Est. Soc. [online]. 2014, vol. 1, n. 20.


POLÍTICAS DE TURISMO RURAL E A PROMOÇÃO DE UM IDIOMA AMBIENTAL: etnografia de Caminhadas na Natureza no Vale do Ivaí, Paraná


POLICIES FOR THE RURAL TOURISM AND THE PROMOTION OF THE ENVIRONMENTAL LANGUAGE: ETHNOGRAPHY ABOUT HIKING ON THE VALE DO IVAÍ, PARANÁ


Rodrigo Toniol1

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Resumo: Este artigo toma como foco de interesse empírico a promoção e realização de caminhadas na natureza como política pública no Estado do Paraná, Brasil. A partir deste contexto, investigou-se o modo pelo qual esta ação está relacionada com uma série de transformações mais amplas que têm contribuído para tornar a questão ambiental uma espécie de idioma não restrito ao âmbito ecológico, mas capaz de operar como paradigma moral, ético e estético. Neste sentido, interessam tanto os processos de institucionalização da questão ambiental, como sua acomodação em contextos de relações específicos. Para tanto, privilegio os caminhantes e o modo pelo qual experimentam a caminhada, forjando sentidos do que seja ecologia, natureza e paisagens rurais, assim como as ações estatais e sua capacidade de articular projetos de desenvolvimento econômico, ecologia, agricultura familiar e turismo na promoção das caminhadas.


Palavras-chave

Caminhadas. Natureza. Ambientalização. Paisagem.


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Abstract: This article focuses empirically on the promotion and organization of hiking events as Paraná State’s public policy. In this context, we have investigated the way in which the state's action is related to a range of broader changes that have contributed to turn the environmental issue into a sort of language that is not restricted to the ecological realm, but is instead capable of functioning as a moral, ethic and aesthetic paradigm. In this sense, we are interested in both the institutionalization of environmental issues and in their accommodation with specific contexts of social relations. In order to understand that, we have centered our analysis on the hikers themselves and on the way they experience hiking, giving meaning to notions such as ecology, nature and rural landscapes. We have also examined state actions and their ability to coordinate economic development, ecology, family farming and tourism while promoting hiking events.


Keywords

Hiking. Nature. Environmentalization. Landscape.


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O ato de caminhar parece conter um sentido primordial do deslocamento sob dois aspectos. Por um lado, está relacionado àquilo que é descrito como característico da natureza humana, caminhar ereto sobre os dois pés. Por outro, é associado com processos de contato cultural, formação de alianças e de grupos. A caminhada, nesse sentido, opera tanto como elemento capaz de explicar a humanidade como espécie, quanto para compreendê-la enquanto cultura. Na divisão do trabalho científico, coube aos antropólogos tratar dessa segunda dimensão ontológica da existência humana. O funcionamento dessa partilha entre o domínio da natureza e o da cultura forjou especialistas para cada um deles e, por conseguinte, tornou mais difícil de reconhecer fenômenos, práticas e explicações capazes de deslizar de um desses polos a outro. Assim, embora o ato de caminhar possa ser tematizado como objeto de interesse tanto das ciências humanas quanto das ciências da natureza, cada um desses campos apreendeu esse tipo de deslocamento a seu próprio modo. Enquanto a maior parte das referências sobre caminhadas elaboradas desde as ciências sociais concebem-na como uma via de acesso a representações socioculturais, as problematizações das ciências biológicas estão associadas à evolução da espécie e às habilidades motrizes.


Nas últimas décadas, no entanto, tem surgido uma série de questionamentos sobre esse princípio de distinção absoluta entre natureza e cultura, bem como de suas consequências para a produção de conhecimento (DESCOLA, 2005; INGOLD, 2000, 2011; LATOUR, 1994, 2002; VIVEIROS DE CASTRO, 2002). Em diálogo com essas perspectivas, detenho-me, neste texto, em reflexões sobre a organização e feitura de caminhadas, realizadas no marco de uma política pública do estado do Paraná, Brasil. Tratam-se de caminhadas desenvolvidas no âmbito de um projeto que tem como objetivo o fortalecimento do turismo rural e da agricultura familiar em municípios de vocação agrícola nesse estado. Tais atividades articulam esferas federais, estaduais e municipais do poder público brasileiro a partir da mobilização de órgãos como o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Paraná (Emater), diversas secretarias municipais, além da Organização Não-Governamental Anda Brasil. Precisamente, tomo como locus de interesse empírico as atividades relacionadas com o projeto Caminhadas na Natureza2, realizadas em algumas cidades da região do Vale do Ivaí, localizada na porção centro-norte do Paraná.


A partir desse universo de investigação, meu esforço neste artigo está voltado a dois eixos de reflexões que, embora apresentados inicialmente como distintos, ao longo do texto serão relacionados. Em primeiro lugar, trato de assumir o próprio ato da caminhada como um fenômeno possível de ser analisado antropologicamente. Em segundo, reflito sobre de que maneira o deslocamento de caminhantes em percursos de paisagens rurais tem contribuído não apenas para despertar o turismo rural em determinadas regiões, mas também para promover certo ideário ecológico entre caminhantes e agricultores envolvidos com o evento. A relação desses dois esforços analíticos reside na possibilidade de conceber o próprio deslocamento da caminhada como um aspecto central para a incorporação desse ideário por parte dos sujeitos pesquisados.

A temática mais ampla da pesquisa que deu origem a este texto está associada à análise dos múltiplos processos de ambientalização social3. Tais fenômenos podem ser identificados tanto na emergência de práticas de sujeitos e grupos que fazem da promoção do ideário ecológico um posicionamento político e ético a ser assumido diante de um contexto de degradação ambiental, como também na incorporação de questões ambientais em ações de grupos e instituições que tradicionalmente não estiveram empenhadas na defesa de causas ecológicas. Trata-se de refletir sobre o funcionamento de uma espécie de idioma não restrito ao âmbito do ecológico, mas capaz de também operar como paradigma moral, ético e estético em contextos e práticas aparentemente distantes das problemáticas ambientais4.


Eleger uma política que promove caminhadas em paisagens rurais como foco de interesse para investigar a promoção desse idioma é, propositadamente, uma escolha que evita centrar atenção em ações voltadas diretamente às temáticas ecológicas, mas que, assim mesmo, podem ser relacionadas a um processo mais amplo de institucionalização dessas temáticas nas políticas estatais. Nesse sentido, a incorporação do ideário ecológico na rotina burocrática do Estado é, além de efeito de um processo de expansão do idioma ambiental, um agente ativo na produção e promoção de sentidos específicos para os termos desse idioma.


Ao tratar dessa expansão a partir da ideia de idioma, procuro assinalar a capacidade que as questões ambientais têm de parecer ideologicamente neutras e, por conseguinte, passíveis de abrigar distintos posicionamentos. A ecologia, nesse sentido, é como um significante vazio cuja expansão para múltiplos campos está condicionada à possibilidade de mediar debates sem limitar demasiadamente a posição dos atores neles envolvidos. A noção de idioma, portanto, torna evidente essa relação entre a expansão das questões ambientais e a necessária não fixidez dos sentidos do que seja o ecológico, a natureza e o ambiente. Trata-se de uma espécie de idioma cuja existência se dá mais no domínio da sintaxe que no da semântica.


