Est. Soc. [online]. 2014, vol.1, n. 20


A CASA AZUL NA CHAPADA DO ARARIPE: a experiência de uma incursão no Sertão do Cariri


THE BLUE HOUSE IN THE “CHAPADA DO ARARIPE”: THE EXPERIENCE OF A FORAY INTO THE “SERTÃO DO CARIRI”


Vanessa Louise Batista1


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Resumo

Esse texto é fruto de uma incursão da autora ao Sertão do Cariri, cuja experiência trouxe o contato com a socio e biodiversidade do lugar, gerando reflexões profundas e a necessidade de um olhar complexo para essa realidade. Suas riquezas socioambientais diversas impactam a identidade dos que por ali se sediam. Em Nova Olinda, a inserção de um espaço sociocultural, no centro da cidade, resguarda lembranças e conta a história do território, vinculando o citadino ao mundo. A diversidade presente nos aspectos da fauna e flora e nas manifestações culturais da região, quando acessada, leva os indivíduos a se perceberem na complexidade do território. O processo de conscientização em espaços como esse deve considerar a necessidade de transitar por aspectos expandidos da consciência, conectando-se com a ancestralidade tão presentificada na vida do lugar. Assim, o texto assume forma de ensaio e visa uma hermenêutica da inserção sociocomunitária curiosa e em movimento de transformação, tentando acessar níveis distintos da construção poética nesse território tão diverso e complexo como o Sertão do Cariri.


Palavras chaves

Sócio e biodiversidade. Fundação Casa Grande. Consciência. Poética.


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Abstract

This text result of a raid in the “Sertão” of Cariri whose experience brought into contact with the social and biodiversity of the place, creating deep reflections and the need for a complex look at this reality. Their diverse environmental wealth impact the identity of that over there if headquarter. In Nova Olinda city, inserting a sociocultural space in the city center protects memories and tells the story of the territory, linking the city to the world. This aspect of diversity in flora and fauna and cultural events in the region, when accessed, takes individuals to realize the complexity of the territory. The process of awareness in spaces like this should consider the need for expanded transit aspects of consciousness, connecting with ancestry as presentified the life of the place. Thus, the text takes the form of essay and targets a hermeneutics of curious socio-communitarian integration and transformation movement, trying to access different levels of poetic construction that territory as diverse and complex as the “Sertão” of Cariri.


Key words

Social and biodiversity. Casa Grande Foundation. Consciousness. Poetic.

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A CHAPADA DO ARARIPE


A ordem global busca impor, a todos os lugares,

uma única racionalidade. E os lugares respondem

ao mundo segundo os diversos modos de sua própria

racionalidade. [...] Cada lugar é, ao mesmo tempo,

objeto de uma razão global e de uma razão local,

convivendo dialeticamente.

Milton Santos


A Chapada, a Floresta, o Caldeirão, as Romarias e 

o Padre Cícero, as Sertanias e o Cangaço, as 

Danças e Cantorias, as Secas e a Natureza do 

Sertão do Cariri.


Esse texto pretende-se um relato sob a perspectiva de um olhar estrangeiro a esse local que, por sua grandeza e diversidade, se caracteriza como um lugar precioso e sagrado e inspira uma leitura poética do espaço a partir de um contato transcentrado com a região. Portanto, requer cuidado, como quem pede licença para adentrar a floresta, o mar; respeita tanto a grandeza, quanto a miudeza da Chapada do Araripe. Ela é continente de inúmeros fenômenos naturais, culturais, e até mesmo "sobrenaturais", e de riquezas socioambientais diversas como patrimônios inigualáveis. A mística presente no cotidiano dos citadinos deixa rastros de outrora e faz do tempo um espaço habitável, passível de trânsito entre presente, passado e futuro.


A Floresta Nacional do Araripe-Apodi (FLONA Araripe) foi a primeira criada no território brasileiro, a partir do Decreto Federal 9.226, em 02 de Maio de 1946. Originário do período Cretáceo, seu solo contém fósseis que compõem um vasto sítio arqueológico e paleontológico. A vida, ali, é diversa: aves, répteis e mamífetos; mata atlântica, cerrado e caatinga; minérios, águas. Porém, até que fosse demarcada, vários trechos da floresta foram destruídos pelo manejo predatório da terra, seja pela criação de aeroporto clandestino, criação de gado de corte, ou monocultura da cana, do feijão e do milho.


Mesmo sofrendo com os impactos da seca, as águas subterrâneas compõem uma grande reserva hídrica que possibilita, em muitos casos, a manutenção da vida vegetal e animal na superfície. E embora a prática agrícola seja predominante no território como um todo, no complexo CRAJUBAR (extensão conurbada entre as cidades Crato, Juazeiro e Barbalha), a lógica desenvolvimentista vem se estabelecendo pela via industrial como modelo de vida nessa localidade. A velocidade com que tal fenômeno se evidencia só faz negligenciar a vida rural que pulsa nos arredores da Chapada do Araripe.


Enquanto principal referência geográfica da mesorregião do Sul Cearense, a Chapada:


(...) constitui-se desde sua formação um verdadeiro refúgio para a vida selvagem do Nordeste. Uma ilha de floresta úmida no semi-árido, um lugar de maior riqueza, representando um ambiente significativo e heterogêneo, onde evolui uma comunidade bastante diversificada de plantas e animais (LIMAVERDE, p.65, 2006).


Nela, a FLONA ARARIPE é considerada uma das florestas mais ricas em diversidade ambiental do Nordeste e reduto de mata atlântica. Como unidade de conservação é administrada pelo IBAMA e ocupa uma área de fronteira entre o Ceará e Pernambuco, abrangendo partes dos municípios de Barbalha, Crato, Jardim e Santana do Cariri, totalizando 39.262.326 ha.


O manejo predatório da terra, nessa redondeza, ainda destrói a cobertura vegetal e reduz a vida da fauna e flora silvestre, comprometendo a qualidade da água e o equilíbrio do solo. A exploração abrange também a extração de minérios e a comercialização de fósseis. Por outro lado, as ações preservacionistas se espalham pelo território e visam trazer novas perspectivas de ocupação e manejo da terra e da vida no sertão.


Com um pouco mais de sensibilidade, esse lugar leva o pesquisador a adentrar em um universo imaginário para construir um entendimento sobre as possibilidades de vida que se consolidaram ali, desde os primórdios da história humana. Os aspectos mitológicos e lendários, ainda preservados pela oralidade e espirituosidade da gente do lugar, se propagam entre os moradores da região e se mantêm como marca de um lugar cheio de poder, mistérios e superstições.


Conta a lenda indígena regional que, no Cariri, existiu há muito tempo uma lagoa encantada2, da qual os Kariri são descendentes. Segundo esta lenda, a lagoa encantada é a morada da mãe d’água, uma enorme serpente metade mulher, que descontente com a chegada dos invasores brancos, um dia vai retirar a pedra que tapa a nascente do rio Batateira e inundar novamente toda a região3.


A vida cultural, diversa por natureza, guarda em si uma heterogeneidade histórica passível de ser conhecida, resguardada e propagada como forma de dimensionar e evidenciar a identidade do "Povo Cariri". Desde os vestígios arqueológicos da população autóctone, encontrados nas profundezas e superfícies do território, até as manifestações da cultura popular, evidenciadas através das esculturas de madeira e tramas em palha, músicas e danças, nas festas regionais e religiosas, há traços importantíssimos que revelam a singularidade socioambiental do lugar. A miscigenação ali presente atinge estados de consciência tal que as sensações remetem a lembranças remotas, com profundidade e abrangência humanitárias.


