GUSMÃO, Luis. (2012), O FETICHISMO DO CONCEITO: limites do conhecimento teórico na investigaçao social. Rio de Janeiro, Topbooks.



O FETICHISMO DO CONCEITO” DE LUÍS DE GUSMÃO: NOTAS DE LEITURA



Luciano Oliveira



Uma amiga enviou-me, faz algum tempo, uma matéria de jornal sobre o livro do professor Gusmão, da Universidade de Brasília (UNB); confessava que o que ele dizia sobre Habermas a fez “rir um pouco” e adiantava a impressão de que, pelo tom polêmico do autor, podia tratar-se de “mais um desses tipos em busca de sucesso por meio de provocações exageradas”. A leitura da matéria despertou minha atenção e rapidamente adquiri o livro – que li com atenção e prazer, mas também com divergências importantes. Interessei-me pelo livro porque, como examinador de dissertações e teses, identifiquei-me com algo que dizia Gusmão na matéria citada: “É praticamente impossível defender um mestrado ou doutorado sem apresentar questões teóricas, cobrança dispensável e funesta”. Achei “funesta” um tanto exagerado, mas tendi a concordar em grande medida com o “dispensável”. De fato, participando há anos de bancas, já partilhei idêntico sentimento. Exemplo: um mestrando que examinei certa vez, aluno excelente e dedicado, havia adotado como seu “marco teórico” a (para mim) impenetrável análise do discurso francesa. Metade do trabalho era um capítulo teórico para levar à conclusão, a outra metade, de que Getúlio Vargas tinha um discurso... paternalista! Na ocasião ocorreu-me uma brincadeira que expus com toda seriedade: mas como Hannah Arendt haveria chegado à conclusão de que Hitler tinha um discurso totalitário sem haver lido Pêcheux?...

O livro de Gusmão adota tom provocativo bem maior do que o meu. O que ele diz sobre autores como Habermas – que qualifica de “entediante pastor de almas” (p. 111) – e Bourdieu – que define como “o narodinick [sic] universitário” (p. 107) – beira o desrespeito. Tais diatribes dão algum suporte à suspeita de minha amiga. Digo algum porque o livro de Gusmão longe está de ser apenas um arrasa-quarteirão. Mas ele se compraz em bater com tal furor os usos e costumes vigentes na academia brasileira que a suspeita de “provocações exageradas”, de certa forma, se confirma. Isso dito, adianto que O Fetichismo do Conceito é um livro bem vindo pelas provocações (desta vez sem aspas) que faz, devendo ser lido e meditado nos nossos departamentos de ciências sociais, com seus cacoetes exageradamente “teoricistas” – para falar como o autor, com quem concordo neste particular.

Por “fetichismo do conceito” Gusmão entende a atitude que leva a “ilações dedutivistas a partir de simples conteúdos conceituais” (p. 163). Um bom exemplo de como funciona o mecanismo aparece numa crítica a Sérgio Buarque de Holanda, que em Raízes do Brasilconsiderado por Gusmão como “o mais frágil” dos seus livros – adota a figura do “aventureiro” como um tipo-ideal definidor do colonizador português no Brasil. Como é sabido, Sérgio estabelece o que seria o seu ethos essencial: um tipo humano cujo ideal é “colher o fruto sem plantar a árvore”. Gusmão reprocha Holanda por haver adotado “a idéia geral de uma forma mentis aventureira [...], empregada para explicar, em termos dedutivos, um vasto e disparatado conjunto de fenômenos sociais” (p. 230). O autor parece-me convincente nessa crítica, e transcrevo um dos momentos em que surpreende o mecanismo em funcionamento:

O Brasil não conheceu, assegura Sérgio Buarque, uma ‘civilização tipicamente agrícola’, pois os filhos de Portugal aqui chegados jamais manifestaram ‘esse zelo carinhoso pela terra [...]’, assumindo antes uma atitude imediatista, perdulária e imprevidente [...]. Uma evidência disso podia ser encontrada nos processos de exploração do solo adotados pelos colonos (p. 242).

