INFINITO ENQUANTO DURE: a confiança nas relações amorosas à luz de Anthony Giddens1



INFINITE WHILE IT LASTS”: TRUST IN LOVING RELATIONSHIPS IN LIGHT OF ANTHONY GIDDENS.



Marcela Zamboni


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Resumo

Neste artigo, pretende-se dar continuidade ao debate existente nas Ciências Sociais sobre a confiança como uma categoria de análise, à luz das contribuições de Anthony Giddens. Aqui, o conceito de confiança servirá para pensar as relações afetivo-conjugais. Para tanto, este trabalho será estruturado da seguinte forma: 1) a confiança na alta modernidade; 2) das formas de amar: rupturas e continuidades; e 3) amor e autoidentidade: os manuais de autoajuda e a terapia.


Palavras-chave

Confiança. Relações amorosas. Anthony Giddens.


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Abstract

This article aims at giving continuity to the current debate on trust within the social sciences, focusing on it as a tool of analysis in the light of Anthony Giddens writings. Here, the concept of trust relates to affectionate marital relations. The paper will be structured as follows: 1) trust in the context of high modernity; 2) forms of love: ruptures and continuities, and 3) love and self-identity: self- help manuals and therapy.


Keywords

Trust. Intimate relationships. Anthony Giddens.

Me dá medo e vem me encorajar

Fatalmente, me fará sofrer

Ando escravo da alegria

Hoje em dia, minha gente

Isso não é normal

Se o amor é fantasia

Eu me encontro ultimamente

Em pleno carnaval”.

Vinícius de Moraes e Toquinho

(Escravo da alegria)

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1. Introdução

O trabalho de Antony Giddens é marcado por uma série de influências teóricas tanto dos clássicos – uma exegese comparativa das obras de Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim – quanto de perspectivas sociológicas mais recentes – o estrutural-funcionalismo de Parsons e Merton, o situacionismo de Goffman, a fenomenologia de Schutz, a etnometodologia de Garfinkel. Além disso, em um contexto mais amplo e interdisciplinar, pode-se citar ainda o pós-estruturalismo de Foucault, a psicanálise de Freud, a geografia de Hagerstrand, as contribuições de Erikson e Mead, dentre outros. Essas abordagens serviram de alicerce à teoria da estruturação2 giddensiana, formada a partir das práticas sociais ordenadas pelos agentes no tempo e no espaço de forma reflexiva. Nas palavras do autor: “Na teoria da estruturação, a estrutura sempre foi concebida como uma propriedade dos sistemas sociais, ‘contida’ em práticas reproduzidas e inseridas no tempo e no espaço” (GIDDENS, 2003, p. 200)3.

Analisando o fenômeno da confiança nas relações amorosas em Giddens, dever-se-ia falar no modo como as interações sociais em situações de copresença estão interligadas aos sistemas de distanciamento de tempo-espaço, situando as conexões entre análises sociológicas “micro” e “macro”.

O debate mais amplo acerca da teoria formulada por Giddens – na tentativa de explicar as transformações da alta modernidade – será útil à discussão da confiança nas relações amorosas. Na apresentação das peculiares mudanças advindas da modernidade, deve-se tocar em três pontos fundamentais: a separação tempo e espaço, os mecanismos de desencaixe e a reflexividade institucional. Depois dessa incursão mais geral, duas obras serão analisadas com mais vagar: A transformação da intimidade e Modernidade e identidade, além das críticas desses dois trabalhos, apresentadas por outros autores.



2. A confiança na alta modernidade

Para os gregos, a palavra "sina" (moira) era considerada poderosa, pois era responsável até pela condenação à morte. Era a “mais antiga que o mais antigo dos deuses”. Já na alta modernidade – referente a um mundo direcionado para a dominação da natureza, onde não há espaço formal que trate das noções de sina e destino – há uma preocupação em controlar e aferir os riscos dos eventos vivenciados de forma racional, sempre que possível. Apesar do grau de racionalidade implicado, esses conceitos podem ser bastante úteis quando do exercício de análise da autoidentidade e da modernidade. Quando se fala em modernidade, num sentido geral, há uma relação inicial entre as instituições e os modos de comportamento da Europa pós-feudal. No entanto, tais mudanças se espraiaram em nível mundial no século XX, alterando formas particulares de organização social. Pode-se dizer que há uma equivalência aproximada entre a modernidade e o ‘mundo industrializado’, ressaltando que o industrialismo não é a única dimensão institucional moderna (GIDDENS, 2002).

Um dos elementos definidores da alta modernidade é a separação tempo e espaço. A vida social moderna pode ser traduzida a partir de processos que reformulam o tempo e o espaço, relacionados ao crescimento de mecanismos de desencaixe – que desconectam as relações sociais de seus locais de origem para sua reconstrução no espaço e no tempo. Nas palavras do autor:

A reorganização do tempo e do espaço, somada aos mecanismos de desencaixe, radicaliza e globaliza traços institucionais preestabelecidos da modernidade; e atua na transformação do conteúdo e da natureza da vida social cotidiana (GIDDENS, 2002, p. 10).

A modernidade emergiu na Europa do século XVII e posteriormente se tornou mundial em suas influências. Esse conceito diz respeito a estilo, modo de vida ou organização social e refere-se ao forte dinamismo das instituições modernas caracterizadas por suas descontinuidades quando comparadas às culturas tradicionais. Com o intuito de compreender tais diferenciações, faz-se necessário definir as fontes da natureza dinâmica da modernidade. Não é só o ritmo acelerado da mudança social que distingue o mundo moderno das sociedades tradicionais, mas também o conteúdo amplo e profundo das mudanças que transformam as práticas sociais.

Três aspectos marcam a importância da separação tempo-espaço quando se pretende explicar as distinções que são características da modernidade. Em primeiro lugar, que o processo de desencaixe está condicionado a essa separação entre o tempo e o espaço. Em segundo lugar, que os mecanismos de engrenagem característicos das organizações racionalizadas são sustentados por ela. Apesar do caráter por vezes estático dessas organizações – associado aos processos de burocratização do mundo moderno – pode-se afirmar que tais organizações apresentam comumente um dinamismo inexistente nas sociedades tradicionais. A forma distinta com que o local e o global são articulados nas sociedades modernas é bastante peculiar. Por fim, a historicidade radical relacionada à modernidade foi desenvolvida a partir da “inserção” no tempo e no espaço. Essa estrutura histórico-mundial genuína de ação e experiência é formada pela recombinação do tempo e do espaço (GIDDENS, 1991, p. 28-29). A separação entre o tempo e o espaço possui pontos dialéticos que provocam características divergentes, sendo assim, ela não deve ser vista de forma unilinear, ou seja, não se pode dizer que a modernidade é formada por um padrão simétrico e constante.

