Est.Soc.[online]. 2014. vol.1, n. 20

ENTRE DOCES, PALHAS E FIBRAS: experiências populares de geração de renda em cidades de pequeno porte no sul de Minas Gerais


BETWEEN SWEETS, HUSKS, AND FIBERS: POPULAR EXPERIENCES OF INCOME GENERATION IN SMALL TOWNS IN SOUTHERN MINAS GERAIS


Carlos Alberto Máximo Pimenta1

Adilson da Silva Mello2

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Resumo

A proposta desta reflexão circunscreve-se às estratégias populares de geração de renda, por meio de grupos de artesãos presentes nas cidades de Maria da Fé, Piranguçu e Alfenas, todos localizados no sul de Minas Gerais, no sentido de capturar os modos de saber-fazer traduzidos, a partir da experiência popular, em existência de objetos técnicos, dimensões do humano, do não-humano, do material e do imaterial contidos nas práticas estudadas. Impõe entender os conceitos de desenvolvimento e de tecnologias para além das lógicas contidas nos processos de produção do capitalismo atual.


Palavras-Chave

Desenvolvimento. Cultura. Tecnologias sociais. Geração de renda. Experiências populares.

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Abstract

The purpose of this reflection is limited to popular income-generating strategies practiced by artisan groups in the cities of Maria da Fé, Piranguçu, and Alfenas all of which are located in southern Minas Gerais; in the sense of capturing the translated modes of know-how, starting from the popular experiences considering the technical objects, human and non-human dimensions, material and immaterial all contained within the practices studied. The concepts of development and technologies must be understood beyond the logic contained in the production processes of contemporary capitalism.


Keywords

Development. Culture. Social Technologies. Income generation. Popular experiences.

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Introdução


Esta reflexão é resultado de pesquisas desenvolvidas no sul de Minas Gerais sobre os processos sociais contemporâneos que configuram demandas de geração de renda e diferentes modos organizativos, não somente dentro da lógica capitalista atual, mas para além dela, com seus rebatimentos na organização de atores e projetos sociopolíticos, imbricados a ações do poder público e a efetivações de políticas públicas de geração de renda.


A proposta perpassa dois campos de conhecimento: o desenvolvimento e as tecnologias. Não se deve pensá-los vinculados ao crescimento econômico, muito menos como alternativas ao modo de produção hegemônico, embora possam ser entendidos nesse contexto, uma vez que o processo de industrialização, agravado pelo avanço tecnológico e informacional, trouxe consigo consequências sociais e ambientais complexas.


Não se trata de contraposições à predominância de um modelo idealizador do desenvolvimento e de perspectivas tecnológicas assumidas no mundo ocidental, o qual impõe às agendas do poder público (DAGNINO, 2008) novos arranjos socioeconômicos aparentemente alternativos, mas que se organizam a partir da lógica da relação capital versus trabalho e, do ponto de vista do saber, resignificam conceitos consolidados sobre desenvolvimento e tecnologias (PIMENTA; MELLO; ZAMBONI, 2013).


Leva-se a discussão de desenvolvimento e tecnologias para o campo da cultura, no qual se incorporam questões vinculadas ao imaginário e à noção de trabalho em diferentes modos inscritos: nas práticas, no ser, no sentir, no pensar, no saber–fazer. No campo da cultura, se permite deixar emergirem subjetividades, sociabilidades e solidariedades unidas à construção e apropriação de múltiplos significados simbólicos e identitários que fornecem sentidos à vida.


Entre doces, palhas e fibras se expressam experiências populares de geração de renda que fomentam saberes e ações. Essas, se traduzidas na prática, fundam-se em mecanismos de negociação para incorporação de políticas públicas locais de geração de renda ou de disseminação de saberes populares.


Os diálogos, as conversas e as observações realizadas nesse esforço estão delimitados a partir das informações prestadas pelas doceiras do Carmo do Rio Claro, município localizado próximo de Alfenas3, pelos artesãos da Casa do Artesão Mariense, Centro Cultural de Maria da Fé4 e da Associação Piranguçuense de Artesanato, de Piranguçu5.


Circunscrito às estratégias populares de geração de renda, tem-se o objetivo de revelar os modos de saber-fazer traduzidos na experiência popular artesã, na existência de objetos técnicos, dimensões do humano, do não-humano, do material e do imaterial contidos nessas práticas.


Dentro do campo antropológico, a predisposição posta se reveste na apreensão dos impactos dessas técnicas aos projetos individuais e coletivos de geração de renda, delimitados por um sistema de imposições tecnológicas, que pode vir traduzido em possibilidades ou limites de inserções econômicas e socioculturais.


Valorizam-se, nas observações realizadas, abordagens abertas que abarquem desde as mais íntimas impressões do pesquisador até as sugestões dos atores sociais contatados. As intervenções dos pesquisadores são trazidas somente para alimentar o diálogo, nunca para induzir a resposta ou conduzir o rumo da prosa. A proposta foi a de que se deixasse falar de modo descontraído. Não havia uma preocupação com os exageros das falas e nem registro em gravadores ou filmadoras, mas em cadernos de campo. Contudo, o que se buscou registrar sintetizava o começo das atividades: como faziam os objetos, quais técnicas utilizavam, a origem dos ensinamentos ou receitas, o número de pessoas envolvidas, modos de organização, produção e vendas, enfim, o sentido e significação daquela atividade para a vida social e cultural daquele indivíduo ou grupo.


