CARÁTER NACIONAL E CULTURA NA DIPLOMACIA BRASILEIRA

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CARÁTER NACIONAL E CULTURA NA DIPLOMACIA BRASILEIRA



NATIONAL CHARACTER AND CULTURE IN THE BRAZILIAN DIPLOMACY



José Alexandre Altahyde Hage


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Resumo

Este artigo tenciona analisar alguns pontos do pensamento social brasileiro em face da conexão entre o caráter nacional e manifestações da diplomacia brasileira de ordem sociológica. Em outra instância, o texto procura saber se algumas medidas consideradas tradicionais e exercidas pela diplomacia brasileira, como oposição ao racismo e o apoio que o Itamaraty emprega na igualdade dos povos, teriam referência não somente no caráter nacional mas também nas reflexões herdadas do pensamento social brasileiro desde o século XIX. Para esse fim, são analisadas algumas obras de escritores considerados clássicos no pensamento social, como Silvio Romero e Gilberto Freyre, bem como opiniões de diplomatas, caso de Araújo Castro, e políticos que participaram da diplomacia brasileira, como Afonso Arinos.


Palavras-chave

Cultura. Política. Diplomacia brasileira. Intelectuais brasileiros. Racismo

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Abstract

This article intends to analyze some points of the Brazilian social thought in face of the connection between the national character and manifestations from Brazilian diplomacy in the sociological order. In the other hand, this article intends to know if some measures considered traditional and worked by Brazilian diplomacy, such as opposition to racism and its support to equality of the peaples has reference to Brazilian national character and to reflections legend from Brazilian social thought since the XIX centure. In this forme, some works are analyze belong to importante thinkers of the Brazilian social thought, for example, polititians and diplomates, such as Silvio Romero, Gilberto Freyre, Araujo Castro and Afonso Arinos.


Key-Words

Culture. Politics. Brazilian diplomacy. Brazilian intellectuals. Racism.

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1 Introdução

No campo da diplomacia é sabido o quanto é importante averiguar as condições culturais apresentadas por vários povos e nações, ainda mais no momento em que essas mesmas condições podem influenciar a política externa com propósito de abrir novos caminhos nas relações internacionais. Dentre os termos a serem examinados aparece o conceito de etnia1, esta pela qual surgem manifestações culturais e valores sociais que se espalham pela sociedade e, a partir dela, podem ganhar dimensões políticas e diplomáticas, como sugerem alguns autores, políticos e diplomatas brasileiros de grande envergadura intelectual, como Gilberto Freyre, Silvio Romero, Afonso Arinos e João Augusto de Araújo Castro.

Considerando isto, o objetivo do presente artigo é analisar obras clássicas e contemporâneas do pensamento social brasileiro buscando ter em conta até que ponto as manifestações culturais e populares podem influenciar a formação da agenda diplomática brasileira. Vale dizer, como as diferentes correntes étnico-culturais que formam a sociedade brasileira, o índio, o europeu, o negro e o asiático, contribuem cada qual ao seu modo e tempo, para a concepção de ações diplomáticas consideradas ecumênicas e favoráveis à autonomia nacional dos povos, ao respeito aos tratados e à igualdade racial, sobretudo aos países pertencentes à parte mais pobre do globo.2 Porém, é lícito frisar que este artigo não procura esgotar assunto complexo e amplo. Também não se tenciona corroborar de forma não crítica opiniões e posições políticas por parte dos intelectuais, políticos e diplomatas presentes no texto. O artigo é tão somente uma contribuição ao tema da sociologia, política e relações internacionais brasileiras que se procura abrir para o debate.

O ecumenismo implica ações diplomáticas em que se reconhece a relevância de contatos para o bem estar da população brasileira. Contudo, este não é assunto de todo fácil de ser versado, pois, historicamente, a sociologia, a antropologia e a diplomacia nacionais haveriam de resgatar a unidade cultural e étnica do Brasil como elemento essencial para a concepção de ser o país um Estado autônomo e integrado por suas regiões econômica e culturalmente distintas, o que pode se tornar instrumento de ideologia que camufle a realidade.

É por causa disso que a análise das implicações étnicas e culturais deve ser feita de modo “panorâmico” e sem desconhecer que nos meandros da realidade social nem sempre se corrobora a vontade nacional simbolizada pelo ente diplomático, até porque não há unidade em face das opiniões. Como instituição complexa, o Itamaraty, a Chancelaria nacional, também sofre incoerências, pois necessita coordenar conflitos internos e trabalhar com a média que será eleita a trabalhar com a síntese cultural do Brasil, aquilo que o País é externamente.3

É importante frisar este ponto, de acordo com Silvio Romero, porque foi apenas no final do século XIX e na primeira metade do século XX que se iniciou, de modo regular, a valorização da população brasileira propriamente dita, híbrida, composta de elementos vistos como inferiores, intelectual e moralmente, pelas elites nacionais até então, desejosas de ver a rápida entrada de imigrantes alemães e outros provenientes da Europa setentrional, considerados mais bem preparados, para que ocupassem os vazios demográficos do Brasil (ROMERO, 1979).

Esse desejo das elites brasileiras na política, na educação e na economia dava-se em virtude do papel representado pelos Estados europeus da época, grandes potências econômicas e militares cuja sociedade era o nascedouro de gentes fortes e possuidoras de grande valor moral e intelectual. De fato, a ascensão do Império alemão, em 1871, bem como a posição de vanguarda da Grã-Bretanha nos negócios internacionais, imprimia esse desejo de fazer do Brasil um recebedor desses imigrantes para transformar positivamente o mundo tropical.

Ao contrário dessa valorização sobre a Europa do norte, quem deveria ser evitado era o decadente Império português, cuja existência se devia mais a motivos de conveniência de momento, junto à Grã-Bretanha, da mesma maneira que o Império otomano, do que na real política das grandes potências. Isto porque aquele império poderia trazer mais problemas para a política internacional, provocando vazio de poder em regiões delicadas, caso se solvesse.

Assim, sob o prisma do pensamento social brasileiro do século XIX emerge a ideia de que a formação política e social da América Latina e, em particular, do Brasil, não se deu de forma convencional e sem transtornos em face às percepções e posições intelectuais de quem desacreditava no Novo Mundo. A construção dos Estados latino-americanos, situados em zonas tropicais, não acalentava intelectualmente os estudiosos do período, cuja opinião era a de que as populações meridionais estavam destinadas ao fracasso graças a fenômenos naturais e climáticos. Posteriormente, no avançar do século, a descrença se transferiu da ecologia para os debates sociais. A premissa era a de que seria impossível formar Estados semelhantes aos europeus.4

O Brasil não foge desta questão. Os debates políticos e intelectuais, à procura de se instituir um referencial científico para os problemas nacionais, apontavam para posições pessimistas quanto ao futuro do país. Isto pelo fato de o Brasil ser tropical, permeado de clima quente e úmido. Essa localização geográfica, para os pessimistas, seria um infortúnio e não facilitaria o crescimento de nada florescente que fosse reconhecido pela civilização ocidental.