É o caso das técnicas agrícolas empregadas pelos recém-chegados, que substituíram o velho arado europeu pela “simples enxada” (p. 244), já usada pelos nativos e que os portugueses haveriam preguiçosamente se limitado a copiar. Ora, imediatamente após haver feito tais considerações, Sérgio, entretanto, “constata que nas circunstâncias concretas nas quais se situavam os colonos [...], as técnicas agrícolas adotadas, como, por exemplo, o uso predominante da enxada no lugar do arado, acabavam se revelando perfeitamente adequadas” (p. 245 – itálicos meus). O exemplo mostra como, submetido ao teste da validação empírica, o tipo-ideal do “aventureiro” mostra-se inadequado para abarcar as várias e heterogêneas particularidades do real a que supostamente se aplicaria. Em lugar desse mecanismo dedutivista, Gusmão propõe o que chama de “investigações conteudísticas e ateóricas” (p. 21) – designação que, pessoalmente, considero um tanto rebarbativa, e que tentarei adiante aclarar.

Como já realcei de passagem, não são poucas minhas concordâncias com o autor. Aquilo que disse a propósito de Hannah Arendt e sua sensata conclusão de que Hitler tinha uma proposta totalitária, mesmo sem a autora de Origens do Totalitarismo haver lido a análise do discurso francesa, por exemplo, encaixa-se bem no que Gusmão diz a propósito do saber produzido fora do establishment acadêmico e bem antes de sua institucionalização:

Seria [...] um lamentável erro imaginar que no passado, antes do advento [...] da Sociologia profissional, observadores atentos e argutos da vida coletiva, valendo-se apenas de conceitos do senso comum expressos na linguagem corrente, não foram capazes de vislumbrar com a devida nitidez aqueles fenômenos sociais mais tarde visibilizados por conceitos sociológicos formulados num jargão técnico (p. 167 – itálicos meus).

O destaque que dei a “senso comum” deve-se ao fato de tal conceito figurar com destaque no que diz Gusmão a respeito das investigações “conteudísticas e ateóricas”, apesar de não lhe dispensar um tratamento sistemático ou, em momento algum, problematizá-lo – como, a meu ver, deveria. A tese mais arrojada do livro é curta e grossa: o conhecimento nas ciências sociais não constitui uma ruptura com o “saber de senso comum”, como provam as obras de autores como Flaubert e Dostoievski:

[...]grandes observadores da condição humana que se expressaram apenas na linguagem natural empregada nas rotinas da vida cotidiana, não realizaram, na verdade, tal ruptura. Eles viam mais longe simplesmente porque eram mais lúcidos e mais sábios que a maioria de nós. Apenas isso (p. 39).

Sem esconder para que lado pende sua preferência, Gusmão procede a uma distinção importante: de um lado, há o que ele chama de investigações “conteudísticas e ateóricas”, como vimos, terreno frequentado por gente do naipe de Flaubert e Dostoievski; de outro, as investigações caracterizadas como “apoiadas em teorias gerais” (p. 21), apanágio dos nossos departamentos de ciências sociais – onde o “fetichismo conceitual” campeia. Demarcam-se, assim, dois campos – ainda que, na prática, eles não sejam estanques: as investigações “conteudísticas e ateóricas” – produzindo o que Gusmão também chama sugestivamente de “paisagens” – seriam mais próprias ao campo da História; e as investigações “apoiadas em teorias”, por seu lado, seriam mais próprias às Ciências Sociais – basicamente a Sociologia e a Antropologia, já que Gusmão não se refere à tradicional coirmã das duas primeiras, a Ciência Política.

Gusmão é da opinião de que as investigações do segundo tipo testemunham um inequívoco “fracasso”, chegando a dizer que não contêm senão enormes trivialidades numa linguagem tão obscura quanto pedante” (p. 161). Para ele, as ciências sociais, não possuindo um corpo de leis consensualmente aceitas pela comunidade dos cientistas, como acontece com as “ciências normais” (Thomas Kuhn), não produzem explicações qualitativamente distintas daquelas cuja “base teórica” consiste tão somente nas melhores generalizações do conhecimento de senso comum, como se encontra na literatura realista e na historiografia de qualidade. Diz ele, “podemos encontrar estudos sociológicos ou antropológicos nos quais as explicações causais oferecidas são essencialmente conteudísticas e ateóricas, embora seus autores insistam na apresentação quase ritual de credenciais teóricas” (p. 21 – itálicos meus). Aqui é preciso esclarecer que “ateóricas” não se confunde com o “empirismo mais ingênuo”. Gusmão não nega que o conhecimento dos fenômenos sociais deve ir além do “simples registro descritivo e superficial dos fenômenos”, e está consciente da necessidade de hipóteses preliminares em qualquer trabalho de investigação social: “Essas hipóteses é que determinam, entre outras coisas, quais dados devem ser coligidos a um certo momento da investigação” (p. 181, n. 95). Isso dito, ele é enfático, porém, ao afirmar que:

