Mulheres jovens, sexualidade e dupla proteção

MULHERES JOVENS, SEXUALIDADE E DUPLA PROTEÇÃO EM UMA COMUNIDADE RURAL DE CARUARU, PERNAMBUCO



YOUNG WOMEN, SEXUALITY AND DUAL PROTECTION IN A RURAL COMMUNITY OF CARUARU, PERNAMBUCO



Marion Teodósio de Quadros

Karla Galvão Adrião

Maria Julia Carvalho de Melo


______________________________________________________________________

Resumo

Esse trabalho é resultado de pesquisa qualitativa relativa à vivência de mulheres jovens, com práticas heterossexuais, de uma comunidade rural de Caruaru - Pernambuco, mediante a reconstrução, identificação e percepção dos roteiros sexuais e dos sistemas que regem a sexualidade das jovens, associando-os à dupla proteção, que significa prevenção das infecções sexualmente transmissíveis/HIV e da gravidez não desejada de forma simultânea, sendo uma prática que implica a concordância e envolvimento de um casal heterossexual. Como metodologia foi utilizado o estudo de trajetórias sexuais e reprodutivas. Buscou-se descrever os roteiros de parcerias sexuais encenados, bem como as práticas eróticas (roteiros eróticos) discursivamente descritas. Dessa forma, identificamos os tipos de parcerias relacionadas, atentando para os cenários sexuais em que estas aconteciam. Buscamos problematizar questões de comportamentos reprodutivo e sexual das jovens, relacionando estes aos marcadores culturais e sociais comunitários, bem como os significados e sentidos que lhes eram atribuídos pelas próprias jovens, e suas implicações em termos de saúde e direitos sexuais e reprodutivos. Foram realizadas entrevistas com cinco jovens com idades de 16 a 21 anos e observações do seu contexto cotidiano na comunidade. As mulheres jovens interlocutoras da pesquisa associavam o cuidado com a contracepção e a prevenção das IST/HIV na relação sexual ao modelo de compromisso assumido; ou seja, quando o encontro entre as jovens e um parceiro se tornava estável, elas paravam de se preocupar com a prevenção às IST/HIV, não utilizando a camisinha devido à confiança, fundamentada no amor romântico e marcada pela crença de fidelidade por parte do parceiro.


Palavras-chave: Mulheres jovens. Contracepção. Prevenção. Sexualidade.


_______________________________________________________________________

Abstract

This work is the result of a qualitative research on the experiences of young women, with heterosexual practices in a rural community of Caruaru - Pernambuco, through reconstruction, identification and perception of sexual scripts and systems that govern the sexuality of young people by associating them with the double protection, that means the prevention of sexually transmitted infections/HIV and unwanted pregnancy, being a practice that involves the agreement and involvement of a heterosexual couple. The methodology was used to study sexual and reproductive pathways. We sought to describe the routes of sexual partners staged and the erotic practices (erotic scripts) discursively described. Thus, we identified the types of related partnerships, paying attention to the sexual scenes in which they happened. We seek to discuss issues of reproductive and sexual behavior of young people by linking them to community social and cultural markers, as well as the significance and meanings attributed to them by the girls themselves, and their implications for health and sexual and reproductive rights.They were done with interviews with five young interlocutors aged 16 to 21 years and observations of their daily context in the community. Young women partners of research associated with the care contraception and prevention of STI/HIV in sexual relation to the type of commitment. Namely, when the encounter between the young and a partner became stable, they would stop worrying about the prevention of STI/HIV, not using condoms due to trust, based on romantic love and loyalty marked by belief in the partner.


Key-words: Young women. Contraception. Prevention. Sexuality.


1 Introdução

Esse trabalho é resultado de pesquisa de natureza qualitativa intitulada “Mulheres jovens e dupla proteção em diferentes circuitos de socialidade: um estudo comparativo entre Recife e Caruaru – PE1, nos anos de 2008 a 2010. Este artigo trata de um dos campos investigados: uma comunidade rural do município de Caruaru, situado no agreste pernambucano. O objetivo foi investigar significados e práticas relacionados à dupla proteção na organização da vida sexual das jovens com práticas heterossexuais.

Para Marge Berer (2007), a dupla proteção está relacionada à prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (IST)/ Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV)2 e da gravidez não desejada. É uma prática que implica a concordância e envolvimento de um casal heterossexual. Segundo a autora, homens e mulheres devem praticar dupla proteção se ambos forem férteis, não quiserem gravidez no momento, nem se expor a infecções sexualmente transmissíveis durante práticas sexuais. A dupla proteção envolve diversos métodos e comportamentos contraceptivos e não apenas a camisinha (condom), embora o uso desta e a contracepção de emergência sejam os métodos mais utilizados entre os/as jovens (BERER, 2007), sendo amplamente utilizados entre jovens brasileiros/as, apesar das muitas dificuldades no seu uso consistente (TEIXEIRA; KNAUTH; FACHEL, 2006).

As reflexões sobre dupla proteção evidenciam a necessidade de aprofundamento de pesquisas sobre questões de gênero, processos de escolhas autônomas de mulheres e homens, bem como possibilidades de negociação entre parceiros sexuais. Como aponta Berer (2007), a promoção da dupla proteção requer estratégia de longo prazo uma vez que propõe um processo de educação em sexualidade que esteja atento a demandas de gênero.

A importância de investigar mulheres jovens em uma comunidade rural foi suscitada a partir de três questões. A primeira delas diz respeito ao norteamento teórico da pesquisa, cujo foco na inserção comunitária põe em relevo os contextos sociais e culturais da sexualidade e a natureza intersubjetiva dos significados sexuais, realçando a dimensão coletiva da construção da sexualidade (PARKER, 2000).

Na década de 1990, muito se produziu acerca da sexualidade a partir da perspectiva construtivista (SIMON; GAGNON, 1999; PARKER, 1991; RUBIN, 1993; VANCE, 1995), tendo em vista a problemática da infecção por HIV/Aids e os estudos sobre masculinidades. Essa produção acabou refletindo o que mais criticava: um viés de gênero nas pesquisas pois os estudos sobre reprodução mantinham como foco principal a mulher, e os estudos sobre sexualidade privilegiavam os homens.

A carência de estudos que focalizem a sexualidade das mulheres, especialmente das jovens, evidencia que a sexualidade continua sendo palco para constrangimentos e silêncios. Assim, a segunda questão que nos orientou neste trabalho foi a ênfase nas mulheres, buscando contextualizar suas dificuldades e entraves nas negociações sexuais. Para tanto, realizamos um diálogo entre a bibliografia sobre a gravidez na adolescência e sobre os direitos sexuais e os direitos reprodutivos3, especialmente entre heterossexuais.

