A persistência do mito da democracia racial na telenovela brasileira

A NOVA ABORDAGEM RACIAL DA TELENOVELA BRASILEIRA: ruptura ou confirmação do mito da democracia racial?



Ana Rodrigues Cavalcanti Alves


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Resumo

O presente trabalho tem por objetivo analisar a nova abordagem racial da telenovela brasileira a partir de uma análise da telenovela Duas Caras (2007-2008). Num primeiro momento discutiremos as condições que possibilitaram a reorientação e fortalecimento do Movimento Negro no Brasil a partir dos anos 1980, inaugurando uma série de conquistas no âmbito político-institucional que visam combater o racismo e a desigualdade racial. Em seguida investigaremos em que medida tais conquistas se refletem em instituições centrais como a mídia, especificamente na telenovela. Em que medida a nova abordagem racial da telenovela brasileira se distancia do discurso racial dominante, que reforça o mito da democracia racial, construindo um discurso de denúncia e enfrentamento do racismo?


Palavras-chave

Mito da democracia racial. Movimento Negro. Relações raciais no Brasil. Telenovela brasileira.

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ABSTRACT

This article aims to analyze the new racial approach of the brazilian soap opera from an analysis of the soap opera Duas Caras (2007-2008). At first we discuss the conditions that allowed the reorientation and strengthening of the Black Movement in Brazil from the 1980s, inaugurating a series of achievements in the political-institutional that aimed to combat racism and racial inequality. Then we investigate if these achievements are reflected in the central institutions, like the media, specifically in the soap opera. How the new racial approach of the brazilian soap opera moves away from the dominant racial discourse, wich reinforces the myth of racial democracy, constructing a discourse of denunciation and combat racism?


Key-Words

Myth of racial democracy. Black movement. Race relations in Brazil. Brazilian soap opera.



1 Introdução

O período que compreende o final da década de 1980 e início dos anos 1990 inaugura um novo momento na história dos movimentos de resistência negra no Brasil, marcado por inúmeras conquistas no âmbito político-institucional. Se até os anos 1980 o Movimento Negro encontrou forte resistência por parte da sociedade e das organizações políticas no sentido de reconhecer a existência de problemas raciais no Brasil e criar medidas efetivas para o seu enfrentamento, o final desta década é marcado por uma nova institucionalidade política em que o próprio Estado reconheceu a necessidade de dialogar com o Movimento Negro na construção de políticas públicas de combate ao racismo e à desigualdade racial.

A partir desse momento o Estado passa a responder de modo mais eficaz às reivindicações do Movimento Negro e implementa um conjunto de políticas de ações afirmativas que se fundamentam na crítica ao ideal de igualdade de direitos, apontando que a igualdade formal de todos perante a lei não garante as mesmas oportunidades aos socialmente desfavorecidos e não é suficiente para reverter o quadro social da população negra no Brasil. Além disso, as políticas punitivas não são suficientes para combater os efeitos do racismo e da discriminação racial (GOMES, 2005).

Tais políticas têm se concentrado principalmente no âmbito educacional. A partir do reconhecimento da importância da educação formal como mecanismo de integração e ascensão social, o Movimento Negro tem se manifestado não apenas em defesa da inserção do negro na escola como também em favor de uma educação multicultural. Ademais, o Movimento Negro visa combater a veiculação de ideias racistas na escola, que se manifestam não apenas nos livros didáticos que representam o negro de forma estereotipada, como também no comportamento de professores e alunos (SANTOS, 2005).

A preocupação com a mídia também tem permeado o Movimento Negro, uma vez que se percebe a incorporação do mito da democracia racial e do ideal do branqueamento na programação televisiva brasileira, que, além disso, é responsável pela reprodução de estereótipos raciais encontrados no imaginário social brasileiro. Ainda no final da década de 1970, o Movimento Negro Unificado apresenta propostas de ação na mídia em seu programa (ARAÚJO, 2006, p. 69).

A partir de 1988, com a redação da nova constituição brasileira, vários parlamentares negros tomaram iniciativas no âmbito da ação legislativa, como Benedita da Silva, que propôs a participação obrigatória de 40% de negros em comerciais governamentais e em produções nacionais para televisão, como novelas e minisséries (Projeto de lei n°10), gerando grande polêmica no âmbito institucional (ARAÚJO, 2006, pp. 73-74). Em 1998, o deputado Paulo Paim (PT-RS) criou o projeto de Lei n° 4.370/98, definindo cota de 25% de presença obrigatória de afrodescendentes nos programas de TV, cinema e teatro. Além disso, são reservadas 40% das vagas para afrodescendentes nas peças publicitárias. Entretanto, os defensores das políticas afirmativas enfatizam que é necessário que as medidas compensatórias não visem somente aumentar o número de negros nos diversos âmbitos da vida social, mas que este aumento seja promovido em sentido diferente do que foi historicamente observado.

Diante da pressão do Movimento Negro contra toda e qualquer prática de cunho racista nos mais diversos âmbitos da sociedade brasileira, e do apoio do Estado na construção de políticas de combate ao racismo e à desigualdade racial, faz-se necessário investigar de que maneira essas mudanças estão se refletindo em nossas instituições sociais centrais, como a mídia. No caso da telenovela, considerada o principal produto da indústria cultural brasileira e um dos principais difusores da cultura nacional, alguns pesquisadores, como Joel Zito Araújo (2006), percebem uma mudança com relação à abordagem da questão racial, a partir dos anos 1990. Se a telenovela brasileira sempre foi criticada pela invisibilidade do negro, pela reprodução de estereótipos e delegação de papéis subalternos aos artistas negros, a partir da década de 1990 cresceu o número de atores negros no interior da trama novelística. Além disso, tanto o público como a imprensa brasileira aponta uma mudança no próprio discurso racial presente nas telenovelas globais dos anos 2000; a partir de então, começam a aparecer nas telenovelas globais personagens negros bem-sucedidos, protagonistas negros e relacionamentos inter-raciais que são aceitos pelo público.

A telenovela Duas Caras, exibida em 2007 e 2008, é apontada como o “ponto alto” desse histórico de conquistas do negro na telenovela. Algumas pesquisas mostraram que o público acredita que essa novela retrata bem a realidade dos negros na sociedade brasileira; outras afirmam que o relacionamento inter-racial finalmente conquistou o público. O próprio diretor, Aguinaldo Silva, afirma que a telenovela Duas Caras se contrapõe ao discurso da democracia racial, ao problematizar e combater o racismo no seio da sociedade (ANDRADE, 2009, p. 127)1. Neste sentido, o presente trabalho tem por objetivo analisar a referida telenovela com o intuito de investigar em que medida a nova abordagem racial da telenovela brasileira se distancia do discurso racial dominante – que reforça a inexistência de problemas raciais e o mito da democracia racial.

No momento em que o Supremo Tribunal Federal decidiu pela constitucionalidade das cotas raciais na Universidade de Brasília (UNB), os ânimos em torno da discussão racial afloraram novamente; intelectuais, políticos e cidadãos comuns discutem não apenas sobre cotas, mas sobre as relações raciais no Brasil de maneira geral. Mais uma vez esse contexto parece se refletir na telenovela. A próxima novela das “seis” da Rede Globo, Lado a Lado, de Cláudia Lage, cuja estreia está prevista para setembro de 2012, contará com um protagonista negro e com cerca de 40% do elenco de afrodescendentes. Em novela ambientada nos primeiros anos após a abolição, a diretora já promete discutir racismo e o surgimento do orgulho negro2.

Portanto, uma análise sobre a nova abordagem racial da telenovela brasileira pode contribuir com o debate sobre as relações raciais no Brasil e esclarecer os avanços e limites da discussão racial na telenovela; para tanto, faz-se necessária, inicialmente, uma discussão sobre as condições que possibilitaram o fortalecimento e reorientação do Movimento Negro a partir dos anos 1980, de fundamental importância para suas posteriores conquistas no âmbito institucional e na pressão exercida sobre os mais diversos âmbitos da sociedade, tal como a imagem do negro e a discussão da questão racial na telenovela.