Pelo contato com essa realidade caririense, a vivência traz em si uma força arquetípica (JUNG, 2000) presentificada no modo de vida do povo e do lugar, exigindo do pesquisador um exercício de ampliação da consciência para refletir com maior teor compreensivo acerca dos fenômenos sociopolíticos e, principalmente, psíquicos advindos das relações que ali se estabelecem. E para se perceber a beleza da produção se manifestando de todos os modos e em muitos lugares do território, é essencial um olhar poético (Bachelard, 2008). São modos de vida manifestos com arte e poesia, com devoção e misticismo, como é possível perceber nas brincadeiras de reizado, manero pau, côco, bandas cabaçais, festas de padroeiros, folguedos e romarias – manifestações ligadas à vida rural e comunitária que, ainda hoje, resistem à pobreza, ao descaso do poder público e ao avanço das "culturas de plástico" que assolam esse território.


Além da sócio e biodiversidade vastíssimas, em sua composição geomorfológica, a Chapada do Araripe pode ser considerada “o mais rico depósito de vertebrados fósseis do Brasil e um dos mais importantes do mundo, chamando atenção pelo excelente estado de preservação”4 em que se encontram muitos dos sítios arqueológicos identificados. Por outro lado, é um foco para o comércio ilegal de fósseis, já que armazena raridades, como os dinossauros do grupo terópodes (carnívoros) e, também, peixes, tartarugas, crocodilianos, pterossauros, foraminíferos, cristáceos, gastrópodes, ostracóides, bibalves e equinóides.


Em função de tamanha riqueza paleontológica, arqueológica, além da biodiversidade local, a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Governo do Estado do Ceará, junto à Divisão de Ciências da Terra da UNESCO, reconheceu e chancelou essa região como Geopark Araripe, em 2006, o primeiro das Américas, coordenado pela Universidade Regional do Cariri (URCA). O Geopark é formado por nove sítios de interesse, distribuídos pelo Cariri e denominados de geotopes, por serem os locais mais representativos de seus estratos geológicos e de suas formações fossilíferas5.


Complementa essa configuração o processo de conurbação desencadeado entre as cidades de Crato, Juazeiro do Norte, e Barbalha, formando o que se denomina de Triângulo Crajubar. Tal processo produziu um território expressivo no que se refere ao comércio, à indústria, à produção de conhecimento e aos serviços públicos, como hospitais, além de dar mais visibilidade às expressões religiosas e artísticas (IPECE, 2009). Nesse contexto, a região obteve apoio significativo do Banco Mundial para a conquista do título de segunda Região Metropolitana do Ceará6.


Nos espaços onde tal modelo se instalou, a vida local submeteu-se à dinâmica econômica globalizada, pelo desenvolvimento da precariedade dos bens naturais e culturais, a massificação do acesso aos meios de produção e consumo etc. Há que se considerar, ainda, nesse bojo de situações, as heranças autoritárias das políticas que incidiram no Cariri, a cultura do cangaço (Lampião) e os registros religiosos da devoção ao "Padin" Padre Cícero.


Outra questão importante a considerar é a dinâmica turística, que complexifica a situação econômica e histórica da microrregião, pois Nova Olinda está dentre os 65 destinos indutores de desenvolvimento turístico regional incluídos na Política Nacional de Turismo, através do Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil. Esta situação reflete na dinâmica econômica local e os desafios de se conseguir planejar tal ordenamento social e público são muitos, assim como as possibilidades em executar projetos de envergadura e poder projectual capazes de envolver a população e potenciar um novo caminho de socialização.


Assim, as ações de ordem macrossocial que atingem a região compõem e retroalimentam as relações interpessoais e as dinâmicas psíquicas dos sujeitos, produzindo uma infinidade de problemas a serem solucionados através de uma ação estratégica com interesses públicos bem delimitados. Contudo, essa perspectiva vem se apresentando de forma pontual e em intervenções setorizadas no âmbito privado e nas ações comunitárias, demarcando modos sustentáveis de vida no território. Esse é o caso de algumas iniciativas desenvolvidas na cidade de Nova Olinda.


Um recorte da vida no sertão a partir da cidade de Nova Olinda


(...) rios se atravessa, sempre secos no verão;

mas no inverno eles correm encachoeirados,

das águas que descem da serra (...).

Raquel de Queirós


A pequena cidade sediada na Chapada do Araripe, quando habitada pelos índios Kariri, era denominada Cariú, que significa “água que sai do mato”, em função da forma curvilínea do rio que atravessa seu território, por entre a mata existente nos tempos primitivos – o atual Rio Cariús. Com 14.256 habitantes (IBGE, 2010) foi, inicialmente, um bairro de Santana do Cariri (cidade vizinha) chamado Tapera, mas, em 1933, por forças políticas, ganhou o status de distrito do mesmo município e só em 1957 foi emancipada e renomeada Nova Olinda, cujo batismo foi feito por um missionário pernambucano que se sediou por algum tempo nessa localidade. Diz a gente do lugar que, por ter sido mal acolhido pelos proprietários da Tapera, o missionário amaldiçoou a cidade por 4 gerações, tempo que coincide com a fundação de um espaço educativo e cultural, a Fundação Casa Grande.


A proximidade da cidade com a zona metropolitana repercute no cotidiano dos citadinos em diversos setores e no acesso aos serviços e benefícios provenientes desse polo urbano-industrial: trabalho, saúde, educação, comércio. Os sistemas de produção e geração de renda no município abrangem os cargos públicos, a prática agropecuária, a apicultura e os serviços industriais de extração da gipsita e da pedra cariri. A prática agrícola é predominante, mas realizada irrefletidamente, utilizando-se da queimada para roçar os terrenos e da monocultura para a produção de alimentos destinados ao comércio ou para servir de ração aos animais de leite e corte.


As indústrias funcionam mediante a isenção de impostos municipais, por oferecerem empregos aos citadinos que estão distantes da agricultura e buscam a inserção no mundo produtivo urbano-industrial. Tal modelo deflagra um ritmo de trabalho tal que inibe a percepção de alternativas relacionadas a atividades produtivas sustentáveis7 e implica em uma condição de consumo dos bens e serviços ilusoriamente equiparados aos oferecidos nos grandes centros. A difusão da cultura de consumo fomenta a ruptura de vínculos de toda uma geração com suas raízes culturais locais e a distancia dos valores vinculados ao território de vida.


A abundância hídrica dessa região sempre alimentou, e ainda alimenta, a vida na Chapada do Araripe, contudo, nem todos seus rios recebem o cuidado que lhes são devidos. Em Nova Olinda, o Cariús é um rio perene que atravessa a cidade apresentando seus momentos de cheia e de seca. Muitos dos esgotos das moradias são dispensados nesse rio, o que faz dele poluído e insalubre. Outros veios d’água passam pela cidade em tempos de chuva, contudo, não permanecem durante todo o ano. São riachos que trazem a areia, muitas vezes extraída para a construção civil, assim como os terrenos pedregosos explorados para a pavimentação das ruas, aterramento e alicerce das casas.


A extração de areia e pedras, própria da região, é realizada indiscriminadamente, sem a preocupação com as riquezas arqueológicas e paleontológicas do lugar, o que resulta em uma prática não-sustentável de exploração do solo e do manejo das terras locais. Os órgãos públicos competentes vêm se dedicando em transformar tal prática na direção de um uso regular e legal dos espaços extrativistas.


