Societé Coopérative Agricole Origine Cévennes SCA Fromagerie des Cévennes

A RECONQUISTA DO TERRITÓRIO: UMA EXPERIÊNCIA COOPERATIVA NAS MONTANHAS CÉVENOLES, NO SUL DA FRANÇA1


Maria Luiza Pires

Bernard Roux

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As montanhas Cévenoles estão localizadas no Maciço Central, abrangendo especialmente os departamentos de Lozère e Gard, sul da França2. Essas montanhas tornaram-se palco de importantes lutas religiosas, a exemplo da Guerra dos Camisards, entre 1702 e 1705, que opunha os partidários da Reforma às tropas católicas do rei (les dragons). Se, no passado, aquela área era também conhecida por uma importante produção de seda e de castanha, esta última considerada como a base alimentar das populações ali residentes, experimentou, ao longo do tempo, um forte processo de desaceleração econômica.

Com efeito, o relevo, o clima, as longas distâncias, além da precariedade da infraestrutura e dos serviços públicos, são considerados alguns dos fatores que muito dificultam a maior parte das atividades econômicas. Eis a razão pela qual Cévennes, como as demais áreas identificadas como desfavorecidas, vem sofrendo, historicamente, uma tendência de despovoamento e depressão econômica, sobretudo a partir do final do século XIX (BAZIN & ROUX, 1996; ROUX, 1997).

Essa tendência foi contida, em grande medida, pelas várias experiências baseadas em forte mobilização dos atores e de recursos, com vistas ao desenvolvimento de algumas atividades econômicas. Todas elas identificadas como exemplos de “resistência à marginalização,” resultantes de forte apego local (BAZIN & ROUX, 1996; ROUX, 1997). O que sugere, na literatura, a possibilidade de se falar em “fenômeno de reconquista” do território (CATANZANO, 1987 apud BAZIN & ROUX, 1996).

Hoje, a economia local está calcada no Turismo Verde, na criação de cabras para a fabricação de queijo, nas castanhas, na produção da cebola doce de Cévennes3, da maçã reinette de Vigan4, entre outros produtos. O turismo de inverno é praticamente inexistente na região, devido à baixa incidência de neve.

Foi em consideração à ideia de permanência no local, ou de resistência ao êxodo, que, em 1959, a Societé Coopérative Agricole Fromagerie des Cévennes5 foi criada, como atesta seu atual presidente, Jean Flayol. O senhor Flayol tem longa vivência na história desta cooperativa, pois além de haver assumido a presidência ao longo dos últimos 15 anos, também seu pai foi um dos líderes locais, havendo sido, inclusive, um dos principais idealizadores da criação desse empreendimento coletivo.



Maria Luiza Pires (MLP) – Eu gostaria que o senhor reconstituísse um pouco a história de criação da cooperativa. O que motivou, de fato, a criação da cooperativa de fabricação de queijo em Cévennes?

Jean Flayol (JF) A história da cooperativa remonta aos anos 1954, 1955, quando o “país”6, Cévennes, depois da Guerra, em 1945, experimentava um forte êxodo da população. Na verdade, o êxodo já se iniciara desde a Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, no início do século XX. O fato é que essa situação se agravou acentuadamente nos anos 1950, ficando aqui apenas as pessoas mais velhas que não puderam ou não quiseram partir e, além delas, um grupo de quatro ou cinco agricultores relativamente jovens, que tinham, em média, 30 anos. Essas pessoas colocavam para si próprias algumas questões do tipo: vamos partir como os outros ou vamos ficar e fazer alguma coisa juntos? Esse período coincide com a existência de alguns estímulos governamentais para o desenvolvimento agrícola, incluindo a criação de centros voltados para esse propósito, como foi o caso do CETA7.



MLP – O que representava o CETA dentro desse contexto?

JF – O CETA agrupava uns cinco agricultores locais, dentre os quais um engenheiro agrônomo vindo de Paris que estava interessado em conhecer a produção agrícola local. Essas pessoas, através desse organismo, começaram a pensar numa alternativa capaz de impedir que o “país” morresse completamente. Como havia, nesse tempo, algumas subvenções para a realização de estudos relacionados ao desenvolvimento agrícola, o jovem engenheiro e os agricultores locais se debruçaram sobre as possíveis atividades econômicas que melhor poderiam se adaptar à região. Pensaram, por exemplo, na produção de morangos, framboesas, frutas vermelhas, enfim. Pensaram também no desenvolvimento de bulbos de flores, especialmente de tulipas. Eles tinham essas duas ou três alternativas, além da criação de cabras. Foi quando, finalmente, decidiram privilegiar a criação de cabras.



