UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

PETER WINCH: contribuições para o debate metodológico nas Ciências Sociais



PETER WINCH AND HIS CONTRIBUTIONS TO THE METHODOLOGICAL DEBATE IN SOCIAL SCIENCES



Rosane Alencar


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Resumo

Este artigo discute os principais conceitos de Peter Winch na defesa de uma metodologia específica nas Ciências Sociais. Tal defesa se baseia na concepção da realidade social dotada de caráter pré-interpretativo, conceptual e linguístico. Referências são feitas à abordagem wittgensteiniana que fundamenta a concepção de linguagem de Winch. Apresentam-se críticas à sua abordagem  e contribuições que o autor oferece no debate metodológico das Ciências Sociais.


Palavras-chave: Peter Winch. Wittgenstein. Idealismo linguístico. Metodologia.

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PETER WINCH AND HIS CONTRIBUTIONS TO THE METHODOLOGICAL DEBATE IN SOCIAL SCIENCES


Abstract

This paper discuss the main concepts of Peter Winch that defends a specific methodology in social sciences. This defense is based on the conception of social reality endowed  with pre-interpretative character, conceptual and linguistic. References are made to the approach from Wittgenstein which supports the conception of the language from Winch. This paper also presents critics to the approach and contributions that the author offers on the methodological debate of Social Sciences. 

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Introdução

Este artigo discute a abordagem de Peter Winch na defesa de
uma metodologia específica das Ciências Sociais. Tal defesa se baseia na concepção da realidade social dotada de caráter pré-interpretativo, conceptual e linguístico. A concepção de ciência apresentada por Winch no seu livro A ideia de Ciência Social e sua relação com a Filosofia defende a distinção entre as Ciências Sociais das Ciências Naturais e de forma obsessiva busca uma metodologia que tenha por foco a identificação e a compreensão dos sentidos das ações humanas (HUTCHINSON, RUPERT e SHARROCK; 2008).

Situar a abordagem de Peter Winch (1970) no cenário mais amplo da Filosofia da Ciência, parece ser imprescindível para a compreensão do por que sua proposta apresenta como argumento central a afirmação de que os fenômenos sociais são singularmente significativos e governados por regras, cabendo à ciência social elucidar esses significados por um processo de imersão nos próprios fenômenos sociais (p.8).

Considerando os debates travados no interior da Filosofia da Ciência, parece ser naturalismo versus antinaturalismo, representado na clássica indagação de ser ou não possível os objetos sociais serem investigados da mesma forma que os objetos naturais, o debate ao qual o argumento de Peter Winch (1970) se conecta.

O naturalismo, questão dominante na filosofia e controvertida nas ciências humanas, apresenta três amplas posições: (a) um naturalismo mais ou menos irrestrito, usualmente associado ao positivismo, dominante na filosofia e prática das ciências sociais até cerca de 1970; (b) o antinaturalismo, baseado em uma distinta concepção do caráter ímpar da realidade social, isto é, como dotada de um caráter pré-interpretado, conceptualizado e linguístico - a hermenêutica, a oposição oficial ao positivismo; e (c) um naturalismo crítico limitado, fundamentado em uma concepção essencialmente realista de ciência e em uma concepção transformativa da atividade social (Bhaskar, 1996).

É justamente no debate ocorrido entre o ponto a e o b que a argumentação de Peter Winch se situa. Como veremos mais adiante, toda a discussão apresentada por esse autor no seu livro A ideia de uma ciência social e sua relação com a Filosofia (WINCH, 1970) pode ser identificada como uma posição antinaturalista, logo, uma oposição ao naturalismo das várias vertentes positivistas. Considerando a variedade de significados que o termo positivismo carrega é importante situar dentro dessa tradição, quais questões a que diretamente Winch faz oposição e de que maneira esse debate naturalismo versus antinaturalismo foi-se desenvolvendo.

No seu sentido mais abrangente dentro da Filosofia da Ciência, o termo positivismo refere-se à Teoria do Conhecimento proposta por Francis Bacon, John Locke1 e Isaac Newtow, a qual afirma a primazia da observação e a busca da explicação causal por meio da generalização indutiva (KOLAKOWSKI, 1972).