A epidemia do HIV/Aids foi também objeto de reflexão desse estudo, tendo ainda como foco específico o modo como essa epidemia atingiu a população feminina. Esse problema de saúde pública ajudou na compreensão de que é urgente a discussão sobre os fatores que facilitam e os que dificultam a utilização de métodos preventivos não apenas nas relações homossexuais, mas também nas heterossexuais.

Nos primeiros anos da epidemia os homens representavam a imensa maioria dos casos, e os coeficientes de incidência no sexo masculino eram expressivamente maiores do que no sexo feminino. Entretanto, embora mais indivíduos do sexo masculino no total de casos de Aids sejam notificados no Brasil, a velocidade de crescimento da epidemia é, como em outros países, maior entre as mulheres do que entre os homens (SANTOS et al, 2009, p. 321).

Diante dessas questões, o conceito de dupla proteção evidencia a preocupação com a contracepção e a prevenção de modo associado. A ideia de dupla proteção, debatida pela área da saúde pública com a intenção de diminuir os comportamentos de risco, não tem alcançado os resultados pretendidos, na medida em que os profissionais que trabalham com saúde reprodutiva focalizam mais este debate do que os profissionais ligados a IST/HIV (BERER, 2007). Além disso, as instituições que normatizam a orientação das práticas de prevenção e contracepção não parecem levar em conta os significados êmicos da população.

No que se refere às mulheres, especialmente às jovens, Wilza Villela (2003) e Marge Berer (2007) apontaram questões e necessidades semelhantes: a importância de se repensar a prevenção e a contracepção a partir de uma perspectiva realista da avaliação sobre os riscos específicos dos contextos diferenciados e a necessidade de propor um modelo de prevenção na perspectiva da dupla proteção, bem como de envolver e treinar provedores de planejamento familiar, saúde sexual e saúde reprodutiva, além de diferentes ONGs, para o oferecimento desses serviços com o estímulo à dupla proteção.

Por fim, a terceira questão que norteou as reflexões aqui empreendidas foi a ênfase no ambiente rural. Ao focalizar as mulheres jovens de uma comunidade rural, levamos em conta que a maioria dos estudos sobre sexualidade de jovens foi realizada entre populações urbanas, poucos focaram a constituição da sexualidade entre grupos rurais ou do interior do país (ALVES, 2003; SILVA, 2002; RIBEIRO, 2003; QUADROS, 2007). Além disso, a comparação entre jovens urbanos e rurais (QUADROS, 2007) evidenciou que existe um consenso acerca da necessidade de perceber a pluralidade de adolescências ou juventudes no Brasil contemporâneo, mas poucas pesquisas foram realizadas entre populações específicas que considerassem os marcadores de raça/etnia, orientação sexual, classe, religião, região etc.

Nos estudos sobre juventude rural relacionados á sexualidade e reprodução (ALVES, 2003; SILVA, 2002; RIBEIRO, 2003; QUADROS, 2007), a gravidez é um marcador de passagem para a vida adulta e a maternidade vem a legitimar o reconhecimento da jovem como uma mulher para a família e a comunidade. Tal reconhecimento, entretanto, está baseado em variadas formas de controle do corpo e da sexualidade das mulheres, o que torna a situação paradoxal4. Controle e vigilância, reconhecimento e libertação do julgo da família, podem ser identificados como dois lados de uma mesma moeda (CORDEIRO; QUADROS, 2010).

As três questões colocadas serviram de guia para a interlocução realizada com as mulheres jovens heterossexuais, e o nosso olhar voltou-se sobre os circuitos de socialidade nos quais as jovens interagiam, a fim de investigar os significados da sexualidade, da contracepção e da prevenção na Vila de Santo Expedito. O estudo teve base etnográfica e as entrevistas semiestruturadas5 constituíram-se como a finalização de longo processo de observação no qual a convivência era a questão chave. Cinco jovens foram entrevistadas.

O objetivo deste artigo é trazer os resultados da pesquisa supracitada, evidenciando como a sexualidade é vivida por aquelas jovens e até que ponto a preocupação simultânea com a prevenção e a contracepção está presente nas suas condutas sexuais. Para tanto, o primeiro item traz uma descrição das jovens interlocutoras da pesquisa e da comunidade na qual elas vivem e se relacionam, de forma a configurar suas trajetórias afetivo-sexuais; o segundo item trata das implicações destas trajetórias para a prevenção às IST/HIV e para a contracepção. Finalizamos o artigo com algumas considerações sobre este campo de estudo e intervenção.



2 As mulheres jovens e a comunidade rural

A comunidade rural em foco é denominada Vila Santo Expedito6. Situada no município de Caruaru, existe há mais de 20 anos e tem a maior parte das ruas não asfaltada. É uma localidade considerada tranquila, entretanto, nos últimos anos vem se tornando violenta, segundo seus moradores. Suas casas são, geralmente, pequenas com dois quartos construídas com tijolos, dispostas uma ao lado da outra, e, em algumas ocasiões, cercadas por terrenos onde se cultivam algumas plantas. Há, também, a presença de três igrejas: uma Católica, uma Batista e uma Assembleia de Deus.

Entre as principais atividades remuneradas dos/as jovens estão o artesanato e a confecção de roupas para venda na Feira da Sulanca (em Caruaru), na qual há maior presença feminina. A agricultura, as fábricas do Distrito Industrial em Caruaru (no bairro Alto do Moura, que fica nas redondezas), os bares (que apenas funcionam nos fins de semana), as padarias e outras casas de comércio da comunidade constituem outras opções de empregabilidade para a população local.

Os/as jovens usualmente começam a estudar em escola da região e depois deslocam-se para outra em bairro vizinho ou no Centro da cidade de Caruaru, pois a única escola da comunidade oferece apenas os anos iniciais do ensino fundamental.

O lazer rotineiro dos/as jovens está relacionado à ida a um açude no qual se divertem nos finais de semana, a um cyber (recém-aberto) e uma lanchonete. Assim, diante das poucas opções, costumam afirmar que não há lazer na comunidade e cultivam o hábito de se encontrarem nas casas uns dos outros.