Implícito neste repositório de intencionalidades, encontra-se um protocolo de identificação do nível da ação produtiva formal dos atores envolvidos, ou seja: se são domésticas ou profissionalizadas, no caso das mulheres, aposentados, sitiantes ou pequenos produtores rurais, pobres, dentre outras denominações que pressupõem ausência de qualificação ao mercado formal do trabalho.


Alguns apontamentos são necessários ao entendimento das preocupações contempladas: as observações não devem perder de referência o processo histórico dos costumes, da cultura e das diferenças econômicas promovidas na lógica do modelo de capital proposto; a contextualização se envolve de interditos objetivos (leis, normas, regras), mas também é composta por elementos subjetivos (ideologia, poderes simbólicos, características e memórias), resultantes do próprio processo sociocultural humano em sintonia com os híbridos (LATOUR, 2012) produzidos.


Dentro desse escopo é que se deu a entrada, a partir de agosto de 2012, nos ateliês, nos centros culturais e na cozinha das doceiras para observação das atividades que desenvolvem e o estabelecimento da relação de confiança entre pesquisador/atores sociais/espaço. Desse processo originaram as observações e registros da entrada no campo.


Na imersão, a captura de detalhes e de informações adjacentes trouxeram explicações sobre o modo de vida e padrões presentes naqueles ambientes, nos quais se atribuem significados. Nesse aspecto, buscou-se demarcar as observações registradas nas produções de sentidos que se entrecruzam nessa dinâmica.


As escolhas dos critérios de sistematização dos dados ocorreram dentro de um conjunto de detalhes e informações adjacentes expresso nos comportamentos, espaços, funcionalidades e comunicações que sugerem questões reveladoras daquele espaço. Dessa relação é que se procurou entender as tendências do desenvolvimento e das tecnologias implicadas.


Para orientar esse percurso foram formulados os seguintes questionamentos: primeiro, podemos contar com conhecimentos alternativos aos convencionais, no sentido da geração de renda, como frente ao modelo predominante na relação capital versus trabalho? Segundo, como se organizam as relações do contexto social e dos híbridos produzidos?


Saberes populares: experiências e ações de geração de renda


Ao que concerne à primeira questão posta, na prática e por uma óptica baseada nos valores do mercado do trabalho, a resposta é: não. Entretanto, o questionamento transcende a idealização de desenvolvimento econômico e se aproxima dos saberes populares de produção de bens para comercialização e geração de renda.


Na pergunta estão implicadas as dimensões da adequação sociotécnica (NOVAES; DAGNINO, 2006) e da experiência desperdiçada (SANTOS, 2004) no interior dos processos de produção capitalista, mas que ao mesmo tempo vêm sendo reforçadas nos últimos anos como possibilidades. Tal fato se dá em um campo alternativo de ações culturais coletivas de formações sociais específicas (LOPES, 2012) com inserções, muitas vezes precarizadas, à ordem econômica, ao social e ao consumo.


No caso do Brasil, levando-se em consideração os processos informais de geração de renda, vê-se brotar grupos de pessoas em situação de sobrevivência, na informalidade, tais como: recicladores de lixo, camelôs, vendedores ambulantes, sacoleiros, catadores de papel, flanelinhas6. Sabe-se que o poder público tem tomado um conjunto de medidas para coibir ou legitimar essas práticas. Na pesquisa realizada por Lopes (2010, pp. 110-111) o Vale do Paraíba paulista é mencionado como exemplo desse processo:


Em algumas cidades da região, como Taubaté, as prefeituras têm criado um local específico de instalação das barracas de camelôs, como forma de enfrentar ou organizar o aumento do número de sujeitos que ingressam na atividade. No caso de Taubaté, o local é conhecido como “camelódromo” e tornou-se uma referência popular para aquisição de produtos diversos, sobretudo de “importados” de origem e qualidade duvidosa. Entretanto, vários camelôs insistem em fixar-se pelas ruas centrais da cidade, desafiando o controle e a fiscalização da administração pública, que vêm se tornando mais acirrados a cada ano que passa.


Em Itajubá, vê-se movimento semelhante com o chamado Shopping Beira Rio, às margens do Rio Sapucaí, região central da cidade (PIMENTA; FRUGOLI, 2009). É desse raciocínio que se está apostando no desenvolvimento local. Há um conjunto de produções que caminha nessa direção, o qual tem influenciado o poder local em constituir linhas de ações que valorizem a “gente” da terra, a “cultura caipira”7, as questões “étnicas”, as “diferenças”, as manifestações populares, enfim, o saber popular como elemento aglutinador dos processos geracionais de renda.


Cabe consignar, antes de prosseguir na argumentação que sustenta a afirmação anteriormente exposta, que não se desconhece a ênfase dada à economia criativa, muito menos na aposta realizada ao dinamismo das indústrias criativas, a qual promove a produção artística com lucro. Essa assertiva é presente em escala mundial (LIMA, 2011). Contudo, o que se ressalta é que essas alternativas são, em grande medida, tendências das novas formas de consumo, mas dentro das possibilidades do próprio processo capitalista vigente.