Nas Ciências Sociais, o positivismo ficou associado a três princípios afins: o princípio ontológico do fenomenalismo, de acordo com o qual o conhecimento só pode fundamentar-se na experiência; o princípio metodológico da unidade do método científico, o qual proclama que os procedimentos da ciência natural são diretamente aplicáveis ao mundo social com o objetivo de estabelecer leis invariantes ou generalizações semelhantes a leis sobre fenômenos sociais; e o princípio axiológico da neutralidade, que se recusa a conceder aos enunciados normativos o status de conhecimento e mantém uma rígida separação entre fatos e valores.

É importante observar como esses princípios, nas diversas vertentes positivas se organizaram formando abordagens diferenciadas, podendo ser citadas três amplas tradições sucessivas do positivismo: a francesa, a alemã e a americana. A tradição francesa origina-se com Auguste Comte e seu mentor Saint-Simon. A ambição de Comte era fundar uma ciência naturalista da sociedade capaz de explicar o passado da espécie humana e predizer o seu futuro, aplicando os mesmos métodos de investigação que tinham provado ser tão bem-sucedidos no estudo da natureza, a saber, observação, experimentação e comparação (WACQUANT, 1996).

Um exemplo dessa tradição francesa iniciada por Comte é a abordagem durkheimiana. Apesar de abandonar a substância da filosofia de Comte, Durkheim reteve o seu método, insistindo na continuidade lógica entre as ciências sociais e naturais e na aplicação à sociedade do princípio de causalidade natural. No seu livro As regras do método sociológico (1999), afirma que o principal objetivo era estender o racionalismo científico à conduta humana. Nesse caminho ele propõe uma série de princípios metodológicos na consideração dos fatos sociais como coisas. Um desses princípios seria rejeitar as prenoções comuns em favor de definições objetivas e também outro, o de explicar um fato social somente por outro fato social (DURKHEIM, 1999).

O paradigma positivista, na tradição alemã, a qual envolveu economistas neoclássicos, históricos e filósofos neokantianos, desenvolveu-se em torno da questão e apurar se a vida social é passível de explicação causal ou apenas de entendimento interpretativo. Podemos citar como exemplo o movimento denominado de positivismo lógico desenvolvido pelo grupo de filósofos, matemáticos e cientistas analíticos2 que se tornou conhecido como o Círculo de Viena.

A finalidade desse grupo era efetuar uma síntese de empirismo humano, positivismo comteano e análise lógica que livrasse para sempre a filosofia das ocas especulações da metafísica ao fundamentar firmemente todo o conhecimento na experiência (AYER, 1959).

De acordo com o positivismo lógico, o conhecimento científico assenta-se numa base sólida de fatos formulada por meio de sentenças protocolares (GIDDENS, 1998) que fornecem um registro genuíno por ser contíguo à experiência sensorial, ou elaborado através de regras de correspondência (CARNAP, 1980), formando uma ponte entre a linguagem teórica e a linguagem da observação (PASSMORE, 1994). Dessa forma, os únicos enunciados significativos são os que podem estar sujeitos ao princípio da verificação, ou seja, serem comprovados por observação.

A tradição americana, chamada por Bryant (1985) de positivismo instrumental, insere-se, ainda, dentro da perspectiva naturalista, ênfase na pesquisa social com o objetivo de atingir padrões de rigor comparáveis aos da física e biologia. Distingue-se basicamente por uma preocupação com questões de método e de mensuração, incluindo o refinamento de técnicas estatísticas, com ênfase na operacionalização e na verificação.

O adjetivo instrumental é posto em referência aos instrumentos de investigação que determinam as questões formuladas, a definição de conceitos e, dessa forma, o conhecimento produzido, com a testabilidade, a replicabilidade e a viabilidade técnica, suplantando a teoria como guias idôneos da prática e da avaliação científicas.

A ascensão e o domínio do positivismo ou dos positivismos, apesar de cada movimento apresentar suas características distintivas, significou também o domínio da ideia de que o conhecimento só é possível a partir da experiência e de que seria possível uma unidade do método científico, ou seja, as Ciências Sociais poderiam ser investigadas a partir da cientificidade alcançada pelas Ciências Naturais. Esse domínio do naturalismo é apontado por Outhwaite (1995), por exemplo, quando este afirma que a proposta de uma "ciência unificada" é a pura expressão de uma abordagem naturalista e reducionista de positivismo.