Contudo, reconheço, desde já, que se a metáfora do idioma ambiental é potencialmente boa para pensar a expansão de certa ética ecológica, ela também sustenta, como qualquer metáfora, um duplo sentido que, nesse caso, é um risco para a análise que empreenderei. Isto porque ela pode contribuir para o que podemos reconhecer como uma reflexão reificante, que explica, por exemplo, a constituição de sujeitos ecológicos como resultado de uma espécie de tomada de consciência em que a própria “ecologia” explica a expansão desse ideário. A circularidade de explicações como essas terminam invisibilizando a maneira pela qual os processos de ambientalização potencializam-se na medida em que incorporaram inúmeras contradições, não sendo limitados, nessas associações, por virtuais incompatibilidades, mas, pelo contrário, circunscrevendo-as. No caso das caminhadas em paisagens rurais, trata-se de explicitar e refletir sobre essa relação, aparentemente paradoxal, em que a necessidade de desenvolvimento econômico de determinadas regiões engendram atenções e engajamentos ecológicos5.


A seguir descrevo, em um primeiro momento, a organização das caminhadas por parte de distintos agentes envolvidos com o evento. A partir da perspectiva dos técnicos da Emater, dos agentes públicos, dos produtores rurais e dos formuladores das Caminhadas na Natureza, discorro sobre os interesses e justificativas para a realização desses eventos. Desse modo, procuro apresentar o modo pelo qual o idioma ambiental legitima e circunscreve essas perspectivas distintas. Em um segundo momento, discorro sobre as motivações, interesses e expectativas que levam os sujeitos a caminhar, assim como de suas concepções sobre corpo e bem estar. Desde uma perspectiva fenomenológica, procuro descrever a caminhada a partir das experiências dos caminhantes. Trato de refletir sobre o próprio deslocamento como ação de conhecimento acerca das paisagens em que se caminha e de produção de atenção.


A produção da política das Caminhadas na Natureza


Embora o Paraná seja um dos estados mais prósperos do Brasil6, há uma espécie de corredor de municípios empobrecidos que corta sua região central desde a cidade de União da Vitória, que faz divisa com Santa Catarina, até o norte do estado7. No centro desse corredor está situado o Vale do Ivaí, uma microrregião composta por 28 municípios8, que, desde a última década, têm sido alvo de diversas políticas públicas voltadas para o desenvolvimento regional de áreas vulneráveis9. A efetivação dessas políticas em áreas que extrapolam os limites geográficos de um município é resultado de uma mudança no tipo de recorte espacial das áreas beneficiadas por programas de crédito e de aceleração do crescimento mantidos pelo governo federal. A partir de incentivos do Ministério da Integração Nacional e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), bem como de algumas políticas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), cidades com características sócio-demográficas similares se articularam para constituir uma instância administrativa chamada de território. Alguns programas federais e estaduais, inclusive, são voltados exclusivamente para o desenvolvimento territorial, de modo que os municípios que não estiverem relacionados em algum coletivo mais amplo ficam impossibilitados de demandá-los.


Nesse contexto, em meados da década de 2000, algumas cidades situadas na região do Vale do Ivaí se mobilizaram politicamente para fortalecer a Amuvi (Associação de Municípios do Vale do Ivaí). A partir do revigoramento dessa instância, e das diversas câmaras temáticas que foram reinstituídas para determinar as diretrizes gerais do território, questões antes não debatidas na região começaram a surgir. Esse é o caso da exploração turística local que, sem qualquer tradição naquelas cidades, passou a ser o tema das reuniões quinzenais da Amuvitur (Associação dos Municípios Turísticos do Vale do Ivaí).



Quando iniciei o levantamento sobre quais regiões, estados ou municípios promoviam a prática de Caminhadas na Natureza como uma ação institucionalizada, não estava à procura de onde havia maior concentração de caminhantes, grupos ecológicos ou ecoturistas, mas buscava, sobretudo, núcleos de produção de relatórios, normatizações, leis e controvérsias em torno das Caminhadas na Natureza. Assim, não foi a partir dos caminhantes, dos produtores rurais ou dos extensionistas envolvidos com as caminhadas na região do Vale do Ivaí que passei a concebê-las como possível foco de interesse empírico desta pesquisa, mas sim, em função da significativa produção regional de burocracia, de diagnósticos técnicos e de expertises relacionadas com esse tipo de evento.


Antes de conhecer os sujeitos concretos que tornavam as caminhadas possíveis, tive contato com a existência política do “território do Ivaí” a partir de notícias e relatos que narravam aquela região como uma grande arrecadadora de recursos dos editais direcionados para o desenvolvimento territorial e uma produtora de exemplos bem sucedidos nas políticas voltadas para contextos rurais. Foi inicialmente a partir dos relatórios disponíveis no site da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (SEAB) que descobri que, apenas no Vale do Ivaí, em 2010, mais de 500 pessoas haviam se envolvido com a organização das caminhadas, mais de 5.000 pessoas haviam caminhado e mais de 40.000 reais haviam circulado por conta desses eventos. Assim, a região que elegi para fazer meus trabalhos de campo foi, ao menos em um primeiro momento, um espelho fiel ao agrupamento de municípios que constituía o Território do Vale do Ivaí.


Como mostrarei a seguir, mesmo que conte com o apoio do Território, enquanto instância administrativa, as Caminhadas na Natureza são organizadas, fundamentalmente, via Emater10. A capilaridade dessa instituição em todo país e sua estrutura de escritórios estaduais, regionais e locais, permite que determinados projetos sejam rapidamente implantados em diferentes contextos.


Durante os anos de 2006 e 2007, Ednei Bueno, então coordenador do Turismo Rural no Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e funcionário de longa data da Emater-PR, tornou o projeto das Caminhadas na Natureza11 uma das ações centrais para a promoção do turismo rural no Brasil e estabeleceu como principal parceiro executor nos âmbitos estaduais, a Emater. Em algumas unidades da federação, o projeto desenvolveu-se vigorosamente, já em outras, nenhuma caminhada foi realizada. No Paraná, aquilo que era uma diretriz para o desenvolvimento do turismo rural no país foi tornada uma política pública. Isso garantiu que o projeto nacional fosse incorporado no Estado e chegasse, por meio dos escritórios locais da Emater, nas suas cidades mais empobrecidas.


Como mostra o mapa 2 (abaixo), tem havido um crescimento significativo no número de circuitos promovidos no Paraná. Em 2007, ano em que a política foi implantada, foram feitas 23 caminhadas, quatro anos depois, em 201212, ocorreram 69 caminhadas, o que representa um aumento de 200%. Os municípios do Vale do Ivaí concentram, pelo menos, 16% de todas as atividades promovidas no Estado constituindo-se, deste modo, como o território com a maior participação na política. Outro dado importante explicitado no mapa 2 refere-se a quantidade de municípios que realizou caminhadas em um ano e repetiu a atividade no ano seguinte. De um universo de 47 cidades que promoveram caminhadas em 2011 apenas três municípios não fizeram a atividade novamente em 2012 e outros dois , além de repetirem o evento, realizaram duas ou três caminhadas (Apucarana 2; Cerro Azul, 3). A realização de mais do que uma caminhada tem se tornado frequente, de modo que além das cidades já citadas, em 2012 outros sete município fizeram dois circuitos (Bossazópolis, 2; Cambira, 2; Curitiba, 2; Mandaguaçu, 2; Pontal do Paraná, 2; São José dos Pinhais, 2; Tijucas do Sul, 2).