O segundo conceito para compreender as transformações do mundo moderno é conhecido como mecanismo de desencaixe. Pode-se falar no desencaixe como um ‘deslocamento’ das relações sociais de espaços locais de interação e o seu realinhamento, definido nas extensões indeterminadas de tempo-espaço, ou seja, a atividade social é retirada dos contextos localizados e as relações sociais são reorganizadas através da distância tempo-espaço. As fichas simbólicas e os sistemas peritos são dois tipos de mecanismos de desencaixe intimamente relacionados no desenvolvimento das instituições modernas. As fichas simbólicas são definidas como meios de intercâmbio que independem das características particulares dos indivíduos ou grupos sociais e que podem ser ‘circulados’ por eles em qualquer situação particular. Pode-se citar, por exemplo, os meios de legitimação política e a ficha do dinheiro. Já os sistemas peritos são responsáveis por grande parte dos ambientes materiais e social e se destacam pela excelência contemporânea profissional ou técnica. A confiança nesses sistemas peritos ou em uma pessoa é vista como crença na credibilidade, apoiada num determinado conjunto de resultados ou eventos, a partir da fé na probidade ou amor de outro, ou no conhecimento técnico baseado em princípios abstratos (GIDDENS, 1991). Esses sistemas peritos podem ser úteis à manutenção das relações amorosas. Quando a palavra não é suficiente para justificar certo tipo de comportamento considerado “suspeito” na relação, a tecnologia pode ser acionada, a exemplo do exame de DNA. Mas, diferentemente das relações estritamente econômicas – estabelecidas de forma cada vez mais impessoal – há uma exigência de reinventar o amor ou as relações amorosas com base numa confiança mais abstrata e menos tradicional.

A apropriação reflexiva do conhecimento é o terceiro conceito que caracteriza as mudanças ocorridas no mundo moderno. A vida social passa a fazer parte da reprodução do sistema, deslocando-se em sentido oposto à tradição (GIDDENS, 1991). Isso não quer dizer que as práticas tradicionais são de todo esquecidas, mas que são enfraquecidas pelas novas situações da modernidade. Segundo Giddens (2003), a capacidade cognitiva dos atores sociais está ligada ao inconsciente e às consequências não pretendidas da ação. Cabe à ciência social investigar a importância desses processos na reprodução de sistema e nos contextos ideológicos. A especialização observada no mundo moderno encontra-se em aperfeiçoamento contínuo, sendo altamente reflexiva. Resultados indesejados, mas inevitáveis ou não previstos, surgem em decorrência do reduzido foco da perícia. Tais resultados podem ser evitados apenas por meio da especialização adicional, com a repetição do mesmo fenômeno. O conhecimento produzido na modernidade encontra-se acessível para os indivíduos que tenham recursos, tempo e energia para compreendê-lo. Assim, a especialização leva o indivíduo aos sistemas abstratos modernos. O contexto da reflexividade é consumado na modernidade através da transformação do tempo e do espaço, e também com os mecanismos de desencaixe, rompendo com práticas e preceitos preestabelecidos. Deve-se aqui fazer uma distinção entre a reflexividade típica da modernidade e o monitoramento reflexivo da ação inerente a qualquer atividade humana. Pode-se afirmar que a reflexividade moderna está relacionada com a suscetibilidade de grande parte dos aspectos da vida social e com as relações materiais da natureza que são constantemente revisados com base no novo conhecimento advindo das instituições modernas, sendo esse considerado bastante complexo devido às múltiplas possibilidades de explicar a reflexividade nas condições sociais da modernidade (GIDDENS, 2002).

Com o intuito de analisar a conduta estratégica devem-se priorizar as consciências discursivas e práticas além das estratégias de controle em contextos específicos. O termo que mais se aproxima de consciência prática é o referente ao conceito psicanalítico “pré-consciente”, apesar do significado diferente. A maneira de relembrar o passado vivido é denominada consciência discursiva. Já a consciência prática refere-se à recordação acionada durante a ação (GIDDENS, 2003). Os questionamentos sobre nós mesmos, os outros e o mundo dos objetos são comumente suspensos pela atitude natural na atividade cotidiana. Assim, as ansiedades geradas por tais indagações são estancadas por um ambiente de “faz de conta” criado nas rotinas diárias. As questões existenciais referem-se a parâmetros básicos definidos na vida cotidiana e são respondidas nos contextos da atividade social, a partir da suposição dos seguintes elementos ontológicos e epistemológicos: 1. Existência e ser – “a natureza da existência, a identidade dos objetos e dos eventos”; 2. Finitude e vida humana – “a contradição existencial por meio da qual os seres humanos são parte da natureza, mas postos à parte como criaturas que sentem e refletem”; 3. A experiência dos outros – “como os indivíduos interpretam os traços e ações de outros indivíduos”, e 4. A continuidade da autoidentidade – “a persistência de sentimentos de pessoidade num eu e num corpo contínuos” (GIDDENS, 2002, p. 40-56).

O princípio da dúvida radical é institucionalizado na modernidade com a ênfase de que todo conhecimento deve ser visto como uma hipótese, destacando assim o caráter provisório da verdade, podendo ser sempre revista. Isto significa que as referências de apoio da vida social estão em constante mudança. Mas é engano pensar que, na ordem pós-tradicional da modernidade, o conhecimento racional substitua as certezas da tradição e do hábito. Tanto a consciência filosófica quanto a dúvida – característica da razão crítica moderna – formam a vida cotidiana. Os sistemas de conhecimento acumulado discutidos anteriormente como criadores de importantes mecanismos de desencaixe simbolizam múltiplas fontes de autoridade que são frequentemente contestadas internamente e são divergentes em suas implicações. O eu, assim como os contextos institucionais mais gerais, precisa ser formado reflexivamente. Não existe, por certo, uma fórmula definida devido ao caráter diverso de possibilidades. A intensificação dessa complexidade é denominada modernidade ‘alta’ ou ‘tardia’, ou seja, o mundo hodierno (GIDDENS, 2002). A importância do conceito de reflexividade – na alta modernidade – dá-se porque ele vai além da noção de autoidentidade, diz respeito ao monitoramento contínuo da vida social multidimensional e institucional, marcada pela particularidade de elementos ligados a um conjunto de tradições simbólicas.

O pensamento moderno é contrafactual, principalmente, devido à combinação do conhecimento especializado, das consequências excêntricas e do conceito fundamental do risco. Em sociedades tradicionais, só se ‘pensava adiante’ por meio do uso indutivo da experiência pré-existente ou da consulta a adivinhos (GIDDENS, 2002). As mudanças advindas da modernidade suscitaram questionamento a respeito do surgimento de uma nova ordem social. Em resposta a tal indagação, o autor declara que se vive um período em que os efeitos da modernidade são cada vez mais radicalizados e universalizados. Sem negar os contornos de uma nova ordem, que é ‘pós-moderna’, opõe-se veementemente à ideia de pós-modernidade (GIDDENS, 1991).