MLP – E quando foi, exatamente, que tudo começou?

JFFoi em 1958 que os produtores agrupados passaram a entregar o leite na cooperativa. Esse tempo coincidiu com a vinda para Florac8 de René Dumont9, uma pessoa muito conhecida na época. Ele veio fazer um estudo para o Departamento de Lozère e não para cá, exatamente. Um pequeno grupo de produtores, porém, entre os quais estava o meu pai, sabendo disso foi encontrá-lo com a intenção de que ele fizesse um estudo econômico sobre a criação de cabras aqui no vale. Aqueles produtores queriam saber se, de fato, a criação caprina era facilmente adaptável à região e qual era a renda que se podia esperar com essa atividade. Então, ele aceitou gentilmente o convite de vir até aqui e, depois de dois ou três dias, fez uma rápida estimativa de que um rebanho de 30, 40 cabras em 10 ha poderia garantir a sobrevivência de um casal. E estimou que essa atividade representaria cerca de 10 mil francos anuais, por família. Não sei o que isso representaria hoje, mas era muito mais do que o montante que as pessoas recebiam naquela época. Com isso, as pessoas se deram conta de que era, de fato, possível viver da criação de cabras e que essa era a única alternativa viável para a região. Essa constatação animou as pessoas, fazendo com que os produtores passassem a apostar nessa ideia.



MLP – E essa iniciativa foi tomada de forma individual ou coletiva

JFQuando eles decidiram que o negócio seria mesmo a criação de cabras, resolveram se lançar coletivamente para uma atividade mais intensiva. Na verdade, os produtores locais já tinham alguma experiência de trabalho conjunto no ramo da comercialização de queijo de cabra, embora fosse ainda muito reduzida, restringindo-se praticamente a St-Jean-du-Gard10. Eles não podiam avançar muito em função das limitações locais, como a incipiente população do entorno e os altos custos dos transportes. As iniciativas de ampliação de mercado sempre esbarravam no problema dos deslocamentos. Mas é importante dizer que, tradicionalmente, já havia aqui uma meia dúzia de cabras por produtor, para fornecimento de leite e queijo. Mas isso ainda era muito pouco. Além disso, os produtores não sabiam sequer produzir adequadamente a alimentação das cabras.

MLP – Então, o CETA contribuiu para o estímulo da atividade caprina

JFSim, sim, em grande medida. Os integrantes do CETA foram a Saanen, na Suíça, que é o berço dessa raça caprina com o mesmo nome, à procura de alguns bons reprodutores. Em seguida, voltaram para cá com os animais e resolveram implementar uma estação caprina com o objetivo de desenvolver pesquisa genética. Foi assim, inclusive, que se começou a fazer a pesquisa genética com cabras na França. Nessa estação de experimentos, passou-se a produzir matrizes e os filhos dessas matrizes foram introduzidos nas explorações dos associados. Então, em torno desses quatro ou cinco produtores a que eu já me referi no início, juntaram-se, pouco a pouco, outros agricultores interessados também nesse tipo de atividade. O que aconteceu foi que a notícia começou a se espalhar de boca em boca11 e as pessoas passavam a dizer “é, parece uma atividade interessante, eu também vou tentar”.

MLP – Então, houve grande adesão dos agricultores locais à ideia de criação da cooperativa?

JF Durante 10 anos, passou-se de uns 15 produtores para 142, embora a grande maioria estivesse instalada em pequeníssimas explorações. Esse fenômeno durou até 1970, 1975. Pouco a pouco, algumas pessoas envelheceram ou desapareceram. De outro lado, nos anos 1968, 1970, vieram algumas pessoas trazidas pelo Movimento Hippie. Muitos neorrurais chegaram com a ideia de desenvolver a produção caprina. Não sei quantos eram, só sei que houve alguns que resistiram e que estão aqui até hoje e outros que desapareceram. Eles passaram a criar, ao redor da cooperativa, pequenos rebanhos de cabra. E as relações com os produtores locais não eram das melhores, mas não havia conflitos, porque não havia relações entre eles.

