Est. Soc. [online]. 2014, vol. 1, n. 20


SOCIABILIDADES, CULTURA E MEIO AMBIENTE


Editores temáticos

Breno Fontes

José Rogério Lopes


Este dossiê é fruto de um trabalho de equipe de pesquisadores que participam do Laboratório de Políticas Culturais e Ambientais no Brasil (Lapcab), coordenado pelo professor José Rogério Lopes, da Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos), com a participação de pesquisadores de diversas regiões do país. A maioria das pesquisas desenvolvidas nesses últimos três anos de atividade do Lapcab sinalizou a disseminação, em coletividades e comunidades socialmente marginalizadas, de uma capacidade de relacionamento direto e autônomo com o mercado que, acredita-se, esses grupos e essas coletividades nunca antes experimentaram. Essa inserção socioeconômica é, evidentemente, o correlato de uma nova visibilidade das culturas que foram desqualificadas, no passado, possibilitada – é a hipótese – pela transformação do território brasileiro num ambiente “técnico-científico-informacional”, para usar um conceito de Milton Santos. A interconexão generalizada, disseminada não só geograficamente, mas também socialmente, faz com que a segregação cultural se torne uma condição mais difícil de perpetuar e mais instável. Isso comporta a emersão de inúmeras culturas, que antes se encontravam hermeticamente fechadas nos nichos da marginalidade, impondo o dado de fato da multiplicidade cultural.


Os doze textos que compõem este dossiê tratam de temas diversos (arranjos produtivos artesanais, práticas culturais, arte) e compõem uma agenda inscrita em dois grandes campos, cultura e meio ambiente, recortada a partir do que a literatura tem denominado paisagens culturais, coletividades sociotécnicas, ou mais simplesmente saberes construídos a partir de processos de sociabilidades ancorados no cotidiano das pessoas. O que se coloca como expressivo nessa agenda, a construção de uma cosmologia a partir das sociabilidades da vida cotidiana, remete a espaços bastante variados, a atores inscritos em universos de práticas igualmente diversos, mas que nos sugerem uma pergunta importante: que dizer dessas pessoas, em seus cotidianos, reproduzindo muitas vezes práticas não dominantes, que vivem, entretanto, este mundo profundamente marcado por uma modernidade ambígua, do capitalismo periférico, que frequentemente se distancia daquele paradigma tradicional, clássico, que promete a boa vida, que pretende humanizar de vez a trágica e violenta existência humana? Essas comunidades, que antes se encontravam fechadas, reproduzindo-se em ambientes com características marcadamente próprias, agora se encontram em contato intenso com um universo multicultural que muitas vezes lhes impõem escolhas ou trajetórias de difícil assimilação.


A lógica de organização deste dossiê apoia-se em um ponto de partida, o de que práticas do cotidiano estruturam campos de pertencimento, localizações de visões de mundo particulares, mas também cimentam uma sociedade multicultural, proporcionando à diversidade de suas práticas uma riqueza sem precedentes. E essas práticas, apresentadas em estudos de caso bastante variados, nos permitem refletir sobre questões relativas à produção da cultura, à reprodução social – o trabalho e as práticas de geração de renda ancoradas em tradições enraizadas em uma comunidade de destino. Quer dizer, são narrativas que pretendem investigar as trajetórias e práticas de coletividades e comunidades de atores produtores de bens identitários, ou de marcação social (artesãos, extrativistas, pescadores, entre outros) que se reconhecessem em um contexto ambiental determinado e que utilizassem, nas suas atividades, tecnologias patrimoniais que integram as percepções locais de cultura e ambiente. Esse processo de integração das percepções de cultura e ambiente baseia-se na concepção de que as tecnologias produzem agências sobre as ações e interações dos humanos entre si, constituindo redes que caracterizam coletividades sociotécnicas, segundo Bruno Latour, ou que resultam em processos de enraizamento social das tecnologias, segundo Bernard Miége.


Organizamos os textos deste dossiê em dois grandes grupos: (a) das práticas culturais; e (b) ambiente e sociabilidades. São temáticas que estão fortemente interligadas, e sua classificação é apenas indicativa de uma possibilidade de agrupamento mais específico.

