AÇÃO, RELEVÂNCIA E INTERPRETAÇÃO SUBJETIVA1





ACTION, RELEVANCE AND SUBJECTIVE INTERPRETATION





Hermílio Santos



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Resumo

Paralelamente às abordagens mais influentes na sociologia brasileira, como as diversas vertentes de estruturalismo, pós-estruturalismo e teoria crítica, outras perspectivas analíticas têm se mostrado profícuas para a compreensão de aspectos da realidade brasileira, entre elas destacam-se aquelas que têm como ponto de partida a compreensão de que os indivíduos encontram-se como que compelidos cada vez mais às escolhas e à definição do estilo de vida. A análise sociológica das narrativas biográficas é, dessa maneira, promissora também na sociologia brasileira. O artigo recupera o conceito de relevância em A. Schütz como elemento-chave para a compreensão das interpretações subjetivas do mundo da vida, em uma teoria da ação que tem se mostrado influente tanto no debate teórico como também no desenvolvimento de metodologias para a pesquisa empírica. Ao recuperar elementos fundamentais da sociologia de Schütz, o artigo explicita as bases epistemológicas para uma teoria da ação, bem como para a pesquisa empírica, voltada à compreensão das interpretações subjetivas do mundo da vida.



Palavras-chave

Ação. Relevância. Subjetividade. Narrativas biográficas.

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Abstract

Parallel to the most influential approaches in the Brazilian sociology, as the various structuralism perspectives, pos-structuralism and critical theory, other analytical perspectives have been showed proficuous for the comprehension of aspects of the Brazilian reality, among them is worth mentioning those that have the starting point the comprehension that individuals are as if they are more and more compelled to choose and to define the life style The sociological analysis of biographical narratives is, this way, promising also for the Brazilian sociology. The article recovers the concept of relevance in Alfred Schutz, as a key-element for the understanding of subjective interpretations of life-world in a theory of action that is showing to be influential in the theoretical debate as well as in the development of methodologies for the empirical research. Recovering the key elements of the Schutzian sociology, the article makes clear the epistemological foundation for a theory of action, as well as for the empirical research oriented to the subjective interpretations of the life-world.



Keywords

Action. Relevance. Subjectivity. Biographical narratives.



1 Introdução



São crescentes os desafios colocados aos indivíduos nas sociedades contemporâneas (BECK, 2000; BECK e BECK-GERNSHEIM, 2002). Esses desafios não se limitam aos aspectos materiais, dados, por exemplo, pelas incertezas relacionadas à inserção no mercado de trabalho, assumindo crescentemente uma dimensão simbólica, expressa, por exemplo, pela exigência de uma definição cada vez mais precoce dos contornos que devem assumir as próprias identidades. Os indivíduos encontram-se como que compelidos cada vez mais às escolhas e à definição do estilo de vida que sintetize seu lugar no mundo, já que o estilo de vida implica em “... um conjunto mais ou menos integrado de práticas que um indivíduo segue, não apenas porque tais práticas preenchem necessidades utilitárias, mas porque elas dão forma material a uma narrativa particular da auto-identidade” (GIDDENS, 1993, p. 81 [tradução minha]). Isso se deve, em boa medida, ao fato de a construção e representação do self constituir-se em um problema relevante para os indivíduos nas sociedades contemporâneas (GIDDENS, 1993), fortemente marcadas por um processo de destradicionalização, em que o indivíduo ocupa lugar central na definição de sua própria identidade, uma vez que “temos de decidir não só quem somos, e como agimos, mas como parecemos para o mundo exterior” (GIDDENS, 1996: 97; sobre isso ver também LECCARDI, 2005). De acordo com Giddens, as identidades herdadas ou forjadas por um status tradicional não mais satisfazem aos indivíduos, fazendo com que o self se torne ele próprio objeto de manipulação. Essa constatação sugere explorar, na sociologia, a subjetividade dos atores como requisito para uma compreensão mais acurada não apenas das escolhas individuais em um mundo em transformação acelerada, como também os fenômenos sociais a partir da maneira como vivenciados biograficamente pelos indivíduos.

A literatura sociológica brasileira tem dedicado relativamente pouca atenção a perspectivas analíticas que se propõem analisar as interpretações subjetivas dos atores. Neste tipo de análise, concede-se ao indivíduo um status de ator que interpreta as coisas com as quais está confrontado (pessoas, ideias, acontecimentos etc.), a fim de se posicionar no mundo e, com isso, estabelecer seu roteiro de ação. Diversas correntes da sociologia compreensiva compartilham desse pressuposto, como o interacionismo simbólico, a etnometodologia, além da sociologia influenciada pela fenomenologia. Comum a todas essas abordagens é o pressuposto de que o ator social não é um mero internalizador de normas, valores e significados; ao contrário, esse ator é, segundo Arthur S. Parsons, um agente consciente e responsável pela adoção ativa de códigos normativos na interpretação da realidade social (PARSONS, 1978, p. 111). É precisamente essa interpretação subjetiva da realidade ou do contexto social que oferece o principal objeto de análise do presente texto, que tem na sociologia de Alfred Schütz2 um suporte teórico importante – em especial, sua análise do mundo da vida e do sistema de relevânciasobretudo, por permitir problematizar a interpretação subjetiva do ator para a compreensão de sua ação e de seu mundo, além de informar métodos que procuram precisamente capturar a interpretação subjetiva dos atores.