A materialização dessa parceria entre MDA, governo do estado e Emater dá-se, sobretudo, a partir de oficinas de divulgação da atividade, que tem como público alvo políticos, empresários e extensionistas rurais interessados em realizar uma caminhada em suas localidades. Nesses eventos, além de apresentar a articulação burocrática entre as instâncias administrativas que torna possível as Caminhadas na Natureza, os responsáveis expõem o roteiro para a execução prática dessas atividades. Em algumas oficinas, fazem-se presentes não somente técnicos da Emater e do Setor de Turismo Rural do Estado, que detêm um saber-fazer da organização das caminhadas, mas também alguns representantes da ONG Anda Brasil. Tal ONG é a entidade brasileira associada à Federação Internacional de Esportes Populares e tem um papel central na institucionalização de Caminhadas na Natureza. O apoio não-governamental ocorre, sobretudo, em três dimensões: na capacitação de técnicos da Emater tanto para organizar circuitos como para treinar outros técnicos para essa tarefa; no cadastro dos circuitos municipais de caminhada em um calendário internacional de eventos da mesma natureza apoiados pelas federações nacionais de esportes populares13; e no fornecimento gratuito de carteirinhas para cada um dos caminhantes marcarem os circuitos que já realizaram.


Antes de ir até o Vale do Ivaí acompanhei uma dessas oficinas em Blumenau, Santa Catarina. Na ocasião havia alguns representantes de cidades catarinenses, interessados em conhecer o projeto das caminhadas, Ednei Bueno, com a tarefa de apresentar o projeto e a experiência do Paraná, e Airton Violento, presidente da Anda Brasil. O público, que lotava uma das salas da secretaria de turismo da cidade, foi informado sobre os principais erros, as dificuldades e os acertos na organização das caminhadas. Nessa oficina, novamente deparei-me com narrativas sobre o território do Vale do Ivaí como um bom exemplo de promoção dessas atividades.


Após tantos encontros discursivos com as práticas de turismo do Vale do Ivaí comecei, assim que retornei a Porto Alegre, a organizar minha ida efetiva até a região, mais especificamente, até a segunda maior cidade desse Território, Ivaiporã. Essa cidade está situada na porção centro-norte do Paraná, distando 500 quilômetros da capital, Curitiba. Na primeira metade do século XX, o município, junto com as cidades de seu entorno, foi um dos principais centros de produção de café do país. Atualmente, embora a principal atividade econômica siga sendo a agricultura, a monocultura do café deu lugar às culturas da soja, trigo, milho, aveia, feijão e criação de bicho-da-seda.


A partir da indicação de Ednei e Violento, cheguei em Ivaldete, a técnica da Emater responsável pelo turismo rural no Vale do Ivaí e uma entusiasta do projeto das caminhadas.


O deslocamento rodoviário de Curitiba até Ivaiporã dura mais de sete horas. Essa viagem da capital paranaense até as cidades que margeiam o Rio Ivaí é realizada por apenas uma linha de ônibus que opera em dois horários. Ivaiporã, com terra vermelha impregnada por todos os cantos, tem pouco mais de 20.000 habitantes e dispõe de uma infraestrutura significativa se comparada a outros municípios da região. Organizei minha primeira ida até lá, por sugestão de Ivaldete, de modo que pudesse participar do principal evento turístico da cidade, a I Caminhada Internacional na Natureza.


Ao desembarcar na rodoviária do município por volta das quatro horas da manhã e deslocar-me a pé pelo centro da cidade até o hotel em que me hospedaria, podia perceber a chegada dos primeiros agricultores que vinham até o comércio local para abastecer suas propriedades. Nesse curto trajeto, deparei-me com faixas espalhadas pelas ruas anunciando a caminhada. Na porta e na recepção do hotel havia cartazes e folder de divulgação. A partir das oito horas, uma moto equipada com alto-falante começou a dar voltas no centro da cidade convocando a todos para a atividade. Nas conversas com os vendedores do comércio local e com alguns moradores do centro era sensível a expectativa relacionada ao evento que estava por acontecer.


Ainda que as Caminhadas na Natureza possam ser situadas em um quadro mais amplo de ações governamentais voltadas para a diversificação econômica em municípios de vocação rural, como Ivaiporã, algumas das características dessa política marcam uma mudança no tipo de atividade promovida por órgãos de extensão rural, como a Emater.


Ao narrar sua trajetória profissional, por exemplo, Ivaldete identifica as Caminhadas na Natureza como demarcadoras de uma espécie de transformação no foco das políticas que, enquanto extensionista, ajudou a executar.


Nós da Emater sempre trabalhamos com assistência técnica do agricultor, mas era muito direcionada só para agricultura. Daí realmente de 1980 para cá houve uma mudança preocupada não só com a renda agrícola, mas preocupada também com a renda não-agrícola. Como nós falamos, preocupada em transformar o produto e comercializar o produto. E o turismo é isso. É você trabalhar a questão do artesanato. Hoje nós trabalhamos muito o artesanato em fibra de bananeira, em bambu, taboa. A gente trabalha muito o artesanato hoje nessa linha de fazer com que as pessoas não trabalhem só a produção, mas também o outro lado, que ela veja a propriedade com outros olhos usando também essa outra alternativa (...). Caminhada não é para quem está no meio rural, é para quem está na cidade. Quem está no meio [rural] também vai, mas principalmente quem está no meio urbano e isso não tinha na Emater. Antes era só trabalho em cima do produtor, agora a gente chega até o produtor, mexe com a autoestima dele levando a cidade para o campo. (Ivaldete, técnica da Emater, responsável pelo turismo rural no Vale do Ivaí).


A narrativa de Ivaldete acerca da constituição de circuitos de caminhadas em uma região com alta concentração rural no Paraná auxilia-nos a compreender características dessas atividades e como tais eventos marcam uma distinção, em relação a décadas anteriores, no tipo de assistência prestado por órgãos como a Emater. Contudo, não foi apenas no âmbito de instituições voltadas para assistência rural que as Caminhadas na Natureza tornaram-se marcos significativos de um deslocamento no caráter das ações por elas promovidas, mas essa alteração também pode ser percebida se colocarmos em perspectiva outras políticas de gestão de espaços da natureza no Brasil. A seguir, apresento brevemente algumas dessas políticas e como cada uma delas sustenta um determinado conceito de natureza.


Natureza em foco: de parques ao turismo rural


Políticas ambientais estão na pauta governamental brasileira ao menos desde a década de 1970. Essa agenda, entretanto, esteve balizada, em um primeiro momento, por agências de governança global como a Organização das Nações Unidas (ONU). Posteriormente, legislações ambientais foram criadas para contemplar exigências de credores internacionais como Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Fundo Monetário Internacional (FMI)14. Assim, o desenvolvimento de ações referentes às questões ambientais pautou-se, nesse período, em diretrizes internacionais. De modo geral, essas ações diziam respeito, sobretudo, ao manejo de dois tipos de espaços: aqueles eleitos como lugares de conservação da fauna e flora; e os de produção agrícola15.


Os projetos de criação de Unidades de Conservação ambiental, parques, santuários ecológicos, etc., não estiveram, inicialmente, relacionados com uma intenção de exploração turística desses locais, mas associados com a ideia de proteção e de preservação dessas áreas da ação antrópica. Tal modelo de parques, importado dos Estados Unidos, não privilegiava a interação entre um espaço protegido e as pessoas, mas isolava, criava ilhas em que uma natureza supostamente autêntica poderia seguir seu curso longe daqueles que, hipoteticamente, a descaracterizariam por sua presença16.