O pensador francês Montesquieu foi um dos que refletiram sobre assuntos americanos e seus contragostos. O malogro do mundo tropical, para o autor, ocorria em razão do clima quente que, como se fosse um entorpecente, tirava os homens de seu juízo e do esforço natural de quem luta pela vida. Em outro plano, de forma paradoxal, Montesquieu pensava que a facilidade e a opulência da América Latina poderia estragar a sobrevivência do colonizador europeu a ponto de amolecê-lo, inebriá-lo com as delícias da terra ao alcance da mão.

Este fato, para o autor de O Espírito das Leis, era antinatural, pois o mundo meridional - seja América Latina ou Ásia - não considerava o papel original do ser humano, qual seja o de sempre vencer desafios, desbravar terras incultas e obter resistência contra os fenômenos naturais. Assim é na Europa setentrional e nas zonas glaciais onde o homem é forjado na luta contra as intempéries da vida, contra a fome, contra o frio e contra a própria natureza (MONTESQUIEU, 1993).

Daí, então, imaginar que a concepção de Estados nacionais (unidades políticas) bem constituídos ao sul seria uma questão de incertezas e desgraças para povos colonizadores, acostumados com desafios intelectuais e físicos. A longa permanência de colonizadores nos trópicos significava o abandono da força e da moral em benefício do imprudente, do fácil e da futilidade de uma vida ao acaso. Por outro lado, a concretização de unidades políticas nos climas úmidos poderia vir a requerer novas posturas por parte dos grandes Estados europeus, as potências.5

Seria a permanência das grandes potências sobre jovens países latino-americanos, africanos e asiáticos, cujas fraquezas e instabilidades políticas seriam justificativas para que elas fossem interceptadas política e militarmente pelos europeus. Além disso, essa prática ocorreria com o intuito de assegurar o mínimo de condições para a presença da civilização cristã nos moldes do hemisfério norte, mesmo que em escala inferior quanto a sua procura.

No Brasil, esse debate não passou despercebido. Na década de 1910, Silvio Romero preocupou-se com o papel que o país poderia desempenhar nas relações internacionais por falta de um propósito. A falta de um projeto nacional que impulsionasse a criatividade, a educação e a industrialização foi vista pelo sergipano como marca de miopia das classes dirigentes. E a questão maior é que aquela falta punha o Brasil em situação de vulnerabilidade perante as grandes potências, por exemplo, a Alemanha imperial que teria planos de expansão no sul do Brasil, consolidando seu projeto de império colonial além-mar e com elementos da mesma cultura que imprimiria a vontade nacional alemã sobre a fraqueza brasileira.

Na verdade, o que se procurou animar na segunda metade do século XIX, com o advento da Escola do Recife (estudiosos da antiga Faculdade de Direito do Recife), a iniciar novos trabalhos e reflexões com Tobias Barreto, Joaquim Nabuco e Alberto Torres, foi a premissa de que o Brasil poderia ser viável a partir de sua composição étnica, índios, negros e portugueses. Composição nacional, fruto de miscigenação de três correntes desacreditadas (raças inferiores) tanto pelas elites nacionais quanto por estudiosos europeus que seguiam a visão pessimista.



2 Tópicos conceituais

A tentativa de se compreender o conceito de caráter nacional vem do século XVIII, da época de ascensão dos sentimentos nacionais da Revolução Francesa, em 1789; esses sentimentos foram concentrados para impulsionar a construção nacional6 da unidade política e cultural alemã, na segunda metade do século XIX, bem como da italiana, por meio do pensamento de autores como Johann Herder e Giuseppe Mazzini, autores que marcaram a fundação de seus Estados por meio de comunicações e literatura que pudessem ser identificadas popularmente7 (LEITE, 1983).

Desta maneira, pode-se ver que é complexo procurar instituir o conceito de caráter nacional à vida política e cultural dos Estados, visto que esse possível caráter não é estacionário no tempo, mas sim dinâmico em virtude de alterações políticas nacionais e externas. Além desse ponto, o caráter nacional adapta-se à forma sob a qual se desenha o espaço geográfico, de grande ou pequena dimensão, e ao encontro de povos pelo qual se dá no território. Isolamento, expansividade, miscigenação, são itens que congregam para formar o caráter nacional, de acordo com discípulo de Herder, o teórico da geografia Friedrich Ratzel (RATZEL, 1990).

Guardadas as devidas proporções, o mesmo problema se faz presente quando se trata da evolução nacional brasileira a partir do Segundo Império e do nascimento da República. Vale dizer, compreender como a percepção e sentimentos nacionais do Brasil se iniciam de forma negativa quanto ao futuro, considerando opiniões de estudiosos europeus, e, depois disso, migram para posição otimista quanto ao destino do país, que passa a ser visto como viável em comparação às outras repúblicas do subcontinente americano, salpicadas de instabilidade e crise. Embora fosse personagem combatida pelo movimento de 1889, Eduardo Prado guardava a opinião de ser o Brasil um ambiente de estabilidade em virtude de seus valores (PRADO, 1980).8

Luiz Felipe de Seixas Corrêa, para o qual a construção nacional é resultado da conjugação histórica e diplomática dos reinos lusitano e brasileiro desde o Tratado das Tordesilhas, apresenta o seguinte: “Esse conceito de unidade como valor absoluto nos chega da experiência histórica e se associa a dois outros valores para formar o que se poderia denominar como a trindade do sentimento nacional brasileiro: a ideia de grandeza física e a crença no futuro” (CORRÊA, 2000, p. 27).

De outra forma, essa complexidade acontece no Brasil, onde as correntes e mobilidades culturais e sociais se mesclam e se interpõem em grande dimensão em todo o país. Por outro lado, não é possível escrever um trabalho que procure analisar algumas manifestações da diplomacia brasileira sem recorrer ao entendimento de caráter nacional, mesmo que esse conceito seja fluido e venha a ter interpretações variadas, conforme se pode perceber na obra de Dante Moreira Leite. De acordo com este autor, pode-se entender caráter nacional como: 1 – o agrupamento de fatores políticos, sociais e culturais pertinentes à história do país, soberania, cultura popular, inteligência e outros; 2 – a valorização de sua imagem e tradições nacionais; 3 – sua maneira peculiar de conceber o mundo; 4 – sua evolução intelectual e moral e, por vez, seu relacionamento com Estados vizinhos, ao procurar demonstrar esse acúmulo de qualidades nacionais (LEITE, 1983). Daí o relacionamento diplomático.

Nesta linha, é possível dizer que a forma pela qual se constitui comportamento diplomático ganha substância por meio da psicologia social da população, cuja “visão de mundo” não é ignorada pelos formuladores da política exterior brasileira para determinados assuntos. Isto leva a crer que no Brasil impera sentimento coletivo e apegado à tolerância, à paz e à hospitalidade que a sociedade guarda para se dirigir ao Exterior, mostrando o seu melhor ao outro.

De outra forma, é igualmente imperiosa a tarefa do corpo diplomático nacional de refletir historicamente que a virtude neste campo é justamente encontrar o ponto de equilíbrio reclamado pela tradição política brasileira, qual seja, aglutinar valores e sentimentos nacionais considerados frutos do caráter aberto, mas sem negligenciar a existência de certa razão de Estado que reside na atuação linear da diplomacia brasileira. Isto porque é justamente essa ferramenta que permite a permanência do Brasil como tal em face do difícil jogo internacional (CORRÊA, 2000).

