CINEMA E EDUCAÇÃO POPULAR: A EXPERIÊNCIA ANARQUISTA DO CINÉMA DU PEUPLE (CINEMA DO POVO)

Alcidesio Oliveira da Silva Junior

Resumo


Introdução: Contar histórias (reais ou não), relatar experiências vividas, construir pontes entre o passado, presente e o futuro. Estes são alguns elementos característicos nas narrativas e que permeiam a história da humanidade, sejam impressos nas cavernas da dita pré-história, sejam na retórica dos grandes filósofos gregos. Ao analisar as narrativas e seus elementos, como o enredo, personagens, tempo, espaço e narrador (GANCHO, 2002), pode-se compreender a sua utilização nos mais diversos gêneros, orais, escritos e/ou visuais, e seu poder como ferramenta educacional. Na construção de subjetividades e identidades, as narrativas presentes no gênero “cinema” podem atuar como ferramentas de emancipação e agitação política pela reflexão crítica aguçada, utilizando-se de sons, imagens e texto, mobilizando aspectos sensíveis da percepção humana. Este trabalho, que integra uma pesquisa em andamento, busca analisar o impacto das narrativas cinematográficas como instrumento da educação para/pelo povo. Para tanto, recorre ao entendimento de Educação Popular “como relações pedagógicas de teor político” (BRANDÃO, 2002, p.142) que alcançam sujeitos localizados em situação de marginalização social. Estes, organizados em movimentos populares, passam a travar uma batalha pela construção de narrativas de empoderamento que vão além dos espaços formais de educação, como as escolas, conscientizando-se coletivamente em prol de suas pautas de luta e organizando-se em torno de uma transformação social (idem, 2002). Mas é do filósofo francês Gilles Deleuze que bebe-se das fontes relativas à utilização do cinema como prática de desconstrução do padrões e clichês representativos da sociedade. Para o autor, o choque cinematográfico produzido no espectador “tem um efeito sobre o espírito, ele o força a pensar, e a pensar o Todo” (DELEUZE, 1990, p.191). Nesta perspectiva, um dos diferenciais do cinema localiza-se na capacidade de despertar o pensador através da imagem-movimento nas telas (idem, 1990). Portanto, mais do que um instrumento didático-pedagógico a serviço da ilustração e do conservadorismo dos padrões pré-estabelecidos, a arte entra com o objetivo de trazer a realidade à tona, construindo novas subjetividades. Tal pensamento ou reflexão é produzido no choque, não de maneira espontaneísta, mas de caráter exterior ao ser, ao recém-pensante (ibidem, 1990). Como objeto de estudo desta pesquisa tem-se o Cinéma du Peuple (1913-1914), cooperativa anarquista francesa que tinha como fim “a criação e exibição de obras fílmicas que venham a colaborar com a instrução proletária e popular” (SILVA, 2014), p.11). Ainda que tenha tido um fim precoce, motivado especialmente pela perseguição aos meios libertários e pela eclosão da Primeira Guerra Mundial, o Cinéma du Peuple agitou os trabalhadores e trabalhadoras franceses de sua época que enchiam seus salões, inspirando-se em um cinema libertário, rebelde e agitador.

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Referências


BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A educação popular na escola cidadã. São Paulo: Editora Vozes, 2002.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 2002.

SILVA, Alexandre Wellington dos Santos. Cinema, Educação e Anarquia: O Cinéma du peuple. In: I Encontro Nacional de Ficção Discurso e Memória: literatura, cinema, gêneros digitais e outros gêneros, 2014, São Luís/MA. Caderno de programação e resumos do I Encontro Nacional de Ficção Discurso e Memória: literatura, cinema, gêneros digitais e outros gêneros. São Luís: Editora da Universidade Federal do Maranhão, 2014. p. 47-48. Disponível em: . Acesso em: 02 abr. 2018.


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Revista Semana  Pedagógica ISSN 2595-1572 (on line)