um sentimento prazeroso, visto que se encontravam aposentados e os netos eram, muitas vezes, a fonte de alegria da casa.

E quando questionados quanto à necessidade do adiamento de alguma atividade para ficar com os netos, não consideraram um problema, pois cuidar dos netos, para eles, era considerado prioridade, salvo em casos em que os compromissos estivessem relacionados à sua própria saúde. Portanto, independente da relação de cuidado, eles exerciam essa função naturalmente, sem mencionar impactos ou possíveis sobrecargas.

Categoria 2 - Experiência de ser avó/avô (classe 2)

Buscou-se, aqui, compreender a percepção da pessoa idosa avó quanto a essa fase da vida, junto às particularidades individuais. Dentre as experiências e significados trazidos, a positividade e os benefícios foram unânimes, culminando em momentos emocionantes. Expressões que traziam as palavras “amor”, “carinho”, “cuidado”, “melhor”, refletem as experiências trazidas por eles quanto a esse ciclo vivido.

“É melhor do que ser mãe [...] fazemos tudo mas com mais tranquilidade, temos condições de dar mais amor, mais atenção, já que a gente tem mais tempo disponível que os pais. […] é com mais carinho […].” E1, 65 anos

“[...] É a melhor coisa do mundo. [...] É minha vitamina, vontade de viver, eu quero ir até 100 anos, mas quando eu vejo eles, quero ir até 110.” E2, 66 anos

“São os frutos dos frutos que a gente deu. [...] A gente dá amor, carinho, e na hora da necessidade eles têm a gente pra ajudar. [...].” E3, 65 anos

“É ter um amor fraterno [... É como se eu tivesse nascido novamente [...].” E4, 74 anos

“Eu só sinto prazer […] é muito bom ser avó. É você voltar àquela vida só que sem responsabilidade [...].” E6, 67 anos

“Foi a melhor coisa do mundo. [...] É um presente de Deus, uma dádiva, uma oportunidade de fazer com os meus netos muitas coisas que eu não tive oportunidade de fazer com os meus filhos [...] pra mim foi renascer.” E7, 74 anos

“[...] O cuidado que a gente tem com o neto é mais do que a gente teve com o filho […] é ser mãe 2 vezes, é ótimo.” E9, 65 anos

A palavra “amor” foi frequente durante as entrevistas quando se referiam aos netos e a experiência da avosidade, carregada de uma emoção diferenciada perceptível, algo que tentaram passar em trechos como:

“[…] é um amor diferente, são vários amores que a gente vai colando na vida da gente, e vários tipos de amor, e o amor de avó com neto é muito forte.” E1, 65 anos

Além disso, trouxeram “responsabilidade” e “carinho” como referência à fase em que se encontram, visto que agora podem aproveitar melhor a convivência com as crianças, dar mais carinho, ao contrário da época em que foram pais, diante das responsabilidades educacionais e financeiras da época. Agora, na condição de avós, aposentados, poderiam exercer esse cuidado de forma diferente, mais leve, sem a carga que tinham antes, uma nova oportunidade.

Assim, a percepção dessa experiência como algo prazeroso, fortalecia o sentimento de satisfação na forma de envelhecer como avós e pessoas idosas aposentadas, esboçado pela palavra “vitamina”, se referindo ao que os netos representavam para a sua vida, os fazendo mais felizes e realizados.

Categoria 3 – Repercussões na saúde e no desempenho das atividades cotidianas dos avós que cuidam de netos (classe 1)

Questionados sobre as interferências na saúde, como consequência do cuidado com os netos, a negativa foi prevalente, evidenciada pela palavra “não” do dendograma, em que trouxeram novamente os benefícios desse papel, deixando as possíveis interferências em segundo plano, por mais que existissem.

“Cuidar de neto é uma terapia [... ] você cuidar de neto, você está estimulando sua mente […] Além de trabalhar a mente, trabalha o físico também [...].” E1, 65 anos

“Olha, pra mim, não interfere em nada, porque eu não levo eles pra o médico, quem leva são os pais […]. Cuidar dos meus netos é rejuvenescer.” E2, 66 anos

“Eu não acho que interfere na minha saúde […]. Ajuda, porque a gente tem aquele amor, aquele carinho […] mas mal à saúde faz aquela vó que vive exclusivamente […] que deixa de comprar uma coisa pra ela pra comprar pra o neto.” E3, 65 anos

