Est. Soc.[online]. 2014, vol. 1, n. 20


ARTE E ARQUITETURA NOS EDIFÍCIOS PÚBLICOS DA FRANÇA


ART AND ARCHITECTURE IN PUBLIC BUILDINGS IN FRANCE


Tania da Rocha Pitta1


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Resumo

Na França, a lei do “1% artístico”, impõe ao Estado e às Coletividades Territoriais reservar 1% do custo do edifício que eles estão construindo para encomendar uma ou várias obras de arte a artistas. Certos artistas colocam a obra em evidência, mas o público que a vê, a observa realmente? Outros a escondem para que a contemplação seja um ato voluntário. Certos artistas se fundem na obra arquitetônica e dialogam com ela, enquanto outros ficam em oposição em relação a ela. Um edifício, e as obras que ele guarda, resume a diversidade dessas iniciativas: trata-se do Conservatório Nacional Superior de Música e de Dança de Paris. É através desse exemplo que examinaremos as relações entre obra de arte e seu envelope.


Palavras-chave

Política cultural e ambiental. Edifício público. Arquitetura. Arte. Música.


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Abstract

In France, the law of the “1% for artistic work” imposes on the State or on the public authorities, to reserve 1% of the cost of the building which they build, to order one or several works of art. Certain artists want their work to be very much visible, but does the public look at it, even if it sees it? Others hide them so that the pondering is a voluntary act. Certain artists base themselves on the architectural work and have a dialogue with it, whereas others oppose to it. A building in particular, and the works of art which it contains, summarizes well the diversity of these approaches, it is about the Higher National Conservatory for Music and Dance of Paris. Through this example, we shall examine the relationships between the work of art and its envelope.


Keywords

Cultural and environmental policy. Public building. Architecture. Art. Music.

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A arquitetura é o objetivo de toda atividade criativa. Completá-la embelezando-a foi outrora o papel principal das artes plásticas. Elas faziam parte da arquitetura, elas eram indissoluvelmente ligadas”2


Introdução


Pierre Buraglio, Aurélie Nemours, Bernard Venet, Antonio Semeraro, Georges Noël e Christian Boltanski contribuíram ao “1% artístico” do Conservatório Nacional Superior de Música e de Dança de Paris, equipamento concebido pelo arquiteto Christian de Portzamparc, homenageado pelo Pritzker. Técnicas artísticas e técnicas da construção arquitetônica se uniram para criar um ambiente único, que seria em seguida habitado por músicos e dançarinos. Este texto explicita esta lei na França, e comenta lugares que são habitados por obras de arte. O “1% artístico” não somente possibilita o acesso do grande público à cultura, mas também cria licitações promovendo os artistas contemporâneos. Pelo fato desta lei exigir diversas reflexões, optamos por abordar a questão da integração da obra de arte na arquitetura: o artista deve criar uma harmonia ou ele pode optar por criar uma oposição? A obra de arte deve ser posta em evidência ou o artista deve optar por escondê-la?


Esta lei federal de 1951, que é hoje conhecida como o “1% artístico”, além de trazer apoio à cultura, favorece o encontro entre arquitetura, arte e público, e dele nasce uma emoção. A lei francesa autoriza e incentiva todo tipo de linguagem artística, desde um quadro ou uma escultura, até instalações utilizando novas tecnologias, podendo ser um vídeo, uma instalação sonora ou paisagística, design, grafismo.


Diferentemente do Brasil, onde a lei é municipal e as construções realizadas por um particular também têm a obrigatoriedade de colocar uma obra de arte, na França, somente as obras de construção pública têm a obrigatoriedade do “1% artístico”. No Brasil, a encomenda de uma obra de arte é obrigatória somente se a construção tiver, no mínimo, dois mil metros quadrados. Atualmente, novos projetos de lei em discussão em alguns municípios propõem passar a área mínima a quinhentos metros quadrados. Na França, a obrigatoriedade é para toda construção do Estado, independente da área construída ou renovada. Como este sistema, que existe há mais de sessenta anos, funciona na França?3


Na França, o Estado, e as Coletividades Territoriais têm a obrigação de reservar 1% do preço da construção para instalar obras de arte nos edifícios que encomendam. Estão exonerados desta lei os edifícios de caráter comercial e industrial, como também aqueles destinados aos transportes e os hospitais.