Entre os mais importantes e profícuos autores da sociologia no século XX, Alfred Schütz talvez seja o menos conhecido no Brasil, ainda que conste como bibliografia básica de cursos de formação de cientistas sociais em algumas universidades brasileiras e haja sido citado por autores importantes das ciências sociais brasileiras (por exemplo, VELHO, 1999), ao analisar a relação entre indivíduo e sociedade em sociedades complexas. É possível identificar, porém, nos anos mais recentes, um interesse crescente por abordagens capazes de acrescentar conhecimentos acerca da realidade social brasileira partindo da perspectiva subjetiva dos atores. Neste sentido, a obra de Alfred Schütz pode representar importante referência não apenas para discussões estritamente teóricas, mas pode servir igualmente de fundamentação epistemológica e metodológica para pesquisas empíricas que têm na interpretação subjetiva o foco da investigação sociológica. Antes de explorar uma dessas possibilidades – a abordagem de narrativas biográficas – o artigo apresenta o lugar dos conceitos de mundo da vida e relevância para a compreensão da interpretação subjetiva.



2 Ação e relevância



O empreendimento analítico proposto por Schütz sugere que o sociólogo que pretenda oferecer uma compreensão da vida cotidiana deve voltar-se para o mundo da vida, colocando-se questões como “o que significa esse mundo social para o ator observado dentro dele, e o que ele quis dizer através de sua ação dentro dele?” (SCHUTZ, 1979, p. 265). O pressuposto aqui é que cada indivíduo constrói o seu próprio mundo, a partir dos elementos oferecidos por outros com os quais mantém algum tipo de relação ainda que não seja seu contemporâneo. O ponto de partida da investigação sociológica de Schütz, então, é a interpretação da compreensão do significado subjetivo atribuído aos fenômenos por parte do ator no mundo da vida, pois “a salvaguarda do ponto de vista subjetivo é a única, porém suficiente, garantia de que o mundo da realidade social não será substituído por um mundo fictício, inexistente, construído pelo observador” (SCHUTZ, 1979, p. 266).

A sociologia de Schütz, contudo, não deve ser confundida com a tarefa de simplesmente “dar voz” ao objeto de investigação, mas, seguindo-se a tradição da sociologia compreensiva (verstehende Soziologie) de Weber, o que se pretende é explorar os conhecimentos do senso comum, o que implica, necessariamente, em interpretar a interpretação dos indivíduos no mundo da vida, já que esta afeta em grande medida o ser-no-mundo, ou seja, a capacidade de atribuir sentido (STAUDIGL, 2007, p. 235). O empreendimento investigativo implica, então, em assumir o que Schütz denomina de “constructos de primeiro grau”, ou seja, aqueles envolvidos na experiência do senso comum na vida cotidiana, como o objeto de análise sociológica, ou seja, dos constructos de segundo grau, “formados de acordo com as regras de procedimentos válidas para todas as ciências empíricas” que constituem “constructos objetivos típicos, idealizados e, como tais, de tipo diferente dos desenvolvidos no primeiro grau, o do pensamento do senso comum...” (SCHUTZ, 1979, p. 271).

O mundo da vida (Lebenswelt) é o mundo intersubjetivo pré-existente, assumido como dado pelo indivíduo a partir de uma “atitude natural”, em que o indivíduo reconhece as coisas objetivas da vida, assim como as condições para a ação (por exemplo, as intenções dos outros e as suas próprias). Na atitude natural da vida cotidiana suspende-se a dúvida em relação à existência dessas próprias coisas, já que todas as experiências passadas estão presentes como que ordenadas, como conhecimento ou como consciência daquilo que se pode esperar que ocorra, pois “se assim foi, assim poderá ser”. Entretanto, tudo aquilo que é considerado como dado (taken for granted) nas situações do mundo da vida é cercado de incertezas. Dessa maneira, a atitude natural se dá simultaneamente à interpretação por parte dos indivíduos, baseada, sobretudo, no estoque de conhecimento disponível ao indivíduo, ou seja, apoiada no “conhecimento à mão”, que funciona como um “código de referência” para o indivíduo. Esse sistema de conhecimento – que é resultante da sedimentação de experiências subjetivas no mundo da vida – assume, para aqueles indivíduos que se reconhecem membros internos de um grupo ou comunidade, um aspecto de coerência necessário que permite que todos tenham uma chance razoável de compreenderem e serem compreendidos. O conceito de habitus em Bourdieu nos conduz a outras direções, distintas destas sugeridas por Schütz no que se refere ao status das subjetividades em uma teoria da ação. Neste sentido, ainda que brevemente, convém dialogar com esta perspectiva analítica bastante influente na sociologia brasileira.

O trabalho interpretativo do indivíduo implica, na sociologia de Alfred Schütz, em ele ter à sua disposição um sistema de relevâncias e tipificações, que é parte daquilo que é transmitido aos membros do grupo interno pela educação. Esse sistema preenche as seguintes funções: a) determinar quais eventos devem ser tratados como tipicamente iguais; b) transformar ações individuais únicas de seres humanos únicos em funções típicas de papéis sociais típicos; c) funcionar como código de interpretação e ao mesmo tempo como código de orientação aos membros do grupo interno, criando, assim, um universo comum de discurso. Desse sistema do qual estamos tratando aqui depende ainda a interação humana, quando o código de tipificação é estandardizado e o sistema de relevância institucionalizado. Esse sistema comum de relevâncias e tipificações dá origem às tipificações e estruturas de relevâncias individuais, instrumental básico para que o indivíduo proceda à interpretação.

O que, para Durkheim (1962), apresenta-se ao indivíduo como constrangimento para a ação – papel exercido pelas representações coletivas –, constitui, para Schütz, uma referência da qual o indivíduo pode dispor e a que pode se apegar – mas, que é objeto de sua interpretação – desde que este esteja devidamente provido das capacidades cognitivas para tanto, desenvolvidas desde a infância (SCHÜTZ, 2003, p. 339; ver também CICOUREL, 2007, p. 175). Aqui, o indivíduo orienta-se por uma “atitude natural” em relação ao mundo, referida acima, ou seja, supõe acreditar nas coisas da vida cotidiana. Contudo, em termos fenomenológicos – diferentemente da fé religiosa, por exemplo – “acreditar em” implica, ao mesmo tempo, em fazer das situações cotidianas objeto de inspeção e interrogação (NATANSON, 1998, p. 7). Neste sentido, na análise de Schütz, ao indivíduo é concedido um status de ator que interpreta as coisas com as quais está confrontado (pessoas, ideias, acontecimentos etc.), a fim de se posicionar no mundo e, com isso, estabelecer seu roteiro de ação.