“É uma terapia estar com meu neto, me sinto saudável.” E4, 74 anos

“Traz mais alegria, vigor [...].” E5, 74 anos

“Não interfere, porque já vivo com essas doenças de ossos [...].” E6, 67 anos

“Mentalmente pra mim é excelente [...] quero brincar com ele enquanto tiver oportunidade [...].” E7, 74 anos

Dessa forma, fica nítido nas falas que as repercussões percebidas por eles não interferem negativamente na saúde, pelo contrário, contribuem para a manutenção do estado de bem-estar. Por isso, quando questionados, a priori, se o fato de cuidar dos netos poderia interferir na sua saúde, traziam o “não” imediato, afirmando não interferir. Frequência essa que contribuiu para o surgimento da palavra “não” como a primeira da classe 1, significando uma maior relação com a classe, ou seja, quando questionados sobre repercussões na saúde, afirmavam que “não” interferia em nada.

Contudo, era explicado que a “interferência” questionada poderia ser de forma positiva ou negativa, para que pudessem pensar nas repercussões associadas a esse cuidado. Assim, os relatos foram se ampliando, evidenciando ainda mais as percepções positivas da experiência.

Quanto às atividades de rotina, a negativa continuou prevalecendo, poucos identificaram interferências na rotina causadas por cuidar dos netos, visto que consideram o cuidado algo prioritário, à frente de suas atividades pessoais, deixando-as em segundo plano, reiterando a disponibilidade sempre que necessário.

“Quando os netos chegam interferem, porque eu não vou limpar uma casa com os meninos lá, a atenção é mais pra eles [...] Mas ninguém vai morrer se deixar de arrumar uma casa 1 ou 2 dias. A mim, nunca atrapalhou, até porque eu não tenho cuidado direto, não sou aquela avó que cria, eu dou apoio [...]. E1, 65 anos

“Todas minhas atividades, qualquer coisa que eu vou fazer, eu só marco se der pra eu ir, porque eu não vou deixar ele só.” E5, 74 anos

“Interfere, com certeza. Eu gosto de ir a umas festas no final de semana e, às vezes, interfere na minha ida, tenho que procurar uma que seja na semana pra poder ir. Às vezes ir na feira, uma exposição, um artesanato, mas eu vou conciliando. [...].” E9, 65 anos

“Não interfere em nada, porque eu não levo eles para o médico, quem leva são os pais [...].” E2, 66 anos

“Não interfere de jeito nenhum, precisou de mim eu chego.” E4, 74 anos

“Não interfere [...] eu não fico com obrigação de cuidar, de dizer que não vou fazer tal atividade porque tomo conta da neta, isso não existe, só quando a necessidade precisa [...].” E6, 67 anos

“Não interfere, porque não fico me sacrificando, só em um caso grave.” E7, 74 anos

Ao relacionar as falas ao dendograma, as palavras “ensinar”, “deixar” e “brincar” remetem ao tipo de cuidado que exercem para com os netos, uma vez que, apesar da heterogeneidade na caracterização do cuidado ofertado por eles, nenhum dos avós possuía responsabilidade legal ou custódia, pois atuavam apenas no auxílio do cuidado. Dessa forma, os avós dedicavam a maior parte do tempo ao entretenimento das crianças, sem a responsabilidade legal na educação.

Com isso, pode-se observar a percepção positiva deles a respeito da tarefa de cuidar dos netos, relacionada, muitas vezes, a um momento de lazer, em que cumprir o papel de avô e avó se torna uma atividade prazerosa. Afirmam que a presença dos netos interfere na sua rotina de vida, nos afazeres de casa, mas não se trata de algo substancial, é uma terapia, capaz de trabalhar a mente e o físico.

Assim, quando questionados sobre interferências decorrentes do cuidado com os netos, não são capazes de identificar repercussões prejudiciais, visto que esse cuidado é ofertado de forma mais branda, sem obrigações, tendo sua atuação voltada ao auxílio complementar.