2 A reorientação do movimento negro nos anos 1980

Antônio Sérgio Guimarães (1999, p. 109) aponta três momentos principais de atuação do Movimento Negro na sociedade brasileira após a abolição da escravatura e a instauração da República: o primeiro tem início na década de 1930 com a formação da Frente Negra Brasileira (FNB), o segundo momento se constitui a partir dos anos 1950 e o terceiro surge no período de redemocratização, na década de 1980.

Para entender as condições de formação de uma resistência negra organizada na década de 1930 é preciso, antes de tudo, o remetimento ao próprio significado da abolição e ao modo de integração da população negra na sociedade. Em seu estudo sobre a inserção do negro na sociedade de classes, na cidade de São Paulo, Florestan Fernandes (1978) afirma que a população de cor foi inserida na ordem social competitiva completamente destituída de assistência e garantias que a orientasse na transição para o trabalho livre. O autor aponta que nem o Estado, nem a Igreja ou qualquer outra instituição social ficou responsável pelo preparo do liberto no novo regime de organização da vida e do trabalho, o que permite caracterizar a abolição como uma “espoliação extrema e cruel”.

A deformação do negro causada pela escravidão – bem como um conjunto de constelações psicossociais advindas desse sistema, que correspondiam a noções pré-capitalistas – contribuiu para comprometer a sua posição nas relações de produção como agente do trabalho e para atribuir-lhe reputação desabonadora. Neste sentido, o negro foi preterido no mercado de trabalho – principalmente com a introdução do trabalhador imigrante – sendo praticamente excluído deste e de suas oportunidades de classificação econômica e ascensão social, restando-lhe como única opção as posições mais degradantes (FERNANDES, 1978).

Apesar do posterior avanço no processo de modernização da sociedade e a expansão do mercado de trabalho, que a partir de então se estende, em menor escala, à população negra, não há maiores alterações na estrutura das relações raciais herdadas do antigo regime, de modo que as condições de vida precária do negro são continuamente perpetuadas. Enquanto havia pressão integracionista por parte da sociedade no sentido de que a população de cor absorvesse o estilo de vida da ordem social competitiva a fim de reduzir a distância entre a sua herança sociocultural e os fundamentos da era industrial, não havia nenhum mecanismo de equiparação econômica, de garantias sociais e de bens culturais. A população negra permanecia excluída das oportunidades de classificação econômica e ascensão social.

Nesse contexto, a população de cor era confrontada com dois grandes dilemas sociais, a saber, o dilema da sua absorção normal e gradativa pela ordem social competitiva e o dilema do preconceito de cor3, que correspondia às resistências de se perceber o negro como igual. Diante do confronto com tais dilemas, que se impunham como anomalias sociais, surge o protesto negro como reação de um grupo que almejava integração normal à sociedade de classes (FERNANDES, 1978, pp. 2, 3).

Florestan Fernandes (1978) ressalta que o protesto negro na década de 1930 não assumiu o caráter de revolução contra a ordem social estabelecida, mas apenas uma insubordinação contra as debilidades do sistema de relações raciais, especificamente, o isolamento sociocultural e econômico a que se via submetida toda a população de cor e suas dificuldades de ascensão social. Como havia forte discriminação e segregação racial em diversos espaços da sociedade brasileira, o Movimento Negro na década de 1930 vai assumir como seu principal alvo o combate à discriminação e à segregação social e espacial do negro (NASCIMENTO, A. NASCIMENTO, E. 2000).

A Frente Negra Brasileira (FNB) é considerada a principal organização desta época: fundada em São Paulo no ano de 1931, posteriormente é transformada em partido político4. A fim de combater os efeitos perversos da discriminação, a FNB adotou ideologia nacionalista de integração e assimilação, que afirmava o negro como povo brasileiro e pressupunha a reeducação da população de cor a fim de adaptá-la ao estilo urbano de vida. O objetivo era integrar socialmente os negros para combater a impermeabilidade do sistema social no que diz respeito à ascensão vertical deles. Segundo Guimarães (2002, p. 91), a estratégia de reeducação da massa negra representa a crença e legitimação dos estereótipos raciais, por parte do Movimento Negro. O combate ao modo de vida do negro, bem como aos seus “defeitos e vícios” corresponde a uma crença na ideia de que os preconceitos e estereótipos raciais se fundamentavam no próprio comportamento do negro. Portanto, combater o preconceito significava subtrair os fundamentos contidos no seu comportamento.

De acordo com Florestan Fernandes (1978), os movimentos da década de 1930 não obtiveram êxito em suas reivindicações, uma vez que não conseguiram o apoio da sociedade inclusiva. Esta, ao invés de reconhecer a situação social anômica do negro e compartilhar de seus ideais, adotou uma posição de inércia que prejudicou o desenvolvimento dos movimentos reivindicatórios. Apesar de seu malogro, o autor reconhece as conquistas do Movimento Negro nesta primeira fase, como a elaboração da noção de preconceito de cor, que consiste no reconhecimento de como o negro era tratado na sociedade, e uma reação ativa a ele. Além disso, Fernandes ressalta que a principal contribuição dos movimentos reivindicatórios consistiu na formação e difusão de uma ideologia racial característica, que colidia diretamente com a ideologia racial dominante. Entretanto, a contraideologia não alcançou pureza teórica ou resultados práticos eficazes devido à ambiguidade existente na conjuntura histórico-social e racial5.

Com o golpe de Estado de Getúlio Vargas, em 1937, e a instauração do Estado Novo foram dissolvidas as organizações políticas no país, entre elas, a Frente Negra Brasileira. Desse modo, o Movimento Negro foi interrompido e só conseguiu emergir novamente com a restauração das liberdades civis, quase uma década depois (GUIMARÃES, 2002, p. 88).

Além disso, desde os primeiros anos de Independência, sentia-se a necessidade de construção de nova identidade, que extinguisse qualquer relação com o passado colonial. Segundo Lília Schwarcz (1999, p. 270), o Brasil havia se tornado um Estado sem, no entanto, tornar-se uma nação, de modo que qualquer discussão que retomasse as especificidades do povo brasileiro era estratégica e foi acionada em muitos momentos importantes da história do Brasil. Nesse contexto, alguns intelectuais se empenham na construção de uma identidade nacional unificada que devia responder à heterogeneidade do povo brasileiro, ancorando-se, para tanto, na exaltação da miscigenação como elemento unificador. Gilberto Freyre assume posição de destaque nesse debate.

Na época da publicação de Casa-grande e Senzala (1933), ainda era forte a tendência de atribuir à mestiçagem a causa dos problemas existentes na sociedade brasileira e ressaltar o seu caráter degenerante6. A partir de sua pesquisa sobre a formação da sociedade brasileira, Freyre (2001, pp. 46-47) descola o debate sobre as “deficiências” do povo brasileiro do âmbito da mestiçagem pra incluir outros fatores, dentre os quais destaca: o papel decisivo da má nutrição, da sifilização, bem como de outras doenças trazidas pelos europeus, e de fatores relacionados ao clima para explicar os problemas de ordem econômica e social que permearam a sociedade e eram atribuídos à mistura das raças.

Inaugurando uma nova etapa da interpretação do papel da mestiçagem, Freyre (2001, p. 46) argumenta que as relações entre brancos e negros no Brasil foram condicionadas tanto pelo sistema de produção econômica quanto pela escassez de mulheres brancas, o que forçou o intercurso sexual entre colonizadores e colonizados e possibilitou “adocicar” as relações raciais no Brasil. Para ele, a miscigenação corrigiu a distância social existente entre o senhor e o escravo, que de outro modo haveria sido conservada rígida, como ocorreu em outros processos de colonização.