Portanto, é em relação a esse naturalismo que muitas críticas são feitas às tradições positivistas. Dentro dessas, podemos apontar críticas vindas dos teóricos antipositivistas ou de alguns denominados pós-positivistas. Apesar das contribuições de Popper (1978) com o modelo do falsificacionismo, o que nos interessa são as críticas produzidas pelos antipositivistas, principalmente no que se refere à afirmativa de que as ciências sociais são lógica e ontologicamente diferentes das ciências naturais, afirmativa que coloca em questão a possibilidade de uma ciência explicativa da sociedade – argumento também defendido por Peter Winch.

É esse o principal argumento trazido pela hermenêutica ou pelas chamadas abordagens interpretativas das ciências sociais. Com a hermenêutica busca-se a interpretação ou verstehen, colocando a explicação causal em segundo plano. O que importa nessas abordagens não são as descrições causais do comportamento humano. Essas não podem ser construídas uma vez que as práticas, instituições e crenças humanas são inerentemente significativas, ou seja, constituídas pelos entendimentos que os participantes têm delas. Consequentemente, a tarefa dos estudos humanos não pode ser a especificação de leis invariantes do comportamento humano, mas sim fazer com que esse comportamento seja inteligível mediante a sua interpretação em relação às intenções subjetivas dos sujeitos (WACQUANT, 1996).

Vale salientar que essas considerações críticas, apresentadas ao naturalismo presente nas abordagens positivistas, não foram elaboradas exclusivamente por Peter Winch (1970). A tradição hermenêutica, assim como a própria Fenomenologia Social de Schutz (1979) têm contribuído para esse debate. Mas, no momento, o recorte que se faz aqui circunscreve-se especificamente à análise de Peter Winch.

Dessa forma, a partir da recuperação de algumas das principais ideias, presentes no debate da teoria social vivenciado por Peter Winch, o próximo passo será a exposição e análise dos principais conceitos construídos por este autor, conceitos esses que permitem relacionar, num todo unificado, ciência social, filosofia e linguagem.



Ciência Social: Filosofia e Linguagem

O título desta seção antecipa a proposta de Peter Winch (1970) apresentada no seu livro A ideia de uma ciência social e sua relação com a filosofia, quando dá destaque às palavras filosofia e linguagem3. Nas próprias palavras de Winch: "ter uma noção clara da natureza da filosofia e uma noção clara da natureza dos estudos sociais é uma só e mesma coisa. Pois qualquer estudo de algum valor sobre a sociedade tem que ter caráter filosófico, e qualquer filosofia de algum valor tem que ter relação com a natureza da sociedade" (1970: p.15)

Nesta afirmativa está implícita a crítica ao Empirismo de John Locke, no qual a filosofia é concebida como um "ajudante de obra" uma vez que, esta não pode contribuir para nenhuma compreensão positiva do mundo. Seu papel, essencialmente negativo, é o de remover os obstáculos para o avanço do nosso entendimento.

Para Winch (1970), ao contrário, como é possível perceber nessa citação, assim como em várias outras, a filosofia é concebida como o estudo da natureza da compreensão da realidade pelo homem e, vista dessa forma, pode esclarecer a natureza das inter-relações humanas na sociedade. Essa interconexão entre filosofia e sociologia apresentada por Winch é explicitada a partir da concepção de linguagem herdada da abordagem de Wittgenstein4, principalmente quanto à sua formulação dos jogos de linguagem, apresentada em Investigações Filosóficas5.

Wittgenstein apresenta como questão central que a percepção do mundo só é acessível via linguagem, ou seja, os limites do mundo são dados pelos limites da linguagem. À teoria da realidade corresponde a teoria da linguagem. Essa ideia de linguagem como uma representação projetória da realidade, apresentada no Tractatus (PINTO, 1998), ou como alguns autores preferem nomear como sendo o "primeiro Wittgenstein", pode ser identificada na abordagem de Winch (1970). Este afirma que

[...] indagar-se se a realidade é inteligível é inquirir sobre a relação entre pensamento e realidade. Para se considerar a natureza do pensamento, temos também de considerar a natureza da linguagem. (1970: p.22)

Portanto, compreender a realidade ou torná-la inteligível é uma proposta inseparável da questão de como a linguagem se articula com a realidade. A ideia do que pertence ao domínio da realidade é apresentada pela linguagem que é usada. São os conceitos que estabelecem a forma da experiência que o indivíduo tem com o mundo.

Continuando nessa linha de argumentação, para Peter Winch, as relações sociais são expressões de ideias sobre a realidade que os indivíduos exteriorizam. Dessa forma, explicitamente Winch afirma ser necessário assumir o conceito de seguir uma regra, presente na análise de Wittgenstein em Investigações Filosóficas, para então ser possível configurar melhor a natureza das relações sociais.