Discussão

A mudança da estrutura tradicional familiar nas últimas décadas, impulsionada por fatores como a inserção progressiva da mulher no mercado de trabalho, a sobrecarga financeira dos pais e da maternidade solo, tem feito com que os avós assumam um papel cada vez mais ativo no cuidado dos netos. Esse envolvimento é especialmente notável com crianças pequenas, que exigem maior atenção e dedicação nessa fase.19-20

Somado a isso, o papel participativo dos avós no núcleo familiar é justificado pela maior disponibilidade de tempo, e por uma menor carga de responsabilidades, em comparação com outras fases da vida. No entanto, é importante que a responsabilidade principal pela criação permaneça com os pais, cabendo às avós atuarem como suporte. Dessa forma, valoriza-se a importância do papel dos avós no cuidado suplementar, o que pode contribuir positivamente para a saúde da pessoa idosa.20

A frequência e a relação do cuidado podem modificar a natureza dos impactos à saúde dos avós, como estudo realizado na Universidade da Maturidade, no qual as pessoas idosas identificaram as nuances positivas do cuidado, como a sensação de renovação a partir da convivência intergeracional com os netos, a prevenção da solidão e isolamento, o equilíbrio de perdas. Mas também as negativas, associadas à relação de tutoria dos netos.12

No presente estudo, alguns avós moravam com netos, porém não tinham a responsabilidade legal, os pais da criança conviviam no mesmo local, incumbidos da criação. Experiências trazidas por pessoas idosas que cuidam dos netos no Brasil, mostram que a saúde dos avós sofre impactos negativos quando compartilham da mesma habitação e são responsáveis legais dos netos.21-22

É importante lembrar que a causalidade dos impactos pode ser influenciada pelas condições prévias do indivíduo, visto que alguns avós já possuem limitações ou comorbidades, e cuidar dos netos pode não ter relevância significativa para sua condição de saúde. Demonstra-se, assim, que essa não seria a causa principal do declínio da senilidade, o que justifica a heterogeneidade das repercussões na saúde decorrentes do cuidado.22-23

Além disso, é relevante observar que os participantes deste estudo apresentam boas condições sociais, com autonomia e independência preservadas. Isso pode contribuir para os achados positivos relacionados à percepção das repercussões positivas na vida e saúde no contexto de cuidado com os netos, uma vez que os benefícios são mais comuns em pessoas idosas com maiores rendas familiares e maior instrução.24

O contexto é capaz de modificar a experiência da avosidade e estudos revelam que a relação de responsabilização na criação dos netos pode causar impactos prejudiciais no declínio à saúde, afetando a saúde mental e impactando a rotina dos avós.22,25 Além disso, para avós com idade avançada as consequências podem ser potencializadas, principalmente com netos mais novos, diante da demanda física exigida.8

Sob a perspectiva dos avós, muitos destacam que, ao comparar com a época em que cuidavam de seus filhos, hoje, aposentados e com mais tempo livre, têm mais oportunidades de conviver com os netos. Eles lembram as antigas responsabilidades profissionais e financeiras que assumiam como pais, contrastando com o cenário atual, em que, livres dessas obrigações, podem dedicar mais afeto e atenção ao cuidado dos netos.11,20

Além disso, observa-se que as interações com os netos introduzem novas experiências na vida dos avós, visto que as crianças em processo de desenvolvimento estimulam os avós. Assim, quanto mais sólida a relação intergeracional, há potencial de maior admiração dos netos pelos avós, especialmente quando essa relação envolve diversão, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e saúde dos avós.11,26

No entanto, deve-se atentar sempre à heterogeneidade dos contextos, afinal não há comprovações de que somente o ato de cuidar possa gerar impactos relevantes, visto que fatores estressores prévios podem influenciar nas questões de saúde, como condições socioeconômicas, responsabilidades, hábitos de vida e doenças pré-existentes.19

Contudo, os avós referem repercussões positivas e benefícios resultantes no cuidado com o neto, mesmo que possa interferir em sua rotina e suas atividades. Além disso, é fundamental considerar que a independência, a autonomia e a manutenção das relações familiares são essenciais para a saúde da pessoa idosa. Estudo realizado na China, observou uma relação entre os avós que cuidam dos netos e a maior satisfação com a vida, desde que os cuidados prestados sejam de intensidade moderada, permitindo que os avós participem de outras atividades sociais.27-28

Em relação à interferência nas atividades dos avós, embora relacionem ter deixado de lado algumas atividades para dedicar tempo aos netos, não percebem isso como um impacto negativo, até se sentem úteis ao participar desse cuidado e relatam que reflete positivamente na vida. Ao se sentirem mais ativos e engajados, são estimulados a buscar novas atividades, o que contribui para a melhoria da qualidade, mitigando prejuízos funcionais, físicos e cognitivos.23

A vida ativa dos participantes da pesquisa, com atividades físicas e cognitivas, corrobora com o achado de repercussões positivas na saúde visto na literatura, considerando que exercícios possuem papel fundamental na qualidade de vida da pessoa idosa. E apesar das interferências na rotina, decorrentes do cuidado, não o consideram prejudicial, mas sim uma atribuição natural dos avós, isenta de exigências, tornando o cuidado mais leve e prazeroso.29