Além da criação de Unidades de Conservação, as ações governamentais voltadas para a gestão da natureza concentraram-se no manejo de terras agriculturáveis e na assistência técnica aos produtores rurais. Se a natureza das Unidades de Conservação era aquela em que a presença humana provocaria sua degradação, no caso das terras de agricultura, a natureza deveria ser preparada para que sua fertilidade fosse maximizada. Organismos especializados, como a Emater, foram criados e deram apoio ao trabalho técnico das secretarias de agricultura estaduais. Nesse sentido, assim como a nominação de determinados espaços como Unidades de Conservação terminou constituindo a natureza daquele contexto como uma paisagem para ser preservada, as paisagens agrícolas constituíram-se como espaços pouco associados à natureza.


No caso da política de caminhadas aqui discutidas, dois aspectos marcam importantes descontinuidades com relação à lógica acima descrita: a natureza por onde passam as caminhadas não é a dos parques ou Unidades de Conservação, mas a das plantações de pequenas propriedades rurais; e a Emater é a principal articuladora de uma ação que toma as paisagens do campo não como espaços de trabalho, mas enquanto natureza que deve ser apreciada. O que está em jogo, portanto, não é uma atividade em uma suposta natureza autêntica, tampouco uma política de assistência técnica para os trabalhadores do campo, mas a promoção de uma atividade ambiguamente voltada aos citadinos e aos agricultores, uma ode a um tipo de natureza não detentora, a priori, do direito de ser preservada. Como mostrarei a seguir, a legitimidade dessa natureza do campo é produzida, pelos agentes envolvidos com o evento, a partir de um apelo ecológico. Noutras palavras, a eficácia da realização de uma passagem da natureza do campo tida como bruta, não intacta, antropomorfizada para uma natureza possível de ser apreendida como bela, autêntica e natural depende do estabelecimento de relações, nesse contexto, com termos característicos do idioma ambiental.


A política das Caminhadas em relação a outras ações para o desenvolvimento do turismo


As Caminhadas na Natureza puderam, por um lado, se fortalecer na esfera estadual por conta de sua institucionalização enquanto política pública e, por outro, se consolidar na Emater a partir de seu status de metodologia de trabalho. Com isso, essas atividades ainda foram capazes de conectar burocracias, funcionários e expedientes da Emater e da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado (Seab). Isto é, não apenas órgãos voltados para a agricultura familiar passaram a operar essa política, como também agentes de áreas como turismo e meio ambiente envolveram-se com sua implantação.


Embora a possibilidade de as caminhadas serem tanto uma política pública estadual, como uma metodologia da extensão rural tenha sido fundamental para que pudessem se desenvolver plenamente na Emater, não havia, na instituição, estrutura burocrática para abrigar profissionais, rotinas e demandas que não fossem ligados à produção rural. Como afirma Laura, a primeira turismóloga a trabalhar na Emater e, na época da implantação do projeto das caminhadas, estagiária do grupo que estava encarregado da tarefa, “quando eu entrei não existia uma estrutura para tratar do turismo. Existia o Ednei, que era meu chefe, e a Laura. Não tinha sala, computador, mesa, não tinha nada.”


A aparente inexistência de práticas de turismo nos órgãos voltados para a gestão rural, no entanto, é uma espécie de problema nominalista. Isso porque, embora o conceito de turismo rural – e, por conseguinte, todo o aparato concreto que sua existência abstrata torna possível – seja bastante recente na Emater, determinadas atividades sugerem uma tradição mais longa, nesses órgãos, na promoção de eventos turísticos do que a oficialidade informa-nos. Perguntado sobre o histórico do turismo rural nos órgãos de assistência rural, Ademar Dressler, chefe do Núcleo de Turismo Rural da Seab, afirmou:


O turismo rural começou no Paraná em 1997 com os trabalhos com Pesque e Pague. Mas se você olhar os nossos apontamentos mais antigos vai encontrar lá coisas como: a Festa do Moranguinho, a Festa do Abacaxi, a Festa do milho. Tudo isso a gente sempre fez, então, a coisa não é tão nova assim.


Mesmo que o turismo rural fosse praticado localmente, a nominação desse tipo de prática e o incentivo a outros formatos de exploração turística, para além das festas temáticas, se deram a partir de políticas nacionais que estabeleceram novas diretrizes de desenvolvimento de áreas rurais do país. Nesse sentido, a política de caminhadas está relacionada com dois movimentos mais amplos de incentivo ao turismo rural no Brasil. Por um lado, para viabilizar uma série de outras políticas voltadas à agricultura familiar que têm como objetivo tanto a diversificação das cadeias produtivas nas áreas rurais, como o retardamento da saída dos jovens do campo para cidade. E, por outro lado, as Caminhadas na Natureza são parte de um processo de municipalização do turismo no Brasil. Isto é, a possibilidade de desenvolvimento de atividades turísticas deixaram de estar restritas a áreas de reconhecimento nacional, como as Cataratas do Iguaçu, a Amazônia, o Pantanal, etc., e começaram a ser promovidas a partir de atrativos municipais não explorados. As estratégias dos órgãos federais e estaduais para esse novo formato de incentivo ao turismo deram-se, sobretudo, com a realização de oficinas de capacitação. As Caminhadas na Natureza, por exemplo, foram apresentadas, em 2004, a mais de 13 cidades consideradas estratégicas para o desenvolvimento do turismo no país, por meio de uma oficina nacional.


A partir de 2003, o governo federal, por meio da Secretaria de Agricultura Familiar e do Ministério do Desenvolvimento Agrário, intensificou as linhas de crédito voltadas ao turismo rural. No Paraná criou-se a Rede de Turismo na Agricultura Familiar (Rede Traf) que, ao buscar roteiros para o desenvolvimento de seus projetos, privilegiou regiões em que fosse possível promover o contato com a agricultura familiar e, ao mesmo tempo, remeter a experiências, práticas e sentidos comumente relacionados às paisagens da natureza.


Como se pode perceber, as articulações entre os governos estaduais e federais envolvendo o projeto de Caminhadas na Natureza não passa pelo Ministério do Turismo. Isso porque o estatuto de programas relacionados com a agricultura familiar para o desenvolvimento de atividades turísticas é funcional, uma espécie de ferramenta para uma finalidade mais ampla, como a diversificação das cadeias produtivas disponíveis para os agricultores. Já outros formatos de exploração turística em espaços rurais como, por exemplo, os hotéis fazenda, são iniciativas da alçada do Ministério do Turismo.


Essa configuração burocrática do que é efetivamente turístico e do que apenas utiliza o turismo como ferramenta tem como implicação imediata tornar pouco provável a passagem de um tipo de formato para outro. Nesse sentido, a gestão e a definição dos objetivos de um projeto como o das Caminhadas na Natureza produz, inevitavelmente, uma controvérsia entre os interesses da Emater e do município em promover o mesmo evento. Enquanto para os extensionistas rurais promover as Caminhadas na Natureza é uma ferramenta, uma metodologia para trabalhar questões relacionadas à agricultura familiar, para a administração municipal, o projeto das caminhadas é, na maior parte das vezes, a única ação local efetivamente turística e, se há um caráter ferramental nela, é contribuir para o desenvolvimento do próprio turismo na região. O que está em jogo é perceber que, embora imprescindível, o apoio municipal para a realização das Caminhadas na Natureza está fundamentado não apenas em justificativas distintas das que deram suporte ao projeto nos âmbitos federal e estadual, como também as expectativas projetadas nesses eventos – catalisar o turismo na região – são incompatíveis com as pretensões dos órgãos que elaboraram o projeto.