Em princípio, há a questão pertinente à teoria das relações internacionais, mormente à realista, que ajuda a organizar mentalmente o trabalho diplomático, a saber, se de fato existe ligação ou influência da base popular, da psicologia social, de determinado Estado em relação ao corpo diplomático e militar. Há Estados que são mais agressivos externamente em virtude de seu caráter nacional? Em outras palavras, seu belicismo se deve à vontade nacional para ser fazer a guerra?

No entendimento geral sobre esta questão surge classicamente o conceito de interesse nacional como catalisador de parte do comportamento coletivo frente ao Exterior; sendo papel da diplomacia o de defender o interesse nacional. O conceito de interesse nacional, para Raymond Aron, é bastante fluido e não daria conta de responder satisfatoriamente esta pergunta pelo fato de não haver como definir objetivamente o que vem a ser interesse nacional, ainda mais quando se trata de sociedade multifacetada e com grande diversidade (ARON, 1986).

No entanto, há sim a possibilidade de se pensar a existência de ligação cultural entre a base nacional popular e a corporação estatal denominada vitalidade histórica, conjunto de qualidades que qualificam nações. Não se trata de defender interesses frente a particulares do Exterior, mas sim de perceber que o sentimento popular, mais cosmopolita, agressivo ou comedido, pode certamente influir na formação da agenda diplomática do Estado (ARON, 1986).9



3 A viabilidade da América Latina em questão

Nos séculos XVIII e XIX havia fortes dúvidas a respeito da viabilidade dos países latino-americanos e de outros situados nas zonas tropicais do mundo, como a China, a Turquia e a Pérsia. Os literatos pensavam que não seria possível a formação de Estados nacionais contando com povos majoritariamente não brancos. O que significava dizer que além da Grã-Bretanha, França, Alemanha, dos Países Baixos e outros de melhor sorte, não haveria como construir nações, estruturas políticas viáveis, na medida em que a base populacional seria formada por nativos.

De início, a América Latina denotava visão de paraíso perdido para estudiosos europeus, pois na América meridional reinava a inocência dos índios, homens exemplares pela pureza de alma e nos modos que caracterizavam boa convivência social por causa da ausência de cobiça e de vaidade; sentimentos vistos como normais às sociedades europeias. Mas, tais sentimentos de desprendimento a riquezas e ao poder político não chegaram a limitar o espírito nem causou respeito profundo nas potências expansionistas do Velho Continente, passando estas a justificar suas ações sobre as populações consideradas débeis e refratárias à civilização. Para Roberto Ventura: “O homem selvagem e a natureza americana são percebidos de forma ambivalente pelo discurso europeu, que oscila entre a imagem positiva da felicidade natural e inocente dos habitantes de clima fértil, e a condenação dos seus costumes bárbaros” (VENTURA, 1991, p. 22).

Por conseguinte, a concepção negativa sobre a América Latina era atribuída ao fato de que nela não havia desafios e impulsos que promovessem a contínua evolução do colonizador, que se habituara às outrora “benévolas” dificuldades do hemisfério norte, a têmpera dos fortes, onde se desconhecia a luxúria dos territórios tropicais férteis. A relativa comodidade de sobrevivência dos colonizadores por causa das facilidades do ambiente poderia resultar em algo não necessariamente benéfico ao caráter nacional dos povos brancos e nativos.

De acordo com Montesquieu, as populações nativas fugiam daquilo que se esperava da evolução histórica dos homens civilizados, vencer a natureza. Além do Velho Continente poderia haver civilizações antigas, mas despóticas política e socialmente, a exemplo da China; ou populações que não sofreriam por causa do despotismo, por nem haverem ainda chegado àquele estádio de desenvolvimento também não seriam elas civilizadas, seriam primitivas. Era justamente isso que o francês pensava dos índios americanos (MONTESQUIEU, 1993).

Com referência à reflexão, da não realização dos povos americanos em algo superior, pode ser lida com as próprias palavras do autor de Cartas Persas:

Os povos dos países quentes são tímidos assim como os velhos; os dos países frios são corajosos como os jovens (...) Encontrar-se-ão nos climas do norte povos que têm poucos vícios, bastante virtude, muita sinceridade (...) Aproximemo-nos dos países do sul e acreditamos afastar-nos da própria moral (MONTESQUIEU, 1993, p. 248, 250).

Com efeito, Montesquieu havia escrito de modo que o conduzisse à descoberta de leis naturais e sociais pelas quais haveriam de passar os mais variados povos a caminho da evolução humana e do desenvolvimento político, como se houvesse uma teoria geral da sociedade que abarcasse todos os povos, desde os índios da América até os ilustrados europeus (BOBBIO, 1988). Porém, tem de se dizer que a polêmica a respeito da natureza dos povos meridionais, sob governos despóticos, não residia apenas em Montesquieu, tornara-se uma questão intelectual que beirou o Iluminismo no século XVIII e ainda teve seus representantes no XIX.

Havia pensadores que demonstravam simpatia pelo “homem primitivo” americano, considerando sua pureza de alma e ausência de apego à propriedade privada e à cobiça. Por exemplo, Jean-Jacques Rousseau chegou a refletir sobre o tema da boa governabilidade, opinando que a boa administração seria justamente a do acato à vontade geral, da soberania popular, razão de ser de sua política.

Com referência aos nativos, o autor de Do Contrato Social pensara que tais populações ainda não haviam sido “contaminadas” pela sociabilidade do europeu, degenerada pelo apego sem fim à propriedade e à vaidade (ROUSSEAU, 1997). Portanto, o genebrino observava nas primitivas organizações sociais algo de próximo à verdadeira virtude já que haveria igualdade entre os homens, diferente do que se dava nas civilizações avançadas e contaminadas pelo vício.

Diferente de Rousseau, Montesquieu não atribuía valor nenhum aos homens nascidos além da Europa. Já referimos seu pensamento em que concebe a degeneração do clima sobre os organismos vivos, legitimando uma ideologia da escravidão e contra povos despreparados para se governarem, considerando que sua governabilidade só poderia se efetivar pela tirania e não pela democracia. Ventura observa:

Mas apesar de condenar o cativeiro, seu modelo climático justificaria a escravidão nas sociedades extra-européias a partir de condições ambientais. A tensão entre as idéias ilustradas e a sua aplicação no ultramar legitimaria o sistema colonial pela crença na superioridade da Europa sobre os demais povos (VENTURA, 1991, p. 21).

A apresentação do clima tropical, refratário ao progresso das populações meridionais, foi o ponto de partida para o empenho que estudiosos europeus tiveram para fomentar a dúvida sobre possibilidades de viabilidade do Brasil. O problema do clima também havia sido o fator inconveniente para a obtenção de saúde coletiva e ordem sanitária. A própria capital do Império, zona urbana nos trópicos, era indicadora de país doente para seus naturais e para os estrangeiros. Esse era o juízo de Artur de Gobineau, diplomata francês no Rio de Janeiro.