Aqueles que possuem responsabilidades na rotina com os netos, como buscá-los na escola ou permanecer com eles durante algum turno do dia, relatam que são atividades agradáveis, por estimularem o físico por meio das brincadeiras e o emocional por meio da afetividade envolvida no cuidado. Essas relações podem constituir um dos fatores para o processo de envelhecimento saudável30, ratificando a complexidade e a amplitude do papel de cuidar, uma vez que este se manifesta por diferentes nuances e sentimentos, conforme as situações de vida e as características estabelecidas na relação de cuidado.

Inseridas nesse contexto, as vivências de pessoas idosas que exercem o cuidado cotidiano com os netos revelam-se cada vez mais presentes no cenário familiar contemporâneo, marcado pelo aumento da longevidade e pelas transformações nas configurações familiares. A análise dessa realidade, sob a perspectiva da enfermagem, possibilita compreender como elementos internos e externos ao indivíduo influenciam o seu bem-estar biopsicossocial, ampliando o olhar para determinantes que impactam diretamente o estado de saúde da pessoa idosa.

Como limitações do estudo, destaca-se o fato de os participantes possuírem boas condições sociais, econômicas e cognitivas, influenciando na autopercepção positiva das repercussões na saúde; o local do estudo mais restrito, que atende a um público diferenciado, com pessoas idosas autônomas e ativas socialmente; a ausência de avós que exercem o cuidado integral, a fim de compreender as distintas realidades da avosidade; e a não exploração do perfil clínico e funcional dos participantes, juntamente ao número reduzido, limitando a diversidade dos resultados. 

Conclusão

Esta pesquisa revela que os avós não percebem repercussões negativas relevantes relacionadas à vida e à saúde ao desempenharem a função de avós na velhice, somente as positivas, emocional e afetivas, desenvolvidas durante o processo de cuidado, em contraste com resultados negativos de outros estudos.

Compreende-se a relevância deste estudo para a formação de profissionais da área da saúde, uma vez que a rotina de cuidado com os netos pode exercer influência direta sobre o estado de saúde da pessoa idosa, seja ao contribuir para a promoção da saúde mental e da qualidade de vida, seja ao representar potenciais riscos biopsicoemocionais decorrentes da sobrecarga de cuidados.

Ademais, a crescente produção científica na área contribui para o fortalecimento de evidências que subsidiam a formulação de políticas públicas e o desenvolvimento de intervenções em saúde voltadas à pessoa idosa, que vivencia o processo de senescência e, em muitos casos, de senilidade, contexto em que a responsabilidade do cuidar pode configurar-se como fator estressor, com impacto negativo sobre a qualidade de vida.

Sugere-se a realização de estudos que abranjam um quantitativo mais amplo de pessoas idosas, contemplando distintas realidades e um maior número de variáveis relacionadas às condições de vida, com o objetivo de avaliar possíveis sobrecargas e suas repercussões, aprofundar a compreensão do fenômeno investigado e subsidiar o planejamento de um cuidado qualificado em saúde da pessoa idosa, sob uma perspectiva profissional. 

Contribuições dos autores

Concepção do estudo: Renata Mirella Brasil da Silva Lima, Alana Vieira Lordão, Edilene Araújo Monteiro, Maria de Lourdes de Farias Pontes. Coleta de dados: Renata Mirella Brasil da Silva Lima. Análise e interpretação dos dados: Renata Mirella Brasil da Silva Lima, Alana Vieira Lordão, Bianca Freitas Régis, Samara da Silva Santos, Amanda Ellen Costa Da Silva, Edilene Araújo Monteiro. Redação do manuscrito: Renata Mirella Brasil da Silva Lima. Revisão crítica do manuscrito: Renata Mirella Brasil da Silva Lima, Alana Vieira Lordão, Bianca Freitas Régis, Samara da Silva Santos, Amanda Ellen Costa Da Silva, Edilene Araújo Monteiro, Maria de Lourdes de Farias Pontes. Aprovação da versão final do texto: Renata Mirella Brasil da Silva Lima, Alana Vieira Lordão, Maria de Lourdes de Farias Pontes.

Conflito de interesse

Os autores declararam que não há conflito de interesse.  

Referências

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Autor Correspondente

Renata Mirella Brasil da Silva Lima

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