Est.Soc.[online].2014, vol. 2, n. 20


APRESENTAÇÃO


FOREWORD


Editores temáticos

Remo Mutzenberg

Eliane Veras Soares


Este dossiê, “Conhecimento, política e literatura: diálogos entre Brasil e África”, é o segundo de uma trilogia. O primeiro, “Diálogos do Sul”, foi publicado na Revista Civitas v 14, n. 1, janeiro-abril 2014.   O terceiro, “Ciências sociais e construção do conhecimento a partir de África”, encontra-se em fase de elaboração. Tem como pano de fundo as consequências das mudanças para produção do conhecimento a partir da América Latina, África e, mais especificamente, do Brasil, que se põe como um campo criativo e desafiador para o pensamento social. Isto pode ser percebida, em alguma medida, na diversidade temática dos artigos que compõem o presente dossiê, que trata da literatura, dos processos de produção de conhecimento, da política e da história. Dentro desta composição temática, o dossiê reflete algumas questões e representa o esforço em estabelecer um diálogo neste campo que não apenas situa o debate acadêmico, mas está subjacente a tensões e conflitos no campo de disputas políticas sobre concepções e construção da vida social.


Como abertura do dossiê, apresentamos “Surget et ambula: Literatura e (des)construção da nação”, entrevista com o crítico literário moçambicano Francisco Noa que problematiza a formação da literatura moçambicana - em estreita relação com o processo colonial, a luta anticolonial e a formação do estado nacional - e dialoga com as influências da literatura modernista brasileira e do neorrealismo português nesta complexa e dinâmica da literatura moçambicana. A riqueza da reflexão de Noa aponta para a relevância do estudo da arte, em especial da literatura, para uma compreensão mais profunda dos processos sociais nas sociedades contemporâneas, notadamente naquelas denominadas pós-coloniais.


À entrevista segue o artigo “Literatura, conhecimento e política: diálogos entre Brasil e África, de autoria de Remo Mutzenberg e Eliane Veras Soares. Neste artigo os autores fazem uma breve contextualização do crescente interesse no Brasil pelo continente africano. Partindo do pressuposto de que tal interesse se insere no quadro de redefinições geopolíticas globais, os autores destacam questões e desafios que se colocam no campo da produção de conhecimento, particularmente no âmbito das ciências sociais. O argumento desenvolvido destaca o modo como a intensificação e as novas formas das relações Sul-Sul tem levado a se repensar não só as sociedades, mas também formas e modelos de conhecimento. Aspecto este central do que vem se denominando relações Sul-Sul.


Dando sequência à discussão trazida por Noa, os artigos de Assunção de Maria Sousa e Silva e Paula Manuella Silva de Santana tratam de temas ligados à literatura em contextos africanos. Em “Nos mastros do poema, a nação são-tomense”, Assunção de Maria Sousa e Silva analisa três poemas contidos no livro O útero da casa de autoria da escritora são-tomense Conceição Lima, destacando os sentidos que sustentam o projeto de “poetizar a mátria” - concebida como metáfora da ilha de São Tomé - útero demarcado de pertencimento para o qual confluem elementos “toantes e destoantes da construção da identidade são-tomense”. Este artigo nos remete às tensões constitutivas das formações identitárias em contextos pós-coloniais, para as quais a literatura, no caso específico, a poesia, surge como um locus revelador e problematizador. É o olhar da crítica literária em diálogo com perspectivas de cariz pós-colonial que marca a narrativa deste artigo.


Paula Manuella Silva de Santana, em “Um 'cineminha' e algumas 'birras' e muitos 'causos': uma visita à hibridez em Ondjaki”, realiza uma instigante análise de aspectos da modernidade presentes no cotidiano das ruas de Luanda (Angola), a partir das noções de modernidade periférica e fronteiras híbridas aplicadas à obra do escritor angolano Ondjaki. A análise da autora busca enfatizar as relações entre literatura e vida social na prosa-poética de Ondjaki, por meio de um “interessante exercício para apreensão dos meandros do contexto pós-colonial em que Angola”, de modo a levar o leitor a “experimentar sensações contraditórias, oriundas das descontinuidades e desigualdades fomentadas durante o período colonial, desde a sua constituição até o seu posterior desenvolvimento”. Este artigo demonstra potencialidades interpretativas no campo da sociologia ao lidar com a literatura.