Por ocasião desta pesquisa, as interlocutoras deste trabalho tinham de 16 a 21 anos, sendo que uma era casada, duas eram noivas, uma tinha namorado e outra era solteira. A jovem casada tinha uma filha pequena e estava preocupada em não engravidar. As solteiras não tinham filhos nem estavam grávidas. Entre as que não eram casadas havia o desejo de casar logo que possível. Outra semelhança na trajetória delas é referente à moradia, pois quatro das cinco jovens moravam com os pais e irmãos, apenas Rebeca morava com seu marido e filha, entretanto seus pais e avós eram seus vizinhos, o que mostra o forte vínculo com a família de origem, um padrão frequente em comunidades rurais, o de construir a casa da família de procriação junto à casa da família de origem.

Das cinco mulheres jovens entrevistadas, três consideraram-se pardas, uma considerou-se branca e a outra morena clara. Quanto à escolaridade, apenas uma terminou o Ensino Médio, duas o estão finalizando, e duas outras pararam de estudar antes mesmo de nele ingressar.

No que diz respeito à ocupação, Isabel pinta peças de artesanato, Ana é costureira, Carolina vende roupas na Feira da Sulanca, Talita é apenas estudante e Rebeca é dona de casa. Nenhuma, portanto, trabalha com a agricultura, muito embora o pai de Talita seja agricultor.

Os diversos relacionamentos de quatro das cinco jovens pesquisadas usualmente se iniciaram na escola (excetuando-se os relacionamentos de Isabel), sendo denominados primeiramente de “ficar”, que significa um modo de se envolver sexualmente sem qualquer tipo de compromisso com o parceiro, para experimentar se o relacionamento daria certo, sendo sucedido pelo namoro.

As entrevistas consideram que as moças de sua comunidade são ‘irresponsáveis’ por casarem e terem filhos cedo e por “ficarem” com muitos rapazes, muitos dos quais elas mal conhecem. Sendo assim, “Mesmo com a demanda atual de se ficar, a estrutura e a organização afetiva, muitas vezes, ainda permanecem essencialmente as mesmas [...]” (LONGHI, 2006, p. 62). Quanto aos rapazes, as interlocutoras os consideram antipáticos, exibicionistas e excessivamente festeiros:

As meninas são galinha demais. As meninas! E os meninos são muito amostrado, só quer ser os machão. [...] E quando tão numa moto é que se amostra bonito” (REBECA, 16 anos).

Essas características são parte importante das concepções de mundo das jovens uma vez que, ao relacioná-las às suas práticas sexuais e reprodutivas, temos condições de contextualizar significados e práticas de prevenção e contracepção a partir da cultura sexual local, aprofundando as reflexões acerca das possibilidades de negociação sexual7 das mulheres jovens.

Almejando pensar no processo de engendramento das identidades sexuais das jovens, da constituição das suas parcerias sexuais e práticas eróticas ou, de outro modo, em como a cultura sexual de determinada comunidade se inscreve e se reproduz nos indivíduos e através deles, utilizamo-nos da teoria dos scripts de Simon e Gagnon (1999).

Conforme Simon e Gagnon (1999), as instituições ou arranjos institucionais podem ser vistos como sistemas de signos e símbolos através dos quais práticas de papeis (no sentido de roteiros encenados, semelhante ao que acontece com atores e atrizes em uma peça teatral ou filme) específicos são requeridos. O desempenho dos papeis precisam, direta ou indiretamente, refletir os conteúdos de cenários culturais apropriados. Tais cenários seriam como guias instrucionais existentes ao nível da vida coletiva e apreendidos pelos sujeitos por meio dos roteiros sexuais. Estes são os percursos que se delineiam na relação entre desejo e erotização sexual na vida de cada uma das jovens, e se interconectam com os marcadores culturais locais.

Ao compreender os significados e sentidos que são atribuídos pelas próprias jovens aos marcadores culturais e sociais comunitários, é possível identificar suas implicações em termos de saúde e direitos sexuais e reprodutivos. Dessa forma, trataremos de seus roteiros e parcerias sexuais de forma a buscar complexificar o olhar sobre esta realidade.



3 Roteiros que orientam a formação de parcerias e práticas sexuais

Para identificar os roteiros e práticas sexuais encenados, analisamos os locais de interação das mulheres jovens na comunidade, os atributos considerados importantes para os parceiros escolhidos e para as próprias jovens, bem como as características dos relacionamentos amorosos e práticas sexuais.

3.1 Os locais de interação

As jovens constroem suas relações amorosas e sexuais na escola, nas festas da comunidade, numa lanchonete (também da comunidade) e num bairro vizinho, local onde se concentram muitos bares. Esses espaços tornam-se, assim, responsáveis pela interação dos jovens e pela efetiva vivência da juventude. Dessa maneira, apropriam-se dos comportamentos e regras sociais destinadas àqueles da mesma idade, sendo a idade “um referencial sociocultural importante, [que] reflete comportamentos comuns e significativos para a compreensão da sociedade” (GONÇALVES; KNAUTH, 2006, p. 626). É possível, dessa maneira, perceber a importância desses locais, especialmente da escola, quando observamos que das cinco jovens pesquisadas, quatro delas mantiveram ou ainda mantêm relacionamentos com rapazes que conheceram no ambiente escolar.

As jovens se queixam da escassez de lugares de lazer na comunidade, indicando que apenas em uma lanchonete é possível encontrar outras pessoas jovens:

Aqui não [há locais de lazer], visse! Só na cidade! (ISABEL, 21 anos).

Lugar de lazer aqui? Não (CAROLINA, 18 anos).

Não! Não tem praça, não tem nada! (ANA, 17 anos).

A falta de espaços para a interação com outros jovens tem implicações para a constituição de práticas e parcerias sexuais uma vez que diminui as possibilidades de cenários para o desenvolvimento dos roteiros sexuais.

3.2 Atributos dos parceiros escolhidos e das próprias jovens

Ser um rapaz simpático e que não goste muito de festas envolve qualidades apreciadas pelas jovens da comunidade, tornando este rapaz boa opção para um relacionamento. Para as entrevistadas, essas características influenciam o sentimento de atração que as faz investir num relacionamento de namoro com um rapaz.

Apostar em relacionamentos com rapazes que não gostem muito de festas significa, para as jovens, diminuir as possibilidades de serem traídas. A tendência das jovens é a de compreender que o comportamento geral dos homens é o de se relacionarem ao mesmo tempo com várias mulheres e não de questionar tal comportamento, uma vez que “a identidade masculina destaca a sexualidade, o que significa que ser homem é ser essencialmente sexual” (KNAUTH; LEAL, 2006, p. 1380).

Por outro lado, elas afirmam que os rapazes valorizam mais o ‘jeito’ e o comportamento delas do que suas características físicas:

Ele disse que uma coisa que gostou de mim é que eu sou, assim, aquela pessoa bem reservada, mas sou bem, assim, extrovertida quando conheço a pessoa. E ele disse que me achou bem carinhosa (ANA, 17 anos).