Ao mesmo tempo em que se fala em mudança social, tem-se o cuidado de enfatizar as permanências sociais. A constatação de que há alto grau de ansiedade na sociedade moderna não pode ser definida como característica peculiar desta, já que pode ser observado que em épocas passadas também havia os fenômenos da ansiedade e da insegurança, sendo pouco provável que existisse maior equilíbrio nas culturas tradicionais na relação com a cultura moderna. A diferença entre a sociedade moderna e as sociedades tradicionais localiza-se no conteúdo e na forma das ansiedades. Na alta modernidade, o risco não é maior do que em épocas anteriores, a diferença é que nela tanto leigos quanto peritos avaliam as estimativas de risco de forma quase inevitável. Se há a pretensão em preservar certo estilo de vida, deve-se evitar viver “no piloto automático”. Aqui, as exigências são maiores porque as situações impõem um padrão cada vez mais reflexivo (GIDDENS, 2002). Nas relações amorosas, uma ação impensada pode significar o fim de um relacionamento. Como exemplo, pode-se citar a menor aceitação feminina à infidelidade do sexo oposto (quando a exclusividade sexual é um pressuposto básico da relação) – considerando o enfraquecimento do patriarcalismo, o aumento da autonomia da mulher e a possibilidade de novas combinações amorosas. Mas não é o fato de arriscar ou deixar de arriscar que garante a estabilidade nos vínculos amorosos. É por isso que o conceito de confiança é tão importante aqui.

Em Giddens (2002), antes de discutir confiança, deve-se falar em segurança ontológica, já que a primeira é fundada na confiabilidade adquirida nos primeiros estágios de socialização da criança, a partir de um processo preponderantemente inconsciente que antecede um ‘eu’ e um ‘mim’, sendo a base anterior da diferenciação entre os dois. Essa orientação emotivo-cognitiva que relaciona o mundo dos objetos e a autoidentidade foi chamada por D.W. Winnicott de ‘confiança básica’. A organização interpessoal do tempo e do espaço está fortemente relacionada com a confiança básica. A separação dos pais tem origem com a aceitação da ausência, ou seja, a fé desenvolvida pela criança de que aqueles que a protegem irão voltar. As atividades posteriores dos indivíduos são marcadas pela ligação estabelecida entre a rotina, os sentimentos de segurança ontológica e a reprodução de convenções coordenadas. A ‘confiança básica’ gera um sentimento de esperança generalizado e de ‘invulnerabilidade’ para lidar com as ausências de tempo e espaço. Mais do que confiança gerada pela certeza, o casulo protetor representa um sentido de ‘irrealidade’. A autoidentidade é relacionada à apreciação dos outros através do conceito de “confiança básica”, definido como a atenção afetiva dos pais ou responsáveis pela criança, sendo a sociabilidade inicial substancialmente inconsciente. O casamento e a separação são considerados momentos decisivos porque ameaçam o casulo protetor que proporciona a segurança ontológica do indivíduo. A confiança básica é elemento importante da segurança emocional, já que o processo de socialização relacionado com as pessoas e os objetos ausentes, ou a aceitação do mundo real, é um reflexo das experiências vivenciadas na infância. Apesar da relação de interdependência existente entre as rotinas assumidas e a segurança ontológica, não se deve concluir que a sensação de segurança surge da adesão naturalizada do hábito. O risco continua sendo um fator a ser considerado na confiança. Segundo Giddens, confiar é, em certo sentido, arriscar.

As consequências desestabilizadoras da modernidade resultam do caráter inerentemente globalizante e fortemente reflexivo. Neste novo contexto, o risco e o acaso assumem novas formas. As tendências globalizantes da modernidade são tanto extensionais quanto intencionais, já que ligam os indivíduos a sistemas de grande escala, local e global, como parte da dialética de mudança (GIDDENS, 1991).

No projeto das relações íntimas da alta modernidade, a confiança masculina caracteriza-se não só pelo domínio da sexualidade, mas também por perpassar os laços de amizade. Entre os casais, a confiança não se restringe à boa fé do outro, passando pela aposta de que cada um dos pares possa agir com integridade. Para explicar a tendência dos relacionamentos diádicos pode-se recorrer à justificativa psicanalítica – relacionada à dependência materna do bebê – ou podem estes ser reafirmados com base na pretensa confiança, através da renúncia de controle do outro. A confiança básica masculina esteve ligada, desde os primórdios, ao controle e domínio sobre as mulheres; sentido em que se pode, de certa forma, justificar o atual temor masculino ao compromisso ou ao vínculo afetivo num contexto mais democrático (GIDDENS, 1993).

Considerando que as relações sociais, na alta modernidade, não são estabelecidas em situações de copresença, mas através de uma separação tempo-espaço, a confiança deixa de se apoiar em instituições tradicionais, passando a se utilizar dos sistemas abstratos (sistemas peritos), observados nas diversas áreas científicas. Assim, a confiança moderna poderia ser construída a partir de um conjunto de fatores: acesso aos sistemas abstratos, consciência prática e consciência discursiva. A separação tempo-espaço pode ser observada em contextos mais tradicionais influenciados pelas novas formas de vínculos afetivos.

O caráter “não decisivo” de grande parte do cotidiano só é possível porque desenvolvemos uma capacidade de observação fundamental ao casulo protetor. A noção de umvelt de Goffman – “um núcleo de normalidade (realizada) com que os indivíduos e grupos se cercam” – é utilizada por Giddens (2002, p. 120-125) na definição da capacidade humana em desenvolver determinado tipo de sensibilidade que possa medir os riscos potenciais situacionais. O casulo protetor possibilita um umwelt satisfatório, sendo visto como uma capa de proteção e confiança produzida pela relativa rotina dos eventos. Pode-se dizer que aceitar o risco é testar a confiança básica, alterando assim a autoidentidade do indivíduo.

Nas relações amorosas, modificar a autoidentidade pode significar uma flexibilização ou desistência de controle, considerando os novos padrões amorosos que se opõem ao modelo patriarcal. Para Giddens, as relações de confiança que são estabelecidas nesses novos rearranjos amorosos não necessitam de controle contínuo, mas de uma inspeção espaçada. Nas relações puras, a confiabilidade é obtida das boas razões apresentadas ao outro quanto às ações que interferem na vida de ambos (GIDDENS, 1993). Mas esta pode ser uma visão otimista das novas possibilidades no amor. Segundo Hughes (2005), a percepção da fragilidade nas relações amorosas é responsável pela utilização de estratégias de ‘diminuição do risco’, tais como a rejeição ao casamento e à maternidade/paternidade.

