Est.Soc.[online], 2013, vol.1, n. 19

A RELIGIÃO E O TRABALHO NA CONSTRUÇÃO DE ESTRATÉGIAS DE PERMANÊNCIA NA UNIVERSIDADE PÚBLICA: um estudo sobre a trajetória universitária dos estudantes do curso de pedagogia da UFPE


RELIGION AND WORK IN THE BUILDING STRATEGIES TO STAY IN PUBLIC  UNIVERSITY: A STUDY OF THE TRAJECTORY OF UNIVERSITY STUDENTS OF PEDAGOGY FEDERAL UNIVERSITY OF PERNAMBUCO


Daniela Maria Ferreira1

Maria Emília Lins e Silva2

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Resumo

O presente estudo tem por objetivo identificar o conjunto de propriedades sociais e culturais que se constituem importantes na construção das trajetórias universitárias dos estudantes do Curso de Pedagogia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Um questionário sociocultural foi aplicado a 114 estudantes, em via de conclusão de curso. Os resultados, mesmo que parciais, apontam o peso da religião e do trabalho na constituição dos investimentos acadêmicos realizados ao longo do percurso universitário. A pesquisa ainda aponta indícios para aprofundar a discussão em torno das condições objetivas de permanecer em uma universidade pública no Brasil. 


Palavras-chave

Ensino superior. Trabalho. Religião. Investimentos acadêmicos.

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Abstract 

This study aims to identify the set of social and cultural properties that are important in the construction of university careers of students of the Federal University of Pernambuco Pedagogy (Federal University of Pernambuco).A sociocultural questionnaire was administered to a sample of 114 students in the process of completion. The results, even partial, indicate the weight of religion and work in the constitution of academic investments throughout the university route. The research also shows evidence for further discussion on the objective conditions to remain in a public university in Brazil.


Keywords

Higher education. Work. Religion. Academic investments.

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Introdução


O presente estudo tem por objetivo realizar uma análise sobre os recursos sociais e culturais mobilizados pelos estudantes do curso de Pedagogia na construção de suas trajetórias universitárias. Esta análise, que deriva do projeto de pesquisa intitulado Percursos universitários dos estudantes de Pedagogia da UFPE desenvolvida pelo Grupo de Estudo e Pesquisa Família, Escola e Profissão (GEPFEP) do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco, tem por finalidade elaborar uma reflexão acerca das possíveis trajetórias universitárias construídas por estudantes das camadas populares3, como é o caso dos estudantes do curso de Pedagogia (MENESES, 2010; SARAIVA E FERENCE, 2010; CAVALCANTI E FERRAZ, 2009; SANTOS E AZEVEDO, 2009, GUEDES, 2008).


O interesse nesta temática surgiu dos avanços feitos pelos estudos no campo da Sociologia da Educação a respeito do fenômeno do prolongamento da escolaridade de jovens de camadas populares incluindo o ensino superior (PORTES, 1993; VIANA, 2007; SILVA, 2003; LAURENS, 1992; LAHIRE, 1997; BEAUD, 2002). Esses estudos mostram de que maneira os estudantes participam, estruturam e sofrem as determinações da vida universitária, que, por sua vez, são condicionadas pelas disposições e orientações que esses indivíduos acumularam nos diferentes espaços sociais ao longo de suas trajetórias (BOURDIEU E CHAMPAGNE, 2001; NOGUEIRA, ROMANELLI E ZAGO, 2003; LAHIRE, 1997; ALMEIDA, 2004).


Neste sentido, a presente análise deve ser tomada no âmbito das investigações sobre o acesso e a permanência de jovens das camadas populares na universidade pública brasileira. Mais ainda, pretende-se aprofundar a discussão sobre os elementos mediadores que permitem entender a relação entre capital cultural familiar e investimentos acadêmicos dos diferentes grupos sociais.


Os conceitos que orientam nossa discussão advêm das pesquisas que consolidaram um quadro analítico proposto por Bourdieu, em específico aquelas que procuram compreender os indicadores sociais que condicionam o percurso universitário dos jovens das camadas populares.


O desenvolvimento dessa literatura, mesmo que ainda escassa, está atrelada a constatação de uma relação negativa entre escolarização e inserção no mundo do trabalho, pois a ampliação das exigências por uma maior e melhor escolarização não implica necessariamente na garantia de inserção, ascensão e estabilidade sócio- profissional dos diferentes grupos sociais. De maneira correlata e mesmo contraditória essa ampliação tem aprofundado as desigualdades de escolarização entres as classes sociais, atingindo principalmente, os estratos mais jovens da população mundial e, em particular, a brasileira (TEIXEIRA, 2011; ZAGO, 2008; POCHMANN, 2001; HASENBALG E SILVA, 2003; SPOSITO, 2002).


De fato, este aprofundamento das desigualdades de escolarização tem suscitado, nos últimos vinte anos, novos debates e enfoques de pesquisa. Nessa perspectiva, em substituição a relação direta entre pobreza e escolaridade de curta duração, esses estudos apontam a necessidade de uma reflexão em torno das condições objetivas de permanência no sistema de ensino superior público.


Baseada em uma análise sociológica de natureza predominantemente qualitativa Zago (2008) sem desconsiderar os problemas estruturais que produzem as desigualdades escolares, realizou um estudo com universitários de origem popular da Universidade Federal de Santa Catarina. Essa investigação possibilitou conhecer a dinâmica que permeia a vida cotidiana e a formação universitária, como também as estratégias e o custo pessoal. Mais ainda permitiu objetivar o conjunto de elementos mediadores que perpassam a relação entre a posição social de origem e a performance escolar dos estudantes. Ao fazer menção ao trabalho precoce e a passagem pelos cursinhos pré-vestibulares, bem como a escolarização média exitosa, a autora nos mostra a necessidade de pensar de maneira cumulativa, e não excludente, os espaços sociais pelos quais os indivíduos circulam ao longo de suas trajetórias. A noção de capital cultural familiar se faz presente e ganha sentido na medida em que passa a ser utilizado em correlação com outros capitais incorporados por meio de diferentes processos de socialização (seja no âmbito do trabalho, seja na escola e/ou no cursinho pré-vestibular) e que não se fazem presentes apenas no âmbito familiar.


Nesta mesma direção, podemos ainda mencionar as pesquisas de Laurens (1992), Souza e Silva (1999) e Viana (2007) que reforçam a necessidade de se pensar as diferentes agências socializadoras na constituição do conjunto de disposições e orientações do indivíduo e/ou do grupo social. Ao procurar entender como os indivíduos da classe popular se constroem produtores de trajetórias escolares longevas, os autores apontam, por exemplo, que a socialização com outros grupos, além da família, pode ser fonte de aquisição de novas práticas sociais, bem como, pode significar oportunidades de ampliar o capital cultural, conhecer melhor o funcionamento das instituições escolares e desenvolver atitudes favoráveis ao prolongamento escolar. Nesse sentido, as relações construídas em diferentes redes de socialização podem ser fundamentais na construção de modos de viver e no surgimento de novas expectativas e projetos de vida (SOUZA E SILVA, 1999).


Sem tomar a origem social como fator determinante na construção do desempenho escolar, mas como condicionante limitador quanto às possiblidades de se construir uma dada condição escolar, é importante ainda salientar as contribuições de Grignon e Gruel (1999) e Coulon (2005) sobre a condição estudantil. De acordo com esses autores, nem todos os estudantes são estudantes de uma mesma forma e nem mesmo os estudos ocupam o mesmo lugar e relevância em suas vidas. Ao adotar uma perspectiva relacional, os autores analisam não apenas as diferentes condições em que os estudantes acessaram a universidade (as lógicas adotadas para escolher o curso, como por exemplo, a relação vaga/candidato), mas também as condições de permanência na universidade (transporte, alimentação, aquisição de material e etc.) e as estratégias na construção de seus percursos universitários (a escolha dos temas do trabalho de conclusão de curso, as áreas de estágio, de monitoria e dos projetos de extensão). Os resultados indicam os efeitos cumulativos das diferentes experiências sociais vivenciadas antes e durante a trajetória universitária, a saber: a escolarização anterior ao ingresso no sistema de ensino superior. De fato, a categoria social “estudante” está longe de se constituir em uma categoria homogênea; em razão mesmo da multiplicidade de situações em que esses estudantes se formam.


Partindo desses referenciais teóricos, em particular, do uso do conceito de capital cultural formulado por Pierre Bourdieu que a pesquisa em andamento busca investigar a construção da trajetória de estudantes universitários do curso de Pedagogia da UFPE. Os resultados, ainda que preliminares, apontam indícios importantes para compreender as formas de presença desses estudantes na universidade pública.


O percurso metodológico trilhado para pensar a trajetória dos estudantes de Pedagogia utilizou o questionário para coletar dados referentes à origem sociocultural e demográfica da família dos estudantes, bem como seu passado escolar no ensino fundamental, médio e universitário. Além disso, os estudantes foram questionados quanto à sua participação em grupos religiosos, políticos e culturais e sua relação com o mundo do trabalho. Esse questionário foi aplicado a um conjunto de 114 estudantes em fase de conclusão de curso (9º e 10º período). O curso de Pedagogia da UFPE é, atualmente, o curso que conta com o maior número de oferta de vagas por ano, 250 vagas anuais (primeira e segunda entrada). No entanto, apenas, um pouco mais da metade desses 250 estudantes consegue concluir o curso. A relação candidato/vaga nos últimos vestibulares é de três a quatro candidatos por vaga.


Resultados e Discussão


O perfil sociocultural dos estudantes do curso de Pedagogia da UFPE não difere muito do conjunto das pesquisas que tomam esse mesmo público como alvo (VARGAS, 2011; NOGUEIRA, 2011; SETTON, 2002). Assim, são os estudantes do sexo feminino que compõem majoritariamente a amostra analisada (dos 114, apenas oito são do sexo masculino). Além disso, a população pesquisada tem como outra característica principal um baixo volume de capital cultural familiar, se constituindo, portanto, na primeira geração a acessar o ensino superior.


No que tange à escolaridade dos avós (maternos e paternos), a maioria dos estudantes investigados afirma que eles não frequentaram a escola e/ou eram analfabetos; com exceção de uma estudante cujo avô materno era fazendeiro, as avós eram donas de casa e os avôs faziam atividades manuais (agricultores) e/ou trabalhavam no comércio diverso (ambulantes, entres outros).


Quanto à escolaridade e as profissões dos pais os dados revelam uma maior variação quando comparada às dos avós. Dos 114 estudantes analisados, por exemplo, mais 1/3 dos pais (pai e mãe) não possuem o fundamental completo, sendo 12 analfabetos. Os demais se distribuem entre o ensino médio (incompleto e completo). Apenas uma minoria concluiu o ensino superior (17 pais e 14 mães), conforme mostra a Tabela 1.


Tabela 1 - Nível de escolarização dos pais (pai e mãe) dos estudantes de Pedagogia da UFPE (concluintes 2012)

Escolaridade do Pai

Escolaridade da Mãe

04 Analfabetos

08 Analfabetas

43 Fundamental Incompleto

36 Fundamental Incompleto

10 Fundamental Completo

11 Fundamental Completo

05 Médio Incompleto

08 Médio Incompleto

25 Médio Completo

27 Médio Completo

07 Superior Incompleto

04 Superior Incompleto

17 Superior Completo

14 Superior Completo


De maneira semelhante aos avós, o nível de escolarização tem uma relação com a distribuição do tipo de ocupação dos pais dos estudantes. Podemos observar que, na Tabela 2, a grande maioria (81 pais e 89 mães) exercem ocupações/profissões manuais. São eles pedreiro, dona de casa, gari, segurança, pintor, costureira, empregada doméstica. Já aqueles que realizam atividades mais intelectuais são, geralmente, portadores de um diploma de ensino superior.


Tabela 2 – Distribuição da Ocupação dos pais (pai e mãe) dos estudantes de Pedagogia da UFPE (concluintes 2012)

Pai

Mãe

81 Trabalhos Manuais

89 Trabalhos Manuais

24 Trabalhos Intelectuais

21 Trabalhos Intelectuais

02 Desempregados

01 Desempregada

04 Não responderam

01 Não respondeu


Além do baixo nível de escolarização dos pais e do alto índice de ocupações de baixo prestígio social e econômico, outro traço marcante da população analisada é a religião. Dos 114 estudantes, 87 declararam pertencer a uma religião. Desses 87, 41 dizem ser evangélicos, 37 católicos, 06 espíritas e 03 não especificam a religião. A relação entre escolarização e opção religiosa não difere muito entre os pais dos estudantes evangélicos e católicos da amostra, como podemos verificar na Tabela 3. Um dado importante e que merece ser analisado futuramente é a diferenciação entre os evangélicos pentecostais e tradicionais, bem como os católicos, tendo em vista que os evangélicos tradicionais (Batista e Luteranos, por exemplo) apresentam um nível de escolarização maior que os pentecostais (Assembléia de Deus, por exemplo) e os católicos.


Tabela 3- Relação entre Religião e Nível de escolaridade dos pais (pai e mãe) dos estudantes de Pedagogia da UFPE (concluintes 2012).

Religião

Nível de escolaridade

Pai

%

Nível de escolaridade

Mãe

%

37

Católicos

01 Analfabeto

2,7

02 Analfabeta

5,4

18 Fundamental Incompleto

48,6

3 Fundam. Incompleto

35,1

01 Fundamental Completo

2,7

03 Fundamental Completo

8,1

02 Médio Incompleto

5,4

03 Médio Incompleto

8,1

07 Médio Completo

18,9

09 Médio Completo

24,3

03 Superior Incompleto

8,1

02 Superior Incompleto

5,4

03 Superior Completo

8,1

05 Superior Completo

13,5

02 Não Respondeu

5,4

0

0

Religião

Nível de escolaridade

Pai

%

Nível de escolaridade

Mãe

%

41

Evangélicos

01 Analfabeto

2,4

02 Analfabeta

4,8

13 Fundamental Incompleto

31,7

12 Fundam. Incompleto

29,2

04 Fundamental Completo

9,7

04 Fundamental Completo

9,7

02 Médio Incompleto

4,8

04 Médio Incompleto

9,7

10 Médio Completo

24,3

09 Médio Completo

30

02 Superior Incompleto

4,8

01 Superior Incompleto

2,4

07 Superior Completo

17

05 Superior Completo

12,1


Um passado escolar diferenciado

A passagem pela escola pública marca significativamente o passado escolar da maioria dos estudantes pesquisados. De 114, 65 estudantes afirmaram ter vindo de escola pública, tendo realizado não apenas o ensino fundamental, mas também todo o ensino médio nessa rede de ensino. Essa característica é comum no conjunto de trabalhos desenvolvidos sobre os percursos escolares longevos construídos por indivíduos das camadas populares (VIANA, 2007; PIOTTO, 2007).


Todavia uma análise mais detalhada desse resultado por meio da localização geográfica das escolas (bairro) e de sua posição no mercado escolar pernambucano (escola de referência ou não) nos leva a pensar que estamos diante de um grupo de estudantes cujo passado escolar se diferencia da média, conforme observa Romanelli (2013) ao fazer um levantamento crítico sobre a literatura produzida acerca das relações entre família e escola das camadas populares.


O cruzamento das informações acima permitiu perceber que, embora oriundos de escolas públicas, esses estudantes (pelo menos 31 dos 65) frequentaram ora escolas públicas de referência do mercado escolar do Estado (como, por exemplo, o Liceu de Artes e Ofícios Pernambucano e o Ginásio Pernambucano), ora escolas públicas localizadas em bairros centrais e até nobres do Recife (como o bairro da Boa Vista e os bairros das Graças e do Espinheiro, por exemplo). Já aqueles que fizeram sua escolarização em bairros mais periféricos (45 entre 114), realizaram todo o ensino básico em estabelecimentos particulares. Mesmo que pouco explorada, essa geografia social dos estabelecimentos de ensino nos indica algumas das estratégias adotadas pelas famílias na construção de caminhos que garantam melhores condições de vida. Tudo se passa como se priorizando uma educação sólida aos filhos, os pais se asseguram de que a vida de seus filhos será melhor. Essa lógica parece se consolidar na medida em que avançamos na investigação sobre o passado escolar dos estudantes de Pedagogia da UFPE; passado marcado pela escolha do estabelecimento de ensino diferenciado e pela pouca conciliação entre trabalho e estudo. Assim se a genealogia escolar, a partir das avós e avôs, aponta para uma precoce inserção no mercado de trabalho ou/a conciliação entre trabalho e escola (também revelada por meio da relação entre nível de escolaridade e estratos profissionais dos pais), isso parece não se estender de maneira tão intensa na trajetória social dos sujeitos investigados. Isso porque dos 114 apenas 32 realizaram algum tipo de atividade remunerada durante o ensino médio. Os demais, 82 estudantes, nunca trabalharam até ingressar no curso de Pedagogia. Ao contrário de seus genitores, por exemplo, boa parte dos estudantes de Pedagogia não precisou sacrificar um dos ingredientes mais caros à incorporação do capital cultural que é o tempo (BOURDIEU, 1998). Talvez seja isso que nos ajude a compreender, por exemplo, o nível elevado de aspiração - objetivada pela escolha dos cursos das primeiras tentativas no vestibular - de boa parte da população (direito, jornalismo, entre outras) e frustradas pelas sucessivas reprovações. A escolha pelo curso de Pedagogia aparece raramente como primeira e/ou segunda opção e mais recorrente como a terceira opção. Por outro lado, conciliar ensino e trabalho durante o ensino médio implica necessariamente passar por um cursinho pré-vestibular. Todos os 32 estudantes que conciliaram trabalho e estudo ao longo do ensino médio seguiram aulas em cursos preparatórios para o exame do vestibular.


Mas se, num primeiro momento, o trabalho durante o processo de escolarização (anterior ao ingresso no curso de Pedagogia) não aparece como uma constante para o conjunto dos estudantes investigados, essa relação tende a se inverter na medida em que os indivíduos ingressam na universidade. Dos 82 estudantes que nunca precisaram trabalhar quando fizeram ensino médio, apenas 13 cursaram a graduação sem fazer qualquer atividade remunerada. Já o conjunto de estudantes que conciliaram estudo e trabalho ao longo do ensino médio, continua a fazê-lo durante toda a graduação (dos 32 apenas três não trabalharam ao longo da graduação). Essa inversão pode estar relacionada com a necessidade que esses estudantes passam a ter, uma vez que já são adultos (a média de entrada no curso é em torno de 24 anos), em colaborar na renda familiar, bem como de sustentar o deslocamento diário para a universidade (tendo em vista que, a maioria, mora em bairros localizados no subúrbio do Recife), em realizar as refeições fora de suas residências e na compra de material (livros, xerox, etc.). Vale salientar que a conciliação entre curso de graduação e trabalho é válida para toda a população, independentemente do turno em que os indivíduos estudam (diurno ou noturno). Essas diferenças sociais e culturais ganham corpo e forma na medida em que passamos a analisar o tipo de investimento feito por esses estudantes ao longo dos últimos cinco anos no curso de Pedagogia.


Religião e trabalho: elementos mediadores na construção dos percursos universitários dos estudantes de Pedagogia


A análise da relação entre as propriedades sociais e culturais descritas acima e os investimentos acadêmicos realizados pelos estudantes ao longo de suas trajetórias ressalta a importância de dois elementos mediadores: 1) a religião e 2) o tipo de trabalho na graduação. Os investimentos acadêmicos estão sendo objetivados, na presente pesquisa, por meio da participação ou não dos estudantes no conjunto de atividades extracurriculares oferecidas na própria universidade, a saber: a participação em grupos de pesquisas, a realização de uma iniciação científica ou de uma monitoria, participação em projetos de extensão e ainda congressos, simpósios, entre outros.


Todavia, para entendermos de que maneira as duas variáveis (religião e tipo de trabalho na graduação) se correlacionam com o percurso universitário dos estudantes de pedagogia é preciso, antes de tudo, detalhar a distribuição das diferentes matrizes religiosas em relação aos sujeitos que fizeram ou não atividades extracurriculares. Assim sendo, dos 87 que declararam ter uma religião, 64 fizeram pelo menos uma atividade extracurricular ao longo da graduação, conforme apresenta a Tabela 4. São, por exemplo, entre os católicos que encontramos o maior número de estudantes (29) que desempenharam atividades extracurriculares, seguido dos evangélicos (28) e dos espíritas (04).


Tabela 4 – Distribuição entre o quantitativo de estudantes por religião e atividades extracurriculares

Quantitativo de estudantes por Religião

Quantitativo de Atividades extracurriculares

41 Evangélicos

Pelo menos 28 estudantes fizeram uma atividade ao longo do curso de graduação

37 Católicos

Pelo menos 29 estudantes fizeram uma atividade ao longo do curso de graduação

06 Espíritas

Pelo menos 04 estudantes fizeram uma atividade ao longo do curso de graduação

03 declaram mas não especificam

Fizeram uma atividade ao longo do curso de graduação


Esses dados parecem reforçar os resultados apontados por pesquisas sobre a relação entre religião, inserção na cultura escrita e desempenho acadêmico (BATISTA E GALVÃO, 2007; TEIXEIRA, 2011). Essas investigações mostram que a inserção na cultura escrita através de determinadas práticas religiosas – como, por exemplo, a leitura da bíblia- contribui para o acesso e o estabelecimento de uma relação específica com a escrita se constituindo assim em um recurso social diferenciador na trajetória escolar, particularmente, dos estudantes de origem católica e evangélica mais tradicional.


No entanto, para entendermos como as participações dos estudantes nas atividades extracurriculares ocorrem é preciso levar em consideração não apenas a sua origem religiosa, mas também as atividades remuneradas realizadas ao longo do curso de graduação.


Assim, se num primeiro momento, a ideia de que o trabalho durante a realização do curso de graduação se constitui num dos principais empecilhos para que os estudantes realizem atividades extracurriculares, quando nos detemos a uma análise mais cuidadosa sobre a natureza dessas atividades percebemos o seu peso na construção da trajetória universitária dos estudantes. Dos 81 indivíduos que realizaram pelo menos um tipo de atividade acadêmica ao longo do curso, 79 fizeram atividades remuneradas durante a graduação em universo escolar. Essas atividades são, na sua grande maioria, estágios realizados em escolas municipais, creches, além de aulas particulares. Evidentemente seria importante pontuar de que forma e que tipo de informações circulam dentre esses estágios, o que nos daria uma ideia mais concreta da natureza do conhecimento que aí são socializados e incorporados pelos diferentes estudantes. Porém, a recorrência dessa relação (trabalho em espaços escolares e investimento acadêmico) implica pensar o trabalho como elemento mediador e cumulativo de capital cultural para os estudantes da amostra. Tal implicação ganha sentido de maneira particular quando cruzamos o tipo de religião dos estudantes e a quantidade de atividades por eles realizadas ao longo do curso de graduação.