Os conflitos só começaram nos anos 1980, quando a produção de queijo ainda não era muito comercializada. Foi o momento em que se pensou em agrupar todos os produtores em nível regional e se fazer alguma coisa juntos. Pensava-se em fazer uma marca regional, mas, nesse tempo, não se tinha ainda a ideia de criar a Apelação de origem controlada (AOC) Pélardon12. O que havia eram interesses distintos. Continuava cada um de seu lado: os cooperados e os fazendeiros (fermiers)13. Os fazendeiros ficavam fora disso e continuavam a fazer tudo de uma forma tradicional, como sempre estiveram habituados. Com o passar do tempo, o pequeno fazendeiro se deu conta de que, para continuar vivo, precisava evoluir tecnicamente, fazendo inseminação e todas essas atividades. Tudo isso há 15 anos. Mas, de lá para cá, grosso modo, as coisas evoluíram muito. Houve uma profissionalização do produtor.

Mesmo assim, nos anos 1980, 1985, muitas explorações foram desativadas porque não havia mais quem as levasse adiante. Foi o tempo em que a cooperativa passou a ficar bem alicerçada na produção. O engenheiro agrônomo que antes fazia parte do CETA passou a ser o diretor da cooperativa e o objetivo dele era, primordialmente, desenvolver pesquisas na área genética. Foi quando se começou a realizar inseminação artificial.



MLP – E hoje, quantos associados a cooperativa congrega

JF – Hoje, só temos 27 cooperados, mas que garantem a produção de 1,50 milhões de litros de leite de cabra por ano, isto é, duas vezes e meia maior do que quando havia 135 produtores. O número de explorações diminuiu muito, passando de cerca de 140 criações de cabra muito pequenas para 25, 30 criações maiores e mais profissionais. Atualmente, os cooperados representam cerca de 40% dos produtores de leite de cabra do Departamento de Lozère. Mas o que se pode verificar é que os cooperados da primeira geração eram muito mais implicados do que os atuais. Hoje, os cooperados não participam muito da cooperativa.

MLP – Qual é a importância da produção de queijo de cabra de Cévennes no conjunto da produção de queijo de cabra da França?

JF – É pequena. É importante dizer que, embora a criação caprina, em Lozère, seja antiga, a fabricação e a comercialização de queijo de cabra são atividades relativamente novas na França. Mas a região de grande produção de caprinos fica a oeste da França, em Poitou-Charantes, sendo Poitiers e Parthenay, Montmorillon, no Departamento de Vienne e Niort, no Departamento de Deux Sevres. Então, na região de Poitou-Charantes fica o grosso da produção – 60 a 70% da produção de leite de cabra. É uma região onde a criação caprina é muitíssimo desenvolvida, mas é uma produção industrial. Geralmente, são as empresas multinacionais que compram o leite dos produtores. A região de Rhône-Alpes fica com 20% e nós, em Cévennes, ficamos com 10%. Nós aqui somos de pequenos produtores, camponeses.

Evidentemente, eles pagam menos ao produtor do que aqui. Eles compram muito leite à Espanha e aos Países Baixos que produzem leite com um bom preço. Por outro lado, somos nós, aqui em Moissac, que pagamos o maior valor do litro de leite – €0,61. Em Rhône-Alpes pagam €0,54 e em Poitou-Charantes fica em torno de €0,48.



MLP – Na sua opinião, quais foram os acontecimentos mais marcantes na história da cooperativa ?

JF – Foram vários. Houve diversos momentos importantes na cooperativa e que representaram mudanças significativas no nível de condução dos negócios. Antes, por exemplo, com o leite recebido na cooperativa, produzíamos mais coalhada, que é aquela primeira parte de elaboração do queijo. Hoje não fazemos mais coalhada. Como se sabe, a coalhada não é tão valorizada quanto o queijo. É no queijo que está o maior valor agregado. Em 1980, já tínhamos a metade do leite transformado em queijo e a outra metade em coalhada, mas não se sabia ainda como comercializar o queijo adequadamente.