A formação da sociedade brasileira é entendida por Freyre (2001) como um equilíbrio de antagonismos de economia e de cultura que resulta na constituição de um só povo, formado pela mistura das três raças fundadoras: os índios, os portugueses e os africanos. Trata-se, portanto, de uma nação mestiça, na qual o caldeirão étnico brasileiro haveria “abrasileirado” as diversas manifestações culturais e rejeitado as incompatíveis com a modernização do país. Além disso, a forte miscigenação seria sinal de tolerância, de relações raciais harmônicas e da ausência de rigidez hierárquica, o que possibilitou a construção da ideologia da democracia racial como expressão de um país sem problemas raciais (GUIMARÃES, 2002, p. 117).

É válido ressaltar o reconhecimento internacional do Brasil como símbolo de democracia racial. Nesse contexto, é emblemática a realização de uma pesquisa sobre relações raciais no Brasil, promovida pela Unesco, na década de 1950, que visava utilizar o caso brasileiro como material de propaganda no que tange à sua neutralidade na manifestação do preconceito racial. O Brasil deveria mostrar ao mundo a possibilidade de convívio harmonioso entre grupos nas sociedades modernas (SCHWARCZ, 1999, p. 280). Apesar da ampla aceitação da ideologia da democracia racial na sociedade brasileira, bem como do reconhecimento internacional da nação brasileira como um “paraíso racial”, o protesto negro não desapareceu. Pelo contrário, “ampliou-se e amadureceu intelectualmente neste período [ditadura Vargas]” (GUIMARÃES, 2002, p. 88. Grifo nosso).

As razões para o crescimento do Movimento Negro após o período ditatorial podem ser encontradas na situação socioeconômica e cultural da população negra. Com a abertura do mercado de trabalho e a gradativa integração da população negra na ordem social competitiva, as barreiras estabelecidas pela discriminação racial tornam-se mais evidentes, o que dificulta a ascensão social deste grupo, que é mantido nas posições mais baixas da escala de estratificação social, como grupo marginalizado; ademais, os negros continuam marcados por estereótipos e preconceitos. Segundo Guimarães (2002, pp. 88-89), o protesto negro, na década de 1950, é acionado justamente pelos setores da população negra em ascensão social que foram incorporados pela sociedade inclusiva e resolvem combater “os problemas da discriminação, do preconceito e das desigualdades”.

Nesse contexto, o Teatro Experimental do Negro (TEN) surge, inicialmente, no Rio de Janeiro como a principal organização negra do período, com objetivos eminentemente culturais, visando facilitar a entrada de atores negros nas artes cênicas brasileiras7; entretanto, posteriormente, o TEN ampliou a sua agenda, combatendo a introjeção do racismo pela população negra, que se dá pelo assentimento do ideal de embranquecimento, bem como de valores estéticos brancos e da rejeição da herança cultural africana (GUIMARÃES, 1999, pp. 109, 110).

Guimarães (1999) aponta que o Movimento Negro desse período ainda se caracteriza por fundamentar uma ideologia essencialmente nacionalista e integracionista na qual as especificidades do negro são rejeitadas em prol da ideia de uma nação mestiça, e o negro representa o próprio povo brasileiro8. O objetivo era encarar a integração social, econômica e política do negro como problema da grande massa da população brasileira e não de um grupo minoritário.

Por outro lado, Abdias do Nascimento ressalta que era necessária a afirmação de uma questão social de ordem mais geral, uma vez que não havia o reconhecimento do problema racial nem por parte da sociedade, nem por parte das organizações políticas. Desse modo, os grupos que reivindicassem ações em benefício da população de cor eram acusados de racistas, fortalecedores do fenômeno do “racismo às avessas”. Segundo ele, “até hoje, a alegação de um suposto racismo negro serve como lema dos que querem desmoralizar ou deslegitimar nossa luta, sejam eles de esquerda ou de direita do espectro político” (NASCIMENTO, A. NASCIMENTO, E. 2000).

Com o golpe de 1964 e a instauração do Regime Militar, o protesto negro foi novamente interrompido, e assim ficou por cerca de 15 anos, só recuperando toda a sua veemência com a fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1979. De acordo com Guimarães (2002, pp. 89, 90), a mobilização coletiva do negro a partir da década de 1980 assume um perfil radicalmente diferente do perfil dos movimentos anteriores, que pode ser explicado como resultante da influência de Florestan Fernandes e de sua crítica à ideologia da democracia racial.

Em A integração do negro na sociedade de classes, Florestan Fernandes questiona a ideologia da democracia racial, afirmando que a ausência de barreiras legais frente à mobilidade vertical da população negra não corresponde à inexistência de tensões raciais. Enquanto a ordem jurídico-política passou por uma verdadeira revolução, as relações raciais permaneceram permeadas por influências arcaicas advindas do antigo regime. Um conjunto de mecanismos sociais, tais como o preconceito e a discriminação racial, atua para perpetuar a desigualdade racial. Deste modo, a convivência pacífica entre negros e brancos na sociedade brasileira pressupunha, antes de tudo, um sistema de dominação que mantinha o negro na base da pirâmide social (FERNANDES, 1978).

Florestan Fernandes (1978, pp. 253-5) afirma que a democracia racial constitui um dos grandes mitos de todos os tempos, que se vinculou aos interesses da raça dominante em detrimento dos interesses do negro. Tal mito preencheu determinadas funções sociais, tais como a generalização da ideia de que a desigualdade existente entre brancos e negros pode ser explicada pela incapacidade ou irresponsabilidade destes últimos. Além disso, ele isentou a sociedade inclusiva de qualquer responsabilidade e solidariedade morais frente à situação social do negro. Por fim, o mito da democracia racial contribuiu para a formação de uma consciência falsa da realidade racial no Brasil, que suscitava uma série de convicções etnocêntricas9.

É importante ressaltar que este mito não apenas isentou as instituições sociais de responsabilidades na equiparação econômica, social, cultural e política do negro, como também dificultou a formação de resistência negra que pudesse lutar por esta equiparação. Em outras palavras, o mito atuou como componente dinâmico das forças de inércia social que garantiu a perpetuidade das relações raciais herdadas do passado escravocrata, uma vez que impedia a conscientização do negro e sua intervenção organizada (FERNANDES, 1978, p. 263).

A denúncia do mito da democracia racial e a afirmação da existência de um dilema racial brasileiro, que consiste no círculo vicioso do preconceito, da discriminação e da desigualdade raciais, influenciaram os movimentos de resistência negra, que abandonaram uma perspectiva antirracialista e de combate apenas à discriminação racial, para combater as desigualdades raciais a partir da afirmação de uma identidade racial positiva. O Movimento Negro, na década de 1980, assume como alvo principal de sua luta o desmascaramento do mito da democracia racial. Esse desmascaramento será de fundamental importância para legitimar a luta do Movimento Negro, para o reconhecimento de problemas raciais por parte de diversos setores da sociedade e do Estado, evitando o perigo da acusação de “racismo às avessas”, por incitar conflitos raciais em nossa sociedade.

Fatores externos também foram determinantes na mudança de perspectiva do Movimento Negro da década de 1980, entre eles destacam-se as influências advindas do processo de descolonização da África, da luta pelos direitos civis dos negros americanos mediante a formação de um racialismo negro e do Quilombismo de Abdias do Nascimento10. Além disso, o Movimento Negro adota classificação racial bipolar, numa tentativa de assimilar a população negra à classe trabalhadora, como maioria explorada. Nas palavras de Antônio Sérgio Guimarães,

[...] o movimento negro recente trouxe para a cena brasileira uma agenda que alia política de reconhecimento (de diferenças raciais e culturais), política de identidade (racialismo e voto étnico), política de cidadania (combate à discriminação racial e afirmação dos direitos civis dos negros) e políticas redistributivas (ações afirmativas ou compensatórias)(GUIMARÃES, 2002, p. 105).