A título de ilustração, o trabalho dos autores Mamadu Alfa Djau et al (2012), ao estudarem o desenvolvimento local, afirma que o artesanato de renda de bilro, no município de Aquiraz, Ceará, caracteriza-se por esse escopo de possibilidades. Trazem as apostas do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), do Banco do NORDESTE, das prefeituras e dos órgãos públicos competentes para organizar os trajetos de determinado modelo de desenvolvimento econômico.


Entre doces, palhas e fibras, os exemplos aqui trazidos extrapolam em valorização das experiências do saber–fazer dos artesãos, por meio de seus mecanismos de negociação com os quais estabelecem as possibilidades de geração de renda ou da necessidade de incorporação de políticas públicas locais como consequência desses processos. “Nem tudo são flores, neste proclamado mar de rosas!”, se estas experiências forem pensadas em outras perspectivas, tomando por base as metamorfoses do mundo do trabalho (ANTUNES, 1999), o que poderia ser encarado como possibilidade passa a ser traduzido em novos agenciamentos ou imposição de novos e outros condicionamentos (BOURDIEU, 1998).


Com relação aos movimentos populares artesanais, estes têm se traduzido como uma das alternativas para minimizar as desigualdades socioeconômicas, uma vez que se tem investido na implantação de ações valorativas. É esse o sentido da fala de Elisângela8 ao apontar que a prefeitura fornece o lugar de exposição e venda das artes, um centro de cultura, uma antiga estação de trem na cidade. Lá, há uma máquina locomotiva a vapor fixada num pedaço de trilho desativado na entrada secundária do centro, como um atrativo aos turistas e consumidores dos produtos ali comercializados. Não há, por parte da prefeitura, uma cobrança de aluguel, mas em contrapartida o lugar funciona como um centro de informação turística divulgando os pontos oficiais de turismo da cidade, por meio de um acordo informal implicado entre as artesãs e o poder público.


Por outra via, pode ocorrer um distanciamento do poder público quando, de alguma forma, essa prática não tem ressonância entre este e os artesãos. A divergência derivaria da autonomia alcançada por alguns dos grupos de artesãos, pelas incongruências com o poder local ou pela postura “empreendedora” dos que se destacaram dos demais. Esse distanciamento é percebido no grupo da Associação Piranguçuense de Artesanato9, liderado por quatro artesãs. A associação tem uma loja alugada pelos associados em um ponto estratégico da cidade e sobrevive das vendas da produção e da ajuda mensal de alguns colaboradores.


Já a doceira, dona Tereza10 cumpriu via diferente, pois começou fazendo doces para fora como forma de sobrevivência e ganhou fama, o que acarretou a necessidade de parceiras para dar conta das demandas. Dentro dessa perspectiva, passou a ensinar a vizinhança interessada e a difundir seus doces. Nesse processo, não houve proximidade com o poder público, mas suas práticas sempre se fizeram coletivas.


Esses três exemplos se traduzem numa leitura sobre a valorização dos saberes populares, em especial do artesanato que não tinha valor agregado, se comparado à sociedade industrial capitalista tecnológica e informacional e suas imposições. Há, na atualidade, forte investimento11 na evidenciação dessas práticas e dos saberes populares com a finalidade geracional de renda: é a crença na qual se aposta.


Digressão socioeconômica que incorpora os trajetos das sociedades em desenvolvimento, como a brasileira, se faz pertinente tendo em vista que as demandas e as tensões na contemporaneidade, inscritas no sistema capitalista de acumulação flexível (HARVEY, 1993), e impulsionadas pelas exigências das revoluções tecnológicas e informacionais (IANNI, 1992) que obrigaram o poder público a manter vigoroso o modo de produção capitalista e a respeitar algumas tendências norteadoras da manutenção da sociedade em tom de políticas de geração de renda.


É no interior dessas tensões que se aposta nas “crenças racionais”12, da responsabilidade social, da sustentabilidade, da criatividade, do saber popular, como possíveis saídas à diminuição das desigualdades ou de inserção de setores populares ao consumo ou a certa ordem econômica, às quais as crenças emergem das transformações do mundo do trabalho, não como constituído na ordem capitalista, mas como alternativo àqueles que ficaram do lado de fora: criativo, autônomo, lúdico, livre, coletivo.


Não se quer entrar no mérito dessas apostas13, muito menos atribuir aos artesãos o peso ao desenvolvimento local. Interessa explicitar as experiências e as ações dos artesãos, por meio de suas práticas, do ser, do sentir, do pensar e do saber–fazer artesão.


Dona Tereza, a doceira de Carmo do Rio Claro, começou a trabalhar aos 7 anos de idade em casas de famílias como doméstica, também trabalhava em casa para ajudar sua mãe e na cultura do café, atividade do pai junto às roças locais, e aprendeu a fazer os sequilhinhos e biscoitos, conhecidos como doces de quitanda, encontrados naquela região. Já adulta, percebeu que trabalhar como doméstica ou ajudar o pai na cultura do café não lhe permitiria uma inserção econômica melhor. De família negra e pobre, decidiu pegar a receita de sua avó, dona Gabriela Norata de Carvalho, como gosta de frisar, e passou a fazer doces cristalizados ou de compota. Naquela altura, só ela e a dona Nicota, uma moradora da cidade, faziam doces com aquelas características.