No Vale do Ivaí, foi Ivaldete quem, inicialmente, apresentou o projeto das Caminhadas na Natureza e, posteriormente, conseguiu efetivá-lo. De alguma maneira, nessa região, a expectativa das caminhadas como ferramenta para o rural e como produto turístico operou ambiguamente desde sua implementação, a partir da figura de Ivaldete que tanto é a responsável da Emater pela organização dessas atividades, como é conselheira na instância de debate sobre turismo na região, a Amuvitur. Talvez isso ajude a compreender o sucesso da política naquele contexto.


Em 2007, a técnica da Emater participou de um evento sobre turismo rural realizado na serra gaúcha. Nessa ocasião, Violento, presidente da Anda Brasil, apresentou as Caminhadas na Natureza para um público de secretários municipais de turismo, extensionistas rurais e empresários.


Quando eu ouvi aquilo [a palestra sobre caminhadas], percebi que seria uma grande jogada para a gente iniciar o trabalho do turismo rural. Porque era uma forma de levar as pessoas do meio urbano para o ambiente rural e mostrar o que tem lá: produtos, artesanatos, comidas. Falei com o Violento e descobri que ia ter uma oficina nacional de caminhada em Curitiba. Como eu já tinha ido lá para Caxias, mandei as meninas [extensionistas das cidades vizinhas] que trabalhavam em lugares onde eu acho que podemos fazer um trabalho de turismo. Quando elas voltaram de lá, já tinham dois circuitos de caminhadas prontos. [Ivaldete, técnica da Emater, responsável pelo turismo rural no Vale do Ivaí].


Já na elaboração desses primeiro circuitos, a questão ecológica foi privilegiada, seja na definição das paisagens por onde passaria o circuito, seja na programação das atividades a serem realizadas ao longo do caminho como, por exemplo, o lançamento de balões com sementes e mensagens ecológicas, a plantação de mudas em áreas assoreadas e a soltura de peixes nos rios. Laura, turismóloga da Emater estadual, afirmou que, desde as primeiras oficinas, todos perceberam nas questões ecológicas, traduzidas na escolha do trajeto da caminhada e nas atividades ao longo do percurso, um potencializador do projeto.


Percebemos como o pessoal queria caminhar na natureza, mas o que a gente tinha, na verdade, eram trigais, milharais e estradas rurais. Aí a gente pensava muito nisso por que, poxa, isso [as plantações] também é natureza, uma natureza reinventada, mas é. Para falar a verdade a coisa da ecologia chegou para nós e para os produtores por osmose, nunca teve um planejamento ambiental, mas a ecologia veio. Os caminhantes ajudam também e nós e os produtores fomos pegando. Essa coisa da ecologia vem muito dos caminhantes e os agricultores acabam pegando isso e passando para os seus produtos. De repente a partir desse olhar do caminhante que pergunta sobre como aquele produto é produzido acaba ajudando [o produtor] a fazer uma reflexão sobre a forma de produção e acaba tendo que atender e entender essa demanda para um produto de base ecológica. Acho que essa proximidade do produtor e consumidor, isso fortalece o produto de base ecológica. É isso que fortalece o projeto. (Laura, turismóloga da Emater estadual)


Além de uma série de artifícios nas paisagens rurais para aproximá-la de certo ideal de natureza, os extensionistas rurais recorrem à relação entre agricultura e produção de alimentos para estabelecer essa associação. Ao lançar mão desse tipo de estratégia, tanto os produtores rurais como os caminhantes tornam-se “público alvo” da política. Luíza, turismóloga da Secretaria de Agricultura e Abastecimento e coordenadora do projeto estadual Caminhadas na Natureza, assinala a eficácia dessa relação entre consumo e produção de alimentos para associar paisagens rurais e da natureza:


A ideia é que a pessoa que caminha e os próprios produtores mudem sua relação com a alimentação. A ideia é despertar a consciência dessas pessoas para produzir e consumir alimentos mais saudáveis, e que isso não são as grandes empresas que produzem, mas a agricultura familiar. Valorizar os alimentos orgânicos é nossa estratégia. Então a gente quer passar essa imagem, que o produto tem mais saúde, que a pessoa consuma saúde com a agricultura familiar, então a gente quer colocar essa imagem de um produto mais saudável, mais orgânico e que gera relação entre o homem do campo e homem da cidade. [Luíza, turismóloga da Seab].


A produção da ideia de que plantações podem ser não apenas lugares turísticos, como também podem ser lugares ecológicos, não deve, como ouvi de alguns dos organizadores das caminhadas, estar pautada por uma “visão de turismo e de ecologia limitada”. Nesse sentido, afirmou Ednei: “Tem uma cidade aqui perto que chama Pérola e, para falar a verdade, a única coisa bonita lá é o nome. Acontece que os produtores estão percebendo algumas coisas. Estão percebendo que mostrar um passarinho na natureza rende mais que vender ele no espeto, então a gente está fazendo aparecer a natureza que tem lá”.


No rastro das Caminhadas


Da varanda de sua casa, na parte mais alta da fazenda, Seu Ivo e Dona Maria observavam admirados a fila indiana de 800 pessoas que cortava seus campos de trigo. A desconfiança de que ninguém sairia de casa em um domingo de manhã para caminhar no mato transformou-se em dúvida inquietante sintetizada por Dona Maria que, sem dirigir a pergunta a ninguém, dizia: “Eu olho, olho e não vejo nada. O que esse povo todo acha de tão bonito na lavoura?” Ao seu lado, uma das técnicas da Emater reage, “Ué, é o que eu sempre falo, o agricultor tem que valorizar o que tem. A gente não sabe o potencial que a gente tem nas mãos”.


No dia da caminhada, desde às seis horas da manhã, ônibus de todas as cidades do Vale do Ivaí começam o transporte dos caminhantes até o município em que ocorrerá o evento. À cidade que sedia a caminhada cabe a organização de saídas de vans e ônibus da praça central até o ponto de partida da atividade. Enquanto isso, nas propriedades cortadas pelos circuitos, as famílias se dividem entre aqueles que cuidarão das atividades cotidianas da lida no campo – que não podem ser determinadas por outro tempo que não seja o da própria terra e, assim, é preciso plantar, colher, roçar e ordenhar as vacas – e aqueles que se encarregarão dos últimos preparativos para a caminhada, suspendendo a energia nas cercas, colocando placas ou arrumando mesas para vender produtos caseiros. Na comunidade que receberá os caminhantes para o café da manhã ou almoço, a cozinha começa a funcionar desde às 5 horas da manhã. Nesses locais, as notícias das confirmações dos ônibus que saem dos municípios vizinhos ajudam a calcular quantos litros de leite preparar, quantas jarras de suco, quantos pratos recolher de todas as casas em volta. No escritório da Emater, os técnicos conferem o número de carteirinhas que serão distribuídas, as funções que cada um desempenhará ao longo do evento e controlam a saída dos ônibus.