Neste tópico foram apresentados os elementos que compõem a modernidade, ou, nas palavras de Giddens, a alta modernidade. O objetivo dessa incursão foi o de relacionar as mudanças decorrentes de uma nova ordem social com as novas possibilidades de confiança estabelecidas. Viu-se que a confiança básica – estabelecida a partir da diferenciação entre ausência e deserção, ainda nos primeiros momentos de vida – deve ser considerada como elemento intrínseco ao indivíduo. Outro aspecto destacado foi a importância da rotina, sem a qual a segurança ontológica pode ser rompida, retirando a serenidade psicológica e moral do indivíduo. Deve-se agora focar o trabalho no tema proposto. Para tanto, faz-se necessário apresentar uma pequena discussão sócio-histórica do autor acerca do amor.



3. Das formas de amar: rupturas e continuidades

Para chegar à ideia de amor puro, Giddens precisou trilhar um caminho que indicasse as mudanças decorrentes da alta modernidade. Pode-se dizer que a separação tempo-espaço – que rompe com a noção de padrão simétrico e constante – influenciou de forma direta os padrões amorosos. Outro aspecto mais geral que explica as mudanças no amor são os mecanismos de desencaixe. A circulação do dinheiro e o “espírito do capitalismo” criaram novo código amoroso, ou seja, um dos elementos norteadores dessa mudança corresponde à estreita ligação entre o romantismo do século XVIII e os padrões de consumo atuais4. Já que existem rupturas e continuidades entre o modelo tradicional e as novas proposições amorosas, dois modelos tradicionais de amor serão apresentados, segundo uma interpretação do autor: o amor-paixão e o amor-romântico. Em seguida, os elementos que compõem a noção de relações puras serão apresentados.

O amor apaixonado (amour passion)5 relaciona o amor ao sexo, sendo considerado extremamente perturbador, por comumente levar o indivíduo a assumir posições extremas e sacrificantes. Não há registro de que o amor apaixonado tenha sido considerado necessário nem suficiente ao casamento, tendo sido rejeitado na maior parte das vezes. O amor apaixonado deve ser diferenciado do amor romântico porque o primeiro é um fenômeno menos universal, diferentemente do amor romântico, culturalmente reconhecido. Os elementos do amor passion foram incorporados ao amor romântico. Deve-se atentar para os novos elementos constitutivos do amor romântico para que se possa distingui-lo do amor passion. No primeiro, tem-se a narrativa de uma vida particular, onde o amor sublime se contrapõe ao ardor sexual. Isso significa que a atração imediata – atribuída a esse tipo de amor – precisa vir acompanhada do reconhecimento das qualidades do outro. Os efeitos do amor passion não foram tão amplos quanto os do amor romântico. Neste último, as ideias difundidas modificavam não só o casamento como outras questões pessoais que envolviam o autoquestionamento (GIDDENS, 1993).

Na Alemanha e na França do século XVII, as demonstrações de afeto relacionadas ao sexo – tais como beijos e carícias – eram raras entre os camponeses. Existia, no entanto, a aceitação dos aristocratas de relações extraconjugais por parte das mulheres, sendo inclusive liberadas das exigências de reprodução para que pudessem encontrar prazer sexual. Estas práticas não faziam parte dos critérios definidos pelo casamento. Em grande parte das civilizações, o desejo de eternizar as relações geradas pelo amor apaixonado é comumente condenado (GIDDENS, 1993).

Quando se fala no surgimento do amor romântico, há de se pensar nas mudanças do final do século XVIII, tais como as relações entre pais e filhos e “a invenção da maternidade”. Essas transformações reforçavam a subordinação da mulher a partir da delimitação do espaço de trabalho doméstico. Por outro lado, a literatura romântica trazia consigo esperança, um tipo de negação ao padrão de vida proposto. O herói das histórias que elevava a imaginação feminina era autêntico e costumava se opor às convenções, diferenciando-se do típico provedor. No século XIX, os laços matrimoniais foram estabelecidos não só através de acordos econômicos, mas também a partir das ideias de amor romântico. Essa nova tendência foi observada inicialmente entre os burgueses, havendo sido difundida em outros contextos sociais. Esse romantismo rompeu com a prática de vínculos conjugais entre parentes e redefiniu esses vínculos, atribuindo-lhes sentido especial (GIDDENS, 1993).

De posse dos ideais do amor-paixão e do amor-romântico, Giddens passa a relacioná-los com o relacionamento puro. Em A transformação da intimidade, discute os impactos das mudanças decorrentes da contracepção e emancipação econômica das mulheres, o feminismo, o conhecimento da diversidade ‘natural’ das opções sexuais e o estabelecimento de mais equidade entre os casais. Não se trata de um estudo que privilegie o contexto social e econômico6 ou que fale de um tempo específico, mais do que isso, trata-se de ampla discussão sobre um novo tipo de identidade (FONTANA, 1994).

Segundo Anthony Giddens (1993), o relacionamento puro – procedente do amor romântico7diz respeito à sexualidade livre da obrigação da reprodução. Dentro desta nova ordem pessoal democrática, o princípio da autonomia apresenta-se como elemento definidor das novas relações amorosas. No relacionamento puro, a igualdade sexual acaba com a separação anteriormente estabelecida entre as mulheres virtuosas e as mulheres impuras. A possibilidade da sedução via dominação masculina não tem lugar nessa ordem democrática. Por outro lado, os homens também sofreram as influências do amor romântico, e os que sucumbiram à força feminina passaram a ser reconhecidos como “românticos”. Um relacionamento puro diz respeito ao vínculo afetivo de duas pessoas onde seus interesses são restritos à própria relação, que pode ser desfeita com a insatisfação de uma das partes. Alimentado pelo amor romântico no âmbito da sexualidade, o amor puro contribuiu posteriormente para o enfraquecimento das influências daquele. O amor confluente ou relacionamento puro não permite a existência de termos como único” e para sempre” e tende a enfatizar o relacionamento especial” em detrimento da pessoa especial”. Uma característica que parece diferenciar de forma significativa o amor confluente do amor romântico é a possibilidade de o primeiro não ser monogâmico. Neste sentido, a relação poderá ser exclusiva apenas se considerada fundamental.