Gobineau, como estudioso das ciências naturais, tinha o pensamento de que havia problemas de extrema dificuldade de serem encarados no Brasil. Não eram apenas questões climáticas, contra a saúde pública, mas eram também problemas étnicos que minavam a boa energia construtora das classes dirigentes. A saber, as elites governantes que deveriam ter a nobre missão civilizadora não conseguiam concretizar a contento sua tarefa salvadora em virtude das turbas, das mistura de raças que contaminavam moralmente as elites dirigentes (VENTURA, 1991).

Assim, pode-se demonstrar que a ótica de Gobineau avolumava a corrente defendida pelos que acreditavam que no Brasil existia uma sub-raça de mestiços, feita do preguiçoso índio, do boçal negro e do estúpido português. Em consequência, a opinião do escritor francês a respeito da formação nacional era a de que o país seria malogrado em seu desenvolvimento porque a tendência da miscigenação não seria a esterilidade, em analogia a mulas, mas sim a grande fertilidade: “multidão de macacos”. (GOBINEAU, apud VENTURA, 1991).

De fato, pode-se sublinhar, com Lilia Schwarcz, que Gobineau trouxe a teoria do modelo de racismo para o Brasil; racismo proveniente de preocupação científica que o autor havia expressado na própria França contra as classes populares, que poderiam desvirtuar o caminho escolhido pelas elites dirigentes. Com efeito, revoluções sociais apoiadas no povo, como a Francesa de 1789, que só serviriam para macular a missão da nobreza, constrangida pela ascensão das massas (SCHWARCZ, 1993).

Em outro aspecto, é certo que não havia unanimidade entre os teóricos sociais com relação à miscigenação presente, em particular, no Brasil. Se havia autores com opinião negativa - Gobineau e Louis Agassiz - havia também homens que demonstravam otimismo aos jovens Estados latino-americanos, sobretudo por causa de suas particularidades naturais, fatores de diferenciação frente à Europa. Os naturalistas alemães Alexandre Von Humboldt e Carl Von Martius destacam-se ao contrariar a visão pessimista que os primeiros construíram.

Humboldt havia divergido dos teóricos sociais europeus do século XVIII por considerar que seus escritos eram mais resultado de preconceitos do que apurado estudo. Alguns nunca haviam saído de casa. O alemão percebera que havia antigas civilizações pré-colombianas desprezadas pelos europeus, que negavam ter havido de fato civilização antes dos colonizadores. Sobre o preconceito anticolombiano, escreve Humboldt: “Essas idéias se propagam facilmente porque lisonjeavam a vaidade dos europeus, ligando-se a hipóteses brilhantes sobre o antigo estado de nosso planeta” (HUMBOLDT apud VENTURA, 1991, p. 31).

O segundo naturalista, Martius, influenciou muito os estudos e o pensamento social brasileiro, ele foi um dos primeiros a ver a originalidade do jovem país pela miscigenação, dando a visão de que começava a existir nova experiência social, diferente da Europa, que entrara em esgotamento sobre novas perspectivas. Martius pensa: “No gozo de noites encantadoras e pacíficas, lembra-se o europeu recém chegado, com saudade, da sua pátria até que a natureza tropical se vai tornando para ele uma segunda pátria” (MARTIUS apud VENTURA, 1991, p. 31).

Também há a participação teórica de Ratzel, para quem o destino dos povos é o caminho natural para a miscigenação, inclusive quando se trata de territórios grandes e novos de formação, como o Brasil. De fato, o geógrafo alemão tinha gênese filosófica kantiana, segundo a qual as diversas etnias seriam oriundas de apenas um único tronco humano, monogenista (RATZEL, 1990); fato que contrariava os racistas e partidários da existência da poligenia, cuja crença consistia em que as etnias tinham origens distintas e não se cruzavam: caso isso acontecesse, haveria enfraquecimento do homem por meio de tipos inferiores.

O interesse nos estudos sobre povos tropicais chamava atenção de autores pessimistas em maior destaque no século XVIII. Posteriormente, na segunda metade do século XIX, grupo desses autores teve de abrir espaço para autores divergentes, que chegaram a ver viabilidade em se criarem civilizações bem estabelecidas além da Europa. Ponto interessante, uma vez que marca a ascensão das ciências humanas - a exemplo da geografia - cujos estudiosos, como Ratzel, procuraram refutar leituras “distorcidas” sobre a Ásia e a América Latina, até retomando alguns pontos legados por Humboldt (RATZEL, 1990).

É certo que o trânsito dessas ideias no Brasil, como no evolucionismo, naturalismo e positivismo, não ocorreu sem conflitos. Autores da qualidade de Silvio Romero tornaram-se estudiosos das correntes intelectuais europeias, convocando-as para melhor compreender os problemas nacionais, refutando ou adotando-as conforme as conveniências.

É ponto pacífico que autores brasileiros debateram o pensamento social de seu tempo e foram por ele influenciados. Mas a novidade é que aqueles intelectuais não foram apáticos perante as pregações. Vale dizer, se não havia instrumentos alternativos, como aconteceu mais tarde com o marxismo, havia ao menos o senso crítico que os autores brasileiros utilizaram para adaptar os pensamentos importados às condições sociais e culturais do Brasil.

Esse foi o esforço de Tobias Barreto, Silvio Romero e outros que formaram o grupo chamado Escola do Recife, em 1880. Os esforços do mais destacado membro desse grupo, Silvio Romero, serão justamente para compreender os problemas nacionais e procurar sua viabilidade como Estado nacional, frente aos conflitos entre vizinhos latino-americanos e as grandes potências imperialistas, que poderiam por a construção do Brasil em jogo. A intenção do sergipano era apontar os problemas a que a diplomacia do país não podia se furtar: entender culturalmente o Brasil e utilizar seus valores como instrumento de inserção internacional (ROMERO, 1979).



4 O Brasil e a diferença nacional

A inserção internacional do Brasil teria de ser imaginada a partir do instante em que conhecesse sua própria identidade nacional. A saber, para que o Brasil angariasse lugar de destaque no sistema internacional de Estados seria mister resolver antigo impasse de relacionamento étnico entre a elite sociocultural branca, índios e negros, portanto, entre as classes dirigentes e o povo. O bom andamento da questão social seria urgente para a identidade cultural brasileira, que poderia ser apresentada como diferenciação nacional no âmbito das relações internacionais.

A postura de diferenciação nacional, no campo internacional, seria feita pela admissão do Brasil de sua característica de país mestiço, híbrido, em uma experiência positiva de comunhão de povos que se juntaram para formar a primeira civilização dos trópicos, de acordo com a leitura de Gilberto Freyre, com sua militância em prol de uma democracia racial, do mesmo tipo que havia sido concebida por Silvio Romero, décadas antes de Casa Grande & Senzala (ROMERO, 1979).

Todavia, a questão nacional não residia apenas aí. Havia igualmente a posição vulnerável do Brasil perante as grandes potências, expansionistas, como a Alemanha Imperial, que procurava novas colônias e poderia se aproveitar da situação brasileira de pacífico. Na ótica de Romero, o Rio de Janeiro haveria de se esforçar muito para solucionar o problema de segurança nacional. Dentre os problemas se destacava o vazio demográfico.