Três artigos problematizam a produção do conhecimento a partir de autores brasileiros e africanos: “O trabalho teórico do cientista social no Terceiro Mundo: a produção de conhecimento nas condições do capitalismo dependente” de Diogo Valença; “Emergência e desafios da sociologia no Brasil e em África: uma comparação entre as perspectivas teóricas de Florestan Fernandes e Elísio Macamo”, de Aristeu Portela Júnior e “As possibilidades de produção do conhecimento: África em foco” de Teresa Oliveira. Para Diogo Valença o enfoque das abordagens críticas a respeito da descolonização das ciências sociais é tratado a partir das posições assumidas pelo sociólogo brasileiro Florestan Fernandes e do geógrafo Milton Santos, indicando que o debate sobre as condições de conhecimento nos países subdesenvolvidos e a necessidade de superação de uma mentalidade colonizada já se configurava na agenda de intelectuais latinoamericanos nos anos 1960. Assim, o autor nos convida a refletir sobre o papel do intelectual no “Terceiro Mundo” em diálogo com pensadores clássicos oriundos deste contexto.


Nesta direção, o artigo de Aristeu Portela Júnior tem como proposta discutir algumas consequências decorrentes da posição de intelectuais latino-americanos e africanos em relação ao contexto global de produção do conhecimento. Para tanto, dialoga com Elísio Macamo e Florestan Fernandes, dando destaque aos desafios a serem enfrentados por uma sociologia que se pretende enraizada, isto é, em diálogo permanente com as tradições particulares de cada sociedade, e ao mesmo tempo articulada com o que é “produzido globalmente”. Esse debate sugere a necessidade de se deslocar os sentidos dicotômicos cristalizados nas categorias local/periférico e o que concebido como local/central.


O artigo de Teresa Oliveira retoma a problemática das disputas no campo da produção do conhecimento sobre as sociedades africanas, assumindo o pressuposto da existência de uma relação tensa entre colonialismo e saber que não pode ser ignorada. Traz para o debate autores que, embora não assumam uma posição “decolonial”, colocam em evidência os limites dos modelos atuais das ciências humanas. Elisio Macamo, por exemplo, destaca a necessidade de fazer emergir uma agenda de investigação a partir das realidades africanas, enquanto Paulin Hountondji, como já mencionamos acima, denuncia a insustentabilidade da redução da África ao papel de fornecedora de matéria-prima para a produção do conhecimento.


Estes três artigos nos permitem observar diferentes níveis de insatisfação com a prática acadêmica e seus pressupostos teóricos e metodológicos. O que tem gerado posicionamentos diversos quanto ao modo de enfrentá-los na prática acadêmica e tem posto em relevo um debate subjacente quanto às implicações políticas e práticas da fazer acadêmico. No plano do não-dito, expõe-se a persistência de formas de reprodução que ainda tem se manifestado com força a despeito de esforços de superação engendrados por diferentes autores, em contextos variados.


O artigo, “Reflexões a respeito da ideia de (r)existências do Sul”, de Júlia Benzaquen é um exemplo do empenho de uma nova geração de cientistas sociais que propõe construir conceitos capazes de refletir as dinâmicas emergentes e a pluralidade de formas de “resistências que afrontam a lógica ocidental hegemônica de homogeneização” global. Nesse sentido, a autora propõe o conceito de “(r)existências resistentes” para lidar com os limites e as dificuldades enfrentadas com a adoção do conceito de movimentos sociais, vinculado à experiência da “modernidade ocidental”.


Na análise no plano político o leitor encontrará no artigo de Vinícius Lobo, “Brasil e Guiné Bissau: afinidades históricas na modernidade periférica”, o questionamento sobre a possibilidade de se encontrar afinidades entre o Brasil e a Guiné Bissau nos processos sociopolíticos que se seguiram às respectivas independências. Trata-se de uma proposta desafiadora se considerarmos as distâncias entre as duas nações, seja do ponto de vista temporal (a Independência do Brasil, ocorrida no século XIX, e a da Guiné Bissau, no século XX) seja do ponto vista da luta política (no Brasil, uma Independência com ares de continuidade; na Guiné Bissau, uma Independência proclamada depois de um longo processo de luta de libertação nacional). O fio condutor proposto pelo autor segue a busca de características peculiares à condição de modernidade periférica imposta a estas nações. Nesse sentido, o autor destaca como os processos de construção dos estados nacionais foram monopolizados e instrumentalizados por elites locais em função de seus interesses privados articulados no interior do sistema internacional de trocas.


Na sequência, o artigo de Marta Zorzal e Silva, “Desenvolvimento e governança de investimentos externos: Apontamentos sobre Moçambique”, parte do debate, em suas distintas vertentes, sobre os temas do desenvolvimento/sustentabilidade, cooperação e ação para o desenvolvimento no âmbito das relações Sul-Sul, com destaque nos BRICS, e a estreita relação destes temas com a governança e, por fim, as suas implicações na análise dos investimentos estrangeiros diretos na exploração de recursos naturais em África. Esta análise centra-se, particularmente, nos investimentos da Vale S.A. e Riversdale Mining Ltda. em Moçambique.