Na cidade ninguém acreditava que doce poderia melhorar a vida econômica das pessoas. Diante das dificuldades encontradas, resolveu largar tudo e ir para São Paulo trabalhar como empregada doméstica, no inicio da década de 1970. Durante as atividades domésticas voltou a fazer os doces cristalizados e de compota, momento em que conheceu dois rapazes com quem resolveu abrir uma firma no ano de 1979. A firma se estruturou e os negócios iam bem, já transitando de uma configuração artesanal para escala industrial, em um grupo composto por ela e mais 10 mulheres. Porém, rompeu com os sócios por motivos não explicitados, alguns anos depois. Voltou para sua cidade e recomeçou a fazer os doces de maneira artesanal, em sua própria casa, com poucas ajudantes.


Hoje, aos 87 anos de idade, produz suas iguarias ainda nos fundos de sua residência e faz questão de dizer que comprou uma casa boa e muitas coisas com a venda dos doces. Tem três ajudantes14: Flávia, há 22 anos no trabalho; Tianinha, há 6 anos; e Lúcia, há pouco tempo. Além das ajudantes, três famílias bordam ou lixam as frutas para elaboração dos doces: 1 família borda o de mamão, a outra o de abóbora e a terceira o de laranja. O grupo faz e confecciona doces de abóbora, mamão, abacaxi, figo, cidra e laranjinha, esta com 6 qualidades diferentes. Ela vende, em média, 70 caixas por mês15, às vezes mais, mas nunca menos.


Da experiência de dona Tereza, muitas mulheres começaram a atividade de doceiras, uma vez que esta teve a possibilidade de inserção ao mundo econômico. Por sua vez, passou a ensinar aos interessados a arte de fazer doces artesanais e atualmente algumas famílias vivem da venda de doces.


O exemplo da Casa do Artesão Mariense se difere do caso da dona Tereza. A proposta é coletiva, mas também tem a conotação de melhor inserção ao mundo econômico. A Casa existe aproximadamente há sete anos e é composta por 49 pessoas associadas. Cada artesão tem um ateliê, em sua casa, e, depois de finalizadas as peças, levam-nas para exposição e venda na Casa do Artesão. O espaço é organizado por todos, mediante escala: para vendas, limpezas etc. Segundo Elisângela, atual presidenta eleita para o mandato de dois anos (2012-2014), a proposta é democrática e aberta, pois todos dão suas opiniões sobre o que está certo ou errado na condução da Casa.


A Casa é espaço de convivência, relacionamentos e trocas de experiências, além de ser um fórum de reuniões, que formalmente acontecem uma vez por mês para discussão das questões pertinentes à gestão da associação e demais questões internas, cujos resultados são lavrados em ata.


Na cidade há vários ateliês, mas nem todos fazem parte do quadro de associados, pelas dificuldades que os artistas enfrentam no dia a dia. Estes não recebem subsídio da prefeitura, salvo a concessão do espaço, uma estação ferroviária desativada.


Os artesãos vêm da zona rural do município, das roças locais, e são pessoas simples que têm esta atividade como fonte e forma de geração de renda. Desenvolvem trabalhos com materiais recicláveis, panos, papéis e, mais especialmente, a fibra de banana e a palha. As últimas advêm das roças dos próprios artesãos e as técnicas foram difundidas por um senhor16, o qual não faz mais parte da Casa do Artesão.


A prefeitura buscou apoio e orientação do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) e SEBRAE. Contudo, os encaminhamentos não foram satisfatórios e a organização, o processo de criação e a gestão da Casa do Artesão ficaram por conta do grupo. A organização é bastante peculiar e apresenta-se em perspectivas coletivas nas resoluções dos conflitos e da gestão dos negócios.


No caso da Associação Piranguçuense de Artesanato, fundada por nove membros em 2008, hoje se encontram inscritos 23 associados, sendo 16 deles artesãos. Conforme mencionado na introdução, a sede é alugada e sustentada com a colaboração dos associados artesãos, associados não artesãos, festas e comissão na venda de artesanatos. Os vendedores comissionados, como uma estratégia de manutenção da Associação, recebem 10% (dez por cento) do valor das vendas efetivadas.


A prefeitura do município de Piranguçu pouco ajudava. Na gestão anterior havia uma estagiária que mantinha a sede, também chamada de loja, aberta. Na gestão administrativa da prefeitura atual a figura do estagiário foi extinta e não há nenhum subsídio. Se naquela oportunidade o apoio era precário, nesta inexiste. Essa ausência não inviabiliza a existência da Associação, que se reúne periodicamente e cujos registros são lavrados em ata.


No dia a dia da Associação, observa-se que os artesãos desenvolvem um conjunto variado de artesanato e em pequena quantidade, mas vê-se na loja a diversificação dos produtos. Na fala de uma das fundadoras, o artesanato oferecido é basicamente voltado para o comércio, tendo como principais consumidores os turistas que passam pela cidade. Os moradores locais consomem produtos de forma esporádica e só os adquirem quando necessitam de uma lembrancinha de última hora.