Mesmo assim, é importante dizer que, desde o ano de 1959, a cooperativa já transformava o leite dos produtores em queijo Pélardon14. Inclusive, o nome da cooperativa era Cooperativa de Pélardon de Cévennes15.

O ano de 1990 representou uma mudança importante na condução da política da cooperativa. Tivemos que enfrentar um problema de substituição do diretor, o que não foi uma tarefa fácil. Ele já tinha idade avançada, precisava se aposentar, mas não queria deixar a cooperativa, porque se sentia parte dela e relutava em deixá-la. Finalmente, no lugar dele entrou uma pessoa mais jovem e cheia de ambição que, diferentemente do anterior, não tinha formação em genética.

Assim, ele desprezou a política até então adotada, que se apoiava na pesquisa genética, e passou a priorizar a fabricação do queijo. Para isso, foi preciso alinhar a cooperativa às normas de transformação, o que era muito moderno para a época. Essa mudança significou uma alteração total na usina, requerendo grandes investimentos em infra-estrutura e tecnologia. Foi uma época muito difícil e que exigiu que nós nos lançássemos integralmente na área de comercialização, que, aliás, era uma área muito nova tanto para ele como para nós.

Passamos, aos poucos, a aumentar a produção de queijo e a diminuir a produção de coalhada. Em 1993, por exemplo, dos 1.250 milhões de litros de leite recebidos anualmente, 800 litros, isto é, a maioria, já era transformada em queijo. Nessa época, vendíamos a coalhada a uma cooperativa do Oeste, ao lado de Niort, em Poitou-Charantes.

A partir de 2000 até hoje, passamos a ter 1,5 milhões de litros a serem totalmente convertidos em queijo. Então, não produzimos mais a coalhada. Com cada litro, fabricamos dois queijos, o que significa que a cooperativa produz, hoje, 3 mil queijos.

Do lado dos trabalhadores, passamos, de 1993 para cá, de 12 para 27 assalariados. Poderíamos ter investido mais em máquinas, diminuindo o número de empregados. Mas, se consegue muito valor agregado para o queijo porque ele é todo feito à mão e, por isso, o Pélardon sai um queijo caro para nós. Ele custa caro tanto para o consumidor, como para o produtor, por ser todo feito à mão. E é por isso que precisamos fazer muito esforço para justificar o preço elevado16. Então, de um modo geral, foram essas as principais mudanças.

MLP – Mas são muitos empregados! O mesmo número de empregados e associados não é um dado curioso?

JF – Sim. Isso significa que o dinheiro não fica necessariamente na mão do produtor, mas a serviço do conjunto da coletividade. Isso garante o trabalho das pessoas, o funcionamento do comércio, das escolas. Na verdade, esse constitui o papel social da cooperativa, criada com a finalidade de garantir a essa zona uma vida econômica. Então, o papel não é o de fazer o produtor ganhar muito dinheiro, mas o de repartir uma riqueza e de permitir ao maior número de pessoas trabalharem e viverem aqui, assegurando o funcionamento do pequeno comércio, da escola, do médico no posto de saúde. Se a cooperativa desaparecer, tudo desaparece. Esse é o papel da cooperativa. E essa é a razão pela qual os políticos e o prefeito, particularmente, são tão implicados na cooperativa, porque ela é o suporte dessa cidade e assegura tudo que faz a vida de um “país”.



MLP – A cooperativa atende as necessidades do conjunto dos produtores de Cévennes?

JF – De quase todos, porque aqueles camponeses que contam com uma estrutura muito pequena, que têm uma pequena criação, não conseguem viver da venda do leite e, por isso, se obrigam a produzir o queijo. Porque, ao fabricarem o queijo, conseguem uma valorização bem maior para o litro de leite, que passa a valer em torno de 1,80. Mas há muito mais trabalho, todo o trabalho de fabricação e de comercialização.



MLP – Podemos dizer que os produtores que não entraram na cooperativa são, em sua maioria, os egressos do Movimento Hippie?

JF – Sim, mas alguns entraram na cooperativa. Foram aqueles que se cansaram de cuidar sozinhos da criação dos animais e da fabricação e comercialização do queijo, porque é um trabalho enorme e que depende muito de um savoir faire17.



MLP – Qual é a renda, hoje, dos produtores associados à cooperativa?