A consulta aos artistas é ligada ao custo da obra: se o edifício custa menos que 30 milhões de euros, esta consulta é feita pelo Ministério da Cultura e pelo arquiteto. Acima desse valor, a licitação se torna obrigatória. É então o caso para as obras de arte que custarão mais de 30.000 euros. Em todo caso, as obras de arte não poderão custar mais do que 2 milhões de euros.


A licitação é feita em três fases:


1. No momento dos estudos conduzidos pelo arquiteto, entra-se em contato com a Direction des Affaires Culturelles e um comitê artístico é constituído. Esse comitê é composto por sete votantes: o representante do Estado que preside o comitê, o arquiteto, um representante dos usuários, um expert escolhido pelo Estado, um representante da Direction des Affaires Culturelles, um conselheiro representando os artistas e um comissário de arte. Estas pessoas preparam o cahier de charge da encomenda;


2. A segunda fase acontece um mês mais tarde e diz respeito à análise das propostas entregues pelos artistas que são candidatos. A escolha dos três ou quatro artistas finalistas é feita durante essa fase. Uma vez selecionados, os artistas têm três meses para preparar seu projeto de obra de arte e durante estes três meses, visitas ao terreno, ainda em obras ou não, são organizadas pelo Estado e pelo arquiteto;


3. O comitê se reúne uma última vez para que os artistas apresentem suas obras e que o júri possa proceder ao voto.


No que consiste a localização das obras de arte no edifício, a lei não diz, como em Porto Alegre4, por exemplo, se a obra deve ser posta em evidência em lugares onde o olhar não pode não percebê-la, ou se ao contrário, ela será colocada num lugar afastado para que o público a descubra por acaso no seu percurso. O artista é totalmente livre para escolher o lugar da sua obra.


O objetivo do Ministério da Cultura Francês é de sensibilizar o público à arte contemporânea. O fato de que a obra esteja em um lugar visível é positivo porque ela será vista por todos, mas ela será observada e contemplada?


Qualquer que seja a localização que o artista tenha escolhido no edifício, ele também é livre de escolher se ela se integra ou não à arquitetura. Ele pode propor uma obra que se sobressaia da arquitetura ou que até mesmo vá em contra-senso com a arquitetura. Portanto, optando por esse partido, ele arrisca não ser selecionado pelo Comitê, pois sua proposta pode parecer uma simples inserção numa galeria ou num museu.


Para que essa iniciativa de uma obra que se sobressai seja escolhida, é preciso que esse “fora do contexto” seja rico de sentido e gerador de emoção, como é o caso por exemplo, da obra de Xavier Vaillant que cobriu um edifício do século XIX de espelhos para dar-lhe uma dimensão de castelo e revelar o parque localizado à sua frente.


Numerosos são os artistas que criam um diálogo com a arquitetura, pois é um tema que os interessa muito. Os “limites” trazidos pela arquitetura alimentam sua criatividade e a obra artística se funde com a obra arquitetônica para o grande interesse de uma como de outra. Os “limites” específicos podem ser dados ao artista no cahier de charge da encomenda, mas estes “limites” têm geralmente pouca importância.


O comitê pode desejar que a obra se encontre no interior ou no exterior do edifício. Porém não se pode pedir que a obra seja pictural, ou escultural, ou uma instalação.


O representante do Estado é aquele que finalmente escolhe as obras, geralmente seguindo os votos do Comitê, mas isto não é uma obrigatoriedade, e ele pode escolher uma obra que não recebeu nenhum voto.


As obras do “1% artístico” que estão no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris são bastante diversas e representam bem as diferentes iniciativas que podem ter os artistas em sua relação à obra arquitetônica e ao olhar do contemplador.

Encontramos tanto obras totalmente integradas, como os prolongamentos da arquitetura com Antonio Semeraro e Pierre Buraglio, como obras que procedem da “cultura do segredo” como a instalação de Christian Boltanski, no sub-solo desocupado do edifício, onde ninguém nunca vai a não ser que seja para contemplar esta obra misteriosamente escondida.