[...]é perfeitamente possível sim, no âmbito das investigações sociais, levantar problemas fecundos, sugerir hipóteses plausíveis e estabelecer detalhados planos de observação, sem qualquer base teórica, se se entendem por isso as contribuições particulares da moderna teoria social (p.34 – itálicos meus).

Mais claro, impossível. Mas, finalmente, o que seriam as investigações desse tipo – isto é, sem “base teórica”? Para Gusmão, elas consistiriam numa “explicação causal empiricamente orientada da vida social em toda sua riqueza e complexidade, algo que requer sempre inventários exaustivos de variáveis contextuais e um uso qualificado do conhecimento do geral” (p. 163). Vista de chofre, convenhamos que a definição não brilha pelo excesso de clareza. Mas, para facilitar nossa tarefa, lembremos que Gusmão elege como modelo desse tipo de investigação aquilo que é ordinariamente feito pelos (bons) historiadores, a exemplo do que faz um Evaldo Cabral de Mello ao estudar o Brasil holandês ou a insurreição pernambucana de 1817. Mas Gusmão comete aqui, a meu ver, uma espécie de sofisma: os exemplos que dá de investigações bem sucedidas são de autores como, no passado, Tocqueville e Joaquim Nabuco, e, contemporaneamente, Braudel e Le Goff, mas também Evaldo Cabral de Mello. Ora, todos eles são basicamente historiadores! Isso, é verdade, é coerente com a tese por ele defendida de que é na História onde se encontram os melhores estudos “conteudísticos e ateóricos” – aqueles que ele elege como o modelo por excelência de investigações sobre o social. É na História, com efeito, que é mais fácil – natural até – pintar “paisagens”. Só que na Antropologia e, mais ainda, na Sociologia, bem menos! O sofisma, a meu ver, reside no fato de o autor tomar o que seria a vocação de um dos campos, a História, para julgar os feitos de um outro, o das Ciências Sociais.

Entendamo-nos. A divisão do conhecimento sobre o social em escaninhos com nomes como História, Antropologia, Sociologia etc. é, em grande medida, artificial, fruto bem mais de uma divisão social do trabalho intelectual e seus respectivos interesses corporativos do que de uma diferença ontológica entre esses domínios. Isso dito, e não me alongando muito, existe algo chamado Sociologia, um campo institucional dotado de certas particularidades metodológicas que incluem, num contraponto – o que não quer dizer oposição – com as paisagens “pintadas” pelos historiadores e as “etnografias” tecidas pelos antropólogos, a construção de dados agregados que permitem ver camadas subterrâneas da realidade não facilmente acessíveis ao olhar normalmente “desarmado” – o que quer dizer, na verdade, encharcado de pré-conceitosdo homem comum. Gusmão reconhece que os autores da “moderna teoria social”, que ele tanto maltrata, podem ser de grande valia nessa empresa de desvendamento do real – chegando, num momento exemplar de honestidade, a incluir o próprio Bourdieu! Diz ele:

Um investigador bem informado [...], alertado por A. Schutz, P. Berger, A. Giddens e P. Bourdieu [sic!], poderá investigar o saber tácito, não reflexivo nem articulado num corpo sistemático de ideias, do qual se valem, na vida cotidiana, os membros de uma determinada coletividade. [...] Marx abrirá os seus olhos para as relações sociais de produção vigentes, além de adverti-lo para a relevância do estudo dessas relações numa compreensão da vida política e espiritual. [...] ...e por aí afora.