É possível que nesse ponto, ou seja, quando Schütz considera em sua análise os atributos interpretativos dos indivíduos na vida cotidiana, resida o aspecto mais importante do empreendimento sociológico de Schütz no que se refere à tentativa de fusão3 das duas principais bases fundamentais sobre as quais se assentam sua interpretação, ou seja, a fenomenologia de Husserl e a sociologia da ação de Weber4. Weber aponta que o indivíduo, na ação, atribui sentido subjetivo, considerando o comportamento presente, passado e o possível comportamento futuro daqueles com os quais interage, ao mesmo tempo em que é considerado por outros (WEBER, 2004, p. 13-16) – o que deixa claro que o indivíduo é, para Weber, um intérprete por excelência. Deve-se considerar, igualmente, que, de acordo com Husserl, a realidade é “colocada entre parênteses” (WAGNER, 1979, p. 8). Isso significa que, de acordo com Husserl, a atividade interpretativa do indivíduo implica que este coloca em suspenso tudo à sua volta, a fim de que sua interpretação da realidade possa receber a chancela de sua atribuição subjetiva de sentido.5

As comunidades, ou o grupo interno, nos termos de Schütz, afirmam-se e são possíveis na medida em que há a percepção do eu e do outro, ou seja, a percepção da identidade e da alteridade. O estabelecimento de uma vida comum com outros pressupõe, necessariamente, o compartilhamento de significados que dão sustentação aos relacionamentos sociais (SCHUTZ, 1979, p. 80; ver também SCHUTZ, 1972, p. 202) ou de uma identidade coletiva expressa por valores comuns, que são reafirmados nos ambientes de comunicação, em relações interativas (SCHUTZ, 1979, p. 160). Isso significa que as pessoas de determinado grupo ou comunidade possuem algo socialmente significativo em comum, tendo em tal elemento ou elementos o demarcador de fronteiras, pois “... o significado subjetivo que o grupo tem para os seus membros consiste em seu conhecimento de uma situação comum e, com ela, de um sistema comum de tipificações e relevâncias(SCHUTZ, 1979, p. 82), quando, ao se reconhecerem similaridades, delineiam-se, ao mesmo tempo, as diferenças (JENKINS, 2002, p. 80).6 Isso implica em dizer que os membros do grupo interno não possuem “conhecimento sobre”, mas “conhecimento de” um contexto, com o qual o indivíduo está suficientemente familiarizado (NASU, 2006, p. 391). Contudo, essa familiaridade não está dada desde sempre, transmitida por parentes e professores, por exemplo, mas deve ser configurada em cada situação (NASU, 2006, p. 394).

O conceito de habitus, tal como empregado por Bourdieu em diferentes momentos (1980, 2000 e 2005), ou seja, “como sistema de disposições socialmente constituídas que (...) constituem o princípio gerador e unificador do conjunto das práticas e das ideologias características de um grupo de agentes(BOURDIEU, 2005, p. 191) aproxima-se, parece-me, em alguma medida, das características identificadoras dos membros do “grupo interno”, na formulação de Schütz7. O habitus de um agente está ancorado em suas experiências passadas e, além de compor seu pensamento e percepção da realidade presente, acaba por definir a prática do agente de maneira regular e constante (CROSSLEY, 2001, p. 83), expressa pelos traços simbólicos de distinção, revelados por meio de um conhecimento adquirido, que se traduz pelos estilos de vida, como também pelos julgamentos políticos, morais, estéticos, etc (BOURDIEU, 1980, p. 92 e 2000, p. 61). Poder-se-ia afirmar que os membros de determinado grupo interno vinculam-se uns aos outros por um habitus específico; porém, Bourdieu afirma (2000, p. 92) que o habitus viabiliza a produção de todos os pensamentos, de todas as percepções e também de todas as ações, o que parece restringir imensamente a possibilidade de interpretação do indivíduo do seu próprio habitus.

Se, por um lado, parece haver certa proximidade entre o conceito de habitus e o sistema de relevância de um “grupo interno”, por outro lado, resta evidente que o papel de intérprete dos indivíduos ou agentes não é enfatizado com a mesma intensidade em ambas as abordagens. Crossley (2001, p. 85) chama a atenção precisamente para essa diferença, ou seja, que a sociologia de Schütz, assim como aquelas escolas que ele denomina “fenomenologias sociais” (etnometodologia e interacionismo simbólico), acentua demasiadamente o horizonte interpretativo do agente.8 Seja como for, é um debate que, além de pertinente, parece-me bastante promissor, ainda que, para alguns, este pareça haver sido superado, entre outros, por Giddens, com sua teoria da estruturação (GIDDENS, 2003). De todo modo, trata-se de um debate que poderia se dar em torno do conceito de relevância, tendo em vista as implicações que este conceito assume, em Schütz, para a pesquisa empírica.