[ele gostou de mim] Porque eu sou sincera, se eu não gostar eu digo na cara mermo! Ele me trouxe um bouquet de rosas, eu disse: ‘Quê? Eu não gosto disso não!’. Nunca mais ele me trouxe (CAROLINA, 18 anos).

Nas escolhas das jovens e no que elas reconhecem como demandas dos rapazes, podemos encontrar forte valorização das condutas que podem indicar se a moça é sincera, verdadeira e carinhosa ou se o rapaz é simpático e recatado. Estes requisitos parecem ligados aos requisitos de confiabilidade, fundamental para a formação de parcerias. As moças da comunidade que ainda não se casaram estão fortemente inclinadas a viver um relacionamento ‘sério’, e os códigos da comunidade apontam para características cuja tônica moral é mais presente do que a estética. Este é também um dado que aparece na pesquisa sobre dupla proteção realizada em um bairro da periferia urbana da cidade de Caruaru (SILVA E QUADROS, 2009), evidenciando a tendência das jovens a estarem mais interessadas em namorar e casar e, na procura por pretendente, ficarem mais atentas às condutas do que à aparência física.

3.3 Relacionamento amoroso e prática sexual

As jovens atribuem grande valor à associação entre o relacionamento amoroso ‘sério’ e a prática sexual. Isso significa dizer que, para elas, o sexo precisa vir acompanhado de algum tipo de envolvimento mais profundo com o parceiro. Como afirmam Daniella Knauth e Andréa Fachel Leal (2006, p. 1377), “os discursos femininos se centram na contextualização afetivo-romântica das suas relações”. Essa questão fica evidente na fala de Rebeca:

Quando se namora a pessoa pode fazer outras coisas, tem mais liberdade, mas quando se “fica” é só amasso e beijo mesmo (REBECA, 16 anos).

Esta fala ilustra o que, para elas, é admitido no ‘ficar’, um relacionamento sem maiores compromissos, no qual se permitem beijos e ‘amassos’ (também conhecidos como ‘sarros’, abraços intensos que envolvem carícias no pênis, vagina, seios e outras zonas erógenas) na concepção das jovens. Qualquer outra prática sexual extrapola o limite aceitável para que a jovem não macule a sua reputação moral e passe a ser comparada a uma prostituta:

Tem algumas [moças da comunidade] que... dá-se ao respeito, tem outras que não. Tem outras que vai além das coisas [transa no ficar]. [...] Aqui tem muitas meninas, assim, que são muito fácil, ta entendendo! Por exemplo, você vê um menino agora. Aí o maloquero pega quer conhecer você, você vai logo conhecendo ele e já vai logo ficando com ele. Que nada! [...] Eu não sou assim, tem que conhecer bem aquele menino pra mim depois ... As meninas daqui são tudo nova e já querem tudo, assim, ir além das coisas. Daqui são assim, tudo vadia (ISABEL, 21 anos).

O posicionamento convergente dessas jovens para os limites entre o ‘ficar’ e o namorar, bem como a tônica moral envolvida na classificação das práticas sexuais permitidas e proibidas, ou ainda nas características valorizadas para rapazes e moças, refletem expectativas compartilhadas pela comunidade em relação à escolha do parceiro para a formação da família de procriação. Recordemos que apenas uma das jovens é casada e as outras estão claramente empenhadas na procura de um relacionamento ‘sério’, que inicie pelo namoro e resulte em casamento. Além disso, três das jovens entrevistadas são virgens (Ana, Carolina e Talita) e duas delas pretendem não manter relações sexuais antes do casamento. Isso nos ajuda a compreender, em parte, os posicionamentos dessas jovens e o tom acentuado dos limites considerados aceitáveis para a preservação da reputação moral das jovens.

Estas duas jovens adicionam uma explicação ao desejo de casarem virgens: a questão da segurança. Elas afirmam que se sentirão mais confortáveis em ter relações sexuais quando estiverem em um relacionamento seguro, no qual a segurança significa a certeza de que a relação é duradoura, acreditando, portanto, que é mais fácil acabar um namoro do que um casamento. Mesmo a jovem que não pretende se casar virgem afirma que só manterá relação sexual quando seu namoro estiver mais consolidado, com mais tempo de relacionamento, ou seja, quando sentir-se mais segura. Por sua vez, as duas jovens que já não são virgens mantiveram relações sexuais quando consideraram estar num relacionamento sério. Isabel estava noiva e Rebeca estava namorando o seu atual marido. Assim, a valorização da virgindade feminina é acompanhada por um roteiro no qual estas jovens desejam manter relações sexuais com um único parceiro, dentro de um relacionamento ‘sério’ ou seguro.

Limites dados pela comunidade em relação aos locais de interação destinados a jovens parecem se coadunar com limitações colocadas pelas jovens quanto às práticas sexuais relacionadas ao ‘ficar’, valorização das condutas (mais do que das características físicas), do namoro e da virgindade, realçando a idealização da mulher honrada como aquela com pouca experiência sexual e que tem em mente que irá manter apenas um parceiro sexual, o seu marido.

Marion Quadros (2007, p. 85) chegou a resultados semelhantes em uma comunidade rural do sertão pernambucano, na qual a valorização da virgindade feminina é requisito importante para o mercado matrimonial e a qualificação moral da mulher jovem. Para reforçar a sua valorização neste mercado, utilizam-se de recurso também utilizado pelos homens para distinguir as mulheres pelas implicações de seu comportamento sexual: a classificação de mulheres (QUADROS, 2004) entre as ‘santas’, ‘certas’, ‘limpas’, comportadas e as ‘prostitutas’, ‘erradas’, ‘sujas’, ‘safadas’, identificando-se com as primeiras. Este é outro mecanismo no qual podemos ver a dimensão coletiva da cultura sexual uma vez que a classificação de mulheres, operada por elas próprias, expressa mais uma forma de invisibilizar a vida sexual das mulheres jovens: para ter mais chances de se destacar enquanto mulher desejável para o namoro e casamento, elas precisam silenciar a respeito de sua vida sexual e diferenciar as moças fáceis das moças sérias, colocando-se neste segundo grupo.

Mesmo considerando que a valorização da virgindade parece mais circunscrita a áreas rurais (QUADROS, 2007; CORDEIRO; QUADROS, 2010), a compreensão de que o sexo necessita ser mais do que a satisfação de um desejo pode ser interpretada como um ponto convergente de identificação para mulheres jovens de vários estados brasileiros, bem como do litoral, agreste e sertão pernambucano (SILVA, 2002; RIBEIRO, 2003; KNAUTH; LEAL, 2006; QUADROS, 2007; CORDEIRO; QUADROS, 2010).