Algumas das reivindicações do Movimento Negro foram reconhecidas pelo Estado brasileiro mediante criação de fundações culturais, incorporação de símbolos negros ao imaginário social e desenvolvimento de legislação mais apropriada no combate ao racismo. Guimarães (2002) afirma que antes mesmo da completa redemocratização do país, a militância negra consegue partilhar do poder de alguns estados por meio da sua incorporação a órgãos governamentais e da formação de grupos negros nos partidos políticos. Neste contexto, o período de 1985 a 1995 representa nova institucionalização política, na qual a militância negra se faz presente nos conselhos e secretarias da comunidade negra e no âmbito dos governos estaduais, o que possibilitará a criação de políticas públicas voltadas para a população negra, entre outras conquistas.

A aprovação da Constituição Federal, em 1988, constitui um marco no reconhecimento de uma “questão racial” pelo Estado Nacional. De acordo com Jaccoud e Beghin,

[...] como resultado dos ativismos social e político do Movimento Negro, podem ser destacadas as seguintes conquistas no âmbito da Carta Magna: o reconhecimento das contribuições culturais dos diferentes segmentos étnicos, considerando-as em pé de igualdade com a sociedade envolvente; a criminalização do racismo e o direito das comunidades remanescentes de quilombos ao reconhecimento da propriedade definitiva de suas terras, devendo o Estado emitir-lhes os títulos de propriedade (JACCOUD e BEGHIN, 2002, p. 17).

Outro passo importante foi dado em 1995, quando o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (FHC), reconhece a existência do racismo na sociedade brasileira e a necessidade de interlocução política com o Movimento Negro11, o que conduziu à implementação de uma série de medidas.

Assim, o desmascaramento do mito da democracia racial tornou-se instrumento político importantíssimo na legitimação da luta do Movimento Negro a partir dos anos 1980 perante a sociedade e o Estado brasileiro, bem como na formulação de estratégias de combate à desigualdade racial e ao racismo. A partir daí, o Movimento Negro passa a exercer enorme pressão sobre o Estado e as diversas instituições sociais, no sentido trazer à tona os problemas enfrentados pelos negros no mercado de trabalho, nas instituições de ensino e nos meios de comunicação de massa.

Faz-se necessário investigar se estas mudanças no âmbito político-institucional também podem ser observadas em nossas instituições sociais centrais, como a mídia. Em que medida a nossa programação televisiva, considerada o principal difusor da cultura nacional, reflete tais mudanças? A telenovela, considerada principal produto da indústria cultural brasileira, tem sido percebida como responsável pela construção de uma nova abordagem da questão racial – que se contrapõe ao discurso da democracia racial. Na próxima seção discutiremos em que medida esse novo momento de conquistas político-institucionais se reflete na telenovela brasileira.



3 A abordagem da questão racial na telenovela brasileira

A problematização da questão racial nas telenovelas brasileiras está relacionada ao contexto social e político mais amplo. Na medida em que as reivindicações e as conquistas do Movimento Negro passaram a permear a sociedade e a política brasileira, o negro entra em cena também no espaço midiático, através da recorrente veiculação de notícias pela imprensa. Segundo Ricardo Ferreira (2006, p. 82b), a partir de 1988, a imprensa brasileira se depara com novas realidades ligadas à questão racial no país, como o centenário da abolição da escravatura e toda movimentação em torno deste evento, além do questionamento da democracia racial e denúncias recorrentes de discriminação e racismo. Tais acontecimentos passaram a ser amplamente cobertos pela imprensa. A partir de um diálogo com a sociedade e com a imprensa, a telenovela também passou a problematizar gradativamente a situação racial do país.

Nesse contexto, pode-se observar mudança significativa na telenovela brasileira a partir dos anos 80 e 90, marcada pelo crescimento da temática do racismo, pela alteração de alguns estereótipos e pela representação de galãs e mocinhas por atores e atrizes negras. Joel Zito Araújo (2006, pp. 72 - 75) afirma que essa mudança não pode ser atribuída apenas às iniciativas internas da mídia, mas à presença maior das entidades negras, bem como a uma modificação na mentalidade dos brasileiros e à constante insatisfação dos atores negros com os papéis a eles reservados. Além disso, o autor ressalta a capacidade dos negros de influir diretamente na programação televisiva, através de recursos jurídicos, possibilitados pelas novas estratégias jurídicas de combate ao racismo, impulsionadas pelo Movimento Negro12.

Esta mudança no direcionamento da telenovela, observada principalmente no final da década de 1990, pode ser percebida a partir de comparação com as telenovelas produzidas nos anos 60 e 70. Segundo Joel Zito Araújo (2006, p. 102), as telenovelas desta primeira fase não apenas reproduzem os estereótipos raciais encontrados no imaginário social brasileiro como também afirmam o mito da democracia racial brasileira, apresentando convivência pacífica e harmônica entre brancos e negros, e relações paternalistas nas quais os segundos são auxiliados pelos primeiros e só conseguem ascender socialmente desta maneira.

Além disso, as novelas dos anos 70 que problematizaram a questão racial no Brasil, mostrando que aqui ainda existiam preconceitos, atribuíam esses preconceitos aos vilões da trama, de modo que a discriminação racial nunca era apontada como característica inerente à sociedade brasileira, o que contribuía para legitimar uma imagem do país como paraíso racial. Embora o personagem negro representado no melodrama dos anos 80 e 90 não haja alcançado o mesmo status obtido nas novelas sobre a escravidão no Brasil, as tramas desenvolvidas nas últimas décadas contribuíram para arranhar a imagem do Brasil como paraíso da democracia racial. A novela Por amor, exibida em 1997, apresenta os conflitos raciais vividos por uma personagem negra no interior do seu casamento; deste modo, as manifestações de racismo são deslocadas do comportamento do vilão para se tornar parte das ambiguidades do comportamento de amigos e do marido da personagem, e o racismo passa a permear as relações familiares e sociais (ARAÚJO, 2006, p. 294).

Apesar de caracterizar os anos 80 e 90 como período de ascensão do negro na telenovela brasileira, Araújo (2006, p. 305) pondera que as imagens dominantes no conjunto das telenovelas apresentadas entre o ano de 1963 e o final da década de 90 apontam a cumplicidade da televisão com a persistência do ideal de branqueamento e com o mito da democracia racial. No entanto, o autor aponta as mudanças na abordagem da questão racial, principalmente no horário nobre (20 horas), como resultado de lento processo de transformação da representação e do imaginário da sociedade e dos autores de telenovelas sobre o negro brasileiro.

A telenovela Duas Caras, exibida em 2007 e 2008, tem sido percebida como o ápice deste histórico de conquistas, refletindo a resposta das telenovelas globais ao cenário de mudanças políticas e sociais. Neste sentido, será desenvolvida na próxima seção uma análise desta telenovela para investigar em que medida a abordagem da questão racial em Duas Caras se distancia do discurso racial dominante.



4 Exercício de exemplificação com a telenovela duas caras

A telenovela Duas Caras, escrita por Aguinaldo Silva, foi exibida entre 01 de outubro de 2007 e 31 de maio de 2008 pela emissora Rede Globo, às 21 h. A escolha desta telenovela como exemplo do que aqui é pretendido mostrar deve-se não apenas ao número elevado de atores negros no seu elenco e ao espaço que eles ocupam no interior da trama, mas também ao fato de a discussão sobre o racismo se constituir um de seus temas centrais. A referida novela se propõe a apresentar a questão racial de modo realista, combatendo as principais manifestações de racismo, como afirma Aguinaldo Silva (ANDRADE, 2009). Segundo pesquisa realizada por Ofuxico, o público acredita que o racismo é bem retratado em Duas Caras13.

