Est. Soc. [online]. 2014, vol. 2, n. 20


NOS MASTROS DO POEMA”, a nação são-tomense


"IN THE MASTS OF THE POEM”, THE NATION OF SÃO TOME


Assunção de Maria Sousa e Silva1


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Resumo

Este trabalho propõe apresentar uma leitura de três poemas contidos no livro O útero da casa de autoria da são-tomense Conceição Lima, na perspectiva de verificar, no seu processo de construção estética, as ressonâncias das tensões nas relações de poder entre os sujeitos que compõem a narrativização da nação no que diz respeito aos seus sentimentos nacionais. A percepção que resulta, devemos dizer, surge a partir da leitura do livro Polifonias Insulares cultura e Literatura de São Tomé e Príncipe de Inocência Mata, sobretudo na compreensão do percurso e processo de produção da literatura são-tomense por ela delineados. No intento de destacar os sentidos que vigoram o projeto de poetizar a mátria, metáfora da ilha são-tomense, útero demarcado de pertencimento em que confluem elementos toantes e destoantes que edificam tais tensões, recorremo-nos às ideias de nação e identidade nacional discorridas por Homi Bhabha e Benedict Anderson.


Palavras-chave

Poema. Nação. Poesia. Literatura São-tomense. Ilha. Identidade nacional.


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Abstract


This paper presents an analysis of three poems from the book, O útero da casa, by Conceição Lima, a Sao Tome poet. The idea is to substantiate her aesthetic process in constructing the resonances of tensions in the power relations between subjects that make up the nation’s narratives concerning their national feelings. The resulting perception comes from the reading of the book Polifonias Insulares cultura e Literatura de São Tomé e Príncipe, by the Professor and researcher, Inocência Mata, particularly in clarifying the course and process of producing literature in Sao Tome that she has outlined. In an attempt to highlight feelings that lead authors to poetize their mátria, a metaphor for the island of Sao Tome, a demarcated uterus of belonging in which in tune and out of tune elements build such tensions, we borrow the ideas of nation and national identitiy of Homi Bhabha and Benedict Anderson.


Keywords

Poem. Nation. Poetry. Sao Tome literature. Island. National identity.


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1. Introdução


PROPOSTA


Apaguem os canaviais, os cacauzais, os cafezais

Rasurem as roças e a usura de seus inventores

Extirpem a paisagem da verde dor de sua íris

E eu vos darei uma narrativa obliterada

Uma esparsa nomenclatura sedenta de heróis.

(Conceição Lima)


Poetisa com três livros de poemas publicados, Conceição Lima, de São Tomé e Príncipe, apresenta uma produção de fôlego e poder de expressão e sentidos ao referir-se à sua nação e à sua gente. Seu primeiro livro O útero da casa, compilação de poemas até então dispersos em jornais e revistas de vários países da Europa, traz uma singularidade no cenário da literatura são-tomense. Conceição Lima é a voz poética feminina contemporânea da casa – São Tomé e Príncipe - que alude a fatos históricos, na perspectiva de refletir e questionar o “começo e a consequência” de um sonho que precisa decifrar a fim de fazer audível “o grito da imanência”.


Através de seus poemas, o/a leitor/a pode ensaiar diversos e diferentes olhares e sentidos, todavia não poderá abrir mão de perceber que o livro supracitado, a partir do título, apresenta uma metáfora do útero – lugar de aconchego, acolhimento e origem – que brotará vida carregada de desvelo e ao mesmo tempo de esperança para um país em desenvolvimento. Constituído de poemas que sinalizam tanto para a apreensão de sentidos materno-familiares quanto para a comunhão de vivências entre irmãos de terras e tempos diferentes, O útero da Casa retrata, conforme Inocência Mata, na apresentação, o “relato de uma geração, metonímia de um segmento narrativo no relato de nação”. Conceição Lima assim o faz, através do sujeito enunciador que “combina lembranças de um tempo político e reúne esparsos elos do passado nacional para lhe conferir uma iluminura projectiva, pelo viés da movimentação afectiva e intimista” (MATA, 2004, p.12).