As implicações desta e das outras prescrições existentes como guias de conduta para a vida sexual e reprodutiva das mulheres sugerem a aposta em parcerias sexuais que as expõem a vulnerabilidades na prevenção e na contracepção, como veremos no próximo item.



4 Implicações para a prevenção às ist/hiv e a contracepção

Levando em conta que o condom (camisinha) é um dos métodos preferidos pelos jovens, focalizamos os significados e práticas do uso da camisinha e/ou algum outro método contraceptivo, bem como a presença da associação simultânea à contracepção e prevenção na trajetória das interlocutoras, a partir dos roteiros e práticas sexuais encenados. Identificamos em quais parcerias há o uso de camisinha e/ou algum outro método contraceptivo e, dentro destas, em quais o uso é associado à preocupação com a prevenção e a contracepção, simultaneamente.

A preocupação com a prevenção e com a contracepção está presente na vida das jovens de modo diferenciado. As entrevistadas apresentam preocupação maior com a contracepção porque afirmam confiar nos parceiros, sendo a fidelidade encarada como comportamento recíproco. Para as três jovens virgens (Carolina, Talita e Ana), por exemplo, o uso de métodos de prevenção no momento em que iniciarem a vida sexual terá o principal objetivo de impedir a gravidez. Estes resultados convergem com os encontrados em outros estudos (VILLELA; DORETO, 2006; QUADROS, 2007) em que “nos relacionamentos considerados estáveis, a prioridade deixa de ser a proteção das infecções de transmissão sexual e passa ser a prevenção da gravidez” (FACHEL et al, 2006, p. 1394).

Isso não significa, no entanto, que estas jovens estejam despreocupadas em relação às IST/HIV, na verdade, elas percebem o risco dessas infecções, mas acreditam não estarem vulneráveis. Essa questão é evidente nas falas das jovens quando perguntadas sobre a preocupação com as IST/HIV e sobre a confiança em seus parceiros, na medida em que dizem:

Eu confio bastante nele, sobre isso. Mas, assim, eu tenho medo, mas não por ele, entendeu! Que eu acho que eu confio nele (TALITA, 18 anos).

Eu sei que ele não é assim, do meio do mundo. Porque tem homem, né, que quenga com uma, quenga com outra, não (REBECA, 16 anos).

Assim, as jovens desta comunidade rural possuem grande preocupação com a gravidez indesejada e preocupação menor com as infecções sexualmente transmissíveis, uma vez que se fazem acompanhadas da segurança de que seus parceiros não as contaminarão com IST/HIV.

Os métodos de prevenção citados pelas cinco jovens foram a camisinha masculina, a pílula anticoncepcional, a injeção hormonal, a camisinha feminina e o coito interrompido (citado apenas por Rebeca). Destacamos a forte presença da camisinha masculina nas falas dessas jovens, o que demonstra o uso cada vez mais frequente desse método, mesmo entendendo que “o maior uso de preservativo entre os jovens não implica um uso continuado” (FACHEL et al, 2006, p. 1395).

As jovens entrevistadas afirmaram que o método mais seguro contra as infecções sexualmente transmissíveis é a camisinha masculina, entretanto, manifestaram pouca preocupação com a prevenção às IST/HIV, pois entendem que a situação em que vivem não as deixa vulneráveis a estas infecções. Apesar disso, Ana, Carolina, Talita e Isabel dizem fazer ou pretender fazer uso da camisinha pelo menos nas relações sexuais iniciais. Assim, considerando que não estão (ou estarão) vulneráveis a tais doenças, demonstram boa aceitação do uso deste método e o associam mais à contracepção, embora saibam de sua importância para a prevenção às IST. Carolina, por exemplo, pretende usar a camisinha e a pílula anticoncepcional para se prevenir das IST/HIV e da gravidez, enfatizando que o método mais seguro para se proteger desta última é o uso conjunto de pílula e camisinha. Talita também percebe a importância da camisinha tanto como método de prevenção para as IST/HIV quanto para a contracepção, mas afirma que quando tiver mais tempo de relacionamento usará apenas a pílula anticoncepcional:

Não tomaria [remédio] agora não [...]. Eu acho que depois de muito tempo de namoro eu usaria só a pílula (TALITA, 18 anos).

Esta tendência de deixar de usar a camisinha a partir do momento em que o relacionamento vai se tornando mais duradouro também foi apontada por outros estudos com mulheres e homens jovens (VILLELA; DORETO, 2006; QUADROS, 2007, FACHEL et al, 2006; TEIXEIRA; KNAUTH; FACHEL, 2006). Para as entrevistadas, o uso da camisinha parece associado aos processos de aquisição de confiança no parceiro e de estabilização do relacionamento amoroso; uma vez conquistados, o uso da camisinha parece desnecessário. Colocar a camisinha em desuso passa a ser marca de reconhecimento desta nova situação; para elas, o uso de algum método, então, só se justifica pelo temor à gravidez indesejada. Rebeca, por exemplo, demonstrava-se muito menos preocupada com as IST/HIV por estar casada, o que significa acreditar que está vivendo um relacionamento monogâmico. Neste tipo de relacionamento, o uso do coito interrompido e da pílula anticoncepcional (às vezes) para evitar a gravidez pareceram mais adequados.

A presença do coito interrompido como um dos métodos de prevenção vem corroborar o que outros estudos indicam, que é usado por milhões de casais heterossexuais (BERER, 2007). Rebeca percebe o coito interrompido como um método de contracepção seguro:

[o método mais seguro é] o interrompido. Mais seguro pra proteger contra a gravidez (REBECA, 16 anos).

Por outro lado, este padrão de uso da camisinha e da prática do coito interrompido corroboram o que falam estudos sobre o uso de métodos pelos homens da periferia do Recife (QUADROS, 2004), uma vez que os homens também vão deixando de usar a camisinha, conforme a relação vai ficando mais estável.

As jovens parecem não ter grande conhecimento a respeito dos efeitos colaterais dos métodos que citaram. Carolina e Rebeca disseram apenas não se sentir bem quando ingeriam as pílulas anticoncepcionais (Carolina usa as pílulas para evitar a menstruação quando vai à praia), e Rebeca afirmou, ainda, que a injeção pode fazer a mulher ficar inchada. Estas jovens conversam pouco ou nada com os pais sobre sexo, contracepção e prevenção, o que contribui para a escassez de informações.