É importante explicitar o significado de regra apresentado por Winch (1970). Seguir uma regra é análogo a obedecer a uma ordem; somos adestrados para obedecer à ordem. O uso das palavras está diretamente ligado a uma determinada regra, logo o significado da palavra reside no uso que fazemos dela.

Nesse sentido é que Winch aponta como ideia capital ao conceito de regra que ela nos torna capazes de avaliar o que está sendo feito em termos do que é certo ou errado. Logo, nenhum uso isolado da linguagem se sustenta por si; somente é inteligível dentro do contexto geral em que a linguagem é usada; e parte importante desse contexto consiste em levar a sua compreensão à correção dos erros, quando ocorrem, e a permitir conferir um erro quando se suspeita que exista (WINCH, 1970).

Dessa maneira, quando Winch recupera o conceito de seguir uma regra de Wittgenstein está automaticamente considerando a realidade como sendo constituída por inúmeros jogos de linguagem, o que significa dizer que, falar uma linguagem faz parte de uma atividade ou de uma forma de vida. A linguagem é um conjunto de jogos de linguagem e dado o seu caráter representacional da realidade, quanto mais rica for a primeira, mais extensa será a compreensão da segunda.

A consideração de Winch à análise de Wittgenstein sobre o conceito de seguir uma regra, assim como da linguagem como jogos de linguagem6, contribui para a explicitação das relações existentes entre filosofia e sociologia, assim como para destacar o caráter significativo dos fenômenos sociais.

Segundo Winch, o problema do que é a linguagem é de vital importância para a sociologia, uma vez que é “[...] nele e por ele é que nos colocamos face a face à questão, em toda sua inteireza, de como, por quais formas características, os seres humanos interagem uns com os outros em sociedade” (1970, p.22). Ou seja, é na linguagem que se encontra o caráter significativo dos fenômenos sociais.

A ideia de comportamento significativo tratado por Winch é estabelecida como contraponto à abordagem weberiana de ação social. A distinção weberiana entre ação significativa e ação de pura reação, em que apenas a primeira deveria ser considerada social, é uma falsa distinção em Winch.

O caráter social atribuído às ações em Weber (1987) é devedor do conceito significativo. Uma ação só é considerada social quando é significativa e esta se torna significativa apenas quando a ação subjetiva refere-se à conduta dos outros, ou seja, quando o sujeito reage orientando-se para os outros. Em Winch observamos uma elaboração diferente em relação ao caráter significativo e social das ações humanas. Nas palavras do autor "[...] todo comportamento significativo deve ser governado por regras, e as regras pressupõem um contexto social" (1970, p.110)

A questão que fica evidente aqui é que todo o comportamento significativo é social por ser sempre governado pelas regras. Desse modo, não é apenas quando os indivíduos apresentam razões que seu comportamento pode ser considerado significativo, como concebido por Weber. As relações, assim como as ideias, ganham seus significados a partir do papel que desempenham dentro de um contexto, uma vez que elas estão sendo guiadas pelas regras existentes.

A consideração de um contexto constituído por regras e, dessa forma, do papel que as ideias exercem nele, nada mais é do que a consideração do caráter de uso dessas ideias e, para Winch, é esse aspecto que atribui significado às ações humanas. Como a relação entre pensamento e linguagem é simbiótica, falar das ideias é falar das palavras e, parafraseando Winch (1970), a descrição do significado das ações sociais é a descrição das palavras e de como elas são usadas. E a descrição dos seus usos é a descrição do intercurso social.

Esse caráter significativo das ações sociais – ou relações sociais como o próprio Winch preferia usar - conduz à concepção de sociedade como um conjunto de relações internas, da mesma forma que a linguagem. Em outras palavras, a linguagem e as relações sociais constituem as duas faces de uma mesma moeda. É a consideração desse aspecto que permite falar no caráter interno das relações sociais.

Segundo Winch (1970), a sociedade sendo caracterizada desta forma, requer do pesquisador social o uso de um esquema conceitual logicamente incompatível com as explanações oferecidas, até então, pelas ciências naturais. Aqui Winch explicita a sua oposição ao naturalismo.