Dessa forma, a cidade de Nova Olinda enfrenta um crescimento desordenado e uma prática não planejada de ocupação do território, assim como uma forma alienada de "inclusão" que repercute em uma degradação do espaço vivido e das relações interpessoais, gerando um distanciamento intergeracional e um processo de desterritorialização da identidade caririense. Tal situação torna-se cada vez mais perceptiva, dificultando um planejamento urbano adequado e uma política socioambiental efetiva.


Outra questão relevante em relação aos modos de vida na cidade: as moradias destinam a primeira sala ao Coração de Jesus, como lugar das rezas e ladainhas da "Renovação"8. Por outro lado, muitas reformas, feitas sob forma de mutirão antigamente, hoje estão praticamente extintas da vida nessa localidade. Já o modelo urbano de Nova Olinda retrata a história de um povoado e suas tradições sertanejas com influências ibéricas e indígenas. Todavia, suas casas coloridas e enfeitadas com platibandas nas fachadas estão sendo descaracterizadas, sendo tais fachadas substituídas por azulejos lisos, escondendo os traços culturais em nome da praticidade da conservação. Essas permanências e impermanências, entre outras, sugerem que a consonância entre o material e o imaterial, na cultura local, está sempre presente, mesmo que em tensionamento.


Nesse contexto, desde a chegada da Fundação Casa Grande-Memorial do Homem Cariri, a cidade vem sofrendo algumas pequenas mudanças que, ao longo dos anos e com a reverberação dos trabalhos desenvolvidos em âmbito nacional e internacional, têm se evidenciado na cidade e na região.


A CASA AZUL


Era uma vez uma Casa Azul,

no meio do sertão..

Rosiane Limaverde


A Fundação Casa Grande-Memorial do Homem Kariri é um espaço utilizado e gerido por jovens e crianças da comunidade local e tem um papel formativo no processo profissional e cidadão daqueles que dela participam. Fundado por um casal de músicos (Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde), em 19 de dezembro de 1992, o projeto completou 22 anos de existência adquirindo relevância nacional e internacional, a ponto de influenciar as políticas públicas em âmbito local e federal, mediante a repercussão dos trabalhos desenvolvidos por intermédio de editais e a participação em grupos de trabalho dos setores governamentais vinculados ao Ministério do Turismo e da Cultura.


A música, historicamente contextualizada, foi o princípio e a base para a educação e formação dos caminhos que visam levar à transformação social, ampliando o olhar para o mundo e suas possibilidades de criação. As ações de formação artística das crianças e jovens sensibiliza-os através da música a gerar outras formas de atuação na produção cultural9. Essa vinculação levou a outras competências culturais, abrindo possibilidades de transformação das condições de vida de seus participantes.


"A música pode transformar o mundo, sim!", diz Alemberg, um dos fundadores desse projeto, que, agenciando partilhas de experiências com as crianças do lugar gerou o que se encontra enraizado em Nova Olinda: A Casa Azul no meio do sertão. Essa experiência em desenvolvimento hoje é reconhecida por desempenhar função importante na formação de jovens pesquisadores, gestores culturais e artistas em campos distintos do saber e do fazer: arqueologia, história, música, animação e produção de HQ, vídeo, rádio, fotografia, esporte e turismo etc.


O Ministério do Turismo do governo federal brasileiro reconheceu Nova Olinda entre os 65 municípios indutores do turismo no Brasil e afirmou publicamente que tal fato se deu, principalmente, em função do segmento desenvolvido pela Fundação Casa Grande: um “turismo de conteúdo”, como define Alemberg Quindins. E, na condição de município indutor do turismo regional, Nova Olinda assumiu responsabilidades de gerência nas políticas locais e recursos para estruturar a cidade e região a fim de receber turistas.


A Casa Azul, onde funciona o Memorial do Homem Kariri, foi o marco zero dessa instituição. Considerada a Casa Grande da antiga Tapera, o marco zero da cidade, foi propriedade da família de Alemberg e restaurada pela prefeitura municipal na ocasião em que seu fundador e herdeiro propôs e assumiu o projeto de fazer desse local um espaço que resguardasse a história do povo cariri. Além disso, essa edificação abrigou a rádio que propagou várias informações coletadas pelas crianças junto aos moradores da cidade, desencadeando um processo comunicativo intergeracional, levando as crianças a estabelecerem contatos com a vida antepassada do Cariri e da Chapada do Araripe. Esse imóvel também abrigou a brinquedoteca, a gibiteca, a biblioteca e até, uma emissora comunitária de TV (em seus primórdios) e a videoteca, hoje DVDteca.


Progressivamente, o empenho pedagógico e político dos fundadores e das crianças e jovens possibilitou a expansão física da Fundação. Atualmente, a mesma possui uma infraestrutura capaz de abrigar diversos laboratórios e seus respectivos materiais, instrumentos e equipamentos, além de cantina, alojamentos e uma lojinha em um complexo edificado ao redor da Casa Azul. A Fundação conta, também, com outros espaços na cidade: o Sítio-escola, onde acontecem as aulas de campo de arqueologia, e o Parque Ambiental dos Cajueiros, onde se desenvolvem projetos de esporte, lazer e ecologia. Essa composição institucional e metodológica a inseriu na Rede Casas do Patrimônio, chancelada em 2009 pela Coordenação de Educação Patrimonial do Departamento de Articulação e Fomento - IPHAN/DF como Casa do Patrimônio da Chapada do Araripe. Esse breve histórico, visto como processo, permite identificar as estratégias pelas quais o projeto produz “um enraizamento social das tecnologias”, como definido por Miége (2009), de forma a compor uma objetivação dos referentes identitários locais, em tensão, e reconstruí-los em uma “manifestação cultural expressiva” (MARTINS, 2009). Nessa reconstrução identitária, algumas traduções foram elaboradas e se fazem presentes nos espaços da Fundação. Destacarei três delas na sequência.


História, mitos e lendas: por onde tudo começou. Em 1992, a Fundação criou um Museu para “contar a história do indígena e sua cultura, juntando em acervo uma coleção de referência sobre a pré-história do homem na Chapada do Araripe, apresentados em acervo lítico, cerâmico e de registros rupestres. Inicialmente, “todas as peças pertencentes ao acervo do Memorial foram encontradas em descobertas fortuitas e doadas por particulares para formar uma coleção de referência para a região” (LIMAVERDE, 2006, p. 3). Desde então, uma proposta educativa se amplia através de um dinâmico e sistemático programa de formação, trabalhado para a identificação dos bens culturais de natureza material e imaterial, como também dos sítios arqueológicos e mitológicos do Cariri. Atualmente, o Memorial está atrelado ao laboratório de Arqueologia, onde se prepara jovens pesquisadores acompanhados por uma equipe de arqueólogos da região, como também de pesquisadores e extensionistas visitantes de universidades brasileiras (UFPE, UFPI, URCA) e portuguesas (Universidade de Coimbra e Mértola)10.


As atividades neste campo de atuação da Fundação correspondem a uma cadeia de ações que possuem objetivos formativos e informativos, desde o contato com os mitos e lendas, o processo das escavações nos sítios arqueológicos, como também o tratamento aos objetos e elementos da cultura local que evidenciam a vida primitiva no Cariri.