Pouco depois das 7 horas da manhã todos começam a convergir para uma igreja, casa grande de alguma fazenda ou escola rural de onde a caminhada terá seu início. Assim que os ônibus vão chegando o locutor vai narrando, do alto de um palanque improvisado em cima de uma carroça ou de uma pequena elevação no relevo do lugar, o município de origem daqueles caminhantes. As mulheres da comunidade começam a vender, nas barracas montadas pela Emater, seus artesanatos, doces caseiros e geleias. Uma fila se forma e as fichas para o almoço ao final da caminhada e para o café da manhã – que já está servido em algum galpão próximo – são vendidas a dez e quatro reais, respectivamente. Em uma tenda maior, os voluntários fazem as inscrições dos caminhantes que vão chegando e preenchendo um cadastro com seus nomes, idades, e-mails e cidades de origem. Assim como os ônibus com os caminhantes chegam, os veículos oficiais como ambulâncias, carro de bombeiros e de polícia também se aproximam com seus respectivos funcionários. Também chegam as autoridades locais e outras pessoas públicas, prefeitos, vereadores, assessores, padres.


Além dos ônibus esperados pela organização local, outros caminhantes chegam com seus carros, ou ainda com seus grupos divididos em vans. Algumas escolas também se organizam e levam seus funcionários e estudantes para o evento. A diversidade de expectativas, interesses e motivações para estar ali é visível na disposição dos sujeitos, nas suas roupas, em seus deslocamentos nessa pequena feira que se forma com as barracas de produtos rurais, na tenda de inscrições e na mesa do café da manhã. Alguns caminhantes chegam com bastões de carbono, botas de treckking, mochilas de hidratação, outros vestem camisas de seus grupos de caminhada, de suas escolas, de seus grupos de oração. Há aqueles que vão “com roupa de missa”, como me comentou certa vez um pároco local. Entre os mais jovens também se encontram alguns com roupas e calçados nada apropriados para caminhar, ou mesmo com pequenos rádios ligados no último volume, tocando com algum hip-hop ou funk.


Os ônibus demoram até parar de chegar e alguns ficam apenas o tempo de todos os passageiros descerem e já voltam para o centro da cidade para buscar mais caminhantes. Assim que tomam o café da manhã, os caminhantes aguardam o início da atividade fazendo registros fotográficos em grupo, nas tendas ou da enorme fila de ônibus que vai se acumulando. No palanque, o locutor que anima o evento com músicas e dizeres de boas vindas, começa a convocar a todos para receberem as primeiras instruções. Com o roteiro do cerimonial em mãos, chama as autoridades a subirem no palanque improvisado. Após uma fala de boas vindas feita pelo político ocupante do cargo hierarquicamente mais elevado presente, seguida de outras de políticos de menor visibilidade, algum dos técnicos da Emater orienta os caminhantes com relação às placas espalhadas pelo circuito, os postos de carimbo e os pontos de apoio onde ficam as ambulâncias e enfermeiros do município. Em seguida, um profissional de educação física orienta um aquecimento coletivo. A imprensa local aproveita o momento para tirar uma fotografia que já se tornou rotina nas notícias sobre as caminhadas em que a multidão com setecentas ou oitocentas pessoas estica braços e pernas seguindo as instruções do professor à frente de todos. O aquecimento é seguido de sorrisos, exclamação de dor e comentários sobre a “situação enferrujada” do próprio corpo dos sujeitos que estão prestes a iniciar uma caminhada que tem entre 12 e 15 quilômetros. Ainda antes do início do percurso, já sob os protestos, sobretudo, dos caminhantes engajados em algum grupo, um padre inicia uma oração, pede atenção às placas que todos encontrarão no caminho e termina com uma benção “aos caminhantes e à natureza”.


O ritmo das primeiras passadas é lento, é possível ver a multidão de pessoas ocupando todo o espaço da estrada por onde passa o circuito. Os estudantes que levam os pequenos rádios seguem com eles ligados, outros ainda fazem coro cantando músicas de bandas como Legião Urbana que são tocadas por adolescentes com violões e pandeiros nas mãos. Os grupos de caminhada, inicialmente, andam em bloco e podem ser identificados pela concentração de camisetas com cores iguais entre tantos estilos de roupas variados. Eu, nesses primeiros metros de caminhada, sempre termino admirado com o número de pessoas dispostas a caminhar e com a primeira placa colocada logo nos 500 metros iniciais do percurso: “Os 10 Mandamentos da Natureza”.17


Embora os caminhantes pareçam um único bloco que caminhará o tempo todo naquela formação, sem deixar espaço sequer para ultrapassagens, conforme os primeiros quilômetros vão ficando para trás as pessoas vão se dispersando. Cada um com sua passada, com seu ritmo, com seu corpo, encontra e desencontra os conhecidos, se aproxima e se afasta de pequenos grupos. Em certos momentos é possível caminhar sem avistar ninguém na frente ou atrás, tendo a impressão de estar em uma caminhada solitária. Eu também estou submetido ao meu próprio corpo e, enquanto caminho, posso conversar e fazer pequenas entrevistas com meus interlocutores somente enquanto compartilho com eles um mesmo ritmo de caminhada. As conversas entre os caminhantes não se finalizam quando acaba o assunto, mas quando os corpos deixam de compartilhar a mesma passada. Nesses momentos em que os desencontros corporais acontecem e, diante do descompasso, as pessoas se despedem, muitos terminam com máximas que sintetizam uma espécie de “ensinamento das caminhadas”, como “o caminho é feito ao caminhar”, “a vida deve ser como uma caminhada, sempre para frente”, “a caminhada é como a vida, a gente se encontra e desencontra com pessoas queridas”, “bom caminho para você”.


Os trajetos por onde se caminha não chegam a ser monótonos, mas a diversidade das paisagens de um circuito tampouco surpreende. A transição de um tipo de ambiência à outra é sutil, a passagem da lavoura para a estrada rural, ou da estrada descampada para outra cercada por grandes árvores é anunciada na própria paisagem. A natureza da caminhada na natureza nem sempre é a que os caminhantes esperavam antes do início do trajeto. Mas nem por isso as pessoas deixam de caminhar ou ainda, de buscar e encontrar a natureza na caminhada mesmo que ela seja diferente da que imaginavam antes de caminhar. Em certo sentido, é a própria natureza da caminhada, que põe o corpo para se deslocar de uma maneira específica, que permite aos caminhantes reconhecerem aquela atividade como uma caminhada na natureza.


Deslocar-se caminhando é tornada uma ação de produção de conhecimento na medida em que é no deslocamento que esses sujeitos estabelecem relação com o mundo por onde caminham. Ao caminhar, os caminhantes encontram a natureza das lavouras de milho, trigo e aveia. É nessa paisagem agrícola que o idioma ambiental é colocado para funcionar. Mas, ao mesmo tempo, as paisagens e elementos mais legitimados por grupos de defesa das questões ambientais estão, em sua maior parte, ausentes nas paisagens agrícolas do Vale do Ivaí. Por isso, o que estou sugerindo a partir da experiência das caminhadas, é que a expansão do idioma ambiental não opera a partir de elaborações cognitivas fundadas em ideais de natureza, mas em modos de engajamento em paisagens que, algumas vezes, não são, a priori, naturais. Tomar o próprio deslocamento como um ato de conhecimento permite que se escape da associação entre a expansão desse idioma ambiental e tomadas de consciência ecológica puramente cognitivas. Assim, pode-se pensar que a dessubstancialização de certo ideal de natureza, que não consideraria as paisagens do Vale do Ivaí como naturais, não é incompatível com o processo de ambientalização social. O que essa perspectiva implica é a necessidade de deixarmos de nos referir à expansão do idioma ambiental como uma ação do cogito, para nos referirmos a ela como a produção de corporeidades ecológicas, fundadas em experiências distintas de natureza.