Para Winch (1970) existe um hiato entre o mundo social e o natural implicando tanto métodos quanto objetos de estudo diferenciados. Colocada a inadequação do positivismo ao estudo dos fenômenos sociais, uma vez que esses são diferentes ontologicamente dos fenômenos naturais, o único método capaz e válido para captar a ação humana, segundo Winch (1970), requisita do pesquisador a participação do grupo investigado, assim como a incorporação da linguagem desse grupo. A consideração desses aspectos garantiria uma interpretação mais profunda dos fenômenos sociais.

Interpretar e compreender nessa perspectiva significa mais que meramente uma questão de observação e experimentação. O problema fundamental está em que compreender a sociedade é a compreensão de um modo de discurso. Compreender é:"(...) perceber o ponto ou o significado do que está sendo feito ou dito. Essa é uma noção muito afastada do mundo da estatística ou das leis causais; está muito mais próxima do reino do discurso e das relações internas que ligam as partes do reino do discurso". (WINCH, 1970: p.110).

A defesa aqui é a de que a compreensão da sociedade é logicamente diferente da compreensão dos fenômenos da natureza. Os conceitos por cujos termos compreendemos nossos próprios processos mentais e nosso comportamento são aprendidos e socialmente estabelecidos, tanto quanto os conceitos utilizados para a compreensão do comportamento dos outros. Ou como o próprio Winch afirma: " aquilo que o sociólogo está estudando, assim como o estudo que ele faz, são certas atividades humanas e, em consequência, conduzidas de acordo com regras. E são tais regras, e não as que governam a investigação do sociólogo, que especificam o que se deve considerar (...) em relação com a espécie de atividade que está sendo estudada (1970: p.86)

Ou seja, mesmo a compreensão científica - os termos técnicos usados pelo pesquisador – implicam uma compreensão prévia daqueles outros conceitos pertencentes à atividade investigada.

Na crítica ao tipo de método até então utilizado nas ciências sociais, Winch identifica como problemática a busca de predições nos fenômenos sociais. Nesse aspecto ele aponta que

[...] um conjunto específico de condições iniciais, não é capaz de predizer qualquer resultado determinado de uma tendência histórica, porque a continuação ou interrupção dessa tendência envolve decisões humanas, as quais não são determinadas pelas suas condições antecedentes, no contexto das quais faz sentido chamá-las decisões. (WINCH, 1970: p.90).

Ou seja, falar de predições nos fenômenos sociais requer considerar que as possíveis tendências identificadas são, em parte, o resultado das intenções e decisões dos participantes no seu processo. Mais uma vez o empreendimento de Winch é evidenciar que os conceitos inerentes à nossa compreensão da vida social são incompatíveis com os conceitos relativos à atividade científica.

Como é possível observar, a partir das principais ideias apresentadas aqui, a abordagem de Peter Winch pode sinteticamente ser definida como uma análise dos fenômenos sociais com o seu eixo central localizado na ideia de linguagem constituída num meio de interação e de significados próprios que lhes são definidos por uma determinada forma de vida.

Toda a argumentação é que a realidade se constitui a partir da representação das ideias e que se expressam pela linguagem. Assim, é necessária a utilização de uma metodologia antinaturalista – com a exclusão da explicação causal – para dar conta da interpretação dos fenômenos sociais. Em síntese, percebe-se que a proposta de Peter Winch para as Ciências Sociais é que sejam abandonadas, pelo pesquisador, a busca de leis, as mensurações ou as descrições dos fenômenos sociais, pois tais tarefas tornam-se impossíveis devido ao caráter representacional da realidade.

Lançando um olhar para as Ciências Sociais na atualidade, podemos nos perguntar: qual o impacto dessas ideias na teoria social contemporânea? Quais as contribuições que Winch oferece para a questão do método na pesquisa social?



O legado de Peter Winch para a Ciência Social

A importância da abordagem de Winch pode ser apontada em duas direções significativas. A primeira refere-se ao domínio da Filosofia da Ciência e a segunda à própria Sociologia.

Quando Winch (1970) apresenta uma concepção de filosofia como o estudo da natureza da compreensão da realidade pelo homem a partir da Filosofia é possível a compreensão da natureza das inter-relações humanas na sociedade. Ao recuperar o valor dos estudos filosóficos para a Ciência, dissolve a dicotomia estabelecida pelos empiristas. Os estudos filosóficos eram identificados como obstáculos às explicações científicas por estarem no domínio da metafísica e, portanto, não científicos.