Veremos, a seguir, essas obras de arte em relação com a arquitetura e o público no Conservatório, que é um edifício composto de onze fragmentos, e que se descobre como num labirinto durante o percurso. Sua arquitetura é rica em ritmos espaciais e fortemente trabalhada acusticamente e na relação entre luz e sombra. A medida em que avançamos, descobrimos novos lugares, ambientes, formas, cores... Estes percursos são realizados em espaços de circulação que recebem luz do dia; na penumbra, estão as salas de aula, que para manter uma isolação acústica adequada, quase não têm janelas.


Não somente o lugar onde nos acomodamos, mas também o caminho que percorremos, são elementos importantes na arquitetura, pois o homem ao criar ou ao percorrer um caminho se apropria do espaço. Como diz Simmel, "o homem que em primeiro construiu uma cabana revelou, como o primeiro a traçar um caminho, a específica capacidade humana face à natureza delimitando um terreno na continuidade infinita do espaço, e conferindo a esta uma unidade particular conforme a um só e único sentido” (SIMMEL, 1988, p. 164). Esta unidade particular, este sentido único criado pelo caminho, é também o que o artista procura criar junto com o arquiteto, uma paisagem única.


Cinco lugares foram escolhidos pelos artistas: o hall de entrada, o hall das salas públicas, o entorno do jardim do Conservatório, uma das salas de ensaio de orquestra e o subsolo inutilizado5.


O hall de entrada


Na França, cada edifício público tem uma bandeira do país hasteada à sua frente. No Conservatório, Christian de Portzamparc, para não colocá-la na fachada, pediu ao ministro uma derrogação para que a bandeira fosse colocada no interior do edifício. Foi após obter essa autorização que a bandeira da República Francesa foi encomendada a Pierre Buraglio(I). Seu trabalho de inserção com a arquitetura é interessante, ele utilizou o branco da pedra calizza capri da fachada, para ser o branco da bandeira, que junto com o azul e o vermelho espaçados um do outro, compuseram o conjunto.


Vista logo após entrar no edifício, essa bandeira, junto com o hall de recepção e o foyer dos artistas, dá as boas vindas aos professores, estudantes, profissionais e amadores de música e dança.


A unidade deste lugar é criada por três elementos fortes, à direita, a recepção, à esquerda, o foyer dos estudantes e, no meio, mais à frente, a bandeira (“R.F.”). Com um design dinâmico, a bancada de madeira e de pedra de hainaut, também conhecida como bleu belge (pois bastante utilizada na fachada dos edifícios belgas), serve às recepcionistas que recebem os estudantes, os professores e o público. Do outro lado, num nível mais baixo e com o pé-direito altíssimo, o foyer dos estudantes ao mesmo tempo que homenageia Kandinsky, acolhe com aconchego os estudantes. A homenagem a Kandinsky é feita através do design e da disposição dos móveis concebidos pelo arquiteto. O quadro é composto por mesas luminosas, poltronas em meia-lua. O quadro é vivo porque os estudantes habitam este lugar, sentam-se, conversam, lêem suas partições, colocam o violoncelo contra a parede.


Entre esses dois lugares fortes, um de recepção e o outro de acolhimento, se junta formando uma unidade a obra “R.F.”. Essa paisagem vista como um todo e não como três lugares distintos, e adicionada à pessoa que a observa e se comove, forma o que Simmel chamou o stimmung da paisagem6. Paisagem essa, que aqui é composta de fragmentos de arte e arquitetura, e que forma um todo com a pessoa que a contempla.


A emoção transmitida por este hall é de conotação feminina, o foyer é a casa que acolhe de forma íntima após a passagem pela recepção e pela pátria. Com discrição e refinamento, músicos e bailarinos do mundo inteiro são recebidos para estudar nesse reputado Conservatório.