O vazio demográfico, principalmente na antiga Região Sul, poderia atrair a atenção de Berlim em virtude da pouca resistência. A lenta, mas constante, imigração germânica para os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul oferecia grande perigo à unidade nacional. Isto porque, graças à engenhosidade e avanço cultural do alemão, a imigração poderia promover uma futura exigência de reorganização da Alemanha colonialista sobre o Brasil meridional, atraído pela força da industrialização e pelo apelo cultural da mãe pátria. Seguindo com Romero:

O Deutschtum pelo mundo afora é uma aspiração, ousada sem dúvida, mas irrealizável no sentido político, ao que se pode supor; no Brasil, infelizmente, para o nosso ponto de vista nacional, ele é uma realidade... Cresce todos os dias e há de chegar, não muito longe, a ser ameaçador. Ninguém se iluda com as blandícias e negativas da diplomacia (ROMERO, 1979, p. 242).

Portanto, o preenchimento do vazio demográfico, em zonas limítrofes, transformara-se em questão de Estado. A resolução imaginada pelo antigo professor do Recife seria a aproximação cultural e diplomática do país a Portugal, a ex-metrópole, para que o Brasil não deixasse de aproveitar os valores humanos que o lusitano havia espalhado pelo mundo. O homem português tornar-se-ia essencial para o cimento da identidade nacional, principalmente em razão da ausência de sentimentos de superioridade racial do ibérico.

Por isso o governo brasileiro, na jovem República, deveria construir planos de atração do imigrante português, ainda mais numa época em que o lusitano era desacreditado por causa de sua origem latina e árabe. Ao invés de negligenciar essa forte civilização, o Brasil deveria superar outros pontos de atração da imigração portuguesa, como os Estados Unidos e o Canadá, países que o português escolhera como alternativa ao Brasil.

E por que atrair o português? Porque foi pela obra do gênio diplomático lusitano, com Alexandre de Gusmão em 1750, que o país conseguiu conservar sua integridade territorial em dimensões continentais que o Brasil herdou em 1822. O papel aglutinador do idioma, as instituições legadas e a facilidade de montar canais de relacionamento racial, antes do religioso, permitiram a existência do Brasil com imensa massa territorial que passou a ter após a independência, mesmo com as diferenças e problemas regionais, assim prefere Oliveira Lima (1996).

A ausência de projeto político junto a Portugal seria prejudicial ao futuro e à integridade nacional, isto porque o elemento português era, talvez, o único povo europeu que não excluía culturalmente outros povos, até os colonizados; ao contrário, Lisboa fazia questão de alimentar contatos que moldassem intercâmbios para que houvesse interesses comuns. Essa era a característica colonial lusitana que não deveria ser perdida após a independência:

É (a imigração) que mais nos convém, porque teve o intuito superior de aliar-se às raças que encontrou no país, consideradas por ela fundamentalmente colaboradoras e amigas, e as quais, dando-lhe a língua, equiparou-se a si, e chamou ao aconchego de suas famílias, à co-participação nos trabalhos diuturnos, nos esforços de todas as horas (ROMERO, 1979, p. 211).

É possível extrair da produção intelectual do “pensamento recifense” os empenhos pela valorização, não apenas da miscigenação, mas também da imigração lusitana, considerada pelas elites brasileiras algo menor em razão da decadência política e econômica de Portugal. Decadência que havia chamado a atenção de Gilberto Freyre que não desejava ver tão promissora história de realizações findar subordinada ao poder britânico, no século XIX, e depois se desmanchar pelos caminhos da Guerra Fria, no século XX (FREYRE, 1981).

O que poderia ser a saída para o desenvolvimento social e econômico do Brasil, no prisma das elites governantes, seria a imigração de gente da Europa setentrional, especialmente da gente alemã. Aliás, a decadência do mundo latino, particularmente de Portugal, era atribuída ao fato de que o país lusitano era mais uma junção da cultura africana e da árabe do que europeia propriamente dita, marca que definia a ausência de instrumentos intelectuais e morais de alto nível – sempre em comparação com outros países, com a Grã-Bretanha, Alemanha e Holanda.

Não se pode afirmar que Silvio Romero houvesse abandonado as reflexões raciais como condição de desenvolvimento dos países, mesmo que de modo residual, até porque esse tipo de reflexão era esperado nos debates científicos daquela época. Há partes de seu trabalho em que é defendida uma espécie de “hierarquia racial” em que o português viria em primeiro lugar, logo seguido do negro e do índio no concurso do progresso, o que permite ver a obra de Romero como desejosa do branqueamento do Brasil, conforme estudo de Lilia Schwarcz sobre o impacto das teorias raciais nas instituições educacionais brasileiras (SCHWARCS, 1993).

Contudo, pode-se perceber que há outros fatores que concorrem a perturbar a posição brasileira na esfera internacional, por exemplo, os de ordem política e social. Em princípio, são questões nacionais que atrapalham o bom destino do Brasil: o forte desempenho das oligarquias no âmbito político e a ausência de verdadeiro projeto de Estado. Se, porventura, houve obstáculos ao desenvolvimento do Brasil, não devem ser imputados ao traço étnico ou racial, mas sim a políticos e sociais que grassam por falta de real conduta progressista (ROMERO, 1979).

A falta de projeto de Estado pode ser simbolizada pela não capacitação de instrumentos de poder nacional: ausência de corpo diplomático ativo e preparado para as grandes questões internacionais, não existência de uma marinha e exército preparados, falta de incentivo à educação pública e à ciência e, por fim, o desequilíbrio econômico-industrial. Tal fato significa que o Brasil deveria exercer sua experiência, não poderia pecar pelo excesso de mimetismo, um mal nacional que anula a personalidade do homem brasileiro. Mas isto não quer dizer que não haveria exemplos a servir de inspiração, como o Japão da Restauração Meiji.

Fica patente que a partir da Escola do Recife emergem esforços para valorizar a mestiçagem brasileira e procurar fazer da sociedade de homens híbridos um fator de diferencial positivo. Claro que tal empenho não foi imune a contradições e conflitos em meio a um país em construção e ainda sem personalidade que pudesse ser expressa como seu verdadeiro caráter nacional, meio pelo qual o Brasil seria identificado diplomaticamente. O uso do caráter nacional no exercício da diplomacia significava exaltar as qualidades consideradas imanentes ao brasileiro, o gosto pela contemporização, a escolha por meios pacíficos, a facilidade de conviver com as diversas raças e a hospitalidade peculiar (LAFER, 2004).

Se no século XIX havia descrença na viabilidade do Brasil em virtude de sua população ser fruto de mistura de raças consideradas inferiores, por isso o concurso do homem europeu setentrional para elevar física e moralmente o novo país, agora, nos primeiros anos do século XX, o negócio é do diferencial nacional, um item que agregue qualidade na atuação diplomática brasileira. Sob esta ótica, o país mostra externamente aquilo que ele é na esfera doméstica, uma experiência positiva que agrega culturas e etnias diversas. Daí a legitimidade para defender premissas que estão em correspondência com seu povo, como a condenação ao racismo.