Quanto à segunda contribuição, que de certa forma deriva dessa primeira, situa-se na inserção da abordagem de Wittgenstein no campo da Ciência Social e, de forma mais específica, da Sociologia. Com a concepção de linguagem wittgensteiniana é considerada a dimensão linguística da realidade social. Filosofia e Sociologia se conectam a partir da ideia de uma realidade que só é inteligível na linguagem usada numa determinada sociedade. A concepção de que o mundo é constituído pela linguagem é uma das suas principais contribuições à teoria social.

Mas, a consideração da dimensão linguística da realidade social tem sido objeto de muitas críticas. O problema situa-se em conceber a dimensão linguística como sendo a própria realidade. Como anteriormente já apresentado, para Winch a percepção do mundo acessível ocorre apenas via linguagem: além dela não existe realidade. Muitos autores têm denominado tal abordagem de idealismo linguístico e mesmo como relativismo (GELLNER, 1978).

Afirmar que a realidade resume-se em palavras e estas refletem os significados - as ideias de um determinado modo de vida - coloca a cognição identificada com ela própria como sendo uma rede na qual são internalizadas as relações sociais. Nessa perspectiva, toda a objetividade tradicional é substituída por um relativismo que nega a possibilidade das ciências sociais estabelecerem leis universais. Tudo o que a investigação social pode fazer, nessa perspectiva, é traduzir e servir de mediadora entre mundos separados, porém iguais. Isso porque em Winch, a consideração de vários modos de vida e, portanto, a concepção de que os significados são constituídos dentro de contextos diferenciados implica que o pesquisador necessite, para compreender uma sociedade, antes apreender a forma como ela é conceptualizada por seus membros7.

Parece existir uma contradição interna na abordagem de Winch, apontada por Gellner (1978) e outros autores (APEL,1985; GARDUÑO, 2005). Falar de um modo de vida, com seus próprios significados, sua própria linguagem e, portanto, sua própria realidade, parece ser contraditório; como também falar das diversas culturas como se fossem homogêneas. Em outras palavras, se as relações sociais entre os homens só ocorrem a partir de suas ideias, constituindo-se assim em relações internas, não existiria nenhuma dimensão externa? Se os significados estão associados diretamente ao contexto no qual as palavras estão sendo usadas ou, dito de outra forma, as regras estão sendo seguidas, como é possível então as relações humanas entre outras culturas?

Winch resolve esse problema com uma solução simétrica ao dizer que é importante tratar cada forma de vida de maneira igual sem estabelecer critérios de diferenciação. Mas o que é problemático nessa proposta é ignorar as assimetrias constitutivas de cada cultura.

A questão é que, dada a concepção de realidade de Peter Winch, não existe uma dada realidade independente da linguagem e das ideias que são expressas através dessa linguagem. Assim, a referência é sempre interna e, dessa forma, qualquer comparação entre modos de vida diferentes torna-se impossível.

É importante considerar que a elaboração realizada por Winch, como já mencionado, estava dirigida ao problema do fenomenalismo e da unidade de um método científico. Podemos então nos perguntar em que medida Winch responde suficientemente à questão colocada, qual seja a consideração da diferenciação ontológica dos fenômenos sociais em comparação com os fenômenos naturais.

A resposta apresentada por ele, segundo Gellner (1978) é confusa. A confusão está em que uma teoria não pode ser constituída por vários métodos e ser metodologicamente neutra. Tal ideia baseia-se na posição de Winch de uma filosofia a priori que poderia clarificar o conhecimento social de uma maneira geral, sem interferir nos campos específicos do conhecimento.

No livro There Is No Such Thing As a Social Science: In Defence of Peter Winch de autoria de Phil Hutchinson, Rupert Read e Wes Sharrock, os autores, argumentam que as críticas de Ernest Gellner resultam de incompreensões das ideias wichinianas, aspecto recorrente em muitos dos leitores de Winch.

Um dos principais pontos abordado no livro é uma compreensão equivocada do que foi efetivamente central para Winch, qual seja, a inclusão da Filosofia nas ciências sociais. Afirmava que existia uma diferença entre problemas conceituais e problemas empíricos e que tal distinção não estava clara nas ciências sociais: separar questões conceituais de problemas empíricos não era só uma questão de divisão entre Filosofia
Social da Ciência e Sociologia. Muitas vezes, o esforço em resolver um problema conceitual a partir de uma questão empírica poderia ser enganoso para Winch. Em síntese, a defesa dele era por uma ciência social articulada com a Filosofia e não a negação da dimensão dos estudos empíricos nas ciências sociais.