Desse modo, a abordagem da questão racial em Duas Caras se diferenciaria das outras produções ficcionais na medida em que ela se contrapõe ao mito da democracia racial, mostrando os diversos conflitos raciais existentes na sociedade brasileira. O combate a posturas racistas é explicitado já no segundo episódio, em que Juvenal (Antônio Fagundes) é repreendido por seu amigo de infância ao se referir a Martin Luther King como um “crioulo americano”. Misael Caó (Ivan de Almeida), negro, afirma que não é correta a utilização deste termo “nos dias de hoje”, devendo ser substituído por “afrodescendente”. Afirmação que será repetida por alguns personagens ao longo da trama.

Uma análise de conteúdo acerca da abordagem racial de Duas Caras possibilita perceber em que medida a mensagem desta novela se distancia do discurso racial dominante, desmascarando o mito da democracia racial brasileira e combatendo o racismo de modo efetivo. A unidade de análise escolhida foi o relacionamento inter-racial, e tal escolha justifica-se não apenas pelo número elevado de relacionamentos amorosos entre pessoas de diferentes raças apresentados na trama (ver Tabela 1), mas também por haver sido o caminho pelo qual a questão racial foi posteriormente introduzida e problematizada na telenovela. Como Andrade (2009, p. 126) observa, a referida telenovela não explorou muito as relações amorosas entre negros, apresentando apenas dois casais negros na trama, com participação pouco relevante. Essa construção, além de ir de encontro às estatísticas oficiais, que mostram a tendência do brasileiro de casar com pessoa de pele igual à sua, ainda celebra a nossa mestiçagem.

Tabela 1 – Relacionamentos inter-raciais na telenovela Duas Caras

- Morena (Adriana Alves) e Juvenal (Antônio Fagundes)

- Guigui (Marília Gabriela) e Evilásio (Lázaro Ramos)

- Júlia (Débora Falabella) e Evilásio (Lázaro Ramos)

- Sabrina (Cris Vianna) e Barretinho (Dudu Azevedo)

- Solange (Sheron Menezes) e Claudius (Caco Ciocler)

- Gislaine Caó (Juliana Alves) e Zidane (Guilherme Duarte)

- Claudine (Thaís de Campos) e Misael (Ivan de Almeida)

- Ramona (Marcela Barroso) e Rudolf (Diogo Almeida)

- Bijouzinha (Natasha Stransky) e Petrus (Sérgio Vieira)

- Edivânia (Susana Ribeiro) e Ezequiel (Flávio Bauraqui)

- Amélia (Josie Antello) e Zé da Feira (Eri Johnson)

- Priscilla (Luciana Barbosa) e Marcha Lenta (Adriano Dória)

A problematização da questão racial é introduzida na telenovela com o romance vivenciado por Júlia e Evilásio, considerados por Aguinaldo Silva o casal central de Duas Caras. Júlia é a caçula de uma família tradicional de advogados da classe alta do Rio de Janeiro; estudou cinema e atuava num documentário de Duda Monteiro, sobre a Portelinha, quando conheceu Evilásio. Já o rapaz nasceu e foi criado na favela da Portelinha; seu pai, Misael, foi um dos fundadores da comunidade. Evilásio trabalhava com seu padrinho, Juvenal, na Associação de Moradores e Amigos da Favela, desempenhando várias funções.

O casal se conhece quando Júlia vai pela primeira vez à Portelinha. O carro dela quebra na hora de ir embora e ela tenta consertar, momento em que aparece Evilásio, saindo de uma rua escura e colocando algo na cintura. Situação em que Júlia achou que seria assaltada, então trancou-se no carro e disse para ele ir embora, pois ela não tinha dinheiro na carteira e o carro era blindado. Evilásio, mesmo chateado, consertou o pneu do carro, e foi embora ofendido por haver sido confundido com um ladrão. Depois, Júlia tenta desculpar-se com Evilásio pelo seu erro, aproxima-se e termina se apaixonando. O primeiro encontro já anuncia as dificuldades que ambos terão de enfrentar para ficarem juntos, pois são separados por um verdadeiro abismo que inclui não apenas suas diferenças raciais, mas também culturais e de classe.

No entanto, a análise permite perceber que o racismo não parece ser o principal problema enfrentado pelo casal, pois a discriminação que prevalece é social e não racial, sugerindo que o grande problema do Brasil seja a pobreza, e a discriminação contra o negro seja devido à sua condição social, uma vez que a maioria dos negros é pobre. Desde o início, Evilásio resiste à atração que sente por Júlia e às investidas da moça, mas essa atitude não pode ser explicada apenas por serem de raças diferentes, até porque Evilásio viveu, anteriormente, um romance com Guigui, que é branca e intelectual, mas é moradora da Portelinha. O relacionamento vivenciado por estes não enfrentou problemas pelas suas diferenças raciais, pois ambos partilhavam da mesma condição social. Neste sentido, o grande obstáculo no romance de Júlia e Evilásio parece ser outro: a diferença de classes. Isso fica claro na fala do próprio Evilásio, quando explica porque não quer namorar Júlia:

Evilásio – Júlia... eu não vou mentir pra você não... tu mexe demais comigo! Assim, não é só porque você é mó gata não, também porque você é uma menina de atitude sabe? Você enfrentou teu pai pra me defender, não abaixou a crista nem quando eu te coloquei daqui pra fora...

Júlia – E então Evilásio?! Se você acha isso por que que a gente...

Evilásio – Não peraí, deixa eu terminar de falar... teu pai pode aprontar muito ainda Júlia... e eu vou responder na lata... e não é só por causa do teu pai que eu não quero me amarrar na tua não, é também porque... pô, sei lá, todo mundo ia ficar olhando de lado pra a gente, sabe? Até você mesma… Você ia ter que enfrentar muita gente aqui na Portelinha… Você vê minha irmã... pô Júlia, eu não sou do teu meio, tu não é do meu meio, eu acho que o certo...

Júlia – Peraí, agora quem diz peraí sou eu! Você é muito certinho sabia? Ah, eu não tô aqui pra ficar ouvindo esse blá blá blá caduco de luta de classes não, a gente tá falando de sentimento... ou não tá?

Evilásio – É... claro que tá!

Júlia – E então? O que interessa é o que a gente sente... (os dois se beijam).

Mesmo o pai de Júlia, que incorpora o personagem mais preconceituoso e racista da trama, enfatiza a diferença de classe existente entre a sua família e a de Evilásio. Essa atitude fica clara numa das cenas mais chocantes de manifestação de racismo, em que Barreto discrimina Evilásio, indignado pelo fato de o comportamento do rapaz não atender às suas expectativas. Ao perguntar sobre o gosto de um vinho malbec e perceber que o rapaz se saiu muito bem na resposta e não “deu vexames”, provocando risos nos demais presentes, Barreto se levanta aborrecido e agride o rapaz:

Barreto – Que crioulo metido a besta! (silêncio no recinto)

Júlia – Ou você retira o que disse e pede desculpas ou eu levanto com o Evilásio dessa mesa e vou embora. (após um momento de silêncio) Eu tô esperando você pedir desculpas.

Gioconda – Barreto...

Barreto – Eu peço desculpas sim... peço desculpas aos meus convidados, por estarem assim expostos ao convívio com esse tipo de gente, se é que isso é gente... (Evilásio tenta se levantar).

Júlia – Espera, você não vai sair sem um pedido de desculpas. (Referindo-se a Evilásio)

Gioconda – Pelo amor de deus Barreto, o rapaz é nosso convidado...

BarretoUm favelado metido a besta, um pé rapado metido a besta, que acha que pode ser um comensal de gente como nós.

Júlia – Você enlouqueceu?

Barreto – Quem enlouqueceu foi você, trazer esse sujeito pra nossa mesa.

Barretinho – Ô pai, pelo amor de Deus, você não acha que tá pegando pesado demais pra um advogado não?

Júlia – Pede desculpa, anda!