O hall das salas públicas


No Hall das Salas Públicas, duas pinturas de Aurélie Nemours, “Rythme du millimètre”(II) e “Plan pyramidal III”(III) compõem com a arquitetura deste espaço. Suas telas em preto e branco transmitem o movimento, através de uma linguagem geométrica e abstrata. Suas composições nunca são estáticas e a artista procura, através de formas simples, uma harmonia universal. Este hall transmite uma emoção diferente da do hall de entrada: passamos da atmosfera calma e de concentração filosófica à animação rítmica. O lugar é marcado pela dinâmica dos arranjos em série do “Rythme du millimètre” e do desequilíbrio do “Plan pyramidal III”, como também pelas mesas luminosas e pelas colunas do arquiteto, que evoluem de maneira periódica. O público compõe com a alma desse lugar, através do ritmo dos seus passos silenciosos sobre o carpete vermelho. Também o suspense da música do concerto que vai começar e a justaposição com o desequilíbrio da tela “Plan pyramidal III” trazem emoções que misturam ritmo, suspense, desequilíbrio e harmonia universal.


Dois halls transmitem emoções diferentes, um chama à reflexão, o outro à transformação. Os artistas, tanto Aurélie Nemours como Pierre Buraglio, souberam se integrar à arquitetura trazendo com genialidade um fragmento a mais na paisagem; arte e arquitetura se uniram criando uma unidade.


O entorno do jardim do Conservatório


Convidando os alunos a sentar, bancos-esculturas em folha de aço encerado de Bernar Venet(IV) estão presentes em torno do jardim ao lado das portas das salas de aulas. Não somente a matéria entra em harmonia com as paredes de concreto, mas também o design e a função do objeto artístico se fundem no espaço. Banco ou obra de arte? Nesta obra a questão da simulação à obra de arte é potente. Com essa obra questiona-se o limite entre obra de arte e design, principalmente quando vemos alguns estudantes se sentar como em qualquer banco de praça e outros, que nem ousam tocar.


Em cima, ao lado das portas, como também em vários outros lugares desse corredor em forma de “U”, encontramos obras de Pierre Buraglio como “Blue note”(IV). Seu apego ao jazz e a inserção da sua obra na parede de concreto trouxeram cores e formas que a valorizam como pautas de uma partição. A criatividade do arquiteto e do artista se encontraram aproveitando a sorte que tiveram em ter que corrigir um erro de construção para fazer uma obra de arte. O arquiteto propôs utilizar bandas de metal espaçadas uniformemente sobre o concreto para entre elas utilizar a técnica de jateamento de areia criando assim um concreto bruto com bandas que ora absorvem a luz, ora a refletem. Tanto na arte como na arquitetura a técnica está a serviço da emoção.


Duas pinturas suspensas se encontram nos finais desse corredor, como que descendo do teto, elas confundem o público, que não percebe durante seu caminhar, onde começa a obra e onde termina a arquitetura. As pinturas são de autoria de Antonio Semeraro, integrando suas telas à arquitetura, ele criou uma obra de arte arquitetônica, um sutil final de corredor onde a pintura branca surge do teto que é da mesma cor, e o preto com surpresa surge sobre a tela branca. O fato de o artista ter instalado suas telas no final do corredor não só o delimitam, mas também permitem ao público contemplar a obra durante seu caminhar.(VI e VII)


Essas obras se encontram num lugar luminoso em frente das grande salas de aula, onde os músicos se reagrupam. Em dias menos frios, os estudantes frequentam com mais assiduidade o jardim: dele, mais uma das obras do arquiteto pode ser contemplada. Essa obra arquitetônica e/ou artística, é uma das fachadas do conservatório. Numa fachada de pedra preta e composta de enormes janelas quadradas, cortinas com as cores prediletas de Mondrian compõem, quando fechadas, um quadro imenso. A emoção transmitida por esse lugar é o resultado de um trabalho coletivo entre arquitetos, artistas, operários e paisagistas. A natureza atraiu diferentes técnicas, e profissionais de diversas áreas. Natureza e cultura, funcionalismo e estudantes, se juntaram criando um lugar único.


Uma das salas de ensaio de orquestra


Continuando nosso passeio e entrando numa das salas de ensaio de orquestra, encontramos um lugar com o teto ondulado e com o solo em taco de madeira, nela o quadro de Georges Noël intitulado The black Rider, obra inspirada da ópera romântica de Carl Maria von Weber, Der Freischutz(VIII). Nessa sala temos um exemplo diferente, o arquiteto aproveitou o fato de que obras deveriam ser feitas na sala para melhor relacionar a sala com a obra de arte. Nesse lugar, em meio aos instrumentos de uma orquestra, a pintura convida à contemplação.