JF – A renda é variável, mas creio que, grosso modo, a média hoje é de 80 mil francos anuais. Há aqueles com renda de 140 mil, mas existem também aqueles com renda de 50 mil, 60 mil francos18.



MLP – Para o produtor, é mais difícil viver aqui na Montanha?

JF – Pessoalmente, acho que é muito difícil. As pessoas que vivem aqui, em geral, não o fizeram por escolha. Elas não vieram para cá com o objetivo de produzir leite de cabra. Elas produzem leite de cabra porque moram aqui e não podem fazer outra coisa. Se eu fosse um camponês (paysan) e vivesse em Paris, eu escolheria ser um camponês numa outra zona bem mais favorável, sem dúvida, porque aqui tem condições que são muito mais difíceis. Felizmente, nós temos algumas ajudas do Estado e da Europa, relacionadas às áreas de desvantagem natural; senão seria impossível ser agricultor aqui.



MLP – Como funcionam essas ajudas?

JF – As ajudas da Europa são iguais, para cá ou para qualquer outro lugar. São ajudas em função do produto. Isso quer dizer, por exemplo, que a ajuda recebida por um produtor de cereal aqui é a mesma que recebe um outro produtor de cereal localizado ao redor de Paris. A ajuda é a mesma. Mas as ajudas do Estado são uma indenização compensatória de desvantagem natural (ICHN)19. A cooperativa tem ajudas particulares. Como nós estamos numa zona de montanha, há custos de alimentação, de transporte, de criação que são mais elevados, então o Estado compensa e dá 7 mil, 8 mil Euros. Essa é uma ajuda governamental para agricultores franceses que vivem numa zona difícil.

É importante dizer que Lozère é o Departamento mais alto de toda a França e possui uma renda agrícola fraca, mais fraca do que a média nacional. Cévennes, o pequeno canto aqui, que fica no interior do Departamento de Lozère, tem renda ainda mais baixa do que a média do Departamento. Nós estamos numa zona muito difícil de montanha.



MLP – Então, vocês são os mais baixos dos mais baixos?

JF – Sim, os mais baixos dos mais baixos. Dizemos, entretanto, que temos uma vantagem em relação a outras regiões. Não sei se podemos chamar de vantagem, mas podemos dizer que as outras regiões francesas, durante muito tempo, se beneficiaram de uma produção normal e de uma renda normal. Então, por conta disso, continuaram produzindo como sempre fizeram, e continuaram com a mesma renda. Aqui, em função das grandes dificuldades, as pessoas precisaram encontrar meios de valorizar mais o produto, procurando agregar mais valor à mercadoria, conseguindo obter uma renda um pouco mais independente da grossa produção e mais associada ao valor agregado ao produto.

Hoje, em nível nacional e europeu, a agricultura conheceu graves problemas, os preços baixaram, o preço do cereal baixou, o leite de vaca também baixou. Todos os produtores sofrem muito porque a renda está baixando enormemente. Então, alguns vêm aqui pegar informações de como conseguimos agregar valor ao nosso produto. Na verdade, eles vêm agora ver o que já fazíamos há 30 anos. Isso mostra que eles estão muito atrasados, são subdesenvolvidos em termos de organização dos produtores por meio de uma cooperativa. Eles sabem que a cooperativa permite uma dinâmica empresarial importante e atribui valor agregado ao produto.



MLP – Eles são também produtores de leite de cabra?

JF – Não. Eles são grandes produtores de leite de vaca que dependem da coleta do seu produto pelos grandes grupos industriais leiteiros e que pagam o leite como pagam em toda a França. Uma miséria! Então, eles estão tentando formar cooperativas para poder viabilizar uma forma de valorização do produto e não depender tanto das grandes indústrias.



MLP – E os outros produtores que também moram aqui nas montanhas e não pertencem à cooperativa? A situação deles é melhor ou pior do que a dos cooperados?

JF – A situação é parecida. Há estudos comparativos em nível departamental realizados pelo Centro de Economia Rural, registrando que há rendas bem mais importantes entre os fazendeiros, mas também há custos muito maiores em termos de produção e, sobretudo, de comercialização. Então, em termos do dinheiro que sobra, em termos de renda é muito semelhante. A grande diferença é que geralmente os fazendeiros não têm estrutura, não têm grande área. E, quando são obrigados a comprar a alimentação dos animais, não ganham dinheiro. Para eles ficarem na cooperativa, portanto, vão ter que entregar o leite a um custo muito baixo, considerando que é necessário adquirir toda a alimentação do rebanho. Assim, eles não conseguem sobreviver. Logo, para ganhar dinheiro comprando a alimentação, eles precisam produzir o queijo. Essa produção é uma forma de valorizar a atividade e compensar as perdas.