A política emancipatória é caraterizada pelas oportunidades de vida (GIDDENS, 2002). Giddens sugere que as escolhas amorosas definem quem o indivíduo é, ou seja, elas são constitutivas do processo reflexivo do self, estando relacionadas a certo estilo de vida (HUGHES, 2005). Segundo Giddens, o relacionamento puro conecta a democratização interpessoal com a democracia na esfera pública. Esta visão de democracia é bastante limitada, alicerçada em valores (neo)liberais tais como autonomia e autorrealização, em contraposição ao suporte mútuo (HAZLEDEN, 2004). Para Hughes (2005), Giddens tem visão otimista das mudanças relativas ao estilo de vida, desejos e necessidades das relações amorosas, advindas da alta modernidade. Essa posição baseia-se em alguns pressupostos tidos como fundamentais: o processo de democratização das relações, com a possibilidade de satisfação das partes envolvidas, e a consequente mudança nas relações de gênero.

Fontana (1994) afirma que o conceito de plasticidade, em princípio, é apresentado por Giddens como categoria descritiva que tenta apresentar a essência da experiência da intimidade contemporânea, sendo posteriormente transformada num projeto ético, um programa de trabalho escondido da democracia moderna que substitui padrões considerados autoritários e egoístas.

Tem-se observado, por décadas, a existência de um discurso sobre a equidade e a intimidade nas relações amorosas que apresenta o homem mais expressivo emocionalmente, mais afetivo e comunicativo (JAMIESON, 1999). Para Giddens, as ‘relações puras’ foram desenvolvidas inicialmente por casais do mesmo sexo, especialmente lésbicas, com elevado índice de rompimento das relações. Em geral, acredita-se que tais vínculos apresentam mais intimidade e abertura.

Bárbara ­– música que se tornou um clássico lésbico da MPB8fala sobre o amor entre duas mulheres de forma a corroborar com a teoria de Giddens. Na peça original: Calabar – o elogio da traição, escrita por Chico Buarque e Ruy Guerra, a personagem de Ana de Amsterdã cantava para Bárbara:

Vamos ceder enfim à tentação

Das nossas boas cruas

E mergulhar no poço escuro de nós duas

Vamos viver agonizando

Uma paixão vadia

Maravilhosa e transbordante

Feito uma hemorragia

A paixão vadia a que se refere a música vem sendo pouco a pouco discutida, tanto no que se refere ao espaço do indivíduo em relação a sua liberdade sexual quanto ao próprio formato das relações gays.

Há uma contraposição à leitura de Giddens em relação à questão da monogamia entre gays, fenômeno decorrente da AIDS. Worth (2002) afirma que, com a maior conscientização acerca da AIDS, não é apenas a identidade sexual que define gays como sendo de ‘alto risco’, mas fundamentalmente suas práticas de intimidade. A monogamia entre gays, decorrente desse risco, tem tornado a relação mais afetuosa e terna. No entanto, pesquisa realizada com 1.852 homens gays, em 1996, na Nova Zelândia, revelou que 46% dos homens com relações estáveis não estavam utilizando camisinha, e a maioria deles não mantinha acordo acerca das relações casuais. Constatou-se também enorme discrepância entre a confiança de que o parceiro não mantinha encontros sexuais fortuitos e os números revelados na pesquisa. Poder-se-ia aqui questionar a teoria das relações puras giddensianas, principalmente no que tange à dificuldade da manutenção dos laços íntimos e a abertura na relação. O fato de muitos gays não conversarem com seus parceiros sobre o sexo fora do casamento desmente a crença giddensiana de que existe uma relação mais democrática, baseada numa ‘autorrevelação’ mútua entre eles. A pesquisa realizada na Nova Zelândia sugere que existe nestas relações o mesmo tipo de ciúme e medo observado nas relações heterossexuais. Haveria então uma intensificação da ansiedade nas relações homossexuais, considerando a ausência do comprometimento observado nas famílias tradicionais e a preocupação desses casais com o significado da relação.

Os casos extraconjugais das mulheres heterossexuais costumam ser mantidos em segredo. Entre as lésbicas não monogâmicas, as relações extraconjugais tendem a ser sabidas e aceitas. A comunicação entre as mulheres parece ser maior do que a dos homens e mulheres. Entre os homens gays, este percentual de sexo episódico aumenta significativamente (GIDDENS, 1993). As construções de masculinidade também afetam os casais gays, bem como o modelo heterossexual do amor romântico. Os ideais heterossexuais de masculinidade servem também de espelho para a definição dessas relações. A rejeição à intimidade, ou certo tipo de intimidade, pode estar associada à negação da relação determinante entre homossexualidade e feminilidade. Em relação à influência do amor romântico e da exclusividade sexual, pode-se dizer que há uma tentativa de reconciliação da crença de que a não exclusividade sexual signifique necessariamente rejeição. O discurso da ampla comunidade gay não apoia a tentativa da manutenção das relações monogâmicas duradouras por suspeitar que não exista possibilidade de sustentá-las. Por outro lado, o resultado da pesquisa de Worth (2002) apresenta elevado índice de crença no amor romântico e na realização do self a partir do outro, através da prática monogâmica. Para a maioria dos casais, o principal medo da infidelidade estaria mais conectado ao risco da perda emocional do que ao contágio da AIDS. Tal afirmativa pode ser corroborada com o silêncio entre os casais com relação ao acordo do sexo fora do casamento.

O modelo de casamento tradicional já é apenas uma forma de opção de vínculo afetivo, apesar de existir uma incapacidade das instituições sociais em traduzir tais mudanças. Grande parte dos casamentos heterossexuais (e boa parte dos vínculos homossexuais) que criam caminhos próprios, afastando-se do relacionamento puro, pode ser apresentada, além da codependência, de duas outras formas: 1. segundo a versão do casamento por companheirismo – com baixo envolvimento sexual e forte relação de amizade, construída com certo grau de igualdade e simpatia; 2. com o casamento como base doméstica dos parceiros – correspondendo à segunda forma citada anteriormente – esta com baixo envolvimento emocional das partes. Situação em que tanto o homem quanto a mulher desempenham atividades profissionais e tratam o casamento como lugar parcialmente seguro. Nas palavras de Giddens:

Ninguém sabe ao certo até que ponto o advento do relacionamento puro irá se comprovar mais explosivo do que integrador em suas consequências. A transformação da intimidade, juntamente com a sexualidade plástica, promove condições que poderiam provocar uma reconciliação dos sexos. Entretanto, há mais coisa envolvida do que uma maior igualdade econômica e uma reestruturação psíquica, por mais extremamente difícil que possa ser atingi-las (GIDDENS, 1993, p. 171-173).

Para Fontana (1994), existiriam duas abordagens da liberação sexual, uma positiva e outra negativa. No primeiro caso, a aceitação das alegrias da relação ‘pura’, com base no respeito aos sentimentos e aspirações dos casais; no segundo caso, o comportamento obsessivo ou compulsivo ocupa lugar de destaque, com relações sexuais mecânicas e repetitivas às expensas da intimidade afetiva genuína e da solidariedade.