Esta afetividade e intimismo são a tônica preponderante no percurso e muito contribui para que o livro não venha eivado de um panfletarismo de poucas consequências. Conceição Lima constrói uma poética em que os acontecimentos da história de São Tomé e Príncipe são elementos propulsores de uma consciência estética que em confronto com o preestabelecido repercutem uma escrita de sensibilidade mas também corrosiva e afiada no questionamento do poder hegemônico.


Iniciamos com essas conjecturas evocando o poema “Proposta”, usado como epígrafe, que propõe produzir uma “narrativa obliterada”, “esparsa nomenclatura sedenta de heróis”, após atestar os apagamentos, as rasuras e as extirpações da paisagem geográfica e humana. Por esse viés desenvolveremos algumas impressões focando três poemas de Conceição Lima: “A herança”, “Os heróis” e “1975” do livro em foco, a seguir.


2. As vias de narrar/poetizar a nação


Com o propósito de pensar a nação sob a construção poemática de Conceição Lima, faz-se necessário dizer sob que aspecto podemos tratar essa categoria. Benedict Anderson (2008), em Comunidades imaginárias reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo, compreende nação como “comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada, e ao mesmo tempo, soberana” (ANDERSON, 2008, p. 32). Segundo ele, “as comunidades se distinguem não por sua falsidade /autenticidade, mas pelo estilo em que são imaginadas” (ANDERSON, 2008, p. 33) de forma a serem concebidas como limitadas, conforme as “fronteiras finitas, ainda que elásticas para além das quais existem outras nações” (Idem, p.33), como também soberana, pelo fato de sua legitimação ser instituída pelo direito divino, conforme as concepções iluministas. O autor acrescenta que nação é


comunidade porque, independentemente da desigualdade e da exploração efetivas que possam existir dentro dela, a nação sempre é concebida como uma profunda camaradagem horizontal. No fundo, foi essa fraternidade que tornou possível, nestes dois últimos séculos, tantos milhões de pessoas tenham-se não tanto a matar, mas sobretudo a morrer por essas criações imaginárias limitadas (ANDERSON, 2008, p. 34).


Entendendo a nação a partir, e não exclusivamente, de tais pressupostos, é preciso enfatizar que o sentido de comunidade aqui referido permite-nos reconhecer por quais processos podem-se legitimar as vozes que não se adéquam ao estado de dependência ou de conservação do status quo.


Na construção poética da casa – simbolicamente espaço território fronteiriço de São Tomé e Príncipe – os sujeitos e espaços por onde estes circulam são caracterizados por fatos e atitudes de questionamento e de denuncia ao poder constituído. Nos poemas, repercute, no entanto, a memória como voz enunciadora de um passado extremamente corrosivo para determinados segmentos sociais que edificaram e participaram efetivamente da construção do país antes e pós-independência. Por este feito, os sujeitos enunciadores parecem partir para uma dupla ação: a de desconstruir sentidos calcificados de uma “visão monolítica” e dominadora e reconstruir sentidos outros que levem em conta “visões plurais” reconhecedoras dos diversos partícipes do passado, do presente para a construção do futuro.


2.1 Poema 1 – “A herança”

1. Sei que buscas ainda

2. O segredo fulgor dos dias

3. Anunciados.

4. Nada do que te recusam

5. Devora em ti

6. A memória dos passos calcinados.

7. É tua casa este exílio

8. Este assombro esta ira.

9. Tuas as horas dissipadas

10. O hostil presságio

11. A herança saqueada.

12. Quase nada.

13. Mas quando direito e lúgubre

14. Marchas ao longo da Baía

15. Um clamor antigo

16. Um rumor de promessa

17. Atormenta a Cidade.

18. A mesma praia te aguarda

19. Com seu ventre de fruta e de carícia

20. Seu silêncio de espanto e de carência.

21. Começarás de novo, insone

22. Com mãos de húmus e basalto

23. Como quem reescreve uma longa profecia.

(LIMA, 2004, p. 21-22)