Barreto – Imagina, eu? Eu? Paulo de Queiroz Barreto pedir desculpas a um tição. (Evilásio se levanta e diz a Júlia que já escutou demais). Eu só falo o que todo mundo pensa e não tem coragem de dizer, eu não gosto dessa gente, uma gente insolente, uma gente indolente que só serviu pra atrasar esse país.

Danúbia Andrade (2009, p. 141) observa que nessa cena, exibida no dia 24/10/2007, a personagem racista, Barreto, estava bêbada, o que nos faz questionar se ele haveria sido racista, feito afirmações preconceituosas, caso estivesse sóbrio. Ou será que o comportamento racista de Barreto pode ser explicado pelos excessos da bebida?

No episódio exibido no dia 11/12/2007, Barreto afirma que a resistência ao namoro da filha é pela questão de classe e não pela cor de Evilásio. Além disso, ele mostra simpatia com relação à condessa Finzi-Contini, que também é negra, mas ascendeu socialmente, sabendo “se portar como uma dama”14.

Gioconda – Então, quanto à sugestão que eu te fiz, o quê que você resolveu? Vamos Barreto... eu te fiz uma pergunta, quero uma resposta. Vamos ou não vamos convidar a Condessa Finzi-Contini e o rapaz Evilásio para jantar em nossa casa?

Barreto – Você não tem medo que eu dê outro vexame daqueles?

Gioconda – Não meu bem, não. Eu tenho certeza que você vai se portar divinamente nesse jantar.

Barreto – É... Quanto à Condessa eu sou obrigado a concordar, portou-se neste episódio como uma verdadeira dama, mesmo não tendo nas veias o legítimo sangue azul, mostrou que tem uma alma nobre, uma negra de alma branca.

Gioconda – Ah não Barreto, que você se pronuncie de forma discriminatória em relação aos afrodescendentes já é absolutamente imperdoável, agora você lançar mão do clichê, do pior clichê, do clichê número um do politicamente incorreto!

Barreto – Ah, não é à toa que as coisas se tornem o senso comum Gioconda... mas a Condessa eu convido sim, até mesmo pra provar que a minha diferença com o Evilásio não é a cor da pele, mas sim o abismo social.

Também é interessante observar que o preconceito e a resistência ao relacionamento de Júlia e Evilásio não partem apenas da família dela, pois a irmã de Evilásio também discrimina Júlia, não apenas pela sua cor como também por ela ser uma “patricinha da Barra da Tijuca”. Esse posicionamento pode ser percebido pela reação de Gislaine, depois de escutar uma conversa do irmão com Júlia no telefone:

Gislaine – Tu ainda gasta cartão telefônico com a branquela? Ah, mas é muito Mané mermo...

Evilásio – O que é que tu quer garota? Tava ouvindo a conversa dos outros, não tem vergonha na cara não é?

Gislaine – Ah, agora sou eu que não tem vergonha? Ah meu irmão tu é cobra criada, onde já se viu crioulo da favela se dá bem em cima das patricinhas.

Evilásio – Que se dá bem Gislaine? Você não sabe de nada menina!

Gislaine – Ah, eu também achava que tu sabia mais do que eu né? Mas pelo visto eu me enganei! Tá é se enchendo muito na cilada, se liga essa parada aí não demora e vai feder hein? E quem tu acha que vai dançar? O negão favelado ou a patricinha da Barra da Tijuca?

Júlia e Evilásio vivenciam, deste modo, o “amor impossível”, em que o maior obstáculo não parece ser o racismo, pois as suas diferenças raciais estão fortemente atreladas às suas diferenças de classe. É como se o pertencimento racial fosse um agravante e não o problema central. Essa situação não se limita a este casal, mas se repete na maioria dos relacionamentos inter-raciais de Duas Caras. Os casais inter-raciais que pertencem à mesma classe social não enfrentam os problemas do amor impossível e nem problematizam a questão racial. Este é o caso de Guigui e Evilásio, Morena e Juvenal, Gislaine e Zidane, Ezequiel e Edvânia, Amélia e Zé da Feira, Priscilla e Marcha Lenta: todos da classe popular. Do mesmo modo, Ramona e Rudolf, pertencentes à classe média e classe alta, respectivamente, também não enfrentam problemas pelo seu pertencimento racial distinto15.

A fala de Gislaine também nos permite perceber outro aspecto fortemente enfatizado em Duas Caras, o de que o racismo não está presente apenas no grupo branco, mas também entre os negros e talvez de modo mais acentuado. Do mesmo modo que Barreto chama Evilásio de “tição” e de “crioulo metido a besta”, Gislaine costuma chamar Júlia de “branquela anoréxica”, “desbotada” e “ricotinha”, o que sugere uma situação de reciprocidade na qual ambas as raças discriminam e são discriminadas. Além disso, Gislaine se refere ao irmão com os mesmos termos utilizados pelo pai racista, como “crioulo da favela” e “negão favelado”, o que indica que os negros são ainda mais racistas, legitimando o preconceito e a discriminação dos brancos. Muito embora seja comum ainda nos dias atuais a utilização de expressões como “crioulo” e “tição” na sociedade brasileira, termos pejorativos apontando a inferioridade da população branca como os citados acima não têm a mesma recorrência. Percebe-se, portanto, que a telenovela cria uma realidade fantástica a fim de mostrar uma situação de reciprocidade que não existe no mundo real.

Segundo Araújo (2006), há uma tendência nas telenovelas brasileiras de representar uma situação de discriminação e preconceito invertida sempre que se pretende problematizar a questão racial. Em Duas Caras não foi diferente e o “racismo às avessas” foi enfatizado principalmente no romance vivenciado por Barretinho e Sabrina. Barretinho é irmão de Júlia e exerce a profissão de advogado, como o pai. Já Sabrina trabalha como empregada doméstica na casa do rapaz. Inicialmente atraído por Sabrina, Barretinho quer apenas se divertir com a empregada “gostosa”, mas diante da resistência da moça, ele percebe que gosta dela de verdade e vai fazer de tudo para se casar com ela.

Interessante perceber que mais uma vez o racismo é problematizado num relacionamento em que as pessoas são de classes sociais diferentes. Entretanto, a diferença social não é tão enfatizada como o preconceito de Sabrina, que vai resistir, de maneira um tanto ambígua, às investidas de Barretinho, explicando sempre que só casa com homem “da raça”. O rapaz chega até a fazer bronzeamento artificial para escurecer a pele e ser aceito por Sabrina, mas, como sempre, ela o rejeita e o ridiculariza como pode ser percebido no episódio exibido no dia 17/03/2008:

Barretinho – [...] Sabrina, eu nunca mais tive uma mulher, tô há oito meses sem ver uma mulher porque eu quero você. Eu não quero a empregada, eu quero a mulher da minha vida, entende isso cara!

Sabrina – Isso não é amor Barretinho, isso é obsessão, também seja o que for, eu não quero saber de você, eu não vou ser sua mulher, eu não vou me casar com você, entendeu, Paulo de Barreto Filho?

Barretinho – Por que não? Por que não? Por que eu não sou bom? É isso, eu não sou bom o suficiente, eu sou pouco pra você, é isso que você tá querendo me dizer?

SabrinaPorque você é branco, branco, branco demais pra mim, porque eu não gosto da tua cor, homem pra mim tem que ser da raça, quanto mais escuro melhor! E não adianta fazer bronzeamento artificial, fica com essa cor ridícula, eu quero um homem negro, que vai me dá filhos negros! Deus me livre, aguar o meu sangue com uma coisinha branca que nem você? Fora Barretinho, fora da minha vida, me deixa viver em paz, larga do meu pé, esquece, esquece que eu existo, sai da minha vida e me deixa, me deixa viver em paz!

Barretinho – Não dá pra esquecer que você existe, sem você a minha vida não faz o menor sentido... (Barretinho vai embora triste).