Entre as jovens, a única que parece conversar sobre sexualidade com a mãe é Carolina, embora haja dito que a conversa se restrinja a conselhos dados pela mãe sobre não engravidar e sobre as consequências desse fato na vida de alguém. Estas observações convergem com as de Romero et al (2007, p. 17):

Não há dúvida de que, atualmente, as adolescentes falam mais sobre sexo com os pais. Contudo, as conversas transitam apenas na superficialidade, não há esclarecimento sobre a necessidade de alguns cuidados antes da iniciação sexual e do conhecimento adequado dos métodos contraceptivos.

Ao falar sobre as facilidades ou dificuldades de acesso aos métodos, as jovens parecem esperar maior responsabilidade do parceiro para providenciar a camisinha, consideram o homem como o responsável por providenciar sua compra; já no que se refere às pílulas anticoncepcionais, a responsabilidade é mais compartilhada, sendo a mãe (no caso de Carolina, que usou para interromper a menstruação e, assim, ir à praia), o namorado (Rebeca solicitou que seu namorado comprasse as pílulas na primeira relação sexual) e a própria jovem as pessoas vistas como responsáveis por providenciar a compra.

O acesso pelo sistema de saúde está mais relacionado às mulheres casadas, pois as mulheres solteiras ainda possuem receio em ir buscar os métodos de prevenção e, com isso, serem alvos de comentários na comunidade. O estudo sobre sexualidade e dupla proteção realizado com mulheres jovens de um bairro da periferia do Recife apontam para este mesmo temor (QUADROS; ADRIÃO; XAVIER, 2011). Estes dados reforçam o roteiro pretendido e encenado pelas mulheres jovens desta comunidade rural, no qual a valorização da virgindade e da pouca experiência sexual feminina parece dificultar o acesso aos métodos, especialmente os considerados preventivos.

Toda essa discussão indica forte sentido moral nas questões relacionadas à sexualidade das mulheres jovens entrevistadas, as quais compreendem que a permissão para o sexo deve vir apenas em uma relação estável, onde haja carinho e amor. A valorização da confiança baseada no amor leva à fidelidade como uma conduta condizente com a simpatia e o recato procurado nos rapazes, um comportamento esperado e encenado a partir de suposições e não na negociação entre os parceiros. Esses resultados convergem para os de outros estudos sobre mulheres jovens e também sobre mulheres adultas (QUADROS, 2007; CASTRO; ABRAMOVAY, 2004; SILVA, 2002; HEILBORN; GOUVEIA, 1999; BARBOSA,1999).

A ideia da fidelidade masculina é um campo problemático da questão. A relação entre ser homem, ser viril e se relacionar ao mesmo tempo com várias mulheres está muito presente na cultura sexual brasileira (PARKER, 2001; SILVA, 2002; QUADROS, 2004), o que pode ser ilustrado localmente pela valorização do recato como um dos requisitos procurados nos rapazes. A admissão de que há menor possibilidade de traição por parte dos rapazes que não gostam muito de ir a festas expressa o temor constante que elas possuem da traição masculina, um temor que parece implicar o silêncio sobre o tema no estabelecimento da relação de namoro ou casamento. A monogamia é, então, condição para o relacionamento; é um comportamento revestido pela confiança no parceiro, mesmo que sempre potencialmente ameaçada pelo temor da traição masculina, sendo tal ameaça contrabalançada pelo sentimento de amor quem ama é fiel, acreditam as jovens.

Assim, a suposta fidelidade masculina aparece como fator de vulnerabilidade das jovens uma vez que o uso dos métodos encontra na monogamia um pressuposto que leva as mulheres jovens a se sentirem seguras em não se preocuparem com a prevenção às IST/HIV, preocupando-se principalmente com a contracepção. Isso não significa, portanto, ausência de preocupação com a prevenção, mas, sim, uma preocupação que parece não fazer sentido na construção do relacionamento com o parceiro. O amor romântico e a fidelidade funcionam como barreiras para a proteção ao risco de contrair alguma IST/HIV.

A demarcação de gênero, portanto, parece preponderante nas decisões acerca da prevenção e da contracepção, potencializando a vulnerabilidade das mulheres jovens em questão. Esta demarcação está presente em diferentes atribuições que acompanham as decisões sexuais: na ideia de que a sexualidade é fator definidor da identidade masculina e a reprodução é definidora da identidade feminina; na crença de que a camisinha deve ser adquirida pelo homem e de que o acesso a métodos no serviço de saúde pode comprometer a reputação da mulher jovem; na maior ênfase dada à preocupação com a contracepção, pressupondo a monogamia do parceiro. O roteiro e o cenário sexual valorizado para as mulheres jovens na Vila Santo Expedito atua dificultando o acesso à informação e à prática do sexo, da contracepção e da prevenção de infecções sexualmente transmissíveis.



5 Considerações finais

Inicialmente pudemos perceber que a sexualidade é vivenciada desde muito cedo por essas jovens a partir do “ficar”. Embora esta situação seja considerada sempre a partir de limitações das práticas sexuais permitidas, é uma forma de iniciar uma aproximação para possível namoro, relacionamento mais valorizado por elas, que associam o sexo ao relacionamento amoroso. Ou seja, na concepção dessas mulheres, o sexo só é permitido quando se gosta de alguém e esse sentimento é recíproco, estando ainda em um relacionamento amoroso-afetivo estável ou ‘sério’ no qual o tempo de duração da relação é um dos principais parâmetros para avaliar sua estabilidade: quanto mais duradouro o relacionamento, maior a estabilidade. As mulheres jovens têm aderido a um discurso que reitera um ideal de amor romântico de forma tal que encontram nele respostas para atuarem sexualmente junto aos parceiros ficando vulneráveis às IST/HIV.

As escolas também contribuem para tal fato na medida em que, segundo as jovens afirmam, o tratamento dado às questões sexuais no ambiente escolar é sempre superficial, privilegiando ora a prevenção contra as IST/HIV, ora a contracepção, mas nunca um tratamento que busque associar os dois aspectos. Essa questão também é identificada em artigo de Quadros e Cordeiro (2010) no qual evidenciam que as mulheres jovens da comunidade rural Santa Cruz da Baixa Verde-PE encontram dificuldade na assistência à saúde sexual, tanto no sistema de saúde, quanto na escola e na família. Sendo assim, a dupla proteção parece ser uma preocupação das jovens entrevistadas, considerando que elas não se sentem vulneráveis em relação às IST/HIV e procuram se prevenir de maneira mais efetiva contra a gravidez. Diante disso, a dupla proteção, interpretada nas falas das jovens a partir da identificação dos roteiros e cenários sexuais e suas implicações para o uso de métodos, está ligada à associação entre o relacionamento monogâmico e algum método contraceptivo.