A teoria da relevância, proposta por Schütz, parece dar conta de alguns dos limites apontados nas teorias brevemente mencionadas acima. Schütz (2004b) empreende dois tipos de distinção no que se refere à relevância, a primeira delas, entre relevâncias impostas e volitivas. Por exemplo, a presença em um ciclo de palestras pode ocorrer como parte do calendário ordinário das atividades acadêmicas, fazendo com que a mobilização de ações para viabilizá-la seja imposta. Neste sentido, todas as ações que tornem possível a presença nessa atividade estão estabelecidas de fora. Assim, o estudante terá de se informar e dar atenção a uma série de dados que, de outra maneira, provavelmente não fariam parte voluntariamente da sua atenção. Nesse caso, diz-se que a relevância é imposta. Porém, mesmo entre aqueles presentes em que tal atividade assume uma relevância imposta, um ou outro entre os presentes poderá encontrar, durante a semana, palestras ou pelo menos parte de algumas dessas palestras que poderão alcançar relevância volitiva, pois terão sua importância destacada voluntariamente em razão do interesse momentâneo ou futuro identificado por ele, desde que considerado útil para a ação.

Por outro lado, esses dois tipos de relevância podem assumir características motivacionais, temáticas ou interpretativas. O primeiro tipo, a relevância motivacional, caracteriza-se por orientar-se pelos interesses do indivíduo em uma situação determinada. Isso implica em dizer que o indivíduo “separa, dentre os elementos presentes na situação, os que servem para defini-la à luz dos propósitos que essa pessoa tem em mente” (WAGNER, 1979, p. 23). Esse processo ocorre quando os elementos da situação vivida são suficientemente familiares ao indivíduo. Quando não for esse o caso, ou seja, se os elementos envolvidos na situação não são suficientemente conhecidos, o esforço do indivíduo estará voltado para a definição da situação, já que ocupa o status de problema, que deverá ser decifrado. Contudo, como lembra Wagner, “o desconhecido ou o problemático, numa dada situação, só se torna relevante na medida em que impede a formação de uma definição da situação de acordo com os interesses e planos atuais da pessoa” (WAGNER, 1979, p. 24). Por fim, Schütz (2004b) distingue ainda um terceiro tipo, a relevância interpretativa, que é a continuação do tipo anterior, que demandará uma interpretação mais detida para que o problema seja reconhecido. Essa interpretação poderá se dar de maneira rápida, caso o conhecimento necessário para tal seja aquele acionado rotineiramente, do contrário, o indivíduo irá empreender esforços específicos para conduzir uma interpretação satisfatória antes mesmo de tomar os primeiros passos na ação. Com isso, resta evidente que determinante aqui é não apenas a posição biográfica em que se encontra o indivíduo, mas, da mesma forma, o resultado da história pessoal, das experiências disponíveis imediatamente à consciência ou à disposição, ou seja, das experiências próprias e daqueles seus contemporâneos e antecedentes, transmitidas a ele de alguma maneira (SCHÜTZ, 2004b, p 69). É esse conhecimento adquirido pela experiência que irá organizar os distintos graus de relevância mobilizados pelos indivíduos em todas e quaisquer situações da vida cotidiana.

Ao dedicar-se à análise da relevância, o sociólogo está lidando com o principal problema da investigação fenomenológica do mundo da vida (NASU, 2008, p. 92), pois esta trata da investigação acerca de como os indivíduos experienciam objetos e eventos ao seu redor, ou seja, acerca de que maneira percebem, reconhecem, interpretam, conhecem e agem na vida cotidiana a partir da seleção de fatos na totalidade de elementos envolvidos em cada situação. Com isso, a própria experiência se dá como processo de escolha e não como fatalidade ou recepção passiva de dados e informações, uma vez que o indivíduo escolhe quais elementos de sentido recebem sua atenção, ou seja, quais, dentre os inúmeros elementos envolvidos, são tornados relevantes.

Se, por um lado, poder-se-ia dizer que o indivíduo nem sempre escolhe os fatos objetivos da vida com os quais está confrontado, por outro lado, está ao seu alcance realizar escolhas quanto à atenção dedicada aos problemas. Essas escolhas estão, porém, orientadas pelo estoque de conhecimento acumulado em experiências anteriores, suas próprias e também de terceiros com os quais mantém qualquer tipo de vinculação, mesmo que não seja seu contemporâneo. Neste sentido, escolhas presentes e futuras são, de alguma maneira, informadas pelas escolhas já realizadas no passado, sem que isso, porém, se constitua em algo do qual o indivíduo não possa escapar. Isso porque até mesmo as experiências passadas são constantemente submetidas à interpretação e reinterpretação por parte do indivíduo que age. Desta maneira, embora ancorado no estoque de conhecimento à mão, o curso de ação individual permanece em aberto, ainda que constrangido por fenômenos sobre os quais não mantém qualquer controle.

O processo de tipificação de atos – que faz par com o sistema de relevância – antecede a percepção de situações, uma vez que o pressuposto para que uma situação seja, de fato, percebida é haver sido antecipada pela tipificação (PSATHAS, 1980, p. 9). Os objetos com os quais estabelecemos contato, mesmo pela primeira vez – como um animal, um carro ou um objeto cultural, por exemplo – são vivenciados por tipificação, ou seja, são remetidos a um “catálogo” onde iremos buscar afinidades e semelhanças com as coisas já vistas ou conhecidas. A tipificação é gerada socialmente, o que quer dizer que o meio no qual um indivíduo nasce ou é socializado constrói e reconhece uma tipificação de objetos e relações, transmitida aos novos membros do grupo já na infância e que, em geral, são aceitos por aqueles que participam deste grupo. Simultaneamente, o indivíduo realiza uma autotipificação: ao tipificar sua situação no mundo e as diversas relações que mantém com seus semelhantes e todos os demais objetos, físicos e culturais (SCHUTZ, 1979, p. 118). Por constituir-se em referência para a percepção da situação, a tipificação é, ela própria, submetida à interpretação por parte do indivíduo, conduzindo então a uma tipificação individual, própria, sobre a qual se assentará o roteiro de ação. Por um lado, essa tipificação permite ao indivíduo antecipar as perspectivas do objeto com o qual se está em contato; por outro lado, possibilita organizar as expectativas em relação a esse objeto. Essa tipificação poderá, eventualmente, mostrar-se incongruente com a realidade que se avizinha, o que deverá provocar, da parte do indivíduo, ajustes na percepção da realidade mediante a interpretação dos elementos relevantes envolvidos na situação.