Como diz Delacroix a respeito da silenciosa potência da pintura, “Silenciosa potência que só fala antes aos olhos e que ganha e toma todas as faculdades da alma!”7


A emoção pode ser transmitida pela pintura de duas maneiras. A primeira sendo a da surpresa, da emoção primeira, ainda inconsciente, formada pela arte e seu ambiente arquitetônico, é aquela que não se descreve, que não faz parte da razão. A segunda é a da contemplação, que vem quando tentamos compreendê-la, quando nos tornamos íntimos dela.


O subsolo desocupado


Em frente ao atelier de conserto de pianos, uma porta nos leva ao sub-solo inutilizado do conservatório. Em seus corredores sombrios, uma pesada porta metálica trancada com um grande cadeado protege a instalação do artista Christian Boltanski, intitulada “La réserve du Conservatoire de musique”(IX). Poucos sabem que, para aceder a este local, deve-se antes pedir a chave do cadeado aos bombeiros, que vestidos de vermelho vêm nos abrir a porta. A instalação, que ocupa várias galerias subterrâneas, homenageia os “mortos” do Conservatório, que são aqueles que fizeram o concurso de entrada mas foram reprovados. Após finalmente atravessarmos a porta metálica, nos encontramos numa primeira galeria sombria, úmida e fria, pois estamos no sub-solo, o chão é de terra, de uma terra fina e clara. Na parede, fotos em preto e branco mostram e relembram essas pessoas que poderiam ter estudado nessa escola de prestígio. Mais adiante, numa segunda peça do sub-solo, encontramos estantes altas cheias de caixas de arquivos, em cada caixa, os documentos, e sobre elas, para arquivá-las, o retrato e o nome do aluno. Numa terceira galeria, estantes são repletas de fotos enquadradas com vários quase futuros alunos do Conservatório, que pousam juntos. Uma última sala é composta de todos os documentos, contratos, plantas e cortes do projeto, que serviram à construção do edifício. Com pouca luz e frio, o ambiente é único.


Além de se inserir num lugar onde sua obra está em plena harmonia com a arquitetura, Boltanski obriga o público a ir até ela, só a vê quem realmente procurou vê-la, sem isso ela continua em segredo.


Esses cinco lugares transmitem emoções diferentes e ao mesmo tempo, juntos, formam o Conservatório.






Para concluir sobre a relação entre arquitetura e arte: evidência x segredo / harmonia x contrassenso


Algumas obras foram, como vimos no decorrer deste texto, concebidas para ficarem em evidência, num lugar onde o público as vê sem ser obrigado a procurá-las, enquanto que outras, como a de Boltanski, foram concebidas para serem secretas; hoje poucas pessoas sabem da sua existência.


Como vimos, o Estado tem como objetivo que a obra de arte seja vista pelo máximo de pessoas, pois se procura cultivar o público à arte contemporânea. A questão que resta a saber é se isto não a desvaloriza, será que as pessoas acostumadas a vê-la no dia a dia não prestam mais atenção? Isso é diferente de quando a pessoa tem que se deslocar para ir ao museu ver tal ou tal obra, pois ela vai especialmente com este objetivo. Porém, há muitos anos, desde a antiguidade, a arte se integrou à arquitetura trazendo uma certa riqueza. Resta ao artista a capacidade de decidir e convencer o arquiteto, como também os outros membros do júri, quanto ao tipo de relação entre arte e arquitetura e o local onde ele gostaria de instalar sua obra de arte.


Para concluir quanto à relação entre arquitetura, arte e público: O stimmung da paisagem


Em sua complexidade, o conservatório comove o visitante que vai de um lugar ao outro, seguindo seu próprio ritmo. O sentido é dado através da união dos fragmentos de arquitetura com as obras de arte sob um fundo musical, que transforma a alma de quem se encontra ali. Como dizia Gilbert Durand,


o que funda toda fraternidade, o que harmoniza as dissonâncias, o que reconcilia os adversários, os estrangeiros recíprocos, só pode ser uma transcendência, uma saliência. Pois os homens só unem suas diferenças em nome – ou melhor ao “olhar” – de uma finalidade que os reconcilia. A arte traz à condição humana imperfeita e mortal um tipo de majoração em dignidade (DURAND, 1989, p. 24).