O que mais chama a atenção são os objetos feitos da fibra da banana ou da palha desta ou da de milho, materiais que expressam o modo de vida, as figuras e os animais locais. Na variedade, a Associação comercializa saquinhos de cheiro para serem colocados em armários, fuxicos, trabalhos com jeans, com pinha, estandartes com restos de lã e de madeira, camisetas, argila e, principalmente, os patinhos de Piranguçu, tradição do município.


A renda gerada pela venda do artesanato no caso de Piranguçu, diferente das doceiras do Carmo, nem sempre é suficiente para garantir a sobrevivência no sentido pensado pela lógica do desenvolvimento econômico vigente. Contudo, para além das desistências e das baixas registradas, a Associação se traduz como um espaço de trocas de experiências e de saberes, as quais vão dando sentido às coisas, às vidas e às relações.


É dentro desse quadro que a dinâmica da cultura se apresenta como escape, na qual implica possibilidades, para o bem ou para o mal, manifestamente declaradas, pois a análise cultural, aproximando-se de Geertz17 (1989; 1997) é intrinsecamente complexa e quanto mais profundo mais imperfeito: um mundo de híbridos (LATOUR, 2012).


Tecnologias e saberes populares: um mundo de híbridos.


O trabalho realizado na cidade de Piranguçu (MG) é fruto de acompanhamento de uma associação de artesãos. Os dados foram coletados após cinco visitas ao local na condição de pesquisador observador e outras três registrando entrevistas com cinco associados, dos quais a última resultou em entrevista coletiva.


A associação conta com poucos associados artesãos (16 dos 23 totais na cidade) e é fato notar, tanto na fala dos entrevistados quanto no artesanato exposto, que efetivamente apenas quatro artesãos contribuem de forma significativa com peças para a associação. Os demais fazem contribuições esporádicas. Conforme afirma uma das entrevistadas (a principal artesã): “acabamos fazendo muita coisinha (peça de artesanato) e não tem quantidade (...). Tem gente que traz uma coisinha e depois não traz mais. O turista gosta e, quando volta, não tem mais o que ele gostou. Isso desagrada”.


O motivo do descompromisso é a pequena quantidade de objetos vendidos, associada à concorrência entre os produtos oferecidos pelos artesãos com maior experiência – que produzem peças com maior quantidade e qualidade – e os dos artesãos iniciantes e/ou aprendizes, que não conseguem ter resultados imediatos. A fala dos artesãos mais experientes esconde essa realidade. Quando questionados sobre a motivação, respondem como a principal expositora: “faz tempo que não entra artesão (...). Tem pessoas que começam, se encantam, depois desistem. As pessoas desanimam porque querem resultado muito rápido”. Outro elemento presente no discurso dos associados é que há uma contraposição entre a proposta da associação e a cultura local, marcada por negatividade e ausência de uma visão empreendedora: nossa ideia é fazer disso aqui uma complementação de renda (...). Mas não dá certo porque não vende, as pessoas dizem que isso não dá certo”.


Outro fator influenciador dessa realidade é a ausência de políticas públicas voltadas ao turismo por parte do poder público local. Situação que desestimula os associados, pois o desempenho econômico da associação poderia ser melhor se houvesse incentivo à formação de uma rede de turismo relacionando artesanato, aproveitamento da produção da agricultura familiar, restaurantes, fazendas abertas a visitantes e as poucas pousadas e hotéis existentes. Segundo informantes, “o município não tem secretaria de turismo (...). Tem secretaria de cultura, mas dá pouco apoio, oferece apenas uma estagiária para manter a loja aberta durante os dias da semana”. Na gestão atual ainda não havia sido designada uma estagiária.


Uma ideia levada em conta pelo grupo é de associação com uma Organização de Itajubá chamada Primata. Fundada pela afirmação da existência de interesse de turistas em aprender técnicas do artesanato local: “tem turista que quer aprender, to aguardando secar o milho pra dar curso de palha pra eles (...). Uma forma de a associação ganhar”.


Aventa-se a possibilidade de se criar uma atividade chamada Café com Patinho. A finalidade é a de associar a presença de turistas hospedados no Hotel Amantykir, em Itajubá, com visitas à comunidade de artesãos que trabalham com o barro na confecção dos “patinhos de Piranguçu”. Segundo as artesãs, o patinho é o produto mais antigo e tradicional do município. Cabe ressaltar este não tem lastro no imaginário local assim como, por exemplo, o doce pé-de-moleque de Piranguinho (município vizinho a Piranguçu). Outro elemento a ser considerado é que o referido produto artesanal é feito somente pela principal artesã da associação que, inclusive, segundo discurso próprio, não o confecciona em sua fase inicial. A artesã afirma que: “atualmente uma pessoa modela, eu compro dela e faço o patinho, pois não dá tempo de fazer tudo”. Isso nos remete ao controle de parte do processo produtivo do artesanato da associação.


Pode-se relacionar o fato ao respeito dos associados à artesã, na ideia de que ela construiu ao longo do tempo, com sua história e saberes, um capital social que dá identidade ao grupo. Toma-se a sugestão de capital social de Bourdieu (1998, p. 67) como:


[...] o conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de inter-reconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos), mas também são unidos por ligações permanentes e úteis.


Ao se tratar da história da cooperativa a referência é sempre a artesã, constando falas de confirmação às afirmações das demais associadas, como se fosse necessário seu referendo. A representatividade dessa artesã é fundamental ao grupo. Ela é a maior responsável pelo artesanato exposto para a venda na loja da associação e, neste sentido, a classificamos como o "indivíduo representativo", pois é o indivíduo/membro da comunidade que expressa suas concepções, crenças, práticas e expectativas do todo social a que pertence, agindo como um microcosmo de um estrato social inteiro. Os conteúdos citados e compartilhados espontaneamente pelos componentes da associação expressa tanto as singularidades como as generalidades de seu entorno (GINZBURG, 1987).


A aceitação estética de seus trabalhos é notada em seu processo criativo intuitivo, que muda de acordo com as circunstâncias. Suas características pessoais e subjetivas estão expressas nos híbridos18 produzidos por suas mãos. Os mesmos representam a importância da vivência de quem os projeta e sua experiência de vida (SANTOS, 2008), construções consideradas parte integrante do conteúdo funcional dos objetos produzidos (DORFLES, 1991).


A criatividade, como processo intuitivo na construção dos híbridos gerados pelo artesanato, influencia o simbolismo cultural presente nas formas, cores, sentidos presentes, inclusive, no modo de se produzir, mesmo que, à primeira vista, não os identifiquemos desta forma. Deslocam-se as atenções aos processos de construções simbólicas, de formação de capital social sem identificar as demandas políticas geradas na e pela construção desses híbridos.


Ao que concerne aos “híbridos”, para Latour (2005), apropria-se do mundo de maneira fragmentária, pois não se percebem os problemas do cotidiano como construções “híbridas”. Para tal, seria necessário estabelecer uma síntese teórica que possibilite analisar a realidade de maneira simultaneamente científica, sociológica, semiótica.


Em um mundo de incertezas geradas, por um lado, pelas crises políticas oriundas do naufrágio da utopia socialista e, por outro, pelo nascimento de preocupações globais com a ecologia, vê-se a delimitação clara da ciência e da técnica. Para Latour, após essa dupla digressão cheia de boas intenções, nós, os modernos, aparentemente perdemos a confiança em nós mesmos (LATOUR , 2005, p. 14).


Com base na literatura das ciências sociais, alguns autores tidos como clássicos apresentaram repertórios distintos para falar do nosso tempo e de nosso mundo: os condicionamentos, a naturalização, a socialização e a desconstrução. Cada uma dessas modalidades críticas se julgava competente em si mesma e, nesse sentido, não poderiam combinar uma com as outras. Pela visão aqui apresentada, o mundo deve ser tratado como um conjunto de “redes” que cortam os paradigmas – “objetivista”, “sociologizante” e “semiótico”. Esse mesmo mundo, ao não ser apenas de natureza objetiva, social ou discursiva, é ao mesmo tempo real, coletivo e discursivo. Nesse sentido, os fatos não podem ser reduzidos ao social:


Os fatos científicos são construídos, mas não podem ser reduzidos ao social porque ele está povoado por objetos mobilizados para construi-lo. O agente desta construção provém de um conjunto de práticas que a noção de desconstrução capta da pior maneira possível (LATOUR, 2005, p.12).


Latour (2012) afirma a expressão "ator-rede" como geradora da dicotomia “agência-estrutura”. A TAR (Teoria Ator-Rede) representa uma única entidade circulante, em vez das relações dualistas micro versus macro; indivíduo versus estrutura; ou, ainda, subjetivo versus objetivo. Isso implica a impossibilidade de existência do ator fora da rede e, nesse caso, os atores estão configurados conforme a posição que assumem, e a percepção da sua existência (inclusive os artefatos tecnológicos) só pode ser pensada pela relação entre os diferentes elementos (humanos e não humanos) que constituem a rede. Essa imbricação fornece identidade aos atores e lhes dá motivações e recursos para, a priori, serem atuantes. Não existe atuação fora da rede (LATOUR, 2012).


Nesse sentido, a identidade e a história da associação devem estar sempre associadas à figura dessa artesã cuja relação com os híbridos gera sua autoridade. A proximidade das demais com essa artesã implica poder simbólico e econômico dentro da estrutura da associação. Seu poder remete a uma crítica velada ao fato de os gestores públicos não se envolverem com a cultura local, afirmando o descaso com a associação. Sua fala se constitui em decreto no que diz respeito à culpabilização da gestão anterior instalada no município.


Alguns discutem a questão do desenvolvimento local sob a ótica da identidade da comunidade relacionando-a ao desenvolvimento familiar (CRUZ E VALENTE, 2005; DIEGUEZ-CASTRILLON, 2012; FERREIRA, 2011). Cada um traz perspectivas diferentes sobre as suas localidades, e os dois últimos afirmam a relevância da superação dos obstáculos baseada na “vocação” turística, fidelizando e ampliando a base de turistas, por meio do melhor aproveitamento de seus encantos naturais, históricos e culturais.


Outros autores afirmam a necessidade de ultrapassar um modelo de desenvolvimento no qual privatizam-se os lucros de curto e de médio prazos e socializam-se os prejuízos de longo prazo. Essa proposta tem sido apontada como economicamente insustentável em longo prazo até para a minoria da população (SOUZA; SAMPAIO, 2006). Segundo Alcalde; Le Bourlegat e Castilho, (2007):


Conceitos de desenvolvimento local e políticas públicas é um processo amplo e de debate permanente como nova maneira de promover o desenvolvimento, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida das comunidades, com capacidade de suprir suas necessidades mais imediatas, e de incrementar o intercâmbio externo por meio de ações comunitárias conjuntas.


Um dos problemas trazidos pela literatura está na configuração das estruturas organizacionais do turismo, na medida em que há sobreposições de função, baixa institucionalização dos processos de planejamento, desenvolvimento e marketing turísticos e pouca articulação entre os órgãos (BRITO; ARAÚJO, 2006) e qualidade no atendimento ao turista por meio de serviços de informação sobre a identidade local, constituição do trabalho artesão relacionado a essa identidade (GRÜNEWALD, 2003).


Em função dos argumentos acima apresentados, se aposta em uma perspectiva de parceria em que instituições produtoras de tecnologias, metodologias, conhecimentos de caráter político-jurídico e administrativo – principalmente públicas – trabalhem em conjunto com organizações populares e movimentos sociais organizados. Uma via alternativa é possível, desde que supere os problemas levantados no trato com os híbridos produzidos, com o processo de gestão construtor de precarizações, do ponto de vista do fim último, que é a geração de renda. Porém, é preciso se lembrar da necessidade de pensar em tecnologias que se insiram nos movimentos com o princípio das adequações sociotécnicas. Nesse sentido, deve-se levar em conta as contribuições do Construtivismo Social da Tecnologia e da Teoria da Inovação, os questionamentos que evidenciam o conteúdo político das escolhas tecnológicas e o compromisso dessas parcerias. As mesmas deveriam partir dos interesses expressos pelos movimentos sociais organizados, permitindo a ampliação do grau de autonomia técnico-política hoje existente, para a exploração de caminhos alternativos de desenvolvimento de atividades populares com conteúdo tecnológico. Tal rota pode superar os efeitos da precarização de projetos inclusivos de geração de renda e inclusão social.


Já no campo do poder público é importante que se pense na possibilidade de construção de canais de comunicação que, em diálogo com esses movimentos organizados, encontrem caminhos efetivos para a adoção de políticas públicas que gerem um processo de inclusão social. Tal fato não poderá prescindir de arranjos sociotécnicos que viabilizem a economia alternativa dos movimentos sociais, seja nos formatos estudados, seja no campo da economia solidária com suas formas autogestionárias de geração de trabalho e renda.


Considerações Finais


Nesta reflexão, foi proposto o deslocamento da discussão de desenvolvimento e tecnologias para o campo da cultura, com a incorporação das questões vinculadas ao imaginário e à noção de trabalho em diferentes modos inscritos, ou seja: nas práticas, no ser, no sentir, no pensar, no saber–fazer artesão.


Nas entrevistas e diálogos capturados na pesquisa de campo, sistematizados pelos recortes metodológicos e teóricos apontados, viu-se emergirem subjetividades, sociabilidades e solidariedades unidas à construção e apropriação de múltiplos significados simbólicos e identitários que dão os devidos sentidos à vida e à vida artesã.


No movimento de organização e das práticas artesãs, vê-se processos de negociação, convencimento, arregimentação, cumplicidade, tensões, decepções, enfim, manifestações que dão imperativos políticos, econômicos, culturais, morais, simbólicos às expressões populares de geração de renda. Vê-se, também, questionamentos, ações e projetos encabeçados pelos atores sociais envolvidos, o que coloca em enfrentamento-confronto-aproximação as funções sociais do setor privado e do poder público, a partir das dinâmicas econômicas, políticas, culturais e ambientais desses processos de geração de renda. Esses processos e questionamentos podem promover distanciamentos do poder público quando, de alguma forma, não têm ressonância entre este e os artesãos.


Dentro do objetivo pautado, o de revelar os modos de saber-fazer traduzidos na experiência popular artesã, na existência de objetos técnicos, dimensões do humano, do não-humano, do material e do imaterial contidos nessas práticas, levando-se em consideração as idealizações de desenvolvimento e de tecnologias, a falas das artesãs, nas diferentes cidades pesquisadas, vão destoando dos discursos, dos investimentos e das apostas num modelo hegemônico de desenvolvimento.


Os registros da atividade artesã, como fazem seus objetos, as técnicas usadas, a origem dos ensinamentos ou receitas, o número de pessoas envolvidas, modos de organização, produção e vendas, enfim, estabelecem marcos de experiências de geração de renda, as quais vão empregando sentidos e significados daquela atividade para a vida pessoal, social, cultural, emocional daquele indivíduo ou grupo. A arte de fazer ou de estar fazendo gera sentimentos de pertença.


Como enfatizado anteriormente, é importante que se pense na possibilidade de construção de canais de comunicação entre poder público e setor privado, também, para fomentar diálogo com esses movimentos organizados, na perspectiva de constituir caminhos para geração de políticas públicas inclusivas.


Trata-se de processo complexo, mas possível, de busca de alternativas à redução das desigualdades, por diferentes razões e ordens, e de constituição de outras referências às concepções hegemônicas de desenvolvimento e tecnologias.


Notas

1 Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP; pesquisador no Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão (GEPE- Ciências Sociais e Desenvolvimento) e coordenador do Programa de Mestrado em Desenvolvimento, Tecnologias e Sociedade da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI). E-mails: carlosalbertopimenta@gmail.com; carlospimenta@unifei.edu.br.

2 Mestre em Ciências da Religião e Doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP; Coordenador do Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão (GEPE- Ciências Sociais e Desenvolvimento) e pesquisador permanente do Programa de Mestrado em Desenvolvimento, Tecnologias e Sociedade da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI). E-mail: prof.adilsonmello@gmail.com.

3 Todas as informações sobre as doceiras de Carmo do Rio Claro foram prestadas pela Dona Tereza de Carvalho, de 87 anos de idade, e realizadas entre os dias 23/12/2012 a 16/01/2013.

4 As informações foram fornecidas por Elisângela, atual presidente da Casa do Artesão Mariense, entre os dias 26, 27 e 28/11/2012.

5 Inserção na Casa do Artesão desde meados do 2º semestre de 2012.

6 Marília Veríssimo Veronese (2012, p. 114-115) ao se apropriar das elaborações conceituais de Boaventura de Sousa Santos, traz ao debate sobre desperdício a categoria linhas abissais. Abissal no sentido de determinar experiências desperdiçadas ou desacreditadas ou quem tem o direito de acesso aos bens simbólicos e materiais, na perspectiva de ser cidadão ou estar na categoria de inferior.

7 Lopes; Silva (2008, p. 183-190) mostram com propriedade o lugar da viola caipira dentre desse processo de valorização das “tradições” caipiras como possibilidade, valorização e bens culturais.

8 Todas as vezes que for mencionado o nome de Elisângela, refere-se à presidenta da Casa do Artesão Mariense, em entrevista concedida em 27.11.2012, no Centro Cultural de Maria da Fé, MG.

9 Todas as vezes que for mencionado o nome da Associação Piranguçuense de Artesanato, refere-se à entrevista realizada com coordenadora da associação, em entrevista concedida em 10.01.2013, na Loja da Associação, em Piranguçu, MG.

10 Todas as vezes que for mencionado o nome da doceira Dona Tereza, refere-se às entrevistas concedidas nos dias 23.12.2012 e 16.01.2013 na cidade de Carmo do Rio Claro, microrregião de Alfenas, MG.

11 Nesse sentido, conferir os investimentos e apoio do governo brasileiro aos artesãos, como um mecanismo de superação das distâncias econômicas, em: http://www.brasil.gov.br/sobre/cultura/cultura-brasileira/artesanato .

12 Crenças Racionais, pensadas aqui, na perspectiva de Rauol Girardet (1987), quando estuda os mitos modernos presentes no pensamento político francês. Ou seja: o trabalho, a justiça, a educação, pregresso, o Estado passam a fazer parte de nossas crenças com o advento do que se convencionou chamar de moderno.

13 A questão é bem discutida a partir do conceito de tecnologias sociais trabalhado por Renato Dagnino em seu texto Contribuições ao marco analítico-conceitual da Tecnologia Social (2009). Nesse capítulo, como afirma o título, o autor constrói o conceito de TS a partir da crítica sofrida pelas Tecnologias Apropriadas. No decorrer da coletânea, Dagnino procura mostrar que a geração de conhecimento para a inclusão demanda das relações históricas entre TA (Tecnologias Apropriadas) e da TS (Tecnologias Sociais). Afirma que a inserção social demanda da identificação – que não deve ser a priori – dos problemas sociais a partir do incipiente contato que se tem com atores como os movimentos sociais, as comunidades locais organizadas e os fazedores de políticas sociais sobre o que, de fato, seria a demanda cognitiva dos processos de inclusão social.

14 Todas as ajudantes ou as pessoas que ela ensinou não tinham ensino médio completo.

15 Os doces, hoje famosos, são vendidos para empresas em Taubaté, SP; São José dos Campos, SP; São Paulo; Natal, RN; Campos do Jordão, SP. Uma curiosidade é que vende ao leilão de gado feito pela família Mendes Júnior na Fazenda Sabiá, em Escarpas, e em Uberaba, todas em Minas Gerais, cerca de 20 mil doces cristalizados.

16 O nome do senhor que ensinou as técnicas não foi revelado pela entrevistada, razão pela qual não houve o seu registro.

17 Segundo Geertz (1997), as transformações na forma de se pensar o social geram o fim das grandes teorias, o embaralhamento dos rótulos têm a ver com mudanças que perpassam tanto as humanidades quanto as ciências sociais. No momento em que a organização da vida social passa a ser concebida menos em termos de determinantes causais do que de símbolos (p. 36) a serem decifrados, cabe ao pensamento social reformular o seu instrumental conceitual, mas também a sua retórica analítica. Segundo o autor, "a variedade da expressão artística é resultado da variedade de concepções que os seres humanos têm sobre como são e funcionam as coisas. Na realidade, são uma única variedade" (p. 181).

18 Referência ao termo trabalhado por Latour (2005).



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Artigo recebido em 12/03/2013

Aprovado em 25/07/2013


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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

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