Após a dispersão da multidão, seis ou sete quilômetros depois do início da caminhada, começam a aparecer as barracas dos agricultores que comercializam algum produto caseiro. As pequenas aglomerações que se formam em volta dessas mesas e nos postos de controle espalhados ao longo do trajeto lembram a todos de que não se está caminhando sozinho. No caminho, muitas placas de sinalização e informativas chamam atenção dos caminhantes. Em algumas dessas placas estão gravadas frases de incentivo, noutras o número de quilômetros já percorridos. Há ainda aquelas com os dez mandamentos da natureza ou com informações sobre determinada árvore ou com o nome de um equipamento comum no meio rural exposto para os caminhantes verem.


Esses “lembretes” dispostos nos circuitos são um aspecto importante para que os organizadores das caminhadas produzam, a cada quilômetro, uma espécie de identidade local. Na caminhada de Jardim Alegre, por exemplo, a produção de café da região foi apresentada por meio de máquinas para moer e torrar os grãos espalhadas pelo caminho. É também a partir dessas placas, que demandam a atenção dos caminhantes, que é possível transformar um tronco de árvore paralelo à estrada em um objeto de apreciação. Na caminhada de Manoel Ribas, um dos pontos altos do circuito era a propriedade de Roberto, onde os caminhantes deveriam atravessar um rio por uma ponte, a pé ou em cima de uma carroça engatada em um trator. Essa última opção havia sido ideia do próprio Roberto e fazia bastante sucesso entre os caminhantes. Diferentemente dos anos anteriores, após muita insistência das técnicas da Emater, naquela ocasião, a travessia com trator seria cobrada pelo produtor, um real por pessoa.


Eu fiquei um pouco desconfiado se o povo ia querer pagar, mas depois que a Mariana [técnica da Emater] falou fiquei mais confiante, até porque a gente acaba gastando o diesel do trator mesmo. Mas aí tinha um tronco perto do rio que a prefeitura tinha tirado para construir a ponte. A gente sabia que ia acumular muita gente para atravessar o rio, então começamos a colocar nome nas coisas que estavam por ali. Eu arrastei uns arados, uns tratores e também colocamos uma placa no tronco. Foi o maior sucesso, o povo fazia fila para bater foto.


Na placa colocada no tronco da árvore estava: “Madeira Cabriúna. Há 20 anos mergulhada no rio Jacutinga”. Os caminhantes não só tiravam fotos, como faziam questão de tocar na madeira. Questionada sobre o toque, uma caminhante afirmou: “Pensa só, aquela madeira estava afundada há 20 anos. Todo esse tempo mergulhada na água. Imagina a energia que aquilo tem, fico até arrepiada de pensar nisso.”


As placas são apenas um dos artifícios nas caminhadas que contribuem para que os corpos dos caminhantes tornem-se sensíveis a certas paisagens e aspectos do mundo em que caminham. Nesse sentido, se há algum tipo de educação ambiental nas Caminhadas na Natureza, essa é menos de um tipo que transmite uma representação sobre o mundo e mais uma educação para a afetação. Isto é, com as caminhadas, os sujeitos tornam-se atentos e sensíveis a elementos que, anteriormente, não eram capazes de mobilizá-los. A elaboração de descrições que situem o ato de aprender na dimensão da experiência, tenta tornar a aprendizagem dos corpos mais dinâmica que aquela formulada por perspectivas que afirmam a existência de um sujeito, de um mundo de objetos e de uma intermediação entre esses dois domínios feita pela linguagem. As inúmeras mediações durante uma caminhada – muitas delas elaboradas propositadamente pelos organizadores do evento – treinam os sujeitos para a apreensão de diferenças entre as paisagens, suas texturas, suas naturezas. É assim que as diferenças entre paisagens, que muitas vezes é concebida como fundada em um conjunto arbitrário de contrastes, se produz na experiência de cada uma dessas caminhadas, desses deslocamentos que, como já afirmei, são formas de conhecer.


É significativo que os caminhantes, quando perguntados se algo mudou na sua relação com a natureza após as caminhadas, elaborem suas respostas, normalmente, em termos somáticos.


Uma coisa mudou, eu comecei a analisar melhor a natureza. Quer dizer, eu sempre gostei de preservar, mas depois que você vai dentro dela, sente o cheiro dela, você começa a ter mais cuidado ainda. O que mudou para mim depois da caminhada foi o cheiro da natureza. [José Rodrigo, Grandes Rios, agosto de 2011].


Antes, mesmo nas primeiras caminhadas, eu não prestava atenção, mas agora tudo que eu vejo presto atenção e dou valor. Olha aí [nesse momento passamos por uma placa que indicava o nome de uma árvore na beira do trajeto] essa árvore é casca danta. Agora sei como ela é, a cor, altura, tudo, nossa eu aprendo muito. [Anita, Ivaiporã, setembro de 2010].


A gente acaba conhecendo muitas coisas, sabe. Aqueles dez mandamentos da natureza, você aprende ali. Com certeza depois da caminhada eu mudei, aprendi mais sobre ecologia, ambiente. Tanto que eu voltei a estudar faz dois anos e agora estou no segundo grau. Mas meu objetivo não é parar aí, não. Quero continuar e fazer, mais pra frente, o técnico em gestão ambiental pra conhecer mais a natureza. E a caminhada ajudou totalmente a despertar isso. Fiquei mais pela natureza, pelas coisas naturais. E o pessoal do meu grupo também ajudou. Tem gente que depois de caminhar fez gestão ambiental. A gente fica mais conectada com a natureza, sente ela mais perto e aí aprende. Na cidade você não ouve o barulho dessa cachoeira, não tem esse ar puro, e como vai pensar em natureza, então? Isso é só caminhando. [Maysa, Manoel Ribas, março de 2011].


Mudou bastante, como a gente fica a vida toda na cidade, fica afastado da natureza, não tem noção do respeito que se deve ter com ela. Mas tendo o contato muda tudo. Muito, muito mesmo. O lado espiritual muda, a gente fica mais sensível às coisas, sabe? [Rosangela, Manoel Ribas, março de 2011].


Eu já fiz caminhada na cidade, mas não é igual. Aqui o clima é outro e isso fica na gente. Parece até que os olhos da gente ficam diferentes. [Fátima, Grandes Rios, agosto de 2011].


As narrativas elaboradas pelos caminhantes para descreverem suas experiências de deslocamento nos remetem a outro aspecto central da caminhada, o mais importante é caminhar e não chegar. Parte desse tipo de problematização foi elaborada, inicialmente, por pesquisadores de peregrinações cristãs contemporâneas em que, diferentemente do que é narrado nos textos medievais, a chegada ao santuário em que termina o périplo não é o ápice do deslocamento, mas uma espécie de anticlímax (FREY, 1998). Assim, a ênfase dos caminhantes em seus deslocamentos, quando experimentam sensações revigorantes e entram em um contato com a natureza, também torna a chegada ao ponto final do percurso não em um momento de êxtase, mas de encerramento. Como disse um caminhante, “Chegar pouco importa. Até porque chegar onde? A caminhada não tem fim, a gente pode encerrar uma caminhada, mas não para de caminhar. Se parar de caminhar é porque morreu”.