Constatamos, também, que a ausência de conversa das jovens com seus pais sobre sexo ou o tom conservador e punitivo dos pais no tratamento da sexualidade das filhas contribui para o pouco acesso às informações sobre sexo, métodos de prevenção, planejamento familiar e infecções sexualmente transmissíveis. Elas possuem receio quanto às práticas sexuais, tendo diversas dúvidas não respondidas e pouco conhecimento sobre métodos de prevenção contra as IST/HIV e contra a gravidez. Existe também nesse fato grande semelhança com o que é encontrado em Cordeiro e Quadros (2010), quando estas evidenciam a grande importância, em comunidades rurais, da virgindade da moça, o que pode ser favorável a essa ausência de discussão entre pais e filhas sobre sexualidade.

O sexo é percebido por elas como um meio de experimentar o amor delas por alguém, não é somente a busca do prazer. Esta situação atesta como a sexualidade das mulheres jovens desta comunidade rural exemplifica uma cultura sexual na qual as relações de poder privilegiam os homens em termos de maior liberdade de escolha nas cenas heterossexuais (expressas especialmente na maior possibilidade de sair de casa e ir para festas, ou ainda no temor geral delas de serem traídas pelos namorados), evidenciando, também, o controle da família e da comunidade em relação à sexualidade dessas mulheres, que as vulnerabiliza à gravidez indesejada e às IST/HIV.

Além disso, a dupla proteção parece ser uma preocupação relacionada a um grupo de estudiosos, de planejadores da saúde pública, que não parece prioridade dentro do próprio campo da saúde, uma vez que as políticas públicas tendem a não considerar a contracepção e a prevenção de modo integrado em seus projetos de ação (VILLELA; DORETO, 2006).

Ao realizarmos este estudo, consideramos que a investigação dos contextos sexuais (PARKER, 2000; SIMON; GAGNON, 1999) amplia a compreensão dos elementos que vulnerabilizam as mulheres jovens rurais sem considerá-las como únicas ou principais responsáveis pela exposição ao risco de contrair IST/HIV ou engravidar, nem, tampouco, considerá-las irresponsáveis ou inconsequentes em suas ações. Acreditamos na efetividade desta abordagem como caminho para compreender e atuar junto a estas populações, criando alternativas mais eficazes de intervenção.





Referências


ALVES, M. 2003. Sexualidade e prevenção de DST/AIDS: representações sociais de homens rurais de um município da zona da mata pernambucana, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.19, Sup. 2, p. S429 – S440.


BARBOSA, Regina Maria. 1999. Negociação Sexual ou sexo negociado? Poder, gênero e sexualidade em tempos de AIDS. In: BARBOSA, Regina Maria e PARKER, Richard (orgs.). Sexualidades pelo avesso: direitos, identidades e poder. Rio de Janeiro: IMS/UERJ/São Paulo: Ed. 34. p. 73 - 88.


BERER, Marge. 2007. Dupla Proteção: mais necessária do que praticada e compreendida. Questões de Saúde Reprodutiva, Rio de Janeiro, n. 2, julho. p. 23 - 33


CASTRO, M.; ABRAMOVAY, M.; DA SILVA, L. 2004. Juventudes e sexualidade. Brasília: UNESCO.


CORDEIRO, Rosienide; QUADROS, Marion Teodósio de. 2010. Jovens agricultoras, salário-maternidade e o critério da idade. In: SCOTT, Parry; CORDEIRO, Rosineide; MENEZES, Marilda (orgs.). Gênero e Gerações em Contextos Rurais. Ilha de Santa Catarina: Editora Mulheres. p. 391 - 420.


CORRÊA, Sônia e ÁVILA, Maria Bethânia. 2003. Direitos Sexuais e Reprodutivos – Pauta Global e Percursos Brasileiros. In: BERQUÓ, E. (org.). Sexo & Vida: Panorama da Saúde Reprodutiva no Brasil. Campinas, SP: Editora da UNICAMP. p. 17 - 78.


COSTA, Jurandir Freire.1998. Sem fraude nem favor. Rio de Janeiro: Rocco editora.


FERNANDES, Arlete Maria dos Santos; ANTONIO, Daniel de Gaspari; BEHAMONDES, Luis Guillermo; CUPERTINO, Caren Vanessa. 2000. Conhecimento, atitudes e práticas de mulheres brasileiras atendidas pela rede básica de saúde com relação às doenças de transmissão sexual. Cadernos de Saúde Pública, Rio de janeiro, v.16, Sup. 1. p. 103 - 112.


GONÇALVES, Helen; KNAUTH, Daniela Riva. 2006. Aproveitar a vida, juventude e gravidez. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 49, n. 2 , julho/dez. p. 625 – 643.


HEIBORN, Maria Luiza e GOUVEIA, Patrícia. 1999. Marido é tudo igual: mulheres populares e sexualidade no contexto da AIDS. In: PARKER, Richard e BARBOSA, Regina (orgs.). Sexualidades Brasileiras. Rio de Janeiro: Relume Dumará. p. 119 - 135.


KNAUTH, Daniela Riva; LEAL, Andréa Fachel. 2006. A relação sexual como uma técnica corporal: representações masculinas dos relacionamentos afetivo-sexuais. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, n. 22, v. 7, Julho. p. 1375 - 1384


LONGHI, Márcia Reis. 2006. Gênero e relações intergeracionais da perspectiva de jovens e famílias. In: SCOTT, Russell Parry; ATHIAS, Renato; QUADROS, Marion Teodósio de (Orgs.). Saúde, Sexualidade e Famílias urbanas, rurais e indígenas. Recife: Editora Universitária. p. 55 - 74.


PAIVA, Vera; PUPO, Ligia Rivero; BARBOZA, Renato. 2006. O direito à prevenção e os desafios da redução da vulnerabilidade ao HIV no Brasil. Revista de Saúde Pública, v. 40, n. suppl., p. 109 - 119.


PARKER, Richard. 1991. Corpos, prazeres e paixões: a cultura sexual no Brasil contemporâneo. São Paulo: Best Seller.