Giddens (1993) acusa Foucault de haver desconsiderado a natureza do amor, especialmente os ideais do amor romântico. Para o primeiro, a emergência da sexualidade e do amor no mundo moderno está conectada à autoidentidade reflexiva. Já Jamieson (1999) diz que Giddens refere-se a uma difusão de mudanças que começa na vida social e é expandida para outras áreas, mas não apresenta uma explicação sociológica acerca dos mecanismos envolvidos em tais mudanças.

Particularmente, o não casamento e o casamento observados em várias gerações, a informalidade na coabitação e as(os) filhas(os) geradas(os) em relações extramaritais, indicam um retorno à complexidade histórica na família europeia moderna. O ressurgimento de velhos padrões sociais pode ser visto como uma reordenação conservadora pleiteada por Fukuyama, por um lado, ou pode significar, em certa medida, um espaçamento das ‘relações puras’ discutidas em Giddens (THERBORN, 2006).

A literatura sobre as relações amorosas – ampla e diversa – apresenta um conjunto de reflexões acerca dos novos vínculos afetivos. O enfraquecimento do modelo patriarcal e a ausência de um padrão de relação afetiva mais estável evidenciam a importância da confiança no amor. Longe da pretensão de definir “o modelo” sobre as relações amorosas, tem-se neste trabalho a intenção de refletir sobre aqueles já existentes – com o intuito de indicar o alcance dessas teorias no mundo contemporâneo – e, além disso, de contribuir com o debate das Ciências Sociais sobre o tema tratado.

O ideal de uma visão democrática apoiada nos modelos neoliberais, onde a sociedade decide o que consumir, poupar, estudar, ou seja, com a menor ingerência do Estado na vida privada, não garante que as relações íntimas sejam pautadas em posições éticas que preservem a outra parte da relação quando do seu término ou durante esse vínculo afetivo. De formas diferenciadas, as decisões unilaterais podem indicar crise moral/social no âmbito privado; o que significa dizer que a falta de confiança nas relações sugere tomadas de decisão diferentes das apresentadas por Giddens. Algumas questões parecem ser problemáticas: quando a monogamia é uma questão fundamental para o casal ou para uma das partes na relação, o problema parece ser resolvido com a não confiança ou o autoengano9. No primeiro caso, há um acordo tácito estabelecido em que as duas partes envolvidas ou uma delas suspeita que o “acordo” poderá não ser posto em prática, rompendo o contrato íntimo por falta de confiança no outro. No segundo caso, uma cegueira generalizada toma ambas as partes ou apenas uma delas. Neste caso, a crença na fidelidade existe apenas na imaginação da(o) iludida(o). Esta afirmativa poderia ser pensada, em alguma medida, tanto nas relações heterossexuais quanto nas relações homossexuais. As diferenças de gênero e as conquistas femininas criaram dois novos ingredientes: a “vingança” da mulher e uma maior liberação do desejo feminino. No primeiro caso, tem-se certo sentimento de “vingança geracional”, ou seja, se no modelo patriarcal a infidelidade masculina é realidade aceita socialmente, mesmo considerados o ciúme e o sofrimento gerado, com a autonomia da mulher a exigência feminina cresce e a traição ganha outro tom. Esses dois ingredientes não arrefecem a disputa de braço entre os padrões tradicionais e atuais nas relações entre os sexos.

O desejo pode ser explicado a partir do sexo ou do gênero na medida em que esses padrões são socialmente impostos de maneira excessiva. O que significa dizer que não haveria maior libido entre os sexos, mas que o comportamento padronizado justificaria a traição feminina. Para entender o argumento, pode-se começar com a seguinte questão: qual o grau de satisfação nas traições corriqueiras entre homens e mulheres? A questão não estaria restrita à quantidade, mas ao prazer extraído de relações fortuitas. Em relação aos homens, uma das possíveis respostas poderia ser: a traição é um hábito. Entre as mulheres, o elemento a ser explorado seria a questão da culpa da traição, inclusive como inibidor de prazer. A transferência do desejo para outras áreas da vida, tais como a profissão ou o próprio companheirismo da relação, ou o vício do sexo, poderia ser característica tanto masculina quanto feminina, não fossem os imperativos culturais de gênero. Com maior flexibilização nas relações, esses padrões são pouco a pouco quebrados. Mas isso não parece resolver a questão da confiança no amor.

Além dos elementos culturais, associados a um mundo mais democrático e “liberto”, Giddens utiliza a psicanálise e os manuais de autoajuda para pensar as mudanças nas relações amorosas e a construção e reconstrução da autoidentidade, vistas a seguir.



4. Amor e autoidentidade: os manuais de autoajuda e a terapia

Nas condições da alta modernidade, as transformações na autoidentidade e a globalização são consideradas os dois polos da dialética do local e do global, ou seja, as mudanças na vida pessoal dos indivíduos ligam-se, de forma direta, ao estabelecimento de conexões sociais mais amplas. Desta forma, pode-se observar uma inter-relação entre ‘eu’ e ‘sociedade’ num meio global, devido ao amplo nível de distanciamento tempo-espaço (GIDDENS, 2002).

Com o intuito de responder a tamanha preocupação geral acerca da sexualidade no mundo moderno, Giddens (1993: p.194-195) apresenta algumas interpretações. A primeira delas acompanha os passos de Marcuse e trata a transformação do sexo como mercadoria, sentido em que o prazer gerado pela sexualidade é incentivo ao consumo. A segunda é uma crítica à ideia de Foucault quando se refere ao sexo como a “verdade” proferida, “o âmago de um princípio confessional generalizado da civilização moderna”, sentido em que a ideia do “sexo como verdade” é rebatida por não apresentar poder de análise. Outra interpretação acerca da sexualidade aponta para o vício do sexo, sentido em que a tônica da sexualidade moderna seria a compulsão. O vício disseminado na pornografia, nos filmes e em outros espaços sociais, além da busca desenfreada de muitos por experiências sexuais são o cenário necessário para esse tipo de interpretação, sendo considerada a mais satisfatória, do ponto de vista descritivo. O autor sugere que as origens desse cenário moderno sejam investigadas, levando em conta que a sociedade moderna está alicerçada numa suposta repressão sexual.