No poema acima dois sujeitos estão encenados: o eu que se enuncia em insistente e interrogativa interlocução com o tu demarcado pelo lugar e o tempo. Antes de considerações a respeito do corpo do poema, convém atentar para o título “A herança” que nos permite fazer uma inferência generalizante: o que se vai ler trata-se de um legado. No entanto, esta inferência alude tanto para o legado de afirmação quanto de negação. O eu enunciador reconhece no intuito do outro a busca, o desejo de recompensa de dias “anunciados”. Esse outro, mesmo em situação de sonegação de seus direitos, traz consigo a permanência da memória dos que se foram que estava até então petrificada. O legado é a “casa” de “assombro”, “ira” pelo tempo gasto e a esperança “saqueada”. De forma que nesta primeira parte do poema sobressai a tônica vigente em todo o livro O útero da casa: a permanência da dor e do sofrimento de um passado que “quase nada” ficou.


Prosseguindo, a adversativa “Mas”, no início do verso 13, modifica a ambiência do estado melancólico e de lamento antigo. O eu poético evoca a marcha que o sujeito “tu” há de prosseguir “ao longo da Baía”. A marcha que carrega o “clamor antigo”, o “rumor da promessa” para que cause aflição à “Cidade”, porque lá “a mesma praia” o espera a fim de que comece de novo a “reescreve[r] uma longa profecia”. A casa simbolizada pelo “ventre da fruta” e o desejo de recomeçar perpassado com nuance do termo “carícia” dão ao final do poema o sentido da esperança de um futuro diferente, talvez mais promissor, numa caminhada em que o interlocutor busca incessantemente movimentar-se não para fora, mas para dentro da casa – praia – ilha – Cidade e, ao mesmo tempo, empreende a reescrita de si e do Outro como se estivesse profetizando o porvir. O passado de dor e de ira petrificados na memória parece fortalecer e sinalizar para uma caminhada fraterna na reescrita do futuro, reiterando a ideia de nação imaginada referida por Benedict Anderson.


A interlocução é um recurso recorrente em alguns poemas que compõem o livro O útero da casa, por exemplo, “1975”, “Segunda revolta de Amador”, “Ilha”, “Proposta”, “Os rios da tribo”, “Gravana” e “Aniversário”. Em todos eles, há um eu que se põe e propõe dialogar com um tu/outro, delineados e encarnados por distintas feições que partem do sentido individual e físico para o de metaforização da nação. Isso indica, portanto, que o sujeito enunciador não está preocupado em ressaltar suas individualidades ou vicissitudes, mas, sobretudo, preocupa-se em revelar uma forma de pensar o mundo e mais intimamente a ilha, ressaltando os sujeitos diversos e diferentes que nela convivem em tensão.


A perspectiva de reescrever a “profecia”, por esse tu que herda o passado saqueado, faz-nos lembrar, por outro lado, a ideia de nação performática percorrida por Homi Bhabha (1998), a partir da interferência dos sujeitos e suas consciências das posições sociais que ocupam. Diz o teórico que, do ponto de vista da “minoria”, a articulação social da diferença é “uma negociação complexa, em andamento, que procura conferir autoridade aos hibridismos culturais que emergem em momentos de transformação histórica” (BHABHA, 1998, p. 21) e no encalço de reencenar o passado, aquele que se expressa a partir da “periferia”, assim o faz inserindo “outras temporalidades culturais incomensuráveis na invenção da tradição” (Idem, p. 21).


Segundo Bhabha (1998, p. 21),

Os embates de fronteira acerca da diferença cultural têm tanta possibilidade de serem consensuais quanto conflituosos; podem confundir nossas definições de tradição e modernidade, realinhar fronteiras habituais entre o público e o privado, o alto e o baixo, assim como desafiar as expectativas normativas de desenvolvimento e progresso.


Assim se pode compreender a necessidade de que se sobressaiam e se interponham vozes identitárias dos sujeitos “periféricos” na articulação da reescrita de uma nação.