Para o caso das práticas culturais, os textos estão argumentativamente organizados na direção de formas de expressão de tradições populares, fortemente enraizadas em campos de pertencimento, de uma vida física compartilhada, na expressão de Otávio Paz. Essa dimensão fundamental das manifestações artísticas (a dança, o artesanato e as representações icônicas dos símbolos religiosos) mescla-se, entretanto contemporaneamente com campos de construção simbólica os mais variados possíveis, com diversas origens – a mídia, o fluxo de turistas, possibilitando a ressignificação destas expressões antes genuinamente marcadas pela origem de um povo, uma comunidade. Dentro desse contexto, são analisadas práticas seculares de produção artesanal e as mudanças vivenciadas pelas comunidades em seus contatos com outras. São, dessa forma, processos de releitura de manifestações culturais, com interessantes exemplos apresentados em nosso dossiê: o jongo no sudeste, artesãos em Olinda, figureiros de Taubaté e artesãos do miriti de Abaetetuba, do estado do Pará, e aqueles localizados no sul de Minas, nas cidades de Maria da Fé, Piranguçu e Alfenas. O consumo dessas expressões populares e as intervenções estatais apoiando o chamado patrimônio imaterial seja garantindo a reprodução, para o caso do Jongo, nas populações mais jovens e desta forma retirando-lhe a imagem de coisa velha e decadente, ou então promovendo apoio para a profissionalização e consequente maior penetração dos objetos do artesanato no mercado, para o caso dos artesãos.


Ainda, no campo das práticas culturais, encontramos outro conjunto de textos que tratam da obra de arte expressa na paisagem urbana, nos monumentos, nos recortes paisagísticos construídos a partir das diversas camadas de história e manifestações arquitetônicas que uma cidade guarda. Aqui temos tratadas questões como patrimônio cultural, memória e ainda políticas de incentivo à produção artística integrada ao tecido urbano, com legislação que favorece a exposição de obras de arte integradas aos imóveis recém-construídos, configurando o que Pitta designa de relação entre obra de arte e seu envelope. Estes textos remetem, portanto, à reflexão sobre o ambiente urbano e a produção artística, representada a partir da presença, no tecido urbano, do patrimônio cultural, das obras de artes expostas. São temáticas que remetem à reflexão da presença dessas manifestações no cotidiano das pessoas, incentivadas a partir das políticas de educação patrimonial.


O segundo conjunto de textos nos direciona para a discussão sobre ambiente e sociabilidades. Ambiente, fenômeno tradicionalmente trabalhado a partir de questões acerca da relação entre natureza e sociedade, é aqui ampliado, incorporando a dimensão de sociabilidade, entendida enquanto processos interativos que promovem práticas e formas de representação do mundo a partir da construção do cotidiano. Aqui a discussão sobre ambiente inclui, por exemplo, um bioma, a chapada do Araripe, e suas configurações complexas na relação entre a fauna, a flora, o clima, e as pessoas que lá vivem. Ou nos apresenta uma curiosa reflexão sobre caminhadas, em uma leitura que incorpora, ao lado do contato com a natureza, o povo e os lugares por onde se passa, os processos de ambientação social, descritos pelo autor como “práticas de sujeitos e grupos que fazem da promoção do ideário ecológico um posicionamento político e ético”. Completando essa temática, há ainda o interessante texto de Armiero, refletindo sobre conflitos ambientais na Itália, em um cenário de lutas sobre manejo do lixo urbano.


Temos ainda dois interessantes textos que colocam a temática do ambiente a partir da discussão do trabalho, de práticas de reprodução social ancoradas em processos de trabalho extrativista. Característico dessas atividades, a intensa relação com o meio ambiente, de um lado, e as expressivas manifestações de processos de reconhecimento e pertencimento identitários derivadas da atividade laboral. Os textos de Romero sobre a pesca artesanal no município de Vila Velha (ES) e o de Pizzio sobre as quebradeiras de coco babaçu na região do Bico do Papagaio, Tocantins, são interessantes exemplos da relação entre reconhecimento, identidade social e ainda, acrescenta Pizzio, capacidade de resiliência destes grupos.


Assim configurado, este dossiê expõe um panorama abrangente das práticas culturais e ambientais em desenvolvimento no país, que convergem para arranjos estratégicos, em escalas locais, regionais ou globais, e envolvem atores e agências diversas, em perspectiva situacional.

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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

ISSN Impresso 1415-000X

ISSN Eletrônico 2317-5427