Reich dizia que a reforma política só seria realmente possível com a ocorrência da liberação sexual. Para ele, saúde mental e liberdade era uma coisa só. A livre associação por intermédio da conversa afastava o indivíduo da possibilidade de cura porque ocultava os problemas ao invés de revelá-los. Opondo-se ao trabalho de Freud, afirmou que o corpo possui linguagem própria; portanto, a cura não seria alcançada pela conversa, e sim pelo corpo, através de sessões de massagem, de relaxamento e da “organoterapia” – alicerçada na expressividade do sexo no orgasmo genital. O indivíduo deveria se expressar somaticamente, diluindo fortemente a linguagem. Marcuse privilegia o inconsciente e se opõe à psicologia do ego. O restabelecimento do inconsciente resultaria em significativa fonte para a crítica social radical. Na psicologia do ego, a vida é aceita tal como apresentada. Com o retorno ao instinto, poder-se-iam apresentar os mecanismos de repressão e oferecer um conteúdo à promessa de emancipação moderna, que estaria relacionada à primazia do prazer. Apesar de não aceitar por completo a ideia da sexualidade plástica, Marcuse acredita que as “perversões” são armas que servem de crítica ao regime sexual genital. “Elas assinalam os pontos de resistência à subjugação da atividade sexual à procriação” Marcuse (apud Giddens: 1993: p.184). Excluindo a hipótese repressiva de que a sociedade moderna seria altamente dependente da repressão sexual, observada inicialmente no vitorianismo, Giddens (1993, p. 181-199) compara as ideias de Reich e Marcuse com as de Foucault, apontando algumas similaridades: “a permissividade da época atual é um fenômeno do poder, e não um caminho para a emancipação”. Foucault acena com uma possibilidade futura de mudança, tempo em que a relação entre o corpo e o prazer seria redefinida; esta não seria uma posição contrária a Marcuse e Reich, apesar das diferentes formas apresentadas por cada um desses autores. Uma sociedade não repressiva a Reich ou a Marcuse teria a sexualidade em grande parte liberta da compulsão.

As variações da sexualidade plástica sugerem que possa haver uma variedade de tendências sexuais. Esta posição opõe-se à “justificativa biológica” de que apenas os heterossexuais poderiam ser considerados “normais” e significa uma mudança de atitude política. O caráter ampliado e diverso da autoidentidade bem como a reflexividade do corpo são questões que marcam a contemporaneidade. A identidade sexual não é suficiente no processo de autorreconhecimento. A igualdade entre os sexos poderia declinar para uma convergência da masculinidade e da feminilidade para alguma forma andrógena. Mas esta questão é colocada apenas como uma conduta desejável. O que se tem ainda é a construção da identidade sexual via diferença sexual. A obra de Freud é importante por haver revelado uma conexão jamais vista entre a sexualidade e a autoidentidade, bem como os problemas decorrentes dessa ligação. Assim, a autoidentidade pode ser pensada a partir dos recursos teóricos e conceituais oferecidos pela psicanálise (GIDDENS, 1993). A terapia é considerada uma versão secular do confessionário, vista como ambiente criado para que os indivíduos possam buscar algum tipo de suporte. A proteção que existia nas sociedades tradicionais cede espaço às organizações maiores e impessoais (GIDDENS, 2002). Diferentemente da visão de Foucault, que vê a terapia como instrumento de controle, Giddens acredita no seu poder instrumental.

Os manuais de autoajuda podem servir como importante instrumento na ‘reconciliação’ dos sexos, afirma Giddens. A identificação de doenças como a codependência e o vício sexual poderia auxiliar no processo de ‘democratização da vida social’ a partir da ênfase no desenvolvimento do self. Os bioquímicos analisam as substâncias químicas produzidas no corpo de quem ama indicando que elas podem ser consideradas narcóticas, ou seja, o amor pode ser caracterizado como um vício assim como o cigarro, as bebidas alcoólicas ou o jogo. A(o) viciada(o) em amor apresenta uma série de sintomas físicos a exemplo da alta de pressão sanguínea. No entanto, o tratamento psicológico é visto como o mais adequado, considerando a incapacidade do médico de analisar os sintomas dentro de um contexto mais amplo (HAZLEDEN, 2004). A ideia de Giddens de que os livros de autoajuda podem ser emancipatórios é rejeitada por Hazleden quando afirma que tais livros alimentam a patologia nas relações amorosas, caracterizando o amor como potencialmente prejudicial e bioquimicamente viciador.

Pode-se dizer que as relações sociais são marcadas pelas rotinas ou modos específicos e repetitivos da vida cotidiana. Apesar disso, as rotinas podem ser diferenciadas segundo as formas também diferenciadas do comportamento humano. Giddens (1993) considera útil o conjunto de distinções comportamentais criado por Craig Nakken, dividido em padrões, hábitos, compulsões e vícios. Segundo os critérios de diferenciação utilizados, o padrão é uma forma de sistematizar a vida social, podendo ser modificado a qualquer tempo. O conceito de hábito é marcado por certa relação psicológica distinta da vontade, podendo ser observado pelo uso frequente da palavra “sempre”. Como exemplo, pode-se dizer: “eu sempre acordo às seis horas da manhã”. Na compulsão, observa-se que o agente não se reconhece como capaz, ou acredita que é improvável que possa suspender certo tipo de comportamento a partir de sua força de vontade; essa incapacidade do agente em realizar certas atividades desemboca em crise de ansiedade. Por fim, pode-se definir o vício a partir de algumas características específicas: o “êxtase” – momento de exaltação advinda de uma sensação “especial” – e a “dependência” – vício em determinada atividade ou experiência. Tanto para o êxtase quanto para a dependência o indivíduo se descola momentaneamente da realidade. Temendo a falta de controle de situações futuras, ele pode ainda livrar-se do vício de forma inesperada. Observa-se que o indivíduo “codependente” atua segundo uma reflexividade inversa por ser considerado “dependente da dependência do viciado”. Nos relacionamentos fixados, a própria relação se traduz no vício; mas, há uma oscilação em relação ao grau dessa dependência, podendo variar entre aqueles que são consolidados no hábito até a destruição de ambas as partes nesse relacionamento. Nos laços viciados, há uma tendência de existirem práticas sexuais e de gênero não igualitárias e certo controle mútuo do casal.

Segundo Hazleden (2004, p.207-209), “a ajuda é o lado ensolarado do controle”. Pode-se descobrir que uma aparente motivação altruísta pode ser, na verdade, uma forma de controle. Nas relações amorosas, há um limite tênue entre ajudar e ferir, apoiar e destruir. Os sintomas de codependência são: sentimentos de responsabilidade pela(o) parceira(o) e sentimentos de piedade ou de ansiedade relacionados aos problemas da(o) parceira(o). Giddens enfatiza que a cura da codependência está atrelada aos processos de “emancipação” e “democratização” de gênero e é mais comum entre as mulheres.