Desta forma, desenvolvem o mapeamento de sítios arqueológicos na região e no estado; a catalogação e preservação dos mesmos junto aos proprietários das áreas identificadas e dos objetos neles encontrados no laboratório de arqueologia; as escavações são orientadas por técnicos especializados com participação dos jovens e crianças interessadas em aprender as técnicas adequadas a esta prática e a deparar-se com objetos e pinturas que expressem a cultura de seus antepassados; e também, da recepção e apresentação do acervo do Museu aos visitantes que vêm conhecer a Casa Grande.


Comunicação e Artes: caminhos por onde se trilha. No início, era a Casa Azul, o lugar em que as experiências comunicativas, lúdicas, históricas e artísticas aconteciam. E, como já mencionado, as conquistas estruturais possibilitaram abrigar as atividades formativas em espaços específicos a cada uma delas. No campo de comunicação e arte os trabalhos se dividem entre os laboratórios, para a captação, produção e edição dos materiais relacionados aos temas trabalhados. Cada laboratório se responsabiliza por organizar as ações próprias em TV, rádio, editora, gibiteca, discoteca, biblioteca, videoteca e brinquedoteca. Através desses equipamentos a Casa se amplia em espaço físico na medida que a produção dos jovens e crianças ampliam seu campo de atuação, na produção de programas de vídeo, de rádio, produção e editoração de gibis, capas de CDs e DVDs, shows etc. Suas realizações ganharam espaço nas TVs brasileiras e estrangeiras, nas universidades de vários estados e países, dentre vários setores do poder público federal.


A responsabilidade da produção cotidiana e a participação de crianças e jovens nesses laboratórios se dá através de funções e papéis assumidos no Conselho da Fundação. Cada qual assume a função que lhe é atribuída segundo a necessidade da instituição e seus interesses pessoais. O grupo dos jovens cuida da limpeza diária e ensina as crianças a manter e organizar o espaço da Casa. Os diretores zelam pelo funcionamento da casa fazendo reuniões uma vez por semana e gerenciando o sistema administrativo, burocrático e jurídico.


O processo administrativo e financeiro é gerido por um grupo de profissionais dedicados ao escritório, que funciona na cidade do Crato, de onde se decidem questões de caráter burocrático, contábil e jurídico. Em função da maturidade de alguns dos jovens que cresceram na instituição, foi formado um Núcleo de Projetos, em que estes jovens-adultos se dedicam a aprender tais procedimentos e alçar voos na elaboração, captação e gestão dos projetos. Esse percurso formativo deflagra um processo de profissionalização e inserção dos mesmos na dinâmica de trabalho, concretizando e viabilizando habilidades desenvolvidas e potencializadas durante o tempo de vida dedicado às atividades nesse espaço cultural.


Esporte, lazer, turismo e ecologia: por amor à cidade


Os espaços amados nem sempre querem ficar fechados! Eles se

desdobram. Parece que se transportam facilmente para outros

lugares, para outros tempos, para planos diferentes de sonhos e 

lembranças.

Gaston Bachelard


A fim de incentivar o esporte na cidade, a Fundação reivindicou ao governo local um terreno que foi destinado aos jogos de futebol para crianças e jovens e, também, para desenvolver trabalhos de caráter ecológico: o espaço foi batizado "Parque Ambiental dos Cajueiros". Revitalizou o espaço destinado ao parque e organizou um torneio oficial infanto-juvenil, no ano de 2010, retomando a formação do time municipal, o Titã. Ao final do mesmo ano, o Barcelona Futebol Clube assinou uma parceria com a Fundação para desenvolver intercâmbios e trabalhos educativos entre Barcelona, na Espanha, e Nova Olinda- Ceará/Brasil.


Assim, as ações da Fundação em relação à cidade se diversificaram em iniciativas. Muitos dos familiares se envolveram nas ações propostas pela instituição para dar suporte ao desenvolvimento turístico local, criando a Cooperativa Mista de Pais e Amigos da Casa Grande (COOPAGRAN), cuja participação se refere à produção de artesanato, oferta de alimentação e hospedagem domiciliar aos visitantes. Em decorrência dessas ações, muitas mães desenvolveram e aprofundaram suas atividades e se organizam, no momento, para criar figura jurídica e ampliar as condições de prestação de serviços para a “freguesia” que foi se construindo pouco a pouco, incluindo aquela produzida na Casa Azul.


No tocante aos artesãos locais, a parceria com os jovens repercutiu em reconhecimento e acesso, gerando demandas nacionais e internacionais. Parte do roteiro apresentado aos visitantes da Casa Grande são os espaços do “mestre do couro”, sêo Expedito Seleiro, mas também Dona Dinha, tecelã de redes e outros alocados em cidades vizinhas, como sêo Françuli, na produção de miniaturas de aeronaves e balões, em Potengi - cidade dos ferreiros11. As ações no campo turístico têm fomentado a economia local, garantindo novas fontes de renda para as famílias da cidade e a valorização da identidade cultural, segundo sujeitos da cidade.


O interesse da Fundação em estabelecer contatos com os mestres locais amplia-se, já que o modelo rural de vida é predominante na região e os interesses por modos sustentáveis de organização da cidade é valorizado nessa casa de cultura. Adentrando o bairro dos Patos, há um agricultor chamado José Artur que, com auxílio da Associação Cristã de Base - Crato - desenvolveu um sistema agroflorestal para manejo de suas terras, obtendo muitos benefícios diante do enfrentamento das secas. A agrofloresta do sêo Zé Artur é um lugar valorizado e propagado aos visitantes, turistas e estudiosos que se destinam a Nova Olinda para vivenciar o cotidiano dessa casa.


Essas atividades estão imersas em uma rede de ações que produzem um engajamento local e nacional. Entre elas está a vinculação à Rede Brasileira de Turismo Solidário e Comunitário (TURISOL), além de trocas de experiências com outros grupos do país que também produzem o turismo de base comunitária e buscam a sustentabilidade das famílias e comunidades. A COOPAGRAN vem se especializando nas atividades voltadas ao turismo comunitário e ampliando, gradativamente, o número de famílias envolvidas no trabalho. As pousadas domiciliares levam para dentro das casas dessas famílias pessoas de todo o mundo, com experiências interessantes, conteúdos profundos e vastos a trocarem com os jovens e seus pais, tios, avós. Os critérios de convivência são claros e a Fundação ajuda a zelar pela segurança, bem estar e amizade entre o hóspede e o anfitrião. O que Alemberg denomina "turismo de conteúdo" são os cuidados com os pequenos detalhes da relação com o visitante; a troca de experiências de vida e visão de mundo; a partilha do cotidiano; a construção de amizades e das possibilidades de encontro e produção.


As trocas de experiência acontecem também na Casa Grande, nos eventos que são organizados para aprofundamento do conhecimento dos jovens e crianças, assim como para os que vêm participar de seminários, mostras e encontros temáticos, que podem ter frequência anual, bianual ou semestral, de acordo com recursos captados. Assim ocorreu em 2009, com a realização do I Seminário Internacional de Turismo de Base Comunitária.


Tais reconhecimentos atraíram colaboradores que compõem hoje uma rede de amigos intitulada "Coletivo de Amigos da Casa Grande", considerada como uma embarcação aberta que pretende estar sempre a caminho de ampliar-se e de encontrar vários portos para deixar as sementes e os frutos desse trabalho. Essa rede tem recebido sempre "novos tripulantes", colaboradores espalhados pelo mundo: estudiosos, pesquisadores e artistas que, através de seus trabalhos, ou em parcerias, compartilham a abertura de caminhos e portas para jovens e crianças do sertão encontrarem suas potencialidades.