5 As bases culturais da diplomacia brasileira

As condutas imprimidas pela diplomacia brasileira no contexto internacional, em parte, são oriundas de bases culturais e institucionais da sociedade brasileira, de seus valores e visões de mundo. No senso geral, a Chancelaria procura demonstrar que representa as peculiaridades populares do Brasil, acreditando na diferenciação nacional de um povo híbrido e desprovido de ações óbvias. O Brasil é dotado de constantes novidades porque o povo também assim o é (FERREIRA, 2001).

Com efeito, apresenta-se uma identidade nacional homogênea à primeira vista, mas constituída de várias correntes étnicas que se mesclam e moldam o comportamento psicossocial de uma unidade política que busca transmitir imagem de pacífica e ordeira no que tange à mobilidade social e cultural entre povos que formam o Brasil. Além disso, um comportamento não agressivo e com sentimento de superioridade perante outros países e seus valores, preferindo sempre a via diplomática para resolver conflitos. Para Gelson Fonseca Junior:

(...) a identidade marcada pelo sentimento de especificidade e que tende a aceitar a especificidade do outro, sendo rígida, não pela idéia de influenciar, mas pela de compartilhar, e deve levar ao que poderíamos chamar de encontros iguais, ao respeito pelo outro, à construção comum, à combinação de legitimidade e não a imposições unilaterais (FONSECA JUNIOR, 1998, p. 269).

As ideias de peculiaridade amistosa do brasileiro, seu caráter nacional, também estão presentes na literatura, sobretudo na produção modernista que teve início nos primeiros anos do século XX e chegou ao ápice nos anos 1920 com aspectos sociais e regionais que fazem parte dos temas retratados. Dentre os mais conhecidos livros do movimento tem-se A Bagaceira, de José Américo de Almeida, que chegou a ser ministro no primeiro governo de Getulio Vargas.

Ainda nesse propósito, observa-se que no pensamento do escritor e diplomata Graça Aranha há também a preocupação que se compreenda a cultura popular e seus conflitos de percepção. Em Canaã, o autor - que também se formou no Recife - marca esforços para demonstrar a viabilidade do Brasil como país social e culturalmente homogêneo em oposição ao pessimismo da época, em 1902. Em outras palavras, um país em que não houvesse exclusão de etnias por causa de graus diferenciados de desenvolvimento econômico entre estas, mas sim com sua conjugação a fim de se influenciarem mutuamente. Ao fazer analogia com a formação de uma nova raça que resulta da mistura de romanos, gauleses e germanos, é licito reproduzir Graça Aranha em trecho mais demorado. Segue:

As raças civilizam-se pela fusão; é o encontro de raças adiantadas com raças virgens, selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização. O papel dos povos superiores é o instintivo impulso do desdobramento da cultura, transfundindo de corpo a corpo o produto dessa fusão que, passada a treva da gestação, leva longe o capital acumulado nas infinitas gerações. Foi assim que a Gália se tornou França, Germânia em Alemanha (GRAÇA ARANHA, 1989, p. 25).

Por conseguinte, há entre essas características a imagem advogada por Gilberto Freyre que apresenta a formação nacional brasileira como sendo a base pela qual emerge uma civilização única. A única civilização dos trópicos, resultante da imbricação de povos que se juntam para algo superior, um país em que não há sentimentos de superioridade racial, em que a vida lusitana permitiu a influência da cultura nativa e a africana de teor mouro (desde que não contestasse a preeminência católica). Ou seja, o Brasil é país de mobilidades.

Segundo parecer do sociólogo pernambucano, foi a mobilidade social e cultural que as correntes étnicas e culturais gozaram no Brasil que possibilitou a conservação e defesa da grande colônia portuguesa na América. Defesa que, de fato, não podia contar com o poder militar da metrópole para protegê-la contra excursões das potências rivais, por exemplo, dos Paises Baixos. Quem se arrogou defender o Brasil não foi Portugal, mas sim os brasileiros (FREYRE, 1989). Este fato ajuda a montar ideologicamente a ascensão do exército como arma popular e formada pela incursão das três raças que se uniram para defender o Brasil.



6 Diplomacia e identidade nacional

No Brasil, desde a colonização, a conservação da integridade territorial e o teor de civilização que o torna diferente perante outras colonizações, legada pela miscigenação, contribuem para alimentar o conceito de diplomacia com todas as implicações políticas e culturais que o termo emprega, como a defesa do interesse nacional não definido a favor de terceiros, mas sim, interesse que se torne geral, que contemple a vida do país em todos os seus parâmetros.

De início, essas facetas nacionais credenciam o Brasil para que milite em prol da igualdade jurídica e política entre os Estados nacionais, ação que procura manter nos organismos das Nações Unidas para angariar apoio aos Estados em desenvolvimento ou para assumir-se contra atitudes consideradas negativas, que contrariam a boa prática da democracia e do direito internacional.

Esses casos negativos foram encontrados em passado recente, nos anos 1970, e também atualmente, nas posturas racistas da África do Sul e de Israel. O primeiro deles, com o exercício de segregação racial do apartheid; o segundo, com a utilização do sionismo em detrimento dos direitos dos palestinos à autodeterminação. Sobre esses desrespeitos, a diplomacia brasileira não foi omissa, ao contrário, sua palavra foi registrada nas Nações Unidas. Na condição de presidente da República, Ernesto Geisel manteve intensa comunhão com a Chancelaria (GEISEL, 1997).

A partir do exposto é possível afirmar que a diplomacia brasileira se pautaria, perante a busca de igualdade e de respeitabilidade a todos os povos e Estados em situação de inferioridade econômica e política, em uma realidade internacional constituída de forma assimétrica pelas grandes potências. Um sistema de Estados nacionais em que a possibilidade de se instituir aberturas e canais de desenvolvimento regular em países periféricos tende a ser pequena e bem controlada, pois se trata de um arranjo “oligárquico internacional” (ARON, 1986).

A observação crítica e com senso histórico do Itamaraty (a Chancelaria) passa a ser cada vez mais presente nos discursos diplomáticos à medida que a Chancelaria ganha evidência como burocracia especializada, mas não isolada da realidade nacional. A reforma administrativa do Ministério, desde os anos 1950, possibilitou o surgimento de nomes que marcam profundamente sua atuação exterior. Dentre os nomes importantes há o de Afonso Arinos de Mello Franco.

Afonso Arinos teve papel de forte impacto no Ministério das Relações Exteriores do governo Jânio Quadros, em 1961, momento em que foi adotada a Política Externa Independente (PEI) sob sua influência e de Santiago Dantas, e com suporte intelectual do professor do Instituto Rio Branco, José Honório Rodrigues. As propostas da PEI convergiam com o ideário de uma política externa solidária aos países pobres e, ao mesmo tempo, criticavam qualquer tentativa de domínio colonial das grandes potências.