Com o estudo de caso do Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris procuramos mostrar como a lei do “1% artístico” funciona na França e a importância de trazer algo que toca a alma do morador dos lugares que construímos, além de trazer uma colaboração à educação, à arte e ao patrimônio cultural do Brasil8.



Notas

1 Arquiteta e Pesquisadora do Centre d´Etude sur l’Actuel et le Quotidien (Ceaq) (www.ceaq-sorbonne.org) da Universidade de Paris – Sorbonne.

2 Primeira frase do manifesto publicado em 1919 por Walter Gropius, diretor da Bauhaus.

3 As informações que seguem são resultado da entrevista realizada com Isabelle Delamont, responsável pelo “1% artístico” na DRAC (Direction Régionale des Affaires Culturelles), para a realização deste texto.

4 Ver Lei Nº 10.036, de 8 de agosto de 2006 (Lei regulamentada pelos Decretos nos 15.808, de 18 de janeiro de 2008 (p. 330), e 17.354, de 11 de outubro de 2011 (p. 332).

5 As informações sobre o Conservatório que ajudaram na elaboração deste texto foram fornecidas por Bertrand Beau, arquiteto do Atelier Christian de Portzamparc desde a construção do CNSMDP.

6 Palavra alemã com dimensão polissêmica utilizada por Simmel para falar da união entre os elementos que formam a paisagem e a emoção transmitida por ela.

7 Escrito no jornal de Delacroix, em 7 de maio de 1824, p. 78, e citado por Guillerm, Jean Pierre, Couleurs du noir: le journal de Delacroix, Presses Universitaires de Lille, p. 112.

8 Ver também congresso em homenagem aos 60 anos do 1% artistico: L’ART POUR TOUS, les 60 ans du 1% artistique, Université de Rennes 1, les 9 et 10 novembre 2011. O 1% artístico no site do Ministère de la Culture et de la Communication: www.culture.gouv.fr/culture/dap/dap/unpourcent/. A respeito da colocação de obras de artes plásticas nas edificações com área adensável igual ou superior a 2.000m2 (dois mil metros quadrados), em Porto Alegre, consultar a Lei Nº 10.036, de 8 de agosto de 2006, Decreto Nº 15.808, de 18 de janeiro de 2008, Decreto Nº 17.354, de 11 de outubro de 2011. Para o caso da França, com relação às modalidades do “1% artístico”, ver o Decreto n°2002-677 de 29 de abril de 2002, modificado pelo decreto 2005-90 de 4 de fevereiro de 2005, e consolidado no dia 02 de dezembro de 2012, entra em vigor com a aplicação do artigo 71 do Código dos mercados públicos. A circular do ministro da Cultura e da Comunicação do 16 de agosto de 2006 explica o processo.



Referências


ARASSE, Daniel, Histoire des peintures. Ed. Denoël, 2004.


BACHELARD, Gaston, La poétique de l’espace. Quadrige/PUF, Paris, 1994. 1ère édition : 1957.


DURAND, Gilbert, Beaux-arts et archétypes. Paris : PUF 1989.


JUNG, C. G., L’homme et ses symboles. Paris: Robert Laffont, 1992.


NORBERG-SCHULZ, Christian, Genius Loci: paysage, ambiance, architecture. Liège: Madarga, 1985.


PORTZAMPARC, Leçons du Collège de France, inédito.


REGNIER, Philippe, Cent 1%. Paris : Les Editions du Patrimoine, 2012.


SIMMEL, Georges, La Tragédie de la culture. Paris : Rivages, 1988, 1ère parution de Métaphysique de la mort en 1909.


VERÍSSIMO SERRÃO, Adriana (coordenação). Filosofia da paisagem, uma antologia, Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2011.

Artigo recebido em 30/04/2013

Aprovado em 20/06/2013





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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

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