Na análise da perspectiva do ator para a compreensão de sua ação é importante chamar a atenção para a distinção entre conhecimento em mãos e conhecimento à mão. O primeiro tipo é aquele que está não apenas acessível, mas que é efetivamente acionado em uma situação específica, de maneira objetiva; já o conhecimento à mão, já referido anteriormente, diz respeito ao conhecimento que está disponível ao indivíduo ainda que este não faça uso dele de maneira direta e objetiva, ou que dele nem sequer tenha consciência – é um tipo de conhecimento ao qual o pesquisador pode ter acesso mediante a narrativa do indivíduo por vincular-se fortemente à sua própria biografia. Dessa maneira, esse sistema de conhecimento – que é resultante da sedimentação de experiências subjetivas (biografia) no mundo da vida (SCHUTZ e LUCKMANN, 1973, p. 123) – assume, para aqueles indivíduos que se reconhecem membros internos de um grupo ou comunidade, “um aspecto de coerência, clareza e consistência suficientes para que todos tenham uma chance razoável de compreender e ser compreendidos” (SCHUTZ, 1979, p. 81).

Em contraposição à crítica pós-estruturalista do sujeito, que nega a este qualquer papel importante no conhecimento que se pode obter da realidade (PETERS, 1998, p. 39), o empreendimento investigativo proposto por Schütz está baseado em colocar em evidência a subjetividade dos sujeitos sem que isso implique em dizer-se que toda a realidade poderia ser abarcada única e exclusivamente por meio deste recurso, mas apenas que essa é uma maneira de se aproximar da compreensão da realidade que se quer analisar, maneira essa muito modestamente adotada na sociologia brasileira. Coloca-se, dessa forma, como uma possibilidade a investigação da interpretação subjetiva dos atores, mediante o acesso às experiências acumuladas e consolidadas em suas biografias.



3 Experiência e narrativa biográfica

Um problema que se coloca aqui, do ponto de vista da investigação sociológica, é como obter acesso à interpretação subjetiva. Schütz não chegou a oferecer um roteiro para a coleta de dados em uma pesquisa empírica baseada em sua análise teórica e epistemológica (EBERLE, 2010). A abordagem da narrativa biográfica desenvolvida pelo sociólogo alemão Fritz Schütze (1984), e, posteriormente, incrementada por Gabriele Rosenthal (2004; 2008), já bastante bem consolidada, permite não apenas a reconstrução de tipos de trajetórias biográficas, mas igualmente a construção de tipologias de interpretações do mundo da vida, considerando, neste processo, como os indivíduos manuseiam seu “estoque de conhecimento” e, sobretudo, como manuseiam o sistema de relevância e tipificação, elementos-chave no processo interpretativo cotidiano do indivíduo, de acordo com a sociologia proposta por Schütz.

Ainda que já bastante bem reconhecida, a pesquisa biográfica na sociologia não tem seu uso aceito de maneira incontestável. Um dos autores mais influentes que se manifestaram contrários à incorporação da biografia como fonte de análise sociológica foi Bourdieu. Em seu curto ensaio intitulado “L’illusion biographique”, Bourdieu (1986) procurou argumentar que a incorporação da história de vida não passava de uma concessão da sociologia ao senso comum (BOURDIEU, 1986, p. 69). Trata-se de um artigo problemático em vários aspectos. O primeiro deles é identificar pressupostos para a pesquisa biográfica na sociologia que não se encontram em textos sociológicos, mas em metáforas da literatura, ao se referir a autores como Maupassant e Jules Romains. Explicitamente Bourdieu afirma, entre outras coisas, que lidar com material biográfico implicaria em admitir que a vida é uma história, entendida como uma sucessão de acontecimentos históricos. Como esses pressupostos não estão disponíveis dessa maneira na literatura sociológica sobre pesquisa biográfica, ou pelo menos o autor não nos apresenta as devidas referências onde se poderiam encontrar tais pressupostos, Bourdieu parece não ter alternativa senão recorrer a autores que nada têm a ver com o que ele pretende refutar. Mas, esse é apenas um dos problemas do texto e, provavelmente, o menos importante. Outro aspecto do texto que merece leitura atenta é a interpretação de Bourdieu, relembrada e reforçada por Montagner (2007), sobre o que se pretende quando sociólogos empreendem pesquisa biográfica. Segundo esses autores, fazer da biografia insumo de análise sociológica seria como que se buscasse “uma causalidade harmônica das histórias de vida individuais”, que pode ser explicado “pela necessidade, tanto por parte dos indivíduos quanto da ciência social, de atribuir um sentido coerente às ações humanas” (MONTAGNER, 2007, p. 252). Ora, não é possível rastrear nem na pesquisa empírica recente de pesquisa biográfica na sociologia e, menos ainda, nos pressupostos teóricos que lhe dão sustentação, notadamente a sociologia de Alfred Schütz, uma semelhante ingenuidade.