O pai de Sabrina ouviu tudo e repreendeu a filha, pois sabia que ela tinha outros medos com um possível envolvimento com Barretinho e usava o argumento da raça como forma de se proteger. Ele afirma já haver sofrido muito com racismo, que ela não deveria trazer isso à tona, pois se fosse o contrário ela não gostaria. Sabrina sai atrás de Barretinho para pedir desculpas, mas antes de fazê-lo, ele sofre um acidente e fica em coma. A cena descrita acima chega a ser mais agressiva do que a cena do jantar na casa de Barreto, em que ele agride Evilásio, indicando “o racismo” que a telenovela Duas Caras se propõe a desmascarar e quem são os verdadeiros racistas e as vítimas. Ademais, em outras cenas do casal, é comum Sabrina desdenhar do órgão sexual do patrão, fazendo referência ao seu pertencimento racial, aludindo desse modo aos estereótipos raciais presentes no imaginário social brasileiro de “negro superdotado”, da “negra sedutora” entre outros. Desse modo, a telenovela Duas Caras, que se propõe a desenvolver um discurso racial diferenciado, acaba por reforçar estes estereótipos, como se estivesse valorizando as “qualidades natas da população negra”.

A novela Duas Caras também retoma a tendência identificada por Araújo (2006) na maioria das telenovelas brasileiras, de atribuir o racismo aos personagens maus, como um problema individual e não como uma característica da cultura e da sociedade brasileira. No final da novela fica claro que Barreto, o pai racista de Júlia, e Barretinho têm “um problema mal resolvido” com os negros. A avó de Barreto fugiu com um “negão” e o seu avô morreu de tristeza, de modo que ele não aceita a avó, e todas as fotos dela foram arrancadas do álbum da família. Depois de descoberta a história de sua avó por Gioconda, Barreto parece superar o problema com a ajuda da esposa e, consequentemente, muda de atitude, relacionando-se melhor com o genro e a nora.

No último capítulo, Barreto reage com violência a uma piada racista que um taxista faz referindo-se ao seu neto e acaba apanhando. Ele recebe a aprovação e o apoio de Evilásio. Em seguida, a família termina feliz, registrando o momento com uma foto, e Barreto pega o retrato de sua avó, afirmando que só agora a família está completa. Tudo ficou resolvido quando os personagens conseguiram superar os seus problemas pessoais, e mais uma vez a telenovela brasileira reforçou o mito da democracia racial, o convívio harmônico entre as raças e a miscigenação como maior prova disso.



5 Algumas considerações finais

A telenovela Duas Caras não pode ser considerada uma ruptura com o discurso racial dominante, pelo contrário, ela faz um retorno à tradição, reafirmando o mito da democracia racial, as relações pacíficas entre as diferentes raças, e deslocando, mais uma vez, o racismo para o plano pessoal ou como problema adicional no interior da discriminação social e da pobreza. Ademais, o racismo só é problematizado nos relacionamentos amorosos, e não se problematizam as dificuldades enfrentadas pelo negro no mercado de trabalho, na vida política e no ingresso à universidade, embora o negro de Duas Caras participe de todos esses âmbitos sociais.

Decerto, esta telenovela apresenta alguns avanços com relação à representação dos negros, uma vez que mostra que eles têm consciência e orgulho de seu pertencimento racial. Em vários momentos, Evilásio e outras personagens fazem alusão à Lei Caó, que percebe o racismo como crime inafiançável. Os negros não assumem postura passiva, como nas novelas sobre a escravidão. Outro aspecto positivo da abordagem racial de Duas Caras é a conquista de espaço no interior da trama, o negro não aparece só como figurante ou como recurso para afirmar a maldade de outros personagens. Ele aparece como protagonista que tem um meio social, com direito a família, amigos e relacionamentos amorosos. Como defendem os movimentos de resistência negra, é necessário que as políticas públicas de combate ao racismo e à desigualdade racial não assegurem apenas maior número de personagens negras na mídia, mas também mudança qualitativa com relação à sua representação. Neste sentido, a conquista do espaço no interior da trama pode ser percebida como resposta da mídia às reivindicações do Movimento Negro e às políticas de ação afirmativa, muito embora a abordagem da questão racial na telenovela brasileira ainda apresente muitos limites.

A telenovela Duas Caras apresenta muitas ambiguidades e limitações ao abordar o racismo na sociedade brasileira, o que indica que ela está longe de propor um discurso racial diferenciado, que critique o mito da democracia racial. Em primeiro lugar, há forte indicação de que o problema do negro seja social e não racial, o que reforça a interpretação equivocada existente no senso comum. Essa coincidência entre discriminações social e racial é devida à constatação estatística de que a pobreza atinge mais os negros do que os brancos no Brasil. Mas, desde a década de 1950, com a influência de Florestan Fernandes, e em seguida com as pesquisas de Carlos Hasenbalg (1979), o elemento racial é caracterizado como critério importante na classificação socioeconômica dos indivíduos. Além disso, percebe-se clara desvantagem dos negros na medida em que não apenas têm ponto de partida desvantajoso como também que tal desvantagem é ampliada em todas as etapas de sua vida, mediante discriminações. Os dados estatísticos apresentados por órgãos como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) indicam a permanência de tais desigualdades, apesar do desenvolvimento socioeconômico do país (JACCOUD E BEGHIN, 2002). Essa permanência pode ser atribuída, em parte, ao tratamento diferencial e discriminatório concedido aos negros nos mais diversos meios, como na escola, no mercado de trabalho, na mídia, e até mesmo pela polícia. No entanto, esta constatação não é enfatizada pela telenovela.

O caráter das discriminações raciais no Brasil também contribui para esta confusão no senso comum, pois as manifestações de racismo não costumam ser abertas e explícitas, de modo que estão sempre diluídas em características pessoais, de ordem atribuída, muito embora este caráter não seja indicador de menor eficácia dos mecanismos do racismo. Assim, a constatação de que a maioria dos negros é pobre somada à ideia de que não existem conflitos raciais abertos no Brasil conduzem à interpretação de que a discriminação seria social e o problema a ser solucionado seria unicamente a pobreza. Contudo, o conceito de classe não abrange a situação do negro na sociedade brasileira de maneira adequada, na medida em que considera apenas a coincidência entre a condição social e racial, ignorando o peso do fator racial na classificação social deste grupo. A consideração da raça permite perceber a influência dos atributos raciais na construção da pobreza no Brasil (GUIMARÃES, 2002, p. 77).

Ademais, a existência de um problema racial no Brasil pode ser facilmente constatada quando se observam manifestações de preconceito e racismo no interior de uma mesma classe. Neste sentido, brancos pobres discriminam negros pobres, do mesmo modo que os negros de classe média e alta também são vítimas do racismo. Apesar da constatação de um problema racial até mesmo pelo Estado brasileiro, a abordagem desta questão na telenovela Duas Caras confunde ainda mais a sociedade, deslocando o problema dos negros para o plano da classe e deslegitimando a luta e as reivindicações do Movimento Negro.

Por outro lado, o racismo é abordado em Duas Caras de maneira invertida, confirmando mais uma vez um retorno à tradição na produção de telenovelas no Brasil, em que são os brancos que aparecem como as verdadeiras vítimas do racismo do negro. No entanto, é válido ressaltar que a noção de racismo não corresponde apenas às manifestações de preconceito e discriminação racial, mas também às consequências sociais sofridas pelo grupo discriminado (SEYFERTH, 2002). Desse modo, é devido às atitudes racistas que o negro se encontra nos estratos sociais inferiores, excluído de diversos âmbitos sociais, tais como a universidade e a mídia. Entretanto, mesmo que o branco seja vítima do preconceito do negro, isto não reflete na sua condição social, pelo contrário, o branco continua dominando os principais espaços sociais.