A proposta de não intervenção, os compromissos pelo desenvolvimento e pela reforma das estruturas político-econômicas internacionais, herméticas ao Terceiro Mundo, fora a tônica daquele programa diplomático que também frisava sua negação às medidas de segregação, sobretudo devido ao papel que o Brasil poderia representar nessa esfera de contestação, o de pais pobre e com população majoritariamente formada por povos da África e Ásia (ARAÚJO, 1983).10

Afonso Arinos havia comentado a respeito da transformação que o programa diplomático brasileiro sofrera na passagem dos anos 1950 para os primeiros anos de 1960. O ex-chanceler sublinha que o Itamaraty nunca foi míope a respeito dos problemas da África e da Ásia. Entretanto, havia a figura um pouco intimidadora de Portugal, cuja diplomacia era vista pela diplomacia brasileira como possuidora de sofisticado aprendizado, assim, que não ficaria bem para o Brasil que emitisse sugestões a respeito de tema sobre o qual Lisboa navegava há séculos e com desenvoltura. Neste sentido, caberia à PEI atualizar a diplomacia brasileira sobre novas questões, como a descolonização (FRANCO, 1981).

A fazer comentários que contrariavam Portugal, sob o conservador governo Salazar, que ainda se firmava para garantir seu império colonial, a diplomacia brasileira começava a pregar os benefícios da independência das ex-colônias em um ambiente de paz e racionalidade para aceitar uma realidade que se fazia imperiosa. Os desdobramentos políticos desta pregação poderiam fazer com que o Brasil se tornasse ponto natural de convergência cultural do mundo português, que se desagregava. Aqui se considera, em parte, o pensamento de Gilberto Freyre sobre a formação de bloco, o luso-tropicalismo, com símbolos e valores de uma benévola experiência civilizatória que desconhece o racismo e qualquer segregação de povos. E não seria demais dizer que o Brasil herdara tal dádiva (FREYRE, 1981).

Essa posição no pensamento diplomático nacional marcou a opinião do chanceler do governo Castelo Branco, Vasco Leitão da Cunha, sobre a emergência do Brasil na condição de centro aglutinador da cultura luso-brasileira após o processo de descolonização, que não chegou a ocorrer, dentre outras coisas, pelos ressentimentos ideológicos que permeavam as independências africanas. Vale dizer, ressentimentos que tocavam mais a situação vivida pelo Brasil, cujo percurso, a partir de 1964, com o governo Castelo Branco, foi o de por o Brasil no teatro das implicações geopolíticas. Mesmo com esses dilemas, escreve o diplomata:

Deveríamos ter cuidado disso há muito mais tempo, antes que a situação psicológica das antigas províncias ultramarinas tivesse chegado a ponto de ruptura. Poderia ser uma comunidade luso-brasileira de nações, com sede no Rio de Janeiro. Quem gostou dessa minha idéia foi Gilberto Freyre (CUNHA, 1981, p. 54).

Por outro lado, de forma menos lírica e mais direta, foi a compreensão do ministro Araújo Castro a favor dos países pobres do Terceiro Mundo, prejudicados pela ausência de projeto mundial de desenvolvimento que alimentasse o diálogo entre o norte e o sul. A grande crítica era a de que o montante que poderia ser usado para combater a pobreza era amplamente direcionado para a corrida armamentista das grandes potências, na clivagem leste e oeste.

Na militância em prol do Terceiro Mundo, Araújo Castro utilizava a tipologia dos “Três D”, cujo centro era o de que o problema primordial das relações internacionais não deveria ser pautado pela Guerra Fria, com o equilíbrio do terror, mas sim por meios da resolução de três questões cruciais: 1 – o desenvolvimento econômico equânime e justo; 2 – a descolonização de áreas que ainda estavam sob o poderio metropolitano e 3 – a arregimentação de forças que cooperassem a favor do desarmamento. Além disso, Araújo Castro expressava a posição da diplomacia brasileira contra a ingerência das grandes potências “levantando muros” entre os Estados industrializados e os periféricos sem propor algo que valesse a pena (CASTRO, 1981).

Com respeito à segregação provocada pelo regime reconhecidamente racista da África do Sul, Araújo Castro afirmou em seu pronunciamento sobre o assunto na Assembleia Geral das Nações Unidas:

O Espírito e o sentido de nossa posição são claros e límpidos. O Brasil repudia, frontalmente, a política do apartheid, em todos as suas formas e manifestações. Assim, fazendo, estamos sendo fieis só às nossas tradições, como a nossa história e a nós mesmos (CASTRO, 1981, p. 125).

Por conseguinte, o histórico da diplomacia brasileira deixa claro o fato de que esse serviço público não se descaracteriza conforme novas circunstâncias internacionais, mudanças no sistema de Estados, como o fim da Guerra Fria, ou em virtude de transformações do regime político brasileiro, do autoritarismo à redemocratização, reflete o ex-chanceler do governo Fernando Henrique Cardoso, Luiz Felipe Lampreia (LAMPREIA, 1999). Vale dizer, histórico tradicional de política exterior na qual o Brasil defende posições básicas perante foros internacionais tanto sob o governo Ernesto Geisel, no regime autoritário, quanto no democrático de Fernando Henrique Cardoso ou de Lula da Silva, na atualidade, a saber: 1 – respeito à autonomia nacional dos Estados, 2 – oposição a qualquer manifestação de racismo, 3 – respeito às normas acordadas pelo direito internacional, 4 – desenvolvimento como forma de diminuir injustiças sociais, 5 – desarmamento geral e 6 – valorização do multilateralismo.



7 Considerações finais

O apego ao direito dos tratados em alternativa a conflitos armados e a um ambiente cultural-popular em que a paz é imperativa não chega a apagar, evidentemente, o registro de guerras em que o Brasil participou, vide a Guerra do Paraguai, de 1865 a 1870, e a segunda Guerra Mundial, em 1942. Desse modo, para José Honório Rodrigues e Ricardo Seitenfus, tem de se reparar que o histórico de conflitos militares aponta para o fato de que a participação brasileira contrariou as clássicas razões imperialistas que impulsionam os Estados à guerra, com conquistas de recursos econômicos e do espaço vital (RODRIGUES et SEITENFUS, 1995).

Em continuação, as guerras que aconteceram com participação do Brasil também não foram pela vontade de uma burocracia especializada, diplomatas e militares, como núcleo privilegiado de poder estatal, que procura angariar prestígio. Prestígio que, no âmbito da política internacional, pode ser encontrado nos conflitos que, quando bem resolvidos, não deixam de agradar aqueles que deles tomaram parte, pois reconhecidos por seus méritos.

Com Vasco Leitão da Cunha temos que, se o Brasil participou da Segunda Guerra, em 1942, o fez porque o povo o pressionou a tal iniciativa: “foi o povo que declarou a guerra em 42”, fazendo com que a política externa de Getúlio Vargas tomasse partido dos aliados (CUNHA, 1981, p. 39). Ainda de acordo com o diplomata, o Brasil teria de lutar contra o Eixo por causa das implicações políticas existentes nos países que viviam sob regimes nazista e fascista.