No contexto das literaturas africanas de língua portuguesa, a poesia de Conceição Lima se apresenta como uma “implosão” na literatura são-tomense na contemporaneidade, já que explicita uma nova feição de são-tomensidade com a presença significativa da história de segmentos até então silenciados ou senão negligenciados pela escrita poética e narrativa configuradas, tanto pelo discurso colonial quanto pelo discurso nacionalista, produzidos e reproduzidos no tempo. Refletindo sobre esta via, aponta Mata que


tanto os poéticos quanto os dramáticos são textos que, partindo da recolha da tradição oral do povo angolar, dramatizam a história de resistência política e cultural deste povo, tanto à dominação quanto à assimilação cultural, e afirmam a angolaridade (termo cunhado por Manuel Ferreira) como uma feição da são-tomensidade (o que até então não fora assumido poeticamente, ainda que os angolares já fossem sujeitos poéticos, como no poema “Angolares”, de Alda Espírito Santo) (MATA, 2010, p. 72).


Essa feição que imprime a presença de angolares e demais etnias são-tomenses está consubstanciada pela “vinculação à insularidade são-tomense” e “à espácio-temporalidade marítima”, conforme cita a pesquisadora, sobretudo na produção literária de Fernando Macêdo e Conceição Lima:


Com esta nova feição da são-tomensidade literária – a angolaridade -, é introduzido um sinal de implosão na construção do discurso (literário) da identidade nacional, na medida em que tal discurso da angolaridade traz à cena a história de um dos segmentos mais dissonantes, tanto no discurso colonial, quando no nacionalista, cujo epicentro de gestação era a roça. Uma das primeiras consequências dessa desconstrução discursiva é a vinculação da insularidade são-tomense também à espácio-temporalidade marítima, em vez de estar circunscrita à dimensão telúrica, como antes eu própria afirmara (MATA, 2010, p. 73)


Portanto, não se pode negar que os poemas de Conceição Lima atravessam uma dicção são-tomense cuja tônica é a construção de um discurso literário a partir do “húmus e basalto” moldados pelas mãos dos sujeitos construtores da nação. Ainda para Inocência Mata, a poesia de Conceição Lima concilia


a dimensão lírica com a épica que se actualiza na reconstituição memorial da narrativa da nação [e mais, os seus poemas,] situando-se num plano reflexivo, constroem o relato de uma geração, metonímia de um segmento narrativo do relato da nação (MATA, 2004, p. 12; 2010, p. 76).


Isso se pode constatar de forma recorrente tanto em O útero da casa, como em A dolorosa raiz do Micondó. O estabelecimento de um espaço-tempo fortificado pela presença de segmentos até então circunscritos às margens repercute de forma singular, questionadora e denunciante da realidade são-tomense. A “praça” e a “ilha” são termos metonímicos do país e apresentam-se como espaço-tempo dos sujeitos vivos pela memória a exercer ação desconstrutiva e indagativa sobre a história, como vemos no poema a seguir “Os heróis”.


2.2 Poema 2 – Os heróis

Na raiz da praça

Sob o mastro

Ossos visíveis, severos, palpitam.

Pássaros em pânico derrubam trombetas

Recuam em silêncio as estátuas

Para paisagens longínquas.

Os mortos que morreram sem perguntas

Regressam devagar de olhos abertos

Indagando por suas asas crucificadas.

(LIMA, 2004, p. 23)


Retomando a praça como o lugar de fala e de resistência, nela se recompõem os signos e sinais visíveis e invisíveis, do passado e do presente, cuja atmosfera está conferida pelo tormento e pelo silêncio dos pássaros.

Pássaros em pânico derrubam trombetas

Recuam em silêncio as estátuas

para paisagens longínquas.


Os heróis aqui homenageados não são aqueles conferidos pela oficialidade, ao contrário, são os que ficaram nos subterrâneos dos escombros da história e sobrevivem representados no mastro da praça, invisíveis para todos e visibilizados na/ pela memória do sujeito enunciador. As reminiscências vivificadas pela palavra poética fazem enaltecer o silêncio das estátuas para edificar os olhos abertos dos mortos em busca de respostas às suas indagações sobre a violência sofrida. Conforme assevