Est.Soc.[online]. 2013, vol.1, n. 19


A EDUCAÇÃO NA PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA: um objeto esquecido ou escondido?


EDUCATION IN THE POSTGRADUATE FIELD OF SOCIOLOGY: A HIDDEN OR FORGOTTEN OBJECT?


Fernanda A. da Fonseca Sobral1


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Resumo

O presente artigo traça inicialmente uma visão panorâmica da pós-graduação em Sociologia, sobretudo no que concerne às suas áreas de concentração e linhas de pesquisa, procurando verificar como o tema da educação está inserido num espaço de dez anos, ou seja, nos anos de 1999 e 2009, a partir dos indicadores da CAPES. Dessa forma, se pretende mostrar os temas de pesquisa que permanecem, os temas emergentes e aqueles que desapareceram ou foram remodelados dando uma especial ênfase ao campo de estudos da educação e à discussão sobre a reflexividade da Sociologia.


Palavras-chave

Educação. Pós-Graduação. Reflexividade.

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Abstract

This article exposes a panoramic vision of the post graduation in Sociology, especially emphasizing its concentration areas and research streams. It aims at verifying – based on the indicators of CAPES – how the topic of Education is inserted in a ten- year period, from 1999 to 2009. In doing so, the work shows there search themes that persist, the emerging themes and those that disappeared or were remodeled. Special attention in the analysis is given to the field of Education and the discussion of reflexivity in Sociology.


Keywords

Education. Post graduation. Reflexivity.

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Introdução

O objetivo do presente artigo2é traçar um panorama da pós-graduação em Sociologia, sobretudo no que concerne às suas áreas de concentração e linhas de pesquisa, procurando verificar como o tema da educação está inserido num espaço de dez anos, ou seja, nos anos de 1999 e 2009, a partir dos indicadores da CAPES. Dessa forma, se pretende mostrar os temas de pesquisa que permanecem, os temas emergentes e aqueles que desapareceram ou foram remodelados3. A intenção é de que esse panorama nos permita analisar a reflexividade da Sociologia, apontando em que medida as grandes questões sociais como a educação, por exemplo, estão sendo retraduzidos pelo campo científico da Sociologia, ou seja, estão se tornando objetos sociológicos. Já há uma produção nacional importante sobre a pós-graduação brasileira (VELLOSO, 2003; WEBER, 2006; SOBRAL, 2001, 2006; MARTINS, 2002), sobre a pós-graduação em Sociologia (BAETA NEVES,1991; WEBER,2005), sobre as pesquisas em Sociologia (PORTO, 2005; LIEDKE FILHO,2006) , analisadas principalmente pelo Diretório de Grupos de Pesquisas do CNPq e sobre o tema da educação na Sociologia a partir da sua produção científica internacional e nacional (WEBER, 2010; MARTINS, 2012). Cabe agora analisar a evolução das linhas de pesquisa da pós-graduação em Sociologia, dando uma especial ênfase à questão da educação, pois são as linhas de pesquisa que, de certa forma, orientam a produção dos seus docentes e discentes.


Breve panorama da Pós-Graduação em Sociologia


Em artigo anterior, (SOBRAL, 2006) contendo dados de 1987, 1992, 1997 e 2003 sobre a pós-graduação brasileira, elaborado inicialmente visando subsidiar o Plano Nacional de Pós-Graduação 2005-2010, algumas tendências foram observadas no que concerne à evolução das Ciências Humanas. Durante esse período, as Ciências Humanas mantiveram a segunda posição em termos de sua participação no número de programas, com proporção semelhante nos diferentes anos (cerca de 14%), sendo superada apenas pelas Ciências da Saúde. No que se refere ao número de titulados no mestrado, as Engenharias tinham a maior proporção de titulados no mestrado em 1987, mas, nos outros anos, passa para a segunda posição, pois as maiores proporções nos anos de 1992 e 1997 se situam nas Ciências Humanas, por sua vez ultrapassadas em 2003 pelas Ciências Sociais Aplicadas. Quanto aos titulados no doutorado, se constata também a predominância das Ciências da Saúde, sendo seguidas nos anos de 1987 e 1992 pelas Ciências Humanas, que crescem proporcionalmente (de 12% em 1987 para 16% em 2003). Dessa forma, pode se afirmar que as Ciências Humanas têm um papel de destaque na pós-graduação brasileira. Porém, cabe agora abordar os dados mais recentes sobre as Ciências Humanas e sobre a Sociologia em especial que indiquem, além da dimensão de sua evolução e importância no contexto maior da pós-graduação brasileira (pelos dados quantitativos), também certos aspectos qualitativos, como, por exemplo, as pesquisas que estão sendo realizadas.


Inicialmente, conforme se pode observar na tabela 1, a proporção de programas de pós-graduação em Ciências Humanas e a proporção de cursos de pós-graduação em Ciências Humanas em relação ao total do Brasil se mantém praticamente a mesma que nos anos anteriores, ou seja, de 14% , o que significa, em termos absolutos, 506 programas num total de 3571 e 765 cursos num total de 5333. Cabe notar também que as Ciências da Saúde têm a predominância com 580 programas e 914 cursos.


Tabela 1 - Cursos recomendados pela CAPES por grande área de conhecimento

GRANDE ÁREA

Programas e Cursos de pós-graduação

Totais de Cursos de pós-graduação

Total

M

D

F

M/D

Total

M

D

F


CIÊNCIAS AGRÁRIAS

386

135

2

22

227

613

362

229

22

CIÊNCIAS BIOLÓGICAS

282

71

3

17

191

473

262

194

17

CIÊNCIAS DA SAÚDE

580

132

17

97

334

914

466

351

97

CIÊNCIAS EXATAS E DA TERRA

304

107

8

17

172

476

279

180

17

CIÊNCIAS HUMANAS

506

205

4

38

259

765

464

263

38

CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

450

190

2

88

170

620

360

172

88

ENGENHARIAS

382

151

3

66

162

544

313

165

66

LINGUÍSTICA, LETRAS E ARTES

187

78

1

6

102

289

180

103

6

MULTIDISCIPLINAR

494

183

18

148

145

639

328

163

148

Brasil:

3.571

1.252

58

499

1.762

5.333

3.014

1.820

499

Legenda: M- Mestrado Acadêmico D- Doutorado F- Mestrado Profissional M/D- Mestrado Acadêmico/Doutorado

Fonte: CAPES (atualização de fevereiro de 2013)


Quando se passa a analisar a pós-graduação em Sociologia dentro da grande área de Ciências Humanas, conforme se pode verificar na tabela 2, cerca de 11% dos programas e dos cursos de pós-graduação em Ciências Humanas pertencem à área de Sociologia, ou seja, são 55 programas em Sociologia num total de 506 das Ciências Humanas e 87 cursos num total de 765. Cabe registrar a predominância da Educação (enquanto área) entre as Ciências Humanas, seguidas pela Psicologia e pela História. Entre as chamadas Ciências Sociais (Antropologia, Ciência Política e Sociologia), é a Sociologia que tem o maior número de programas e cursos de pós-graduação.


Tabela 2 - Programas de pós-graduação e cursos recomendados pela CAPES nas ciências humanas por área de conhecimento


GRANDE ÁREA: CIÊNCIAS HUMANAS

ÁREA (ÁREA DE AVALIAÇÃO)

Programas e Cursos de pós-graduação

Totais de Cursos de pós-graduação

Total

M

D

F

M/D

Total

M

D

F

ANTROPOLOGIA (ANTROPOLOGIA/ARQUEOLOGIA)

22

9

0

0

13

35

22

13

0

ARQUEOLOGIA(ANTROPOLOGIA/ARQUEOLOGIA)

4

1

0

0

3

7

4

3

0

CIÊNCIAS POLÍTICAS (CIÊNCIAS POLÍTICAS E RELAÇÕES INTERNACIONAIS)

36

14

0

5

17

53

31

17

5

EDUCAÇÃO (EDUCAÇÃO)

142

58

0

22

62

204

120

62

22

FILOSOFIA (FILOSOFIA/TEOLOGIA:SUBCOMISSÃO FILOSOFIA

42

22

1

0

19

61

41

20

0

GEOGRAFIA (GEOGRAFIA)

52

22

0

2

28

80

50

28

2

HISTÓRIA (HISTÓRIA)

64

30

0

3

31

95

61

31

3

PSICOLOGIA (PSICOLOGIA)

71

23

1

0

47

118

70

48

0

SOCIOLOGIA (SOCIOLOGIA)

55

18

2

3

32

87

50

34

3

TEOLOGIA (FILOSOFIA/TEOLOGIA:SUBCOMISSÃO TEOLOGIA

18

8

0

3

7

25

15

7

3

Brasil:

506

205

4

38

259

765

464

263

38

Legenda: M- Mestrado Acadêmico D- Doutorado F- Mestrado Profissional M/D- Mestrado Acadêmico/Doutorado

Fonte: CAPES (atualização de fevereiro de 2013)


Ao se considerar os títulos dos programas da área básica de Sociologia é interessante observar que 45% se classificam como Ciências Sociais (área mais ampla até do que a Sociologia) e 35% como Sociologia propriamente dita, tendo a Sociologia Política 7% dos programas e aproximadamente 13% em outros programas temáticos, tais como Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UFRRJ, Ciências Sociais para o Ensino Médio da FJN, Ciências Sociais: Cultura, Desigualdades e Desenvolvimento da UFRB, Defesa Social e Mediação de Conflitos da UFPA e Planejamento e Políticas Públicas e Políticas Públicas e Sociedade da UECE, sendo que três desses programas temáticos são mestrados profissionalizantes.


As áreas de concentração e as linhas de pesquisa da Pós-Graduação em Sociologia


A partir dos indicadores da CAPES, ainda que alguns programas de pós-graduação em Sociologia não indiquem as suas respectivas áreas de concentração, se verifica que algumas delas se referem às próprias disciplinas tais como Sociologia, (sete programas em 99 e nove em 2009), ou a um conjunto de disciplinas próximas como as Ciências Sociais (apenas um programa em 1999 aumentando para três em 2009), dois programas indicam Sociologia e Política e apenas um indica Sociologia e Antropologia tanto em 1999 e 2009. Ou seja, as áreas de concentração que se referem às disciplinas eram 11 em 1999 e passaram a ser 15 no ano de 2009. Percebe-se também que a grande maioria dos cursos que tinha como área de concentração a disciplina Sociologia nela permanece, como a USP e a UNESP. Contudo, as áreas de concentração temáticas são também frequentes, sobretudo no ano de 2009, o qual apresentou 17 áreas de concentração temáticas (três delas se repetem em cursos diferentes), possivelmente pelo surgimento de novos cursos, o que indica um movimento na pós-graduação em Sociologia para abordar certos temas. Ainda que os cursos mais recentes estejam, na sua maioria, apresentando áreas de concentração temáticas, constata-se que alguns programas antigos, como o da UFPE, já possuíam uma área de concentração temática (Mudança Social), em 1999 que permaneceu em 2009. Já a UFRN, a UNB e a PUC MG ainda que tenham áreas de concentração temáticas nos dois anos considerados, elas mudaram ao longo dos anos. Na UFRN, as áreas de concentração eram “Cultura e Relações Sociais” e “Estado e Desenvolvimento” foram substituídas por “Dinâmicas Sociais, Práticas Culturais e Representações” e por “Política, Desenvolvimento e Sociedade”. É interessante observar que embora a questão do desenvolvimento esteja presente nos dois anos, mais recentemente ele não está associado ao estado, mas à política de uma maneira geral ao passo que a cultura está associada às representações. Na UNB, as áreas de concentração em 1999 eram “Estado e Sociedade” e “Ciência, Tecnologia e Sociedade” que foram substituídas por uma única área de concentração mais geral: “Sociedade e Transformação”, sendo retirada tanto a questão do estado como a da ciência e tecnologia. Já na PUC/MG, em 1999, a área de concentração era “Gestão das Cidades” passando a ser em 2009 “Cidades: Cultura, Trabalho e Políticas Públicas”, indicando a vocação institucional da PUC para o estudo das cidades embora focando menos, em 2009, no aspecto da gestão. Lista-se, a seguir, as áreas de concentração temáticas nos dois anos considerados, para se ter uma ideia dos temas predominantes, ainda que, nesse caso, os temas ainda sejam gerais, devendo se ter uma noção mais adequada quando se abordar as linhas de pesquisa.


Áreas de concentração temáticas

1999

2009

Cultura e Relações Sociais

x

-

Estado e Desenvolvimento

x

-

Desenvolvimento e Agricultura

x

-

Dinâmicas Sociais, Práticas Culturais e Representações

-

x

Poder, Cultura e Sociedade


x

Mudança Social

x

x

Sociedade, Política e Cultura

-

x

Política, Desenvolvimento e Sociedade

-

x

Planejamento e Políticas Públicas

-

x

Políticas Públicas e Sociedades

-

x

Sociedades Agrícolas

x

-

Sociologia Urbana e Industrial

x

-

Cultura, Poder e Instituições

-

x

Instituições, Cultura e Globalização

-

x

Gestão das Cidades

x

-

Estado, Sociedade e Cultura

-

x

Cidades: Cultura, Trabalho, e Políticas Públicas

-

x

Organizações e Sociedade

x

-

Ciência, Tecnologia e Sociedade

x

-

Estado e Sociedade

x

-

Sociedade e Transformações

-

x

Sociologia das Organizações

x

-

Cultura e Poder

-

x

Trabalho e Renda

-

x

Sociedade e Região

x

-


A análise dos temas encontrados nas diferentes áreas de concentração nos indica a predominância do termo “cultura” que aparece duas vezes em 1999 e sete vezes em 2009. O tema “Políticas Públicas” aparece quatro vezes em 2009. Os termos “Política” e “Poder” estão em duas e três áreas de concentração em 2009 e “Trabalho” em duas. Os termos “Organizações” ou “Instituições” estão em cinco áreas de concentração. Mas é importante observar que o termo “Desenvolvimento” apareceu em duas áreas de concentração em 1999 e em apenas uma em 2009, o mesmo acontecendo com “Estado”. Já “Agricultura,” presente em uma área de concentração em 1999, não mais aparece em 2009. Merece também registrar que o termo “Educação” não aparece em nenhuma das áreas de concentração temáticas, embora esteja incluída em algumas linhas de pesquisa, conforme se pode ver a seguir.


Quando se passa a analisar as linhas de pesquisa da pós-graduação em Sociologia, os temas predominantes são “Cultura”, nos dois anos aqui considerados, com crescimento acentuado, pois em 1999 havia 18 linhas de pesquisa que usava o termo cultura passando a 29 em 20094. A segunda linha de pesquisa mais frequente se refere à “Política” (17 em 1999 e 19 em 2009) e “Trabalho” com crescimento um pouco maior, pois passou de 15 em 1999 para 21 linhas de pesquisa em 2009. O tema concernente às “Políticas Públicas” tinha 10 linhas de pesquisa em 1999, passando a ter 12 em 2009, o tema referente à Violência/ Conflito/ Criminologia com três linhas de pesquisa em 1999 e 11 em 2009, “Cidades ou Urbano“ com sete e 10 linhas de pesquisa, ”Desigualdades/Diversidade/Diferenças” com cinco e nove linhas de linhas de pesquisa em 1999 e 2009 respectivamente e Pensamento Social que tinha quatro linhas de pesquisa em 1999 e nove em 2009. Contudo, é preciso também apontar as inflexões: É o caso do tema referente à “Agricultura, Rural e Agrário” que tinha 12 linhas de pesquisa em 1999 passando a ter apenas quatro em 2009. Também o tema “Religião” que tinha oito linhas de pesquisa passou a ter quatro em 2009, possivelmente pela incorporação de alguns aspectos à questão cultural. Caso semelhante é a questão do “Gênero” que possuía nove linhas de pesquisa e passou em 2009 a ter sete, talvez em função da sua inserção na questão das ”Desigualdades/Diversidade/Diferenças”. É interessante observar que “Teorias” (que podem não ser consideradas propriamente linhas de pesquisa), apareceram como tais em oito casos no ano de 1999 e em três em 2009, às vezes associadas a “Métodos” ou a “Pensamento Social”. No caso da “Educação”, se verifica que havia sete linhas de pesquisa em 1999, número considerado pequeno em relação às linhas de pesquisa mais frequentes, mas que diminuíram para três em 2009. Deve se registrar também que os temas mais associados à Demografia, tais como “Estudos de População” e “Migrações” não aparecem mais nas linhas de pesquisa da Sociologia no ano de 2009. Porém, novos temas foram surgindo como “Meio Ambiente” e “Corporeidade”. Também é interessante observar que certos conceitos são menos utilizados recentemente, tais como estrutura social, classes sociais, e mesmo desenvolvimento e estado. Estão sendo substituídos por estudos sobre representações sociais, identidades, desigualdades, diferenças, etc. Exceção é o programa da UFSCAR que tem como uma das suas linhas de pesquisa “Estrutura Social, Poder e Mobilidade”. Ou seja, há um movimento dos estudos sociológicos infraestruturais para superestruturais, como também um movimento das abordagens macro para micro, ainda que a questão do “trabalho” continue central na pós- graduação em Sociologia.


É claro que muitos desses temas foram remodelados como aponta o artigo de Porto (2005) que, a partir da análise dos grupos de pesquisa do CNPQ, afirma que as antigas temáticas associadas à Sociologia Rural são redefinidas no contexto da globalização, do agronegócio e das viabilidades econômicas e ambientais. Também declara que: “O rural é redefinido em termos dos processos sociais agrários para dar conta da amplitude das mudanças”. (Porto, 2005:218). Ganham força também as questões ligadas ao conflito e violência no campo, também abordadas no espaço urbano. As análises sobre estado passam a insistir nos estudos sobre políticas públicas de diferentes dimensões como saúde, educação, urbano, ciência e tecnologia, segurança, etc. Segundo ainda o artigo de Porto, o tema da educação parece perder ênfase dentro da Sociologia, em benefício de temas mais tópicos e candentes como: universidade, pesquisa e pós-graduação, ensino superior, aspecto também apontado por Martins e Weber em texto de 2010 sobre a Sociologia da Educação.


Quando se analisa as principais linhas de pesquisa por região, elas não se alteram muito nas diferentes regiões, com exceção da Região Norte, na qual se percebe uma vocação mais regional, aspecto que revela a proximidade da análise sociológica do seu meio social. Na região Norte, as linhas de pesquisa são as seguintes: Populações Amazônicas, Recursos Naturais e Meio Ambiente, Etnicidade e Gênero, Religião e Saúde, Violência e Pensamento Social, mostrando que questões sociais muito importantes para essa região estão sendo retraduzidos pelo campo da Sociologia. Já nas outras regiões, as principais linhas de pesquisa oscilam entre “Cultura”, ”Política“ e “Trabalho” com predominância da “Cultura”, sobretudo em 2009, mas, no Nordeste, há uma incidência grande de pesquisas que têm como universo empírico a região ou mesmo a unidade federada. Por outro lado, se verifica também algumas vocações institucionais como é o caso da PUC/MG que sempre trabalhou com a questão urbana, mesmo tendo alterado o foco da área de concentração que passou de “Gestão das Cidades” para “Cidades: Cultura, Trabalho e Políticas Públicas” e criado algumas novas linhas de pesquisa como a de “Metrópoles e Desigualdades”. Ou seja, embora a cultura e o trabalho tenham sido enfatizados na área de concentração em 2009, eles já faziam parte das linhas de pesquisa e continuam a ser direcionados para o enfoque urbano.


Essa questão foi abordada em artigo de 2006 (SOBRAL, 2006) quando apontei a importância de se ter uma política que permitisse a diversificação da pós-graduação, visando incorporar perfis diferentes tanto de disciplinas como de temas multidisciplinares, além de vocações regionais e institucionais.


E a Educação? Objeto esquecido ou escondido?


O campo da educação, como uma área de estudos da pós-graduação em Sociologia, está diminuindo ou aparecendo em novas dimensões, daí a questão formulada no título do presente artigo e nesse subtítulo: a educação seria um objeto esquecido ou escondido?


Primeiramente convém lembrar que não há nenhuma área de concentração especificamente voltada para esse campo de estudos. Por outro lado, as linhas de pesquisa que se referem à educação também estão reduzidas. Em 1999, as linhas de pesquisa que se referiam explicitamente à educação se situavam na UFRN (Educação e Sociedade), na UFPE (Educação, Trabalho e Campos Profissionais), na UFMG (Educação e Mudança Social), na USP (Sociologia da Educação), na UFSC (Sociologia da Educação e Políticas Sociais, Educação e Saúde), e na UNB (Sociologia da Educação). Já em 2009, na UFPE houve alteração da linha de pesquisa para Educação, Trabalho, Ciência e Tecnologia, na UFSC para Gerações, Gênero, Etnia e Educação, e na UNB para Educação, Ciência e Tecnologia. Ou seja, em dois casos, a educação recentemente está associada à ciência e tecnologia e no outro caso à questão das diferenças.


Muitas vezes a inflexão do tema da educação na Sociologia é explicada pelo fato de estar sendo apropriada cada vez mais pela área de conhecimento de Educação, ainda que, na sua maioria, por sociólogos que trabalham nas faculdades de educação5. Porém, Martins e Weber (2010) já apontaram, além de uma produção vasta, a existência de Grupos de Trabalho na ANPOCS e na SBS sobre o tema da educação e a institucionalização de vários núcleos de estudos nas universidades sobre ensino superior.


No entanto, o tema da educação parece estar embutido em outras linhas de pesquisa dos cursos de pós-graduação em Sociologia que não tratam especificamente de educação. A partir da leitura da descrição das linhas de pesquisa e dos projetos de pesquisa nelas incluídos, também disponíveis nos indicadores da CAPES, foi possível descobrir que muitas vezes o tema da educação está incluído nos temas concernentes à “Cultura”,” Desigualdades”, “Conhecimento”, “Políticas Públicas” e “Trabalho” , algumas delas proeminentes na pós-graduação em Sociologia. A título de exemplos, podemos citar: na UEM, na linha de pesquisa chamada de “Sociedade e Práticas Culturais”, em 2009 havia projetos de pesquisa sobre formação de profissionais, ensino de Sociologia, universidade e comunidade e na UFSCAR, na linha de pesquisa sobre “Culturas, Diferenças e Desigualdades”, há estudos sobre ações afirmativas no ensino superior, questão também trabalhada na UFRJ na linha de pesquisa sobre “Cultura e Política” e na linha de pesquisa sobre “Desigualdades Socioeconômicas e Políticas no Brasil” da PUC/RJ. Na UFMG, na linha de pesquisa sobre ”Desigualdades Socioeconômicas, Organização e Trabalho”, em 2009, há estudos sobre a expansão do acesso ao ensino superior. Na UFRGS, na linha de pesquisa “Sociedade e Conhecimento”, tanto em 1999 como em 2009 há uma variedade de estudos sobre ensino superior, inclusive numa perspectiva comparada a outros países e sobre a pesquisa nas universidades. Na PUC/SP, na linha de pesquisa sobre “Dinâmica urbano-regional, Planejamento e Políticas Públicas”, constam projetos sobre o PROUNI e a inclusão social. Por sua vez, na UNICAMP, na linha de pesquisa sobre ”Trabalho, Política e Sociedade”, há estudos sobre formação profissional e trabalho. Finalmente, cabe observar que no contexto da pós-graduação em Sociologia, no que se refere às pesquisas dos docentes, mas também dos discentes que estão realizando dissertações de mestrado e teses de doutorado, os temas concernentes à educação estão presentes, ainda que às vezes de uma forma não muito clara, destacando-se principalmente os estudos sobre ensino superior e políticas educacionais.


A título de conclusão, afirmo que a educação, num país como o nosso, com grandes desigualdades socioeconômicas, é um problema social da maior importância, cabendo à Sociologia analisá-la sob as mais diferentes nuances, procurando associar abordagem teórica e empiria. Ou seja, é importante retraduzir os problemas sociais e transformá-los em objetos sociológicos. Essa é a reflexividade da Sociologia, segundo Bourdieu, que mostra uma possível conciliação entre a autonomia de um campo científico e a sua abertura aos problemas sociais, ou seja, a possibilidade de uma “autonomia reflexiva”. (SOBRAL, 2008; MARANHÃO, 2010). Isso se dá porque o campo científico, como o da Sociologia, procura refratar demandas externas (sociais) de uma forma específica ao próprio campo, com leis próprias de funcionamento. Esse é o caminho que a pós-graduação em Sociologia vem trilhando por meio de estudos sobre aspectos culturais e políticos das sociedades, trabalho, desigualdades, políticas públicas, gênero, violência, urbano/rural, ciência e tecnologia e também sobre educação. Como já disse anteriormente (SOBRAL, 2006), a pós-graduação em Sociologia tem o grande desafio de retraduzir o Socius para construir o seu Logus.




1 Professora/Pesquisadora Sênior do Programa de Pós- graduação em Sociologia (UnB) . Foi pesquisadora visitante do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) no período de 2009 a 2011. Tem Doutorado em Sociologia na UnB e realizou pós-doutoramento em Paris na École das Hautes Études em Sciences Sociales, entre 1989 e 1990. Foi professora convidada na Universidade de Québec, em Montreal, na sessão de outono de 2000 e na sessão de verão de 2003. Tem pesquisas e publicações nos seguintes temas: educação, tecnologia, ciência, universidade e pesquisa.

2Para a realização desse artigo, contei com a colaboração de Julia Zamboni, Mestre em Comunicação Social pela UNB, no que concerne à organização dos dados da CAPES.

3Tatiana Maranhão, em sua tese de doutorado, intitulada “Autonomia Reflexiva e Produção do Conhecimento Científico: O Campo da Sociologia no Brasil” trabalha com a ideia de temas permanentes, recorrentes e diferenciais. (Maranhão, 2010)

4Convém lembrar que o número de programas e de cursos também cresceu.

5Esse último aspecto refere-se á uma suposição que merece ser investigada.




Referências


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MARTINS, Carlos B. 2012. Sociologia e ensino superior: encontro ou desencontro? Sociedade e educação: dilemas contemporâneos. Sociologias, Porto Alegre, UFRGS. IFCH, n. 29, p. 100-127, jan./abr.


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Artigo recebido em abril de 2013

Aprovado em agosto de 2013




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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

ISSN Impresso 1415-000X

ISSN Eletrônico 2317-5427