Ainda, outro aspecto abordado no livro e que alimenta o debate é a defesa de que haveria um equívoco no rótulo de idealista a Peter Winch. O principal argumento dos autores é de que ao propor a articulação entre Filosofia e Sociologia, Peter Winch ancora-se na Filosofia da Ciência Social do segundo Wittgenstein, que rompe com a perspectiva idealista do Tractatus ao estabelecer o conceito de jogos de linguagem que releva a dimensão praxiológica da linguagem.

Por fim, apesar das críticas apontadas e das divergências nas avaliações das ideias de Winch, é importante ressaltar que vários autores na teoria social foram influenciados por suas ideias, como Anthony Giddens, Jurgen Habermas seja para apontar limites, seja para incorporar conceitos. Concordamos com Phil Hutchinson, Rupert Read e Wes Sharrock que Peter Winch é pouco lido e que uma leitura mais intensa das suas ideias contribuirá para o debate metodológico das Ciências Sociais.



Referências


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1Inclusive Winch (1970) faz referência ao empirismo lockiano denominando-o de concepção de ajudante de obra, questão que será mais adiante discutida.

2Entre eles, estavam Moritz Schlick, Ernest Mach, Rudolf Carnap.

3A filosofia da linguagem representou uma virada da própria filosofia. Contrariamente ao passado, a causalidade deixa de ser o elemento central. A pergunta agora é quanto ao uso da palavra causalidade e não quanto à sua essência. A linguagem passa para a esfera dos fenômenos de todo pensar. Tal reviravolta linguística do pensamento filosófico do século XX se centraliza na tese fundamental de que é impossível filosofar sobre algo sem filosofar sobre a linguagem, uma vez que ela é o momento necessário constitutivo de todo e qualquer saber humano (OLIVEIRA,1996).

4Tal influência se deve ao fato de que Peter Winch teve sua filiação teórica ao movimento da filosofia analítica que se origina em Cambridge, com o próprio Wittgenstein, nos anos anteriores à Segunda Guerra já que, após ela, migra para Oxford sob a liderança de Gilbert Ryle e J.L. Austin (GELLNER, 1996). Apesar do caráter heterogêneo em termos de doutrinas nesses dois centros, o que existe de comum é uma espécie de ofício, uma mentalidade, um tipo de trabalho, que se exerce sobre a língua para ver como funciona a linguagem, de modo que, entre outras coisas, o mundo nos apareça mais claramente e sempre mais profundamente (REALE, 1991).

5Em Investigações Filosóficas, Wittgenstein abandona o ideal de exatidão da linguagem. Tese fundamental no Tractatus lógico-philosophicus, pressupõe que no mundo há entidades cuja estrutura ontológica seja claramente determinada e da qual a linguagem seria a cópia fiel. A defesa agora é por uma ambiguidade constitutiva da linguagem: usamos as palavras não por uma significação definitiva, estabelecida a priori, mas de acordo com os contextos sociopráticos em que são usadas. A busca por uma exatidão absoluta como no Tractatus seria como abandonar a linguagem real na busca de uma ilusão metafísica (OLIVEIRA, 1996). A linguagem passa, assim, a ser o fundamento de todo pensar. É concebida não em termos transcendentais (filosofia da consciência), mas como mediação linguística.

6Como Wittgenstein afirma O termo ‘jogo de linguagem’ deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida” (1979, p.18). Os jogos linguísticos, nessa perspectiva, são inumeráveis os tipos diferentes de uso de tudo o que chamamos palavras, proposições, etc. Essa multiplicidade não é algo fixo. Novos jogos linguísticos surgem continuamente, enquanto outros envelhecem e são esquecidos (ibid., p.20).

7Hamlin (2011) em relação a esse aspecto afirma que “As conexões lógicas envolvidas nas ciências sociais dizem respeito a conceitos, não a eventos empíricos, e tais conexões apresentam um caráter intrínseco (ou necessário), no sentido de que a existência dos fenômenos sociais não apenas é dependente dos conceitos usados para descrevê-los, mas idêntica a eles. O ideal e o real parecem coincidir de forma absoluta. Se é este o caso, apesar das afirmações de Winch em contrário, a linguagem dos cientistas sociais deve coincidir com a linguagem “nativa” – o que levaria ao questionamento da utilidade das ciências sociais” (p. 14).

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