CEGAR AO CARIRI E ADENTRAR A CASA AZUL


A hermenêutica do estrangeiro que se faz habitante


Adentrar essa região é um desafio antropológico, pois sua característica metropolitana tende a mascarar as nuances da ruralidade presentes na vida desse território (PEREIRA DE QUEIRÓS, 1978). A exuberância da Natureza no Cariri exerce uma força entre os moradores dos arredores da Chapada; se enraíza entre eles através de um pensamento místico fortemente presente em seu cotidiano.


O detalhamento descritivo do lugar foi um convite a viajar pelo espaço imaginado, para contextualizar uma reflexão que pretende partilhar uma inquietude frente a essa imensidão de informações que adentra e invade o pensamento, e afeta os corpos. A interpretação aqui está atravessada por uma percepção que atende aos sentidos com sonoridade, cheiro e gustação, com muito "tato", contudo, menos proximidade, menos toque. Esse modo busca reparar outros sentidos, outros modos de perceber o entorno, as relações ao redor. Outra leitura de mundo, outra temperatura, outra imagem de si, outro tempo.


O processo de "conscientização" (Freire, 2011) em espaços como esse traz a necessidade de transitar por aspectos arquetípicos12 (JUNG, 2000) da paisagem e da cultura, conectando-se com a ancestralidade tão presentificada na vida do lugar. Com o espírito de uma pesquisadora social, em um contexto múltiplo e complexo por natureza, deve-se considerar a pujança do lugar e rever os caminhos pelos quais se desperta os sentidos a para liberdade do viver junto. Além do quê, vale perguntar: quais os modos possíveis da partilha do viver, nesse território?


Na cidade de Nova Olinda, a vida é pacata, mas assediada pelas inúmeras demandas midiáticas e de consumo. A confluência das condições para a construção da identidade se direciona segundo o modelo hegemônico de vida, mediante heranças de insubordinação dos Kariri, por um lado, e as autoritárias da colonização, do cangaço e da devoção ao Padre Cícero, por outro. Os desmandos, o machismo, a dominação e a injustiça são situações naturalizadas entre a população, ainda pouco questionadas de modo consciente e ativo, e mais, como juízos dos fatos.


Metafórica e paradoxalmente, há uma sequidão e aridez nas relações políticas e interpessoais, e também uma fertilidade; assim como no território cariri. Observando a natureza nesse lugar, após uma seca, basta uma chuva para que a planta floresça e nasça uma "esperança projectual13" (MALDONADO, 1971) para atuar nesse ambiente14 (SANTOS, 1997). É incrível perceber a força de restauração que as plantas possuem nesse lugar, inspirando uma força de reestabelecimento da integridade do ser vivo, que faz pensar: quais são a força e a ação facilitadoras para se transpor as barreiras genealógicas e antropológicas intrínsecas à vida das pessoas? E como, ao sentir tal força, gerar a ampliação da consciência a um nível tal que possa deflagrar um movimento de construção do espaço de vida?


No universo cultural e sociopsicológico do novolindense há tanto a aridez quanto a fertilidade. Simbolicamente falando, há uma e outra condição de vinculação, muito embora esteja conformada pela hegemonia e venha se manifestando através da violência crescente no território. Mas também, há brechas em que a criança e o jovem, quando acolhidos, entregam-se a um processo de diferenciação e descobrem-se outros em suas habilidades e competências. Esse parece ser o movimento que a Casa Grande busca orientar enquanto instituição, se preocupando com a socialização das pessoas que ali convivem, para que se encontrem e descubram caminhos, jeitos de fazer e que sejam capazes de reconhecer o lugar do outro, com respeito de quem aprende e ensina, de quem recebe e dá, de quem constrói e compartilha.


Ao lidar com o quadro apresentado e derivado do modo de vida na cidade, o desafio objetivado pela fundação é enfrentar as condições com que crianças e jovens chegam à instituição e confiar-lhes a responsabilidade de condução de um espaço como a Casa Grande, assim como da própria vida, diante das oportunidades que ela lhes oferece. Isso implica em uma reflexividade constante e um acolhimento afetivo "suficientemente bom"15 (WINNICOTT, 1975), para que cada um se sinta fortalecido pelo grupo no caminho de diferenciar-se e tornar-se quem se é, sendo.


Tal suficiência está diretamente ligada à força e ao acolhimento grupal como condição fundamental para o encontro entre essas pessoas. O grupo compõe-se, aqui, como "matriz da identidade" dos sujeitos que participam do mesmo (MORENO, 1977). Essa matriz – geradora de conteúdos, vínculos e diversidade de vidas – pode estar a serviço da liberdade de existência dos sujeitos ou da subordinação dos mesmos aos modelos instituídos de convivência e inserção na vida social.


Revisitar entendimentos da vida e do mundo, questioná-los e construir outros para substituí-los não são tarefas fáceis – exige aconchego psíquico. A mudança pessoal é um processo, muitas vezes doloroso, e carece de companhia afetuosa para conseguir transpor as dificuldades cotidianas, antropológicas e geo-históricas. Assim, a qualidade necessária das relações para auxiliar a superação de "modelos estereotipados da vida" (GOFFMAN, 1988) é aquela capaz de fazer-se continente para a diversidade humana, a fim de oferecer condições de inserção no convívio próximo, profundo e singular do encontro com o outro. Metaforicamente, assim faz a Chapada do Araripe para com o socioambiente que a compõe.


A situação em que crianças e jovens vivenciam a dinâmica de vida no território demonstra um distanciamento entre eles e, ao mesmo tempo, uma apropriação massificada ou estereotipada do outro. Ali, o contato afetuoso e proximal é algo que lhes provoca estranheza; as diferenças hierárquicas são marcantes e reforçadas a cada dia, e sintomas do autoritarismo pairam nas situações constitutivas dos relacionamentos. Isso distancia as pessoas umas das outras e diminui a cumplicidade, afeto e zelo com a relação interpessoal.


Percebe-se, com frequência, a manutenção da distância interpessoal demarcada por um comportamento silenciador das diferenças de compreensão da realidade. Ensimesmar-se é o caminho mais comum. O estranhamento próprio do modo "matuto" de se relacionar assemelha-se aos modelos autoritários de sociabilidade. O "matuto", o "homem do mato", um "selvagem", como definido pelos nativos, é mais um sertanejo calejado da seca e dos desmandos, um sujeito cismado, desconfiado de maus tratos.


Assim, a aproximação e o questionamento advindos do convívio com o diferente geram desconforto e mais distância. E nesse processo, os vínculos se tornam frágeis, principalmente entre os jovens que tendem ao questionamento visceral frente aos modelos de autoridade que vivenciam. Nesse momento, a tendência é para a ruptura do contato e da relação; os vínculos estabelecidos não suportam a crise dos questionamentos, nem mesmo dão vazão ao sentimento de tristeza (pelo distanciamento) ou de "rebeldia" frente às incompreensões, inconformidades ou imaturidades dos indivíduos, diante dos grupos de convivência. Os grupos buscam elos mais fortes para sustentar, com flexibilidade, o desejo de liberdade e autonomia de seus integrantes. A força e a vitalidade juvenil chocam-se com as impossibilidades de concretizá-las devido ao acesso que a cidade proporciona aos citadinos e à incontinência dos grupos de pertencimento.