O que se apresentava, para Cunha, é que havia questão racial naqueles países que não deveria ser indiferente ao Brasil. As perseguições a minorias étnicas, judeus e outros, causaram espanto à população brasileira. O malogro de experiências democráticas por que o Brasil passou no Estado Novo, por exemplo, não chegou a diminuir a sensibilidade nacional por causa da censura à imprensa; isto porque Vargas, embora governando autoritariamente, não expressava comportamento antipopular nem baseava seu poder em diferenças étnicas ou de classe, como na Alemanha: ao contrário disso, quer a fonte criadora fosse negra ou branca, Vargas havia direcionado a atenção para manifestações culturais populares como o carnaval, a música e o teatro, ajudando, de certa forma, na criação artística de autores célebres nas artes cênicas, a exemplo do que se deu com Nelson Rodrigues que começou encenando Vestido de Noiva com o apoio do governo (CASTRO, 1993).

Para Gilberto Freyre, em Casa Grande & Senzala, a escalada de problemas religiosos, como a Inquisição contra judeus e mouros, foi neutralizada no Brasil colonial por meio de ato original: a invenção do chamado “cristão novo”. De modo mais estético que por fé, adotando a Igreja de Roma os judeus e mouros poderiam continuar normalmente com suas vidas (FREYRE, 1989). O que esse parecer representou foi a original saída luso-brasileira para conservar o equilíbrio social – homens de negócios convertidos à igreja para continuarem a fazer seu comércio sem o incômodo da Igreja.

Talvez em ambiente social mais homogêneo, como a Rússia dos czares, não houvesse espaço para tal engenharia religiosa, provocando meios de segregação, sendo o pogrom o mais conhecido. Por vez, o que fica claro nesta investigação é o gosto de se exercitarem modos tipicamente luso-brasileiros, o pacifismo, a contemporização e a conciliação; modos que nem sempre cumprem papel conveniente para a transformação que se quer para a democracia, mas isso já seria outra questão com importância suficiente para análise em outro texto.

A aversão a soluções violentas de grande envergadura é uma amostra do comportamento que, a fim de que se chegue a bom termo, estabelece sua preferência pela transigência e não por situações de violência. O cimento que une culturalmente o Brasil pela cultura de origem lusitana foi analisado e utilizado por alguns teóricos brasileiros com o fim de se tornar uma espécie de símbolo do país, da mesma forma há na Itália ou na França uma cultura que lhes é representativa. Assim, autores do quilate de Gilberto Freyre têm funções intelectuais orgânicas, à Gramsci, que serve de instrumento de confecção de uma diplomacia que procura representar o sentimento nacional.


Referências


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1No âmbito da sociologia e da antropologia tem sido muito tortuoso utilizar o conceito de raça para designar determinada nacionalidade. Por isso, preferimos o conceito de etnia, pois esta não se prende a critérios biológicos, mas sim na relação entre o ser de uma determinada área geográfica com a cultura que ele expressa, absorve e reinventa. É dessa “dialética” que nasce a peculiaridade cultural dos povos, bem como seus valores e concepções de mundo (SEYFERTH, verbete Etnia, 1987).

2Em livro sobre política externa brasileira, Oliveiros Ferreira toma caminho análogo, buscando compreender a relação entre diplomacia e raça, como prefere o autor. Assim, Oliveiros escreve que a relação: “(...) pode ser encontrada, isso sim, nos pequenos fatos da vida cotidiana, cuja teia é construída devagar, junto àqueles que ocupam posições de poder ainda que baixas, e se perceberá despontar, hoje aqui, amanhã acolá, a idéia da raça brasileira e sua expressão diferenciada de cultura da qual todos se orgulham (...)” (FERREIRA, 2001, p. 72).

3Uma amostra de que não há, em toda sua linha histórica, comportamento compacto e coerente em face de questões étnicas e raciais pode ser vista na figura do Barão do Rio Branco, nos primeiros anos do século XX. Dono de gênio político-estratégico, Rio Branco não conseguiu escapar de algumas visões típicas do seu tempo, como o gosto pela eugenia. Apesar de todo o mérito que teve, o Barão imaginava que a modernização nacional teria de passar pela melhoria dos tipos brasileiros (RICUPERO, 2002).

4Norberto Bobbio faz estudo sobre a percepção que alguns clássicos do pensamento político têm em relação às formas de governo. Montesquieu e Hegel tendiam a ser pessimistas com grandes Estados tropicais (na época China, Turquia e Pérsia), pois acreditavam que as áreas geográficas correspondentes a esses Estados dificultassem a construção da virtude e da democracia, só sendo possível que fossem governados pelo despotismo, assim, que em países com suas características geográficas a economia só poderia ser baseada na escravidão. Ao contrário disso, países de clima temperado, europeus do norte, eram propícios à democracia e a economia moderna (BOBBIO, 1988).

5Nelson Werneck Sodré era da opinião de que o climatismo, o biologismo e outras pregações europeias da época eram instrumentos ideológicos de dominação que penetravam na cultura formal brasileira, fazendo com que os próprios intelectuais brasileiros conflitassem, visto que uma parte deles absorvia os ensinamentos externos, ao passo que outros procuravam oferecer resistência e alternativa às sugestões internacionais. Isto marca o conflito mental de alguns intelectuais brasileiros que, às vezes, estudavam ideias externas para superá-las no futuro, caso de Silvio Romero (SODRÉ, 1984).

6No livro Caráter Nacional Brasileiro, Dante Moreira Leite faz importante investigação sobre o desenvolvimento do tema no Brasil a partir do padrão intelectual dos séculos XIX e XX (LEITE, 1983). Trata-se de tema demasiadamente complexo para ser resumido neste espaço; no entanto, para cumprir o mínimo de informação, há parcos comentários.

7Neste quesito, Antonio Gramsci havia escrito que um dos pilares que seguram a construção do moderno Estado nacional é a identificação de uma literatura e idioma que possam ser absorvidos pelo povo e, a partir daí, considerados nacionais (GRAMSCI, 1985).

8Eduardo Prado escreve que o Império brasileiro havia oferecido largo período de progresso e estabilidade política, uma qualidade em face das crises e golpe-de-Estados que grassavam na Americana Latina republicana. A qualidade política do Império existia pela grandeza moral de Pedro II e pelas instituições culturais brasileiras. Em diplomacia, a orientação imperial era para concentrar atenções na Europa Ocidental, pela sua tradição e importância cultural, política e econômica. Já na América do Sul o único ponto realmente importante era constituído pela Bacia do Prata, Buenos Aires e Montevidéu. Em toda a América se atuava somente pela formalidade (RODRIGUES et SEITENFUS, 1995). Por isso, a crítica de Prado à diplomacia republicana que queria inverter a lógica diplomática nacional para botá-la em desgastes com os vizinhos conturbados e a falta de nobreza dos Estados Unidos (PRADO, 1980).

9O interesse nacional, em Hedley Bull, pode ser percebido não como valor de setor ou de classe social, mas sim quando o Estado ideologicamte define o que deve ser o interesse nacional fazendo-o ser aceito por toda a expressão política, econômica e social (BULL, 2002).

10Embora o governo Jânio Quadros tenha sido conturbado por motivos internos, houve quem tivesse apreço por sua diplomacia independente. Sobre isso é interessante reproduzir escrito de autor que gozou muito prestígio no campo da libertação nacional, Frantz Fanon: “O presidente brasileiro Jânio Quadros, numa declaração de importância histórica, acaba de afirmar que seu país defenderá por todos os meios a Revolução Cubana” (FANON, 1979, p. 77).

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