De todo modo, aqueles que precisam criar os animais, fabricar o queijo e depois vendê-lo, têm um trabalho enorme. Sem falar no fato de que isso é muito complicado devido ao cumprimento das normas de produção e de comercialização. Hoje, para se chegar a um magazine, os compradores são muito difíceis porque são muito exigentes.



MLP – Atualmente, as exigências são sempre maiores em termos de cumprimento das exigências dos mercados, não é mesmo?

JF – Sim, sim. Eles (os compradores) querem um produto que seja sempre o mesmo e que seja produzido o ano inteiro, que tenha regularidade na entrega e são muito exigentes em relação ao preço. São duros!



MLP – Quais são os próximos investimentos da cooperativa?

JF – Ainda temos grossos investimentos a fazer, como a estação de depuração e a compra de um caminhão. Este último não é um investimento tão alto quanto a estação. A estação de depuração é necessária para coar o líquido da coalhada, no momento de fabricação do queijo. Não temos o direito de despejar todo esse líquido na natureza. Então, temos que construir uma espécie de fossa séptica, uma estação de depuração para tratar a água e transformá-la numa água boa e clara para que retorne ao rio. Mas é um procedimento que é super caro. E sabemos que isso irá nos custar em torno de 45 mil Euros por ano. É preciso que comecemos as obras no fim desse ano (2006) para começar a funcionar no próximo ano, senão a administração vai dar em cima.



MLP – Os políticos podem se implicar nesse projeto?

JF – Sim, claro. Nós começamos a discutir esse assunto há 10 anos (risos). Nós temos tentado estudar os custos que sejam aceitáveis para a cooperativa. E isso não é fácil.



MLP – No momento, o senhor está respondendo pelo gerente. Significa que o gerente pode tirar férias e o presidente não?

JF – (risos) O gerente ganha três vezes mais que eu. No entanto, sou eu quem o contrata. Mas, se a gente quer que a cooperativa viva, deve-se colocar um diretor que seja capaz de dirigir 25 pessoas, de procurar mercados, de dar uma visão prospectiva do comércio. Dirigir uma equipe assim não se improvisa. Exige competência. É preciso que se tenha muita capacidade nessa área, coisa que eu não tenho.



MLP – Muito obrigada por fornecer essas informações tão valiosas no campo da cooperação e, especialmente, da relação entre cooperativismo e dinâmicas locais, principalmente em zonas desfavorecidas. Espero que o queijo Pélardon de Cévennes fique famoso no Brasil (risos).

JF – Também aposto nessa ideia (risos).



Referências

BAZIN, Gilles & ROUX Bernard. 1996. Quelles perspectives pour le développement rural dans les régions de montagne et défavorisées méditérranéennes ? Revue Région & Développement, Paris, L´Harmattan, 4, p.1-22.


BOUTONNET, J. P, NAPOLLÉONE, M.; RIO, M. MONOD, F. 2005. AOC pélardon, filière en émergence. Enseignements et questions vives. Communication pour le Symposium international « Territoires et enjeux du développement régional », Lyon, 9-11 mars, 12p.

Le pélardon. http://www.fromag.com/lcf84/perlardon.html. en 10/04/2006.


ROUX, Bernard. 1997. Marginalisation et développement dans les espaces méditerranéens défavorisés. In. Bernard ROUX, & Driss GUERRAOUI (sur la direction). Les zones défavorisées Méditerranéennes. Études sur le développement dans les territoires ruraux marginalisés. Maroc –Les editions Toubkal; Paris – Editions l’Harmattan; Canada - Editions l’ Harmattan. 


1 Entrevista realizada com o presidente da Societé Coopérative Agricole Fromagerie des Cévennes, senhor Jean Flayol, em Moissac Vallée Française, no Departamento de Lozère, na região administrativa de Languedoc-Roussillon, sul da França, em maio de 2006.