Em tentativa de valorizar a raça negra, o autor acaba reforçando estereótipos raciais tais como o da “mulata sedutora” e o do “negro superdotado”, ambos “bons de cama”. A novela também não apresentou nenhuma família negra de classe média, de modo que todos os negros encontravam-se em posições subalternas, com isso reforçando o estereótipo da subalternidade do afro-brasileiro. O único caso de ascensão social de um negro em Duas Caras se deu de modo bastante sombrio e não pelas vias reconhecidas socialmente, como a educação e o mercado de trabalho: a personagem Morena desapareceu no início da novela e quando reapareceu havia mudado o seu nome para Condessa Finzi-Contini e ficado muito rica com a morte do marido, um italiano já idoso; depois, ela afirmou haver ido para a Itália para ser prostituta e passado por muitas dificuldades até o casamento. Mesmo assim, ela continuou frequentando a favela da Portelinha, distante do espaço social da classe média da trama.

Ademais, o racismo voltou a ser reduzido a um problema individual dos personagens maus, representado como doença mental ou, pelo menos, um “problema mal resolvido”. O problema é mais uma vez deslocado para o plano pessoal, impossibilitando o reconhecimento da sociedade e da cultura brasileiras como impregnadas de ideologia racista. O público não se identifica com o personagem racista e atribui o comportamento preconceituoso à sua maldade. Deste modo, a reflexão sobre as atitudes preconceituosas e discriminatórias recorrentes em nossa sociedade ocupa espaço muito pequeno – com atos falhos como o de Júlia e muitos de sua mãe, Gioconda, que tenta ser politicamente correta, mas, às vezes, escorrega.

Quando Barreto consegue superar a fuga da avó com um “negão”, ele muda também a sua concepção e atitude com relação aos negros, sugerindo que, sendo postos de lado os problemas particulares de alguns indivíduos, não há conflitos raciais; e os diferentes segmentos raciais se relacionam de forma harmoniosa, confirmando o mito da democracia racial, que é reforçado pelo alto grau de miscigenação e de relacionamentos inter-raciais na novela. Apesar das reivindicações e conquistas do Movimento Negro no âmbito político-institucional e mesmo com relação à representação do negro na telenovela, esta, enquanto uma das principais difusoras da cultura nacional, ainda não conseguiu construir discurso que subverta o mito da democracia racial, de modo que a luta dos movimentos de resistência negra ainda há de enfrentar muitos desafios.



Referências

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SEYFERTH, G. 2002. O beneplácito da desigualdade: breve digressão. in: SCHWARCZ, L. Racismo no Brasil, São Paulo, Petrópolis, Abong.

1 Por tentar construir uma nova abordagem da questão racial, Duas Caras tem sido objeto de interesse de trabalhos acadêmicos sobre raça e telenovela, como o de Andrade (2009). Mas, apesar das importantes contribuições trazidas por tais análises, elas não discutem importantes aspectos da abordagem racial dessa telenovela. Observamos, na nossa análise, que a discussão racial aparece subsumida a uma questão de classe, como agravante e não problema central da nossa cultura e sociedade. Discutiremos as implicações de se apresentar o problema racial desta maneira, entre outras questões.

2 http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1107164-nova-novela-da-globo-discutira-surgimento-de-favelas-e-chegada-do-samba-no-rio.shtml.

3 Florestan Fernandes (1978, pp. 291-292) define preconceito de cor como categoria que engloba não apenas avaliações e atitudes preconceituosas, mas também como compulsões e controles sociais discriminativos.

4 Apesar de algumas dissidências, Guimarães (2002, p. 77) afirma que a organização política da FNB era constituída majoritariamente por ativistas de direita, de tendência fascista, havendo apoiado o golpe de Vargas em 1937 a fim de obter algumas conquistas políticas. Entretanto, que o partido teve duração efêmera devido à instauração do Estado Novo.

5 A ideologia negra mantinha como objetivo principal o desmascaramento da ideologia racial dominante e operava em três níveis distintos: negava a eficácia da ordem legal estabelecida, uma vez que a igualdade não passava de mera verbalização; além disso, o desmascaramento atuava sobre a filosofia e a política da democracia racial, apontando as relações de dominação existentes; e, por fim, desmascaravam-se certos símbolos e valores existentes na sociedade inclusiva, que serviam aos interesses da raça dominante (FERNANDES, 1978).

6 Os teóricos brasileiros que criticavam a miscigenação pelo seu caráter degenerante receberam influência direta das teorias evolucionistas do século XIX, que utilizavam instrumentos pretensamente teóricos e científicos para classificar e hierarquizar a espécie humana segundo critérios raciais. As diferenças raciais serviam como justificativa para a dominação do grupo racial mais fraco pelo mais forte (PAIXÃO, 2006, p. 22).

7 Segundo Guimarães (2002, p. 89), o TEN se transformou numa agência de formação profissional, clínica pública de psicodrama e movimento de recuperação da autoestima e da imagem do negro.

8 O autor ressalta que a ideologia do Movimento Negro nesta época não combatia a política nacionalista e populista do período de Vargas: ao contrário, estava em sintonia com ela. Além disso, ele ressalta que a posição ideológica do Movimento Negro, tanto nos anos 30 quanto nos anos 50, partia do reconhecimento tácito de uma superposição da ordem econômica sobre a ordem racial (Guimarães, 2002).

9 Estas convicções afirmavam que não havia “um problema do negro” no Brasil; não havia diferenças raciais uma vez que a mestiçagem possibilitou a formação do povo brasileiro; as oportunidades de ascensão social são iguais para todos, etc.

10 A doutrina do Quilombismo, forjada por Abdias do Nascimento, congrega as principais diretrizes ideológicas do Movimento Negro na década de 1980, como por exemplo, o anticapitalismo, que vincula a emancipação do negro à própria emancipação da exploração capitalista (GUIMARÃES, 2002).

11 É importante ressaltar o papel do Movimento Negro para o reconhecimento do racismo por parte do governo. Em 1995 foi organizada a “Marcha Zumbi dos Palmares, contra o racismo pela cidadania e a vida”, na qual foi entregue ao presidente FHC um documento sobre a situação do negro na sociedade brasileira e que induziu o governo a encarar este problema e combatê-lo com políticas públicas (JACCOUD e BEGHIN, 2002, p. 18).

12 Um dos exemplos de maior impacto da intervenção do Movimento Negro na telenovela brasileira ocorreu em 1994, quando a ONG Geledés enviou interpelação formal à Rede Globo contestando a representação do comportamento servil e passivo de um personagem negro diante de agressão racista na telenovela Pátria Minha. Embora a emissora haja contestado a atitude da organização e até a acusado de racista, por exigir o esclarecimento deste personagem negro por outro personagem que fosse também negro, e não branco, o desenvolvimento da trama parece haver atendido ao protesto negro (ARAÚJO, 2006, p. 72).

13 61,30% dos leitores de Ofuxico acreditam que a telenovela Duas Caras apresenta a realidade nua e crua quando trata do racismo (http://ofuxico.terra.com.br/materia/noticia/2007/10/29/publico-acha-que-racismo-em-duas-caras-e-bem-retratado-64491.htm).

14 Mais à frente, comentaremos as condições obscuras em que uma personagem negra ascendeu socialmente nessa telenovela.

15 Dois casais inter-raciais não se encaixam perfeitamente nesta tendência. Um deles é Misael, pai de Evilásio, que namora Claudine, secretária da Condessa. Ela possui hábitos refinados e, embora não fique clara qual a sua posição social, ela não é moradora da favela. Outro casal é Solange e Claudius. Solange é filha de Juvenal, que nunca havia conhecido o pai nem morado na favela. Com a morte da mãe, ela vai morar com o pai na Portelinha, mas nunca aceita o “status de favelada” nem a identidade negra. Ela se apaixona pelo advogado Claudius, mas o casal nem é central na trama nem problematiza a questão racial.

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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

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