Mas Gusmão não se desarma. Imediatamente, ele se recompõe e passa a reafirmar pela enésima vez sua antipatia pela “teoria”, afirmando que:

[...]não temos aqui qualquer passagem do conteudístico ao teórico, se se entende por isso a efetiva superação, assegurada pela posse de novas ferramentas intelectuais, do inventário exaustivo das constelações singulares e contingentes das variáveis relevantes para uma caracterização e/ou explicação causal de uma dada paisagem social” (p. 79 – itálicos meus).

O sociólogo é levado a se perguntar: mas, o “saber não reflexivo” de Bourdieu e Cia, bem como as “relações sociais de produção” de Marx, não seriam justamente as “ferramentas intelectuais” que permitem a “superação” do “inventário exaustivo das constelações singulares”, levando à possibilidade de um conhecimento mais “teórico” da realidade? Gusmão diria que não! Para ele,

[...]não seria difícil encontrar no conhecimento social e psicológico de senso comum, em uso nas melhores investigações conteudísticas da vida coletiva, um número considerável de luminosas generalizações acerca dos seres humanos e suas interações mais duráveis (p. 100).

Aqui, francamente, acho que ele está fazendo malabarismos verbais: em que, finalmente, as “generalizações” a que se refere se diferenciariam da “teoria” que os sociólogos prezam e ele tanto detesta? Falei antes nas possibilidades heurísticas dos “dados agregados”, tão familiares à Sociologia, a meu ver, muito importantes para superar o “saber não reflexivo” em que tanto se compraz o senso comum. Dou um exemplo inspirado por meus próprios interesses de pesquisador. Faz parte do senso comum a afirmação de que os pobres delinquem mais – “evidência” atestada pela enorme proporção de pobres nas cadeias. Ora, um “olhar desarmado”, partindo do pressuposto de que quem comete crimes vai preso, concluirá pela exatidão da afirmação. Mas se esse olhar se dispuser a ler o que diz um Howard Becker sobre o que esse autor chama de “etiquetamento” (questão: trata-se de uma “generalização” ou de uma “teoria”?...), começará, sendo honesto, a duvidar seriamente do pressuposto, pois tomará consciência de que os pobres, por sua fragilidade, estão mais propensos a serem pegos pelas malhas da lei do que os bem nascidos – ou seja, a serem mais “etiquetados”.

Aliás, tantos e repetidos enaltecimentos ao “senso comum” levam a uma questão adicional: não estaria Gusmão caindo noutro tipo de “fetichismo”? Afinal, o que vem a ser isso? Ocorre-me a impressão de que ele usa o conceito no sentido inglês do termo (o “common sense”), cujo significado vai reconhecidamente bem além daquele veiculado pela mesma expressão, numa tradução literal, entre nós. Para ver isso, vamos aos dicionários. Remetendo-me ao famoso Collins (English Language Dictionary), deparo-me com a seguinte definição para o verbete common sense: “is a person´s natural ability to make good judgements and to behave in a practical and sensible way”. No sentido inverso, nosso Aurélio dá ao verbete senso comum a definição seguinte: “conjunto de opiniões e modos de sentir que, por serem postos pela tradição aos indivíduos de uma determinada época, local ou grupo social, são geralmente aceitos de modo acrítico como verdades” (itálicos meus). Minha impressão é a de que Gusmão está querendo se referir antes a bom-senso do que a senso comum, pelo menos em bom vernáculo. Aliás, em um momento pelo menos – deve haver outros – o leitor atento surpreenderá o uso do primeiro termo num trecho em que critica o que seria a ingenuidade de um antropólogo que leve ao pé da letra o que lhe informam os “nativos”, sem decodificar o que tais falas podem esconder de autoengano, racionalização ou engodo puro e simples – e completa: “Na realidade, apenas indivíduos particularmente tolos e estúpidos poderiam ignorar tais possibilidades. Pessoas dotadas de um mínimo de inteligência e bom-senso não costumam, na vida cotidiana, proceder assim” (p. 205 – itálico meu). Gusmão, mesmo consciente da possibilidade de tais “leros-leros” mostra-se, estranhamente, muito condescendente em relação ao senso comum que, como sabemos, acomoda-se muito bem com enganos e racionalizações justificadoras...