A ilusão de Bourdieu parece haver sido acreditar poder refutar uma perspectiva para a investigação sociológica da realidade que, já à época da publicação de seu artigo mencionado acima, apresenta importantes resultados de pesquisa empírica não apenas na Alemanha (com Fritz Schütze), mas também na França (com Daniel Bertaux), além de desconsiderar parte da fundamentação teórica e epistemológica que enseja este empreendimento investigativo, do qual a sociologia de Alfred Schütz é apenas um dos seus pilares. Neste sentido, a recusa da pesquisa biográfica na sociologia implicaria – para se tornar um empreendimento exitoso e consistente – em refutar não apenas os pressupostos metodológicos, mas, sobretudo, seus pressupostos epistemológicos, o que, definitivamente, Bourdieu não nos oferece. A saída que Bourdieu apresenta é, sem rejeitar completamente o material das histórias de vida, sugerir o abandono do foco em biografias e estabelecer a ênfase em “trajetórias”, entendidas como a “objetivação das relações entre os agentes e as trocas presentes no campo” (MONTAGNER, 2007, p. 254). Ora, ainda que seja possível obter do sujeito a identificação de trajetórias comuns, a alternativa proposta por Bourdieu parece não se interessar pelo pressuposto de que estes percursos comuns podem assumir, e quase sempre assumem, significados distintos para os distintos sujeitos que compartilham trajetórias comuns. O interesse sociológico aqui, se se consideram as subjetividades como componente indispensável para a compreensão da realidade, seria orientado à interpretação dos distintos significados atribuídos da parte dos sujeitos que compartilham trajetórias ou experiências comuns. Ganhar-se-ia, desta maneira, em acuidade na compreensão do aspecto multifacetado da realidade empírica.

O problema principal, aqui, não é se as histórias de vida são ou não harmônicas, mas a possibilidade mesma de existir algo como “biografia”, ou seja, a escrita – a interpretação – do sujeito sobre sua própria vida. De fato, admitir a existência de biografia implicaria em atribuir ao sujeito um status de ator que Bourdieu e seus seguidores não estão evidentemente dispostos a assumir, uma vez que isso exigiria, entre outras coisas, uma profunda modificação, por exemplo, na interpretação da relação entre sujeito e habitus, como mencionado, anteriormente, aqui. Com isso, a compreensão da relação entre habitus e indivíduo tal como assumida por Bourdieu é coerente com a posição defendida pelo sociólogo francês de ver na análise da interpretação das biografias pelos próprios sujeitos não mais que uma ilusão. A investigação sociológica a partir da análise da narrativa biográfica constitui-se, de fato, uma contradição performativa se tal empreendimento encontrar-se ancorado na teoria de habitus de Bourdieu, tendo em vista que este autor pressupõe a irrelevância da interpretação do sujeito (TRUC, 2011, p. 162), pelo menos como recurso indispensável para a compreensão de fenômenos sociais.

Na pesquisa sociológica brasileira, o uso de relatos orais, ainda que não seja recente, permanece ainda marginal, a despeito de sua crescente difusão nos últimos anos (ver, por exemplo, STOLL, 2004; WELLER, 2005a e 2005b; FELTRAN, 2008). Contudo, o recurso da narrativa ainda é, em muitos casos, encarado como maneira de se obterem dos entrevistados informações objetivas sobre suas condições de vida, sendo utilizada, em boa medida, para complementar outros tipos de coleta de dados. Lígia Leite Pereira (1991) apresenta as distintas fases do uso de relatos orais nas ciências sociais brasileiras, iniciada na década de 1950 por pesquisadores como Maria Isaura Pereira de Queiroz e Florestan Fernandes, sob a coordenação de Roger Bastide. Nessa mesma década, o uso de relatos orais – que não chegou a se tornar um método autônomo – foi cedendo lugar a outras perspectivas de pesquisa sociológica, notadamente positivistas, em que a subjetividade do ator deveria ceder lugar à suposta objetividade dos instrumentos utilizados pelo pesquisador treinado. A partir do final da década de 1970, a abordagem biográfica proposta por Daniel Bertaux passa a exercer certa influência entre pesquisadores de diversas disciplinas que se valem de relatos orais, cuja atenção está voltada, sobretudo, aos processos e processos objetivos (PEREIRA, 1991, p. 115), em oposição a outras abordagens que mantêm como objeto estruturas e processos subjetivos, notadamente, a abordagem desenvolvida por Fritz Schütze a partir de meados da década de 1970, na Alemanha.

É importante destacar que a pesquisa sociológica brasileira recente, ao se valer das narrativas dos informantes, não distingue entre argumentos, descrições e narrativas propriamente ditas. Essa distinção, oriunda da linguística e incorporada à pesquisa sociológica de narrativas biográficas por Fritz Schütze (ver, por exemplo, SCHÜTZE, 19839), é indispensável ao empreendimento analítico que se baseia na experiência dos atores a partir de suas próprias narrativas, tendo em vista que a narrativa é o recurso discursivo mais estreitamente vinculado ao desencadeamento de ações (ROSENTHAL, 2004, p. 53; LABOV e WALETZKY, 1973), ou, de maneira mais precisa, é aquele tipo de discurso que mais se aproxima da maneira de o narrador apresentar a sua interpretação do desencadeamento de ações (KÜSTERS, 2009, p. 25).

A narrativa biográfica, especificamente, é capaz de oferecer acesso bastante útil para a análise não apenas da vida do narrador, das conexões entre o indivíduo e seu grupo ou comunidade (CARVALHO, 2003, p. 293), mas permite, igualmente, obter elementos importantes para a análise das interpretações subjetivas sobre a ação e seu contexto social, considerando-se, contudo, que qualquer narrativa é uma interpretação a partir de uma situação biográfica determinada (SCHUTZ, 1979, p. 73). De acordo com Rosenthal, a compreensão das ações dos indivíduos requer investigar tanto a perspectiva subjetiva do ator quanto o curso da sua ação, o que implica em dizer que essa investigação deve se debruçar sobre suas experiências, sobre o sentido que os indivíduos atribuíram a suas ações na ocasião, que sentidos atribuem agora e em que contexto biográfico o narrador localiza suas experiências (ROSENTHAL, 2004, p. 49). Dessa maneira, o recurso da narrativa biográfica pode ser assumido como a possibilidade de combinação de uma abordagem diacrônica (a própria biografia) com uma abordagem sincrônica (a biografia interpretada a partir de um momento biográfico específico, o presente).