Assim, dos 41 estudantes de origem evangélica que realizaram atividades remuneradas ao longo da graduação em espaços escolares, 20 fizeram entre duas a quatro atividades ao longo de todo o percurso universitário e oito fizeram pelo menos uma atividade extracurricular. Os demais não fizeram atividades extracurriculares. Eles se distribuem da seguinte forma: sete estudantes realizaram atividades remuneradas fora do universo escolar e não fizeram atividades extracurriculares. Os outros seis estudantes realizaram atividades remuneradas no universo escolar e também não fizeram atividades extracurriculares.


Quando analisamos os estudantes de origem católica, comportamento semelhante é verificado, isto é, o fato de pertencer a uma religião e exercer uma atividade remunerada no universo escolar parece aumentar a chance de realizar mais de uma atividade extracurricular. Vejamos: dos 37 estudantes de origem católica que exerceram atividades remuneradas ao longo do curso relacionadas ao universo escolar, 26 realizaram pelo menos duas atividades extracurriculares. Os outros três que também conciliaram estudo e trabalho durante a graduação em espaços escolares, fizeram uma atividade acadêmica. Os demais que trabalharam ao longo do curso universitário em espaços não escolares, como por exemplo, em call center ou em shopping como vendedoras, não realizaram atividade extracurricular. No que diz respeito aos estudantes espíritas, a relação praticamente se repete. Dos seis estudantes, apenas dois não fizeram atividades extracurriculares. São esses os únicos que conciliaram estudo e trabalho durante a graduação em espaços não escolares.


Diante dos resultados expostos podemos inferir que o uso mais intenso das atividades acadêmicas oferecidas na universidade está associado ao aumento do volume de capital cultural acumulado graças a dois elementos mediadores fundamentais: a religião e o tipo de trabalho conciliado ao longo da trajetória dos estudantes do curso de Pedagogia (concluintes 2012). Tudo se passa como se a realização das atividades acadêmicas estivesse atrelada a presença de um desses dois elementos, pois como dito anteriormente, aqueles que declaram pertencer a uma religião, mas não trabalharam em espaços escolares raramente realizaram uma atividade acadêmica e vice-versa. Essa assertiva se evidencia com o aumento do quantitativo das atividades acadêmicas quando associado ao fato de pertencer a um grupo religioso e ao trabalho em espaços escolares, como é o caso dos 20 estudantes de origem evangélica que passaram boa parte de sua graduação trabalhando como regentes em escolas privadas e públicas.


Por outro lado,  essa primeira aproximação do material empírico nos indica a necessidade de melhor explorar as diferenças internas entre as três matrizes religiosas identificadas na pesquisa; evangélicos, católicos e espíritas. Esse procedimento analítico possibilitaria, por exemplo, entender como ocorrem as escolhas das atividades acadêmicas pelos indivíduos e o tipo de hierarquia que se estabelece entre os estudantes em função mesmo dessas escolhas,  bem como a maneira que esses estudantes se relacionam com o trabalho. Em suma, aprofundar o conhecimento da origem religiosa dos estudantes e de sua relação com o mundo do trabalho parece importante para entendermos as condições objetivas de inserção de jovens de camadas populares na universidade pública brasileira.

 

1É professora do Centro de Educação da UFPE. Doutorado em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia da Educação e Sociologia da Cultura e do Conhecimento. Atualmente coordena junto com Maria Emília Lins o Grupo de Estudo e Pesquisa Família Escola e Profissão (GEPFEP) no Centro de Educação da UFPE, além de colaborar como pesquisadora do Grupo de Estudos sobre instituições escolares e Organizações Familiares (FOCUS/UNICAMP).

2É professora do Centro de Educação da UFPE. Doutorado em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FAE/UFMG). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Leitura e Escrita. Coordena o Grupo de Estudo e Pesquisa Família, Escola e Profissão (GEPFEP) no Centro de Educação da UFPE e participa como pesquisadora colaboradora do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (CEEL/UFPE).

3Compreendemos camadas populares como os estratos sociais que possuem baixa renda, baixa escolaridade e inserção em ocupações manuais subalternas (SOUZA, M., 2009).



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Artigo recebido em abril de 2013

Aprovado em novembro de 2013

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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

ISSN Impresso 1415-000X

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