Em “A gestão do 'risco político' na democracia moçambicana: análises e perspectivas”, Luca Bussotti, traça um rico panorama das relações entre a Frelimo e a Remano, desde a constituição do regime pluripartidário até os dias atuais. A dinâmica de gerenciamento deste processo tem gerado, na concepção do autor, o estabelecimento de uma “democracia bloqueada”, caracterizada pela “gestão do risco político” e da permanência da Frelimo no poder pela via eleitoral. Neste caso, a “democracia bloqueada” tem se manifestado por meio da utilização da lei para benefício do partido que está no poder, embora se tenha o cuidado de não infringi-la de forma patente. No momento, este processo encontra-se “em aberto”, podendo tanto resultar em novos conflitos, inclusive de natureza bélica, quanto na adoção de outros paradigmas para a democracia moçambicana.


O último conjunto de artigos - “A diáspora africana na foz do Rio Itajaí (SC) nos séculos XVIII e XIX”, de José Bento Rosa da Silva; “Porto do Recife: d'África à des' África”: pensamento social e literatura sobre raça e o urbano”, de Murilo de Avelar Alchorne; e “O terreiro e a cidade: ancestralidade e territorialidade nas políticas de ação afirmativa”, de Ronaldo Laurentino Sales Júnior – trata de aspectos relativos às dimensões histórica, literária e política presentes no conturbado processo inserção do africano na sociedade brasileira.


O historiador José Bento Rosa da Silva busca reconstituir, a parti de livros de registros de batizados e casamento, aspectos do cotidiano de africanos trazidos como escravos para a Foz do Rio Itajaí, no litoral norte do Estado de Santa Catarina. Com este artigo o autor pretende “dar visibilidade aos africanos nesta região do Brasil, uma vez que a historiografia oficial tradicional construiu uma versão de uma Europa ‘incrustada’ ao sul do país, tornando invisíveis os demais grupos étnicos” e, ao mesmo tempo, contribuir para “reatar os laços históricos” entre o Brasil e a África, em especial, aquela de onde precederam os atores deste processo diaspórico, os antigos reinos de Congo, Angola e Matamba.


Murilo de Avelar Alchorne reflete sobre as transformações urbanas ocorridas na cidade de Recife durante o processo de desestruturação da sociedade patriarcal, “a partir de Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco e Mário Sette, buscando compreender qual o papel que a concepção de 'raça negra' desempenha nas concepções simbólicas e materiais de ordenação das espacialidades da cidade”. Neste sentido, o autor identifica relações entre tais concepções e o ideário que orientou a reforma urbano-higienista, cristalizando relações entre raça, miscigenação e a compartimentalização habitacional das populações de origem africana. A literatura desponta como um indicador da tensão entre modernização/urbanização e a presença das marcas africanas no espaço urbano.


O último artigo, “O terreiro e a cidade: ancestralidade e territorialidade nas políticas de ação afirmativa”, de Ronaldo Laurentino Sales Júnior, atualiza as linhas de análise dos artigos anteriores, inserindo o debate sobre religiosidade de matriz africana e políticas de ação afirmativa. A partir das noções de ancestralidade e territorialidade o autor analisa de que maneira o “retorno à África” pode ser compreendido como “um modo de territorialização diaspórica do espaço urbano, condicionando a organização política dos movimentos religiosos, a formulação de suas demandas sociais e a implantação das políticas públicas, influenciadas pelos discursos políticos dos movimentos sociais negros, da academia e do Estado”. Argumenta que a identidade “negro-africana”, no contexto brasileiro, tem se caracterizado pela articulação de identidades sociais, políticas e/ou religiosas. Assim é que o autor considera que as demandas das religiões de origem africana repercutem sobre a formulação e implementação de políticas públicas e que estas, por sua vez, tem efeitos na representação e na identidade religiosa e étnico racial. Neste sentido caberia perguntar: o que é esse retorno à África? Qual é o imaginário que informa este retorno?


Antes de entregar ao leitor o resultado deste dossiê, gostaríamos de agradecer a colaboração da cientista social Paula Sophia de Branco Lima e do mestre em sociologia Aristeu Portela Júnior que voluntariamente secretariaram a elaboração deste dossiê, organizando e facilitando todas as tarefas que o tornaram possível.


Lisboa/Recife, 01 de novembro de 2014.

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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

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