Com a abordagem das narrativas biográficas, sobretudo a partir da formulação e da análise proposta por Gabriele Rosenthal (1995; 2008), pode-se obter os dados necessários para a análise do sistema de relevância compartilhado entre grupos de pessoas que compartilham experiências semelhantes (por exemplo, engajamento em movimentos sociais específicos, desemprego, cometimento de delitos e violência, etc.). Ao se obterem narrativas das experiências biográficas, na perspectiva do agente, é possível obter acesso aos dados que poderão permitir a análise do sistema de relevância do narrador, pressuposto indispensável, de acordo com a sociologia de Schütz, para a compreensão da ação daqueles que agem, assim como também do compartilhamento de sentido entre aqueles envolvidos diretamente em um mesmo tipo de fenômeno, por exemplo, violência. Para tanto, o entrevistador deve seguir um procedimento de entrevista bastante distinto das formas difundidas de entrevista semiestruturada, cujo objetivo é não direcionar o entrevistado com questões pré-definidas, tendo em vista que tal procedimento provoca, invariavelmente, a contaminação do entrevistado com o sistema de relevância do pesquisador.

Ainda que o pesquisador tenha claramente definido seu problema de pesquisa, recomenda-se que a primeira questão formulada ao entrevistado deva ser a mais aberta possível, para que os entrevistados apresentem toda sua vida, de maneira mais extensa e detalhada possível. Dessa maneira, o(a) entrevistado(a) poderá selecionar do seu próprio sistema de relevância o momento mais conveniente para o início da sua narrativa biográfica, as fases da vida que deverão merecer maior atenção, os episódios que receberão mais destaque e que serão mais detalhadamente narrados, ou, ao contrário, episódios sobre os quais serão realizadas descrições. Já aqui o biografado está fazendo escolhas que estão vinculadas, de alguma maneira, à ação e à sequência narrativa. Essas escolhas estão fundadas no sistema de relevância, que permite ao indivíduo selecionar os conhecimentos à disposição na medida em que são relevantes para a ação (NASU, 2008, p. 91). Caso se colocassem ao entrevistado questões explicitamente relacionadas ao problema de pesquisa do pesquisador estar-se-ia emprestando ao entrevistado o sistema de relevância do pesquisador, o que, evidentemente, compromete a obtenção da interpretação subjetiva dos atores.

Este problema do que podemos denominar de colonização do sistema de relevância do entrevistado pelo sistema de relevância do cientista social está presente, por exemplo, na abordagem de pesquisa com trajetórias sociais de Bernard Lahire. Ao estabelecer de antemão quais os temas o entrevistado deve abordar, e a ordem na qual devem ser referidos, Lahire (2004) abre mão da possibilidade de obter elementos para a análise da interpretação subjetiva sobre o curso de vida dos entrevistados, seja por julgar inviável ou, o que talvez seja mais plausível, por julgar irrelevante para a pesquisa sociológica. Desta maneira, Lahire está a propor um procedimento em que os entrevistados se tornam ainda mais reféns do pesquisador e, provavelmente ainda mais grave, desconsidera as escolhas temáticas e as formas discursivas dos entrevistados como elementos-chave para a compreensão das posições assumidas pelos entrevistados ao longo de suas vidas. Parte desse problema pode ser minimizado caso o cientista social não apenas dê aos entrevistados as possibilidades das escolhas temáticas como também atente para as escolhas dos tipos textuais da narrativa deles.

É recorrente durante a entrevista a ocorrência de passagens não apenas narrativas, mas também descritivas – em que são descritas, por exemplo, condições sociais, condições da época, características dos atores ou circunstâncias da situação – e argumentativas – em que são apresentados esclarecimentos, orientações, elementos biográficos ou identitários do narrador (SCHÜTZE, 1984, p. 91). Diferentemente da descrição e da argumentação, narrativas referem-se à sequência de eventos passados, ou mesmo fictícios, que possuem relação de sequência temporal ou conexão causal entre si (ROSENTHAL, 2008, p. 139). Dessa forma, os trechos narrativos da entrevista devem ser priorizados exatamente por permitirem a provisão de elementos analíticos adequados para a investigação da interpretação subjetiva, uma vez que a narrativa – mais que a descrição e a argumentação – refere-se mais intimamente ao roteiro de ação (KÜSTERS, 2009, p. 25) desempenhado pelo ator.

Cada entrevista deve ser transcrita integralmente e submetida à análise reconstrutiva e sequencial. A análise reconstrutiva significa que a entrevista não é abordada com categorias pré-definidas, nem submetida a teste de hipóteses formuladas a priori. O objetivo da reconstrução é decodificar tanto o significado da experiência biográfica vivida no passado quanto o significado da apresentação realizada no presente. Na análise sequencial, que é antecedida pelo levantamento dos eventos ao longo da vida do biografado (nascimento, dados escolares, constituição da família, mudança de residência, doenças, etc.), o texto transcrito é interpretado em pequenas unidades de acordo com sua forma sequencial, ou seja, a sequência como o texto é criado no momento da entrevista. Seguindo-se aqui os procedimentos da análise da hermenêutica objetiva, proposta por Ulrich Oevermann (ver WERNET, 2009) e adotada por Rosenthal, cada dado da sequência biográfica é inicialmente interpretado sem se confrontar com a totalidade do que foi apresentado na entrevista, mas seu significado, para quem analisa, vai ganhando consistência na medida em que avança a análise de toda a entrevista, quando cada evento narrado é interpretado dentro do contexto da própria entrevista.