Conclusão


Ao elaborar uma reflexão sobre caminhadas, procurei não tomar essa ação de deslocamento como uma expressão de algo antropologicamente analisável, mas, justamente, assumi o próprio ato de caminhar como o foco de interesse desta pesquisa. Nessa perspectiva, meu objetivo primeiro foi o de apontar para a possibilidade de elaborar perguntas que fossem mais adequadas ao que meus interlocutores diziam sobre a relação da caminhada com seus modos de experimentar o mundo. Nas minhas idas ao Vale do Ivaí deparei-me com enunciados como o de João, um caminhante de Londrina, que sintetizava o objetivo daquela atividade como sendo “a contemplação da natureza” algo que, segundo ele, “você só consegue fazer na velocidade da caminhada”.


Ao longo deste texto tratei de apresentar diferentes aspectos e consequências epistemológicas da sentença “caminhar é conhecer”. Conceber o deslocamento como ação intrínseca ao conhecimento pode parecer bastante inusitado em uma sociedade em que, como já havia dito Mauss (2003), uma das primeiras técnicas corporais que se aprende é sentar. A reflexão que procurei desenvolver está assentada na necessidade de jogar luzes sobre a sensibilização perceptiva dos sujeitos em um mundo que se constitui no fluxo dos deslocamentos. A partir dessa perspectiva, que está em franco diálogo com autores como Tim Ingold (2000, 2011), Thomas Csordas (2008) e Merleau-Ponty (1971, 2000), procuro escapar tanto de uma concepção hermenêutica dos sujeitos como seres culturais suspensos numa teia de significados que dá sentido ao mundo, como também da ideia de que os objetos (a paisagem, o mundo) são apenas o resultado de um arranjo de qualidades primárias (forma, tamanho, estrutura). Termino, então, procurando me aproximar de uma apreensão mais fenomenológica em que sujeito e mundo são mutuamente sensíveis e sencientes, de modo que o entrelaçamento desses dois domínios da vida (que não são dois distintos) forjam-se a partir de uma trama irredutível. Não posso recusar, aqui, o parentesco desse tipo de perspectiva com as ideias de Merleau-Ponty que, em seu livro Fenomenologia da Percepção, afirma: “O corpo próprio está no mundo como o coração está no organismo: ele mantém continuamente em vida o espetáculo visível, ele o anima e o nutre interiormente, forma com ele um sistema” (MERLEAU-PONTY, 1971, p. 210).


Ao apresentar a caminhada a partir da experiência dos sujeitos, de seus engajamentos nas paisagens da natureza, da educação de suas atenções nos objetos dispostos nos circuitos do Vale do Ivaí, procurei elaborar uma narrativa etnográfica que descrevesse aquele contexto a partir desses entrelaçamentos entre os caminhantes e as paisagens das caminhadas. Foi desde a perspectiva da experiência dos sujeitos que discuti os rastros das caminhadas na natureza. Como anunciei na introdução, parte de meus investimentos neste artigo estão relacionados com a possibilidade de tratar da expansão de certo idioma ambiental sem, contudo, essencializar o ideal de natureza de tal idioma. Trata-se, em certo sentido, de buscar apresentar o processo de ambientalização social a partir, justamente, de uma natureza dessubstantivada nas experiências dos sujeitos. Não está em jogo, portanto, apreender os significados atribuídos à natureza, mas descrever a produção e a experimentação de paisagens que, em um determinado fluxo de atenção, foram tornadas naturezas.


Notas

1 Doutorando em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Email: rodrigo.toniol@gmail.com

2 De agora em diante, quando utilizar o termo Caminhadas na Natureza, em maiúsculo, estarei me referindo à política pública instituída no Paraná em 2007.

3 O termo “ambientalização social” encontra certa ressonância com “ambientalização dos conflitos sociais” de José Sérgio Leite Lopes (2004). Contudo, o termo aqui empregado procura marcar que o interesse deste trabalho não são apenas os conflitos sociais que adquirem contornos ecológicos, como também a expansão de determinado ideário ecológico para diversas esferas.

4 A categoria idioma ambiental foi elaborada, originalmente, no projeto “Ambientalização Social e religião” e apresentada no texto Carvalho e Toniol (2010).

5 Para outros textos sobre o tema ver Toniol (2012); Toniol e Steil (2012).

6 Segundo os dados divulgados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em 2006, o Índice de Desenvolvimento Humano do Paraná era de 0.820, tornando-o o sexto Estado melhor avaliado do país.

7 Mesmo que os indicadores sociais dessa região do estado apontem, de modo geral, para uma situação de vulnerabilidade econômica, cidades como Apucarana e Guarapuava têm bons índices de desenvolvimento constituindo-se como exceções à caracterização sugerida.

8 Os municípios do Vale do Ivaí são: Apucarana, Arapuã, Ariranha do Ivaí, Barbosa Ferraz, Borrazópolis, Bom Sucesso, Califórnia, Camibira, Corumbataí do Sul, Cruzmaltina, Faxinal, Grandes Rios, Godoy Moreira, Ivaiporã, Jandaia do Sul, Jardim Alegre, Kaloré, Lidianópolis, Lunardelli, Marumbi, Marilândia do Sul, Mauá da Serra, Novo Itacolomi, Rio Branco do Ivaí, Rosário do Ivaí, Rio Bom, São João do Ivaí e São Pedro do Ivaí.

9 Em 2006, conforme os dados do PNUD, apenas dois municípios do Vale do Ivaí tinham um IDH superior a 0.600. Nesse mesmo ano, o IDH do Brasil era 0.790 e do Paraná 0.820.

10 A Emater - Paraná é uma autarquia do governo do Estado de Assistência Técnica e Extensão Rural direcionada à agricultura familiar (Fonte: http://www.emater.pr.gov.br).

11 Embora o projeto das caminhadas tenha circulado, segundo os gestores da política, no Ministério do Desenvolvimento Agrário, na Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná e na própria EMATER, eu nunca tive acesso a esse texto.

12 Os dados de 2012 foram obtidos por meio do calendário oficial de Caminhadas na Natureza disponibilizado pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (Fonte: http://www.seab.pr.gov.br/).

13 Retornarei ao tema da internacionalidade da caminhada nas sessões seguintes.

14 Esta relação também pode ser observada em outros países em desenvolvimento, tal como mostra Fátima Chaves no caso do Paraguai (2004).

15 Não estou interessado aqui em apresentar uma história das políticas ambientais brasileiras, mas relacionar algumas ações governamentais com perspectivas epistemológicas sobre a natureza.

16 Para uma discussão sobre a criação de Unidades de Conservação ambiental e parques, ver Godoy (1999; 2000), Barreto Filho (2001), Pádua (1987).

17 Os dez mandamentos da natureza como parte das placas das caminhadas foi uma sugestão de um pároco de uma das cidades do vale do Ivaí para uma das caminhadas. Desde essa ocasião em todas as atividades na região os dez mandamentos são espalhados ao longo do percurso. Os dez mandamentos são: 1º) Amar a natureza como a si mesmo; 2ª) Não destruir nada, por prazer; 3º) Não pescar predatoriamente; 4º) Honrar e respeitar a natureza; 5º) Economizar os recursos naturais; 6º) Conscientizar-se das consequências da destruição dos recursos naturais; 7º) Ajudar e incentivar as campanhas de reciclagem do lixo; 8º) Diminuir o uso de materiais tóxicos, quer na limpeza do lar quer na agricultura; 9º) Conservar a fertilidade do solo; 10º) Assumir compromissos na sociedade em favor do meio ambiente. (Fonte: Salette – Revista dos Missionários Saletinos, Ano 86, Número 735 – Set/Out 2002; Passo Fundo - RS).


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Artigo recebido em 17/03/2013

Aprovado em 23/06/2013

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