Há, portanto, que se investir em um acolhimento afetivo "suficientemente bom"; aquele que pode considerar as heranças culturais e resguardá-las mediante os modos de vida das pessoas, evitando julgamentos e condenações, pois estes são desfavoráveis ao crescimento pessoal, à autonomia das pessoas e à assunção de um processo identitário libertador. Tal acolhimento pode, ainda, despertar cada um como sujeito de sua história e [em certa medida] da História – ao se sentir tão humano quanto os que com ele convivem, em uma vinculação profunda, abrir-se-á sua perspectiva para um estado de pertencimento à humanidade da qual é parte! Para tanto, esse cuidado também deve estar voltado ao respeito pela individualidade e particularidade dos indivíduos, um desafio ainda mais difícil diante de culturas autoritárias e homogeneizantes. É preciso, a todo tempo, lidar com as questões internas ao grupo, aquelas que visam respeito a um processo de diferenciação pelo qual todos passam, em momentos distintos e diversos da vida pessoal e coletiva, quando constroem sua identidade.


Nesse lugar, o despertar da consciência crítica [e propositiva] pode ser facilitado em condições transpessoais16 de vínculos (BOAINAIN, 2003), pois o imaginário das pessoas estão eivados de heranças que resvalam em aspectos arquetípicos e que deflagram a necessidade de ampliação da consciência para adentrar a um campo místico de entendimento do mundo. Uma vez que a relação com o sagrado permeia as relações dessas pessoas, tal relação pode impedi-las de avançar em suas dificuldades de travessias a estados mais livres de movimentação social e política. Essa relação pode também levar a um estado de maior submissão e controle, por receio do poder sobrenatural sustentar esse modelo submisso. Contudo, uma visão amplificada e uma consciência expandida trazem ao contato com o outro uma condição suficientemente boa e capaz de acolher a diversidade e magnitude da vivência mística como forma de fortalecimento do ser, expansão da vida e produtividade singular possível a cada indivíduo.


As condições de vida consonantes com a magnitude da força advinda do pertencimento humanitário à Natureza podem atingir níveis profundos de contato e ressignificação da percepção e do cotidiano (MERLEAU-PONTY, 1994). Contudo, tais condições devem ser trabalhadas na direção de uma compreensão de formas distintas de pertencimento advindas tanto dos modos ancestrais de vinculação ao lugar, quanto dos despertos através de situações inspiradoras para a criação de si, de identificação com situações engrandecedoras do self, ainda que metafóricas, mas que resvalem em momentos poéticos de aprofundamento de si no espaço e nos grupos de convivência.


Assim, as experiências místicas aqui tratadas devem ser distintamente compreendidas. Há um sentido religioso pautado em símbolos preexistentes, doutrinários, que tendem a acontecer em espaços restritos e de forma restritiva no cotidiano das pessoas, na maior parte da vezes, em templos e terreiros. De outro modo, há aquele condizente a uma experiência de expansão da consciência e conexão com a vida, em sua complexidade.


O primeiro pode ser gerador de alienação e subordinação aos moldes autoritários de vinculação interpessoal e com as autoridades, evidentes no coletivo. Esses conteúdos apreendidos correm pela cidade através dos acontecimentos, mitos, lendas e doutrinações vivenciadas como regra de sociabilidade. Tais discursos ativam uma cadeia de superstições e inibem a consciência crítica e poética de se manifestarem. As crenças em aspectos sobrenaturais da vida são de tal força intensas que dificultam novas compreensões a respeito das relações e modos de vinculação das pessoas na cidade.


Já a segunda definição da experiência mística potencializa os indivíduos e os vínculos grupais, de modo que cada um se sente mais íntegro quando zela pela integridade do grupo, na busca por experiências de existência profunda e contato direto com a força que habita em todo e cada ser. Portanto, a crítica e superação dos impedimentos para se atingir uma consciência profunda e ampla (ao mesmo tempo) deve considerar a dimensão transpessoal de facilitação dos encontros, como um caminho para deflagrar a autenticidade e autonomia das pessoas na relação liberta com o outro. E como mencionou Fiori, no prefácio da obra de Paulo Freire, a Pedagogia do Oprimido (2011, p.19):


A intencionalidade transcendental da consciência permite-lhe recuar indefinidamente seus horizontes e, dentro deles, ultrapassar os momentos e situações que tentam retê-la e enclausulá-la. Liberta pela força de seu impulso transcendentalizante, pode volver reflexivamente sobre tais situações e momentos, para julgá-los e julgar-se. Por isso é capaz de crítica.


A facilitação dessa ordem é, em si, um processo de transformação pessoal, já que a pessoa que se dispuser a essa função e papel no grupo, deverá vivenciar a transposição de seus próprios claustros e se lançar ao encontro reflexivo e profundo, ao mesmo tempo extrovertido e produtivo.


As crianças e jovens que têm contato com outros lugares do mundo e outras formas de compreendê-lo, através da Fundação (entre viagens e visitas), vivem a possibilidade de presenciar muitos outros horizontes. Mas ainda resguardam-se, resistindo (muitas vezes) em superar as crenças, superstições e estereótipos do lugar, evitando até um diálogo conciliador entre as diferenças que lhes “afetam o juízo”. Nessa resistência, assimilam e acomodam as diferenças internamente, evitando a “metamorfose17” (CIAMPA, 1998) que lhes permite estarem com e serem outros, enquanto fazem-se a si mesmos. Nesse sentido, vivenciam conflitos que, mediados pela troca e a maturidade [cultivada], podem fazer emergir valores efetivamente resistentes ao tempo. Dessa forma, o crescimento pessoal é um processo difícil, mas inevitável, para quem se identifica com as perspectivas despertas pela Casa Azul.


Mesmo artistas e pesquisadores, quando adentram esse lugar, revisitam seu passado enquanto sonham o futuro e vislumbram as possibilidades de criação que há ali. Nutrem o desejo de que a produção cultural e a gestão social sejam caminhos que levem sujeitos a despertarem-se para uma vida democrática, em que o diálogo e a poética sejam cultivados como acesso para atingi-la. Essa democracia, quando presente, convida cada um a se aprofundar nas trocas internas ao grupo, a compartilhar os momentos importantes, a criar coletivamente, seja o que for. E, ainda, transcende o espaço do grupo atraindo novas pessoas (independentemente da idade) que desejam encontrar uma brecha para viver com intensidade a beleza do encontro criativo e afetuoso, em um espaço de construção diferenciada da vida18.


De acordo com essa reflexão, os níveis de demonstração de afeto e aproximação interpessoal são excelentes indicadores para saber se um grupo está ou não exercitando tal modo de existência. A participação efetiva desencadeia bons encontros e liberta o corpo para viver o que as ideias rejubilam na alma, assim o contato se faz cada vez mais presente e as "paixões alegres" têm campo para se propagarem (ESPINOSA, 1983).


O protagonismo juvenil e o viver junto no cotidiano da Casa Azul


A liberdade das crianças e jovens em administrar esse complexo de aparatos físicos, processos e ações que formam a Fundação Casa Grande tem uma dupla finalidade: superar a tutela autoritária dos adultos no ato criador de crianças e jovens e estabelecer um ambiente de vivência conjunta entre ambos.


Adorno e Horkheimer (1985) conceituam o autoritarismo a partir da leitura do antisemitismo e apontam a frieza e o distanciamento interpessoal como características da personalidade autoritária, elaborando a sua crítica e desconstruindo os mecanismos de poder expressivos desse modelo. Essa compreensão deixa uma questão: Como superar as determinações e os aprisionamentos que tal modelo traz em seu funcionamento ético-político? A superação pode ser buscada na emergência de um “ato criador”, “espontâneo” (MORENO, 1977), ou em uma “produtividade” (ESPINOSA, 1983), compreendida como radicalização da compreensão de si diante da vida. Tais expressões podem também ser denominadas Artes, quando apoiadas na perspectiva abrangente do artístico, abarcando o tangível e o intangível, como o fez Mário de Andrade (2002).