É verdade que ele não se exime de endereçar algumas exigências aos operadores do seu conceito tão querido. Assim, seus investigadores ideais não poderão dispensar “inteligência, plausibilidade” (p. 39) e “boa documentação” (102-103); o ideal, certo, é que sejam “filósofos, literários e artistas de gênio” (p. 107); mas, sendo um “homem comum”, deverá ser “inteligente e bem informado” (184), além de agir com “atenção e seriedade” (p. 333) – e por aí vai! Reconheço que neste passo estou sendo irônico. Mas a ironia me é sugerida pelo próprio Gusmão, que se põe, em determinado momento, ao que parece ser uma brincadeira, para não dizer “provocação” – desta vez com aspas. Atracando-se outra vez com Bourdieu, comete a seguinte graçola a respeito do conhecido conceito de “poder simbólico”:

[...]já podemos encontrar em Pascal, um filósofo do século XVII que, naturalmente, não leu Bourdieu, um lúcido, claro e divertido registro da realidade do ‘poder simbólico’. É Pascal quem observa: ‘Isto é admirável: não se quer que eu preste honras a um homem vestido de brocados e seguido de sete ou oito lacaios. O quê! Ele me mandará dar umas correadas. Aquela roupa é uma força’ (p. 168).

O trecho ilustra à perfeição o princípio de que frases pinçadas de qualquer autor são capazes de dizer praticamente tudo que queremos que ele diga. Aliás, pensando no fato de que Pascal era um cristão, ocorreu-me outra graçola: “Ora, nesse caso, por que não ir diretamente à Bíblia?” Pois bem, fui. Fui e achei mais de uma definição do poder simbólico, acompanhada, aliás, do seu desmascaramento. E não precisei ir muito longe. Já no primeiro dos Evangelhos, quando Jesus censura os escribas e fariseus, está escrito: “não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem. [...] Praticam [...] todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; [...] alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas.” (MT., 23: 3-6).

Voltemos ao sério. Como disse mais de uma vez, o livro de Gusmão é importante pelas relevantes questões que levanta. Acho, porém, que ele é excessivamente intolerante com as “bases teóricas” que circulam nos departamentos de Ciências Sociais. Talvez muitos anos de participação em bancas de teses, onde tais “bases” figuram mais como mantras muitas vezes recitados – quando não “engolidos” – sem convicção do que como autênticas bases de onde se extraem ou onde se afinam hipóteses de pesquisa – com as quais, numa palavra, se dialoga –, hajam provocado certa radicalização, expressa pela recusa frequentemente raivosa de autores importantes para o desvendamento de camadas nem sempre evidentes do real, bem como uma discutível valorização do senso comum. Confesso, de minha parte, partilhar algo do ar blasé que parece ser o seu o tempo todo. Adianto, aliás, que estou longe de ser sempre um encantado com o conhecimento produzido pelas Ciências Sociais e correlatas – que, entre outras asneiras, já produziram o “racismo científico” do século XIX. Mas quem, afinal, desmontou com propriedade essa teoria senão, em primeiro lugar, a própria ciência? Penso num exemplo célebre, o ambíguo e controverso Gilberto Freyre – que Gusmão não cita uma única vez. Pernambucano formado na nostalgia da casa-grande, Gilberto tinha, sem dúvida, uma sensibilidade aristocrática. Mas, a partir do célebre encontro com a obra de Franz Boas, um dos fundadores da moderna antropologia, o “menino de engenho”, que no fundo nunca deixou inteiramente de ser, descobriu que raça e cultura são coisas diversas, e com isso inverteu o jogo do pensamento racialista brasileiro. Ou seja, não foi com base no senso comum vigente no mundo em que nasceu que Freyre escreveu Casa-Grande & Senzala. Tudo isso nos levaria longe. Surge, por exemplo, uma questão interessante: a antropologia antirracista do século XX parece-nos epistemologicamente (para não falar moralmente) mais perto da verdade do que a antropologia racista do século XIX. Haveria então um progresso nas Ciências Sociais análogo ao que há nas “ciências normais”? “Questão prenhe de questões”, como diria Machado. Fica para outra vez.

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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

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