Convém chamar a atenção para o fato de que o esforço aqui, como atividade sociológica, é direcionado à tentativa de reconstruir as estruturas latentes do significado dos eventos biográficos ou episódicos, uma vez que estes não estão disponíveis ao entrevistado (ROSENTHAL, 2004, p. 55). Esse procedimento analítico implica em dividir o texto resultante da narrativa em pequenas unidades analíticas, divididas por campos temáticos introduzidos pelo próprio entrevistado, para as quais são formuladas hipóteses que são testadas com base no procedimento da abdução, ou seja, em que as hipóteses são geradas a partir dos fatos narrados, assim como nos fatos omitidos, tendo em vista que a análise considera dados obtidos tanto diretamente da entrevista quanto de informações adicionais sobre o informante (por exemplo, prontuários de internação médica ou de instituição punitiva, agência de emprego, ou, na ausência desses dados, informações obtidas com seu círculo mais próximo de relações). Neste sentido, importam, igualmente, os eventos vividos pelo entrevistado, mas não mencionados ao longo da entrevista. As entrevistas são, então, analisadas em seu conjunto, identificando-se a sequência, as formas discursivas e os campos temáticos para os quais são formuladas e testadas hipóteses relativamente à interpretação subjetiva (de quem narra) das experiências biográficas.

Esse complexo procedimento de coleta e análise de dados torna possível abordar o problema da interpretação subjetiva na vida cotidiana de maneira adequada precisamente por permitir, de um lado, que o sistema de relevâncias e tipificações se explicitem, e, de outro lado, que o estoque de conhecimento à mão forneça elementos importantes para a compreensão da experiência do entrevistado: e, com isso, pode-se obter novos elementos para a compreensão da realidade social, assim como da ação do ator.



4 Conclusão

A literatura nas ciências sociais brasileiras tem sido modestamente receptiva a análises que procuram compreender fenômenos sociais a partir da perspectiva da ação individual, ou seja, por meio de uma análise sociológica da subjetividade. Procuramos, aqui, explorar o tema a partir dos elementos teóricos da sociologia de Alfred Schütz e da abordagem das narrativas biográficas precisamente por permitir a emergência do sistema de relevância dos atores, elemento central na sociologia schütziana para a compreensão da ação. A análise de narrativas biográficas baseada nos conceitos de Schütz mostra-se como empreendimento promissor, mesmo que de maneira preliminar, uma vez que permite explorar a fundamentação da ação dos próprios agentes. Como afirmado por Schütz, estas fundamentações estão conectadas à maneira que estas experiências estão acumuladas em suas respectivas biografias e expressas por meio do seu sistema de relevância, concebido como a orientação individual para a ação. Procedendo como se propôs aqui, teórica e metodologicamente, pode-se obter uma melhor compreensão da interpretação de indivíduos de comunidades semelhantes ou daqueles que compartilham experiências comuns.

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1Texto elaborado no âmbito da pesquisa “Adolescentes e experiências com delinquência”, que se encontra em desenvolvimento com financiamento da CAPES-FINEP, CNPq e FAPERGS. Uma versão anterior deste texto foi apresentada na 30a. Conferência da Society for Phenomenology and Human Sciences (SPHS), realizada em outubro de 2011 em Filadélfia (EUA) e no 35o. Encontro Anual da ANPOCS, realizado em Caxambu, em outubro de 2011 (GT 24: O Pluralismo na Teoria Social Contemporânea). Agradeço a Jochen Dreher, Frederic Vandenberghe e Cynthia Hamlin pelos comentários a versões anteriores deste texto.

2Optou-se, aqui, ao fazer referência ao autor, por manter a grafia da maneira como aparece na obra citada. Quando o autor aparece no texto sem referência direta a uma obra, o nome é grafado como nos países de língua alemã, Alfred Schütz.

3Essa fusão não deve ser entendida como tentativa de justaposição de interpretações. Ao contrário, trata-se de uma fusão a partir de uma apropriação crítica que Schütz realiza de Weber e Husserl, objeto, aliás, de críticas, como aquelas formuladas por Giddens (1978, p. 24-34), por Gorman (1979) e a de Campbell (1996, p. 33); este último, exclusivamente no que se refere a Weber.

4A sociologia de Schütz possui, ainda, uma terceira base de apoio importante, a teoria da ação econômica, formulada por Ludwig von Mises, um dos principais representantes da Escola Econômica de Viena. Fundamental aqui para Schütz é sua teoria do valor, em que se acentua a perspectiva subjetiva na valoração de bens específicos (sobre isso ver ENDREß e RENN, 2004, pp. 18-20 e 25-36).

5Em artigo publicado originalmente em 1981, Keneth R. Muse aponta que alguns autores (por exemplo, George Psathas e Helmut R. Wagner) identificam nas formulações metodológicas de Weber aspectos “fenomenológicos” (por exemplo, na doutrina da Verstehen), embora, segundo Muse, o próprio Weber não haja reconhecido tais elementos como sendo “fenomenológicos”. Por outro lado, o argumento de Muse é de que é possível identificar evidências fortes do impacto da obra de Husserl, “fundador” da fenomenologia, em Weber. Porém, essa influência encontra-se onde, segundo ele, menos se espera: na doutrina do tipo ideal (ver MUSE, 1991). Para uma breve e importante comparação das abordagens da fenomenologia do mundo da vida em Weber e Schütz, ver John R. Hall (1991).

6Na análise do “estranho”, empreendida por Schütz, verifica-se, de maneira bastante nítida, o lugar da percepção da alteridade no estabelecimento da ação individual (ver, por exemplo, SCHÜTZ, 2004a, p. 219; 2004b, p. 116; 1979, p. 85).

7Bülow-Schramm e Gerlof (s/d) veem igualmente pontos de aproximação entre ambos os conceitos.

8Da mesma forma, Throop e Murphy (2002) escrutinam as críticas à fenomenologia de Schütz, formuladas por Bourdieu.

9Há uma tradução para o português publicada recentemente: Schütze, 2010.

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