2 No conjunto, porém, as montanhas se estendem também por Tarn, Aude, Hérault,Aveyron, Ardèche, Rhône e Loire.

3 Trata-se de uma Apelação de Origem Controlada (AOC) para as cebolas produzidas nos terraços. Os terraços, por sua vez, são cortes horizontais dados na montanha, com vistas à produção agrícola.

4 Antiga e rústica variedade de maçã, típica de Vigan, em Cévennes, que se caracteriza por depender de água e de calor em abundância.

5 A tradução, na íntegra, é "Sociedade Cooperativa Agrícola Queijaria de Cévennes". Iremos manter o nome original da cooperativa.

6 O termo país, neste caso, refere-se a um território com características físicas comuns, uma ocupação homogênea e uma identidade cultural própria, aí incluindo uma gastronomia peculiar. Esse termo foi cunhado pelos eruditos locais e pelos antigos camponeses do século XVI.

7 O Centro de Estudos de Técnicas Agrícolas (CETA) é uma espécie de organismo de divulgação de tecnologia bastante difundido na França, que conta com uma efetiva participação de agricultores. O CETA da região estudada encerrou as suas atividades no momento de criação da cooperativa, pois, com o ingresso de alguns participantes daquele organismo na cooperativa, ficou desfalcado o número de pessoas capazes de dar prosseguimento às atividades ali desenvolvidas.

8 Cidade com 2.076 habitantes, situada no Departamento de Lozère, com uma altitude de 545 metros.

9 Agrônomo conhecido, ao mesmo tempo, como sociólogo, etnólogo, economista. René Dumont constituía uma importante referência da época em elaboração de projetos de desenvolvimento.

10 Cidade considerada importante por ter desenvolvido um comércio local de certo dinamismo, contando com população maior do que a da grande maioria dos municípios da localidade, embora com um número ainda muito reduzido de 2.700 habitantes.

11 A expressão original é de “boca a orelha”.

12 A conquista de um certificado de reconhecimento para o Pélardon, em 2002, foi a forma encontrada por um grupo de 400 produtores da região de Languedoc-Roussilon para conservar a identidade e a tipicidade da produção do queijo, garantindo, ao mesmo tempo, a majoração do preço e a ampliação das redes de distribuição (Boutonnet et al., 2005). A obtenção da AOC é definida a partir de técnicas de fabricação artesanal, ligadas a uma tradição local. É preciso sublinhar que a obtenção da AOC representa mudanças significativas a nível individual e coletivo, com implicações para toda a cadeia produtiva (Idem). A AOC Pélardon define a zona geográfica que se estende por quatro departamentos, reagrupando os Cévennes do Sul, em Lozère; os Cévennes, os garrigues et as zonas de montanha desfavorecidas do Gard e de Hérault; uma parte da Montanha Noire e as altas Corbières de l’Aude (Le Pélardon...2006).

13 O fermier designa o pequeno agricultor que vive na chácara ou o camponês, distanciando-se, portanto, da ideia que associa, no Brasil, de um modo geral, fazendeiro a grande proprietário.

14 Trata-se de um queijo redondo, pequeno (80 gramas), produzido do leite cru à pâte molle (massa mole), e que não pode ser cozido nem prensado.

15 A denominação Cooperativa de Pélardon de Cévennes permaneceu até o ano 2002, quando os produtores locais obtiveram a conquista da Apelação de Origem Controlada (AOC) – Pélardon. Tal conquista estendia o reconhecimento da origem para o conjunto dos produtores de Cévennes, não podendo mais se constituir como domínio particular de uma pessoa ou um grupo reduzido. Com isso, a cooperativa precisou mudar a sua razão social para Société Coopérative Agricole Fromagerie des Cévennes.

16 O presidente da cooperativa fazia referência à necessidade de adotar estratégias de marketing.

17 Expressão que significa habilidade, técnica, conhecimento e até uma arte.

18 Na conversão para o Euro, a média ficaria então em torno de €1.200,00, variando entre a maior renda com €2.000,00 e a menor com €760,00.

19 Indemnités Compensatoires de Handicaps Naturels  são ajudas destinadas a contribuir na manutenção de uma comunidade rural em zonas desfavorecidas, bem como preservar os espaços agrários dessas zonas.

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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

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