________. 2000. Na contramão da AIDS: sexualidade, intervenção, política. Rio de Janeiro: Editora 34/ABIA.


PARKER, Richard; RIOS, Luis Felipe; TERTO JR., Veriano. 2001. Intervenciones para hombres que tinen sexo con hombres: una revisión de la investigatción y práticas preventivas en América Latina. In: LICEA, J. (ed.) Políticas públicas y prevención del VIH/SIDA en América Latina y el Caribe: una revisión basada en la Conferência Latinoamericana e del Caribe Forum 2000. Mexico: FMS/SIDALAC/ONUSIDA.


QUADROS, Marion Teodósio de. 2004. Homens a e contracepção: práticas, idéias e valores masculinos na periferia do Recife. Tese (Doutorado em Sociologia) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife.


QUADROS, Marion Teodósio de. 2007. Jovens, contracepção e conversas com os pais: comparando opiniões de moças e rapazes de famílias urbanas e rurais. In: SCOTT, Russell Parry; ATHIAS, Renato; QUADROS, Marion Teodósio de (orgs.). Saúde, Sexualidade e Famílias urbanas, rurais e indígenas. Recife: Editora Universitária da UFPE. p. 75 - 95.


QUADROS, Marion Teodósio de; ADRIÃO, Karla Galvão e XAVIER, Anna Karina. 2011. Circuitos (des)integrados? Relações de convivência entre mulheres jovens e profissionais de saúde numa comunidade de periferia da cidade do Recife (PE). In: NASCIMENTO, Pedro e RIOS, Luis Felipe (orgs.). Gênero, saúde e práticas profissionais. Recife: Editora Universitária da UFPE. (Série Família e Gênero). (no prelo).


RIBEIRO, Jucélia Santos Bispo. 2003. “Brincar de ousadia”: sexualidade e socialização infanto-juvenil no universo de classes populares. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 19, n. Sup. 2. p. S345 – S356.


ROMERO, Kelen Cristina T.; MEDEIROS, Élide Helena G. R.; VITALLE, Maria Sylvia S.; WEHBA, Jamal. 2007. O conhecimento das adolescentes sobre questões relacionadas ao sexo. Revista da associação médica brasileira, Rio de Janeiro, v. 53, n.1. p. 14 - 19.


RUBIN, G., 1993. O tráfico de mulheres: notas sobre a “economia política” do sexo. Recife: SOS Corpo.


SANTOS, Naila, J. S.; BARBOSA, Regina Maria; PINHO, Adriana A.; VILLELA, Wilza V.; AIDAR, Tirza; FILIPE, Elvira M. V. 2009. Contextos de vulnerabilidade para o HIV entre mulheres brasileiras. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 25, n. sup2, pp. S321 - s333.


SILVA, Fabiana Beatriz da; QUADROS, Marion Teodósio de (Orient.). 2009. Dupla proteção na trajetória de mulheres jovens heterossexuais de grupos populares em Caruaru. Relatório final da pesquisa de iniciação científica PIBIC/UFPE/CNPq, UFPE, Caruaru.


SILVA, Vanda Aparecida. 2002. Jovens de um rural brasileiro: socialização, educação e assistência. Caderno Cedes, Campinas, v. 22, n. 52. p. 97 - 115.


SIMON, W. and GAGNON, J., 1999. Sexual Scripts. In: PARKER, R. &AGGLETON, P. (ed.) Culture, society and sexuality: a reader. London: UCL.


TEIXEIRA, Ana Maria Ferreira Borges; KNAUTH, Daniela Riva; FACHEL, Jandyra Maria Guimarães e LEAL, Andrea Fachel. 2006. Adolescentes e uso de preservativos: as escolhas dos jovens de três capitais brasileiras na iniciação e na última relação sexual. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.22, n.7. p. 1385 - 1396.


VANCE, Carole. 1995. A Antropologia redescobre a sexualidade: um comentário teórico. Physis: revista de saúde coletiva, Rio de Janeiro, v.5, n.1. p. 7 - 32.


VERMELHO, Leticia Legay; BARBOSA, Regina Helena Simões; NOGUEIRA, Susie Andries. 1999. Mulheres com Aids: desvendando histórias de risco. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2. p. 369 - 379.


VILLELA, Wilza Vieira; DORETO, Daniella Tech. 2006. Sobre a experiência sexual dos jovens. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, n. 22, v. 11, Nov. p. 2467 - 2472


VILLELA, Wilza. 2003. Reelaborando a agenda sobre AIDS e mulheres / Rebuilding an women`s and AIDS schedule. Revista divulgação em saúde para debate, Rio de Janeiro, v. 2. p. 61 - 72.


1Pesquisa vinculada ao Grupo de Pesquisa Gênero, Educação e Inclusão Social (GEIN) do Núcleo de Formação Docente do Centro Acadêmico do Agreste da UFPE (Campus Caruaru) em parceria com o FAGES (Núcleo Família, Gênero e Sexualidade) do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e o Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana (LabEshu) do programa de Pós-Graduação em Psicologia, ambos situados no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE (Campus Recife).

2 Vírus causador da Síndrome da ImunoDeficiência Adquirida (AIDS).

3Os direitos reprodutivos são direitos humanos que visam a garantia de meios que promovam a liberdade de escolha reprodutiva, ampliando o alcance do exercício da cidadania, a partir da luta por garantias legais e participação nas decisões públicas, tendo como base a crítica ao determinismo dos imperativos biológicos da reprodução. Os direitos sexuais são direitos humanos referentes ao exercício responsável da sexualidade, expressando-se como forma de exercício da cidadania individual no que diz respeito a viver a sexualidade com prazer, liberdade e autonomia, livre de coerção, discriminação e violência. Foram resultantes da luta por diretos civis, e tiveram nos movimentos gays e feministas seus principais interlocutores. Para compreender o campo dos direitos sexuais e reprodutivos no Brasil ver Sônia Corrêa e Betânia Ávila (2003, p. 23).

4 Esta situação não é exclusiva do ambiente rural, mas as pesquisas têm evidenciado formas de controle específicas em ambientes rurais diferenciados, que se manifestam com intensidade mais tônica, quando comparados a ambientes urbanos (QUADROS, 2007).

5 As entrevistas tiveram 2 horas de duração, em média. O trabalho de campo foi iniciado em outubro de 2009 e terminado em maio de 2010.

6 Os nomes de lugares e pessoas são fictícios para preservar o anonimato das interlocutoras.

7 Quando falamos em negociação sexual, referimo-nos à possibilidade de a jovem poder exercer o direito de decidir, em negociação com seu parceiro, sobre a contracepção e a prevenção de IST/HIV (ver BARBOSA, 1999).

Apontamentos

  • Não há apontamentos.




@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

ISSN Impresso 1415-000X

ISSN Eletrônico 2317-5427