Segundo Giddens, Foucault não deveria haver conectado o desenvolvimento das práticas regulatórias, como a psicanálise, com a emergência histórica dos tipos particulares de práticas sexuais e corpos sexuais (ALICE, 1994). Para Jamieson (1999), a preocupação de Giddens sobre as inter-relações entre o trabalho sobre a sexualidade, cultura popular e discurso terapêutico não responde de forma satisfatória à questão da influência da literatura terapêutica, como documentos e sintomas das mudanças da vida pessoal e social. Giddens (2003) afirma que o conceito de agência refere-se, em primeiro lugar, à capacidade que as pessoas têm para resolver certas questões. Enquanto a integração social supõe a copresença e a interação dos atores, a integração de sistema estabelece uma interação entre atores sociais e coletividades a partir da ampla noção tempo-espaço. Para Fontana (1994), Giddens lança mão de inúmeras referências da psicanálise doutrinária e prática, mas não indica se o caminho para a realização coletiva da sexualidade plástica seria a intervenção terapêutica ou o esforço individual do agente. Outra crítica do mau uso da psicanálise na tentativa de Giddens de discutir a autoidentidade na alta modernidade é a de que:

O modelo de relação eu-e-mundo, que sustenta a perspectiva identitária tal com Giddens a explicita, ao mesmo tempo em que se mantém tributário da filosofia do sujeito e do primado de uma razão instrumental fundada na consciência, simplifica a compreensão psicanalítica da vida emocional e desconsidera a radicalidade da invenção freudiana e toda a gramática inconsciente fundada no jogo mortífero das intensidades que invadem e constituem o aparelho psíquico” (CUNHA: 2007, p.171).

Alice (1994) afirma que Giddens não deu a devida atenção aos interesses de classe e raça quando se referiu aos tipos de tratamentos terapêuticos. Além disso, fechou os olhos para o fato de que a terapia popular não costuma tratar das questões relacionadas à equidade de gênero.



5. Considerações finais

Trocando em miúdos (1978)

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado
Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde.

Letra: Chico Buarque.

Composição: Chico Buarque e Francis Hime.

Todo o sentimento (1987)

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

Letra: Chico Buarque.

Composição: Chico Buarque e C. Bastos.




A primeira música – trocando em miúdos – é o resumo de uma separação traumática e cheia de ressentimentos. Já em todo o sentimento há a demonstração de certa franqueza e a clareza de que a relação não é eterna, tal como concebida no amor romântico. Aqui, não há mágoa, mas a constatação de que o amor acaba. Estas duas músicas são ilustrativas para pensar o tipo de laço afetivo construído, bem como a possibilidade de perder o outro para sempre (quando o ideal do amor romântico é desfeito) ou construir uma relação de confiança em que caiba outro tipo de laço afetivo, baseado principalmente no respeito ao outro e ao passado compartilhado. Esta segunda opção estaria mais próxima das relações íntimas de Giddens.

Giddens (2002) destaca que a vergonha deve ser considerada a característica fundamental da organização psíquica na modernidade, e não a culpa, já que a primeira atinge de maneira decisiva as raízes da confiança, estando fortemente relacionada com o medo do abandono na infância.

Simmel argumentou que a total ausência de segredos poderia esgotar uma relação por não reservar algum tipo de surpresa. Bauman se refere ao conceito de “comunidade destrutiva” de Richard Sennett para destacar “o prejuízo que é causado pela coesão social pelo fardo psicológico da mútua reabertura” (JAMIESON, 1999, p. 480). O discurso de várias possibilidades afetivas surge em meio a uma falta de compromisso com o outro, não no sentido de “obrigação eterna”, mas na forma com que as relações são desfeitas. As motivações e os desejos dos agentes deveriam ser combinados, essencialmente, com uma postura ética adequada. Há um movimento que se contrapõe ao modelo tradicional moderno que combina amor, equidade, liberdade e autonomia, sendo considerado apenas numa relação entre iguais. A democratização da vida pessoal envolve mudanças bastante profundas, cuja observação se faz bastante difícil por se desenrolar em espaços privados. A liberdade pode indicar tanto a escolha de adequação a certo tipo de padrão quanto à primazia dos instintos e a separação entre sexo e amor. Mais importante do que a definição dos tipos de relações possíveis é a convicção – ou a falta dela – da confiança, definida no âmbito privado, enfraquecida por uma crise moral moderna. Dialogando um pouco com as elucubrações de Woddy Allen em Manhattan, pode-se citar a última frase do filme, inquietante e reveladora – dita por Tracy (Mariel Hemingway), ex-namorada de dezessete anos do quarentão Isaac (Woddy Allen): not everybody gets corrupted. You have to have a little faith in people”10.



Referências


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HAZLEDEN, Rebecca. 2004. The pathology of love in contemporary relationship manuals. Sociological review, p. 201-217.


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JAMIESON, Lynn. 1999. Intimacy transformed? A critical look at the ‘pure relationship'. Sociology, vol. 33, n. 3, August.


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THERBORN, Göran. 2006. Sexo e poder: a família no mundo 1900-2000. São Paulo: Contexto.


WORTH, Heather; et al. 2002. Somewhere over the rainbow: love, trust and monogamy in gay relationships. Journal of sociology, v. 38 (3), p. 237-253.


1 Este artigo é parte do trabalho desenvolvido em minha tese de doutorado - Quem acreditou no amor, no sorriso, na flor”: a confiança nas relações amorosas – publicada em 2010.

2 Quando criou a teoria da estruturação, Giddens (2003, p. 233) pretendeu fugir dos enfoques unilaterais, ou da agência ou da estrutura. Segundo ele, poder-se-ia falar tanto no conflito – luta entre atores ou coletividades expressas como práticas sociais definidas”quanto em contradição (estrutural) – disjunção de princípios estruturais da organização do sistema”.

3 Giddens (2003, p. 433) não vê diferença lógica ou metodológica entre a Sociologia e a Geografia humana.

4 Ver Campbell (2001).

5 A palavra "paixão" teve o seu sentido modificado no mundo secular. Originalmente, ela referia-se à paixão religiosa (GIDDENS, 1993, p. 48).

6 Para Jamieson (1999, p. 482), uma revisão mais geral das relações pessoais deveria ser vista de forma multidimensional. Neste sentido, as relações de classe, gênero e etnia deveriam ser mais enfatizadas do que a vida pessoal democratizada.

7 Segundo Giddens (1993, p. 10), o amor romântico contribuiu para definir o espaço privado como sendo “o lugar das mulheres”, sendo também um compromisso com o “machismo” da sociedade moderna.

8 Em decorrência do regime militar, Bárbara foi censurada em 1972. O trecho “nós duas” foi abafado com aplausos por tratar do amor entre duas mulheres (FAOUR, 2006).

9 O autoengano poderia ser relacionado aqui com a confiança básica e o sentido de irrealidade gerado pelo casulo protetor.

10 Nem todos se corrompem. Você precisa acreditar um pouco mais nas pessoas.

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