A Casa Azul. na Chapada do Araripe, é um lugar propício para o desenvolvimento de ações dessa natureza e vem buscando seu aperfeiçoamento, visando tal abertura de caminhos. Há caminhos que são abertos para fora, rumo a outros modelos de vida e de mundo, e há outros que são de abertura interna, para dentro da própria cidade, da instituição e de cada um, de forma que tais aberturas desafiem complementarmente o modo como as estruturas rígidas da cultura e do psiquismo inibem as possibilidades de convivência e da expansão da consciência. Dessa forma, o viver junto pode levar a um processo de fortalecimento da identidade, irrompendo as chances de superação da alienação e da assunção de si diante do outro e com o si mesmo – uma construção de si com o outro. A construção de uma consciência vincular e ampliadora dos horizontes da vida.


Assim, um jeito livre de organização sociocomunitária busca ser libertador e pode se tornar espelho para uma cidade refletir o modo de vida de seus citadinos, sensibilizando-os para um novo jeito de ser, uma nova forma de investir em si, um novo norte para o crescimento. Um cuidado não dominador das crianças e jovens, não focado no acúmulo de riquezas, mas sim na solidariedade e compartilhamento das produções existentes em um mesmo território.


Como é possível ampliar as formas de compreensão de modo que as dimensões públicas do viver juntos sejam fontes de transformação da vida privada? As atividades da Casa Azul parecem orientar para que o público não deve se associar ao sentido do vazio ou do anonimato (como é significado pela cultura do consumo), mas antes, se tornar um espaço de compartilhamento do mundo privado, capaz de ser vivenciado por todos com respeito e afeto. A vivência do privado, em clima psicológico facilitador, busca levar o sujeito a expandir-se de modo tal que transcenda a compreensão egóica da vida e se vincule a um estágio humanitário de sua existência. Esse parecer ser o sentido buscado na imbricação dos elementos arqueológicos, míticos e culturais que se arranjam na Fundação, mediados pelos fazeres criativos de crianças e jovens e acrescidos pelos fazeres de artistas e pesquisadores.


A alma dessa vivência está no modo como se “abrem as portas”, do como se faz a recepção aos que chegam, principalmente, se este chegar todos os dias coincide com o costume de pertencer ao mesmo espaço de vida. A recepção torna-se fundamental para a troca efetiva, para o diálogo legítimo capaz de expor e acolher. Esse movimento entre o público e o privado, entre o dentro e o fora, exige do grupo a condição de falantes e expositores, mas também a de ouvintes e acolhedores de novas propostas e críticas; e dos indivíduos, uma conexão com um estado expandido de compreensão do todo, sendo o todo enquanto é parte.


E para atingir uma tal condição exercita-se constantemente uma recepção parcimoniosa e respeitosa, sem necessidade de uma defesa acirrada, mas sim de troca e ressignificação conjunta das questões que porventura venham a se tornar recorrentes no cotidiano, como também aquelas que surgem a partir das inúmeras partilhas. Ter razão, vencer pelo argumento, ou fazer valer a própria percepção e proposta não é o foco desse fazer. Essa prática busca deflagrar uma expansão de consciência humanitária, cuja compreensão do ser humano como parte desse todo é acompanhada por novas sensações e um sentimento de ser um todo dessa parte (BOAINAIN, 2003).


A vida pública é, acima de tudo, uma condição ontogenética do humano (VIGOTSKY, 2007), por isso, merece ser vivenciada de forma genuína e legítima. As proposições de Vigostsky sobre a formação social da mente trazem como contribuição fundante essa reflexão sobre a ontogênese. A vida coletiva é essencial a todos, mas tal essência pode se distorcer em tirania, autoritarismo ou tutela, tanto quanto é capaz de se regenerar em solidariedade e paz. Portanto, é preciso saber ler, no cotidiano, os preceitos conservadores e individualistas; desconstruir os mitos da dominação e criar novos caminhos para fortalecer os espaços de construção partilhada e poética da existência humana. Assim, a interdependência no modo de produzir e a franqueza em colocar-se os limites e potências individuais emergentes configuram e vivificam a produtividade transbordada em abundância, não em carência. Na ação compartilhada, essa regulação de forças potencializa, ao mesmo tempo, a vida coletiva e a identidade de cada participante.


O mundo conscientiza-se como projeto humano: o homem se faz livre. (...) Se o mundo é o mundo das consciências intersubjetivadas, sua elaboração forçosamente há de ser colaboração (FIORI, In: FREIRE, 2011, p.17).


Numa instituição como a Casa Grande, em que gerações se comunicam e se reconhecem diferentes mutuamente, o pertencimento segue apoiado em uma racionalidade própria para dinamizar a vida institucional, se apropriando de métodos para sua gestão e manutenção. Convive, dialeticamente, com a racionalidade globalizante, tanto no que diz respeito às políticas públicas do Estado, quanto às determinações do mercado.


Ela responde ao mundo com suas ações singulares, mediadas pelos contextos em que se insere: a Chapada do Araripe, o país e o mundo. Sua inserção pode, colaborativamente, trazer o mundo à Nova Olinda e levá-la para o mundo. E as conexões intersubjetivas por ela produzidas transitam entre o sonho, a lembrança, o “devaneio poético”19, as competências pragmáticas e práxicas e evoca uma “consciência sonhadora” norteada pela utopia de transformar do mundo (BACHELARD, 2006). Atrai e aglutina pessoas que, pela força poética do lugar, se conectam aos vários tempos da história de vida imersos nos diversos momentos da história da humanidade. Essa força toca tão profundamente as pessoas, que a complexidade do impacto imagético de suas edificações faz da “Casa Azul" um ícone de transformação refletido na experiência transpessoal da consciência humana e resguardado nas entranhas da Chapada do Araripe.


Ser parte e ser todo. Tal compreensão reverbera nos sujeitos através de um sentimento de pertença e um desejo do enraizamento, quando, em sua experiência de chegada, o estrangeiro vive um clima de estranheza frente a tamanha familiaridade e fluidez com que as coisas passam a acontecer no lugar. A conexão consigo e com o mundo torna-se um fato estético mobilizador, um ato poético potencializador de liberdade e existência.


Expandir o conhecimento, então, é saber ler o complexo presente na realidade, é transcender modelos preestabelecidos e retirar as vendas epistêmicas, de modo que, ao invés de criar ou definir o objeto de estudo, aprimora-se em facilitar para que esse se apresente em sua complexidade, invada a percepção e a torne mais apurada a um novo olhar para ele e, também, para si. Disso resultam desapegos conceituais e novos caminhos compreensivos para os fenômenos sociais e psicológicos, políticos e culturais, econômicos e ecológicos, caracterizados por acolhimento e troca, ponderação e expressividade, clareza em posicionar-se diante da vida com o outro, adesão à companhia e companheirismo, e menos disputa por méritos e protecionismos.


Fazer parte, então, é ser parte desse todo que se mostra grandioso em sua biodiversidade e socio-culturalidade, diante das descobertas interpessoais e pessoais próprias desses encontros. Quem sou eu? Quem és tu? Quem somos nós? De onde sou/és? São dúvidas e questionamentos que vão se aquietando na medida em que essas rotas de composição da consciência se cruzam e geram mais e mais compreensões acerca de fenômenos vivenciados. A observação do fluxo poético da vida leva o sujeito a contatos singulares, trazendo sensações de integridade e inteireza, apesar da incapacidade de lhe acessar por uma consciência lógico-racionalista.


(...) A característica marcante é a cada vez maior fluidez e indeterminação da fronteira eu-mundo, pois se de diversas maneiras ainda persiste alguma noção de identidade separada, esta é cada vez menos precisa e mais abrangente, destacando-se crescentemente da história pessoal, da vivência do próprio corpo material, das distinções interpessoais, do universo sensorial vivido como uma realidade restrita a dimensões espaço-temporais, e mergulhando agora em faixas de consciência nas quais aspectos (...) extrasensoriais e arquetípicos fundamentam a vivência de um sentido de identidade em que o termo ‘eu’ parece ir muito além de um contraste nítido com o ‘não-eu’ (BOAINAIN, p. 16, 2003).


O entender que isso é assim ultrapassa os limites das formas atuais de pensar e se aprofunda na vivência mesma do ser como corporeidade vivida em sua viagem pelo mundo de si mesmo, no qual se revela a unicidade do espaço interior com o espaço exterior. Tal clareza vem da sutil e epifânica vivência da identidade, do si mesmo no cotidiano, no simples ato de viver, de dançar a vida (GÓIS, 2008, p.33).


Então, tudo se passa como se houvesse uma lógica específica nos acontecimentos, como se fosse familiar a transformação na maneira de viver o território. A sensação de pertencimento; de chegar em um lugar do qual parece nunca se ter saído; de viver situações como se fossem lembranças; de encontrar e gerar o tangível e o intangível. Esse convívio com o território caririense deflagrou de início uma inquietude e certa dispersão. Agora, com a mente e o coração mais quietos, as reflexões se ancoram em perspectivas complexas para ler tal realidade tão diversa e profunda como a vivenciada em uma Casa Azul na Chapada do Araripe. Nesse contexto, ler o Sertão do Cariri pelas lentes de seus moradores e através de um espaço como a Casa Grande, é se transportar para um lugar de amplitude ancestral na contemporaneidade; é repensar os modos de ver a cotidianeidade e entender a subjetividade.



Notas

1 Doutora em Psicologia Socioambiental (USP), Professora do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Ceará. Conselheira Científica da Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Cariri, Coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Consciência - UFC.

2 “O Mito da submersão” (GOMES, 1971, p. 103, apud LIMAVERDE, 2006).

3 Lenda catalogada e exposta no Memorial do Homem Kariri, Nova Olinda, CE. Segundo estudiosos (PINHEIRO, 1950), os Kariri taparam as nascentes de água da Chapada para expulsar os colonizadores, que buscavam terrenos com abundância de água para instalar suas moradas.

4 Informação exposta no Memorial do Homem Kariri, Nova Olinda, CE. Disponível em www.fundacaocasagrande.org.br.

5 GEOTOPE IPUBI - Mina Chaves; GEOTOPE SANTANA - Parque dos Pterossauros; GEOTOPE ARAJARA - Parque do Riacho do Meio; GEOTOPE EXU - Pontal da Santa Cruz; GEOTOPE NOVA OLINDA - Mina Triunfo; GEOTOPE BATATEIRAS - Rio das Batateiras/Crato; GEOTOPE MISSÃO VELHA - Floresta Fóssil; GEOTOPE DEVONIANO - Canyon do Rio Batateira; GEOTOPE GRANITO - Colina do Horto.

6 Deve-se ressaltar que o acesso à riqueza econômica, destituído de reflexão sobre os modos de produção urbano-industriais, repercutiu no território como um modus vivendi insustentável do ponto de vista socioambiental.

7 É importante definir que a sustentabilidade aqui mencionada define-se pela confluência entre a justiça social, a aceitação da diversidade cultural, a correção ecológica e a viabilidade econômica, sem os quais fica comprometida a validade desse termo ao aferir tal condição a um município, grupo ou comunidade.

8 Esse é um costume regional cuja prática remete ao modo de manutenção do estado físico e espiritual da casa, associado à comemoração familiar e convivência comunitária. Geralmente, são escolhidas datas significativas para o casal ou a família festejar o "novo ano" daquele lar: o dia do nascimento de um filho, data de casamento, dia do santo padroeiro.

9 Como exemplo, as bandinhas de lata, comuns na região, foram incorporadas como estratégias de formação e deram condições para que crianças e jovens se inserissem no mundo musical e, com o tempo, formassem um grupo de música instrumental chamado "A Banda". Esse grupo circulou por vários lugares e países, difundindo a cultura local, através da exibição do média-metragem e espetáculo musical "A Rua do Vidéo” (Dirigido pelo músico percussionista e produtor cultural André Magalhães, mediante o Prêmio Interações Estéticas 2010 - Funarte/MinC - destinado aos trabalhos voltados aos Pontos de Cultura no país).

10 O Laboratório mantém um acervo e um banco de dados sobre o patrimônio cultural e a evolução da ocupação humana na Chapada do Araripe desde sua pré-história e oferece instrumentos e fontes de pesquisa para as instituições acadêmicas, como também para a aplicação das políticas públicas de preservação nacional, como é o caso do Geopark Araripe.

11 Certa hora do dia as tilintadas soam e a cidade toda sabe que começaram os trabalhos com os ferros. Os instrumentos para as atividades agrícolas da região são, em grande parte, produzidas pelos ferreiros de Potengi.

12 Jung utiliza tal termo para definir dimensões da vida psíquica do indivíduo conectadas com a ancestralidade humanitária.

13 Termo cunhado pelo italiano Tomás Maldonado, cuja prática projetiva (arquitetônica e urbanística) é pautada em uma consciência crítica da sociedade, questionando os impedimentos sistêmicos e identificando vias para a construção de condições humanitárias e a transformação social.

14 Definida por Milton Santos (1997) como a organização humana no espaço total.

15 Esse termo é utilizado por Winnicott para indicar a demanda afetiva da relação mãe-bebê, a fim de que a criança possa se vincular profundamente e esse vínculo venha a nutri-lo o suficiente para criar e desenvolver seu self.

16 Essa perspectiva é trabalhada por Boainain, quando define a dimensão transpessoal da consciência, cuja amplitude de conexões pode levar à ampliação do estado consciencial habitual (o da vigília) e gerar experiências profundas de pertencimento e expansão compreensiva da vida, desvelando possibilidades transcendentais para a consciência humana.

17 Esse termo é adotado nas elaborações de Ciampa acerca das transformações identitárias e da não cristalização da identidade aos modelos preestabelecidos na história de vida das pessoas.

18 Essas “impressões” referem-se a registros diversos que artistas e pesquisadores elaboram, em visitação à Casa Azul.

19 “Em seus produtos e no seu produtor, o devaneio pode receber o sentido etimológico da palavra poético. O devaneio reúne o ser em torno do seu sonhador. (...) O estudo filosófico do devaneio nos convida a nuanças de ontologia. Essa ontologia é fácil, porque é a ontologia do bem-estar, de um bem-estar na medida do ser do sonhador que sabe sonhá-lo. (...) Assim, pelo devaneio, descobrimos que o ser é um bem” (BACHELARD, 2006, p.146).




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Artigo recebido em 25/04/2013

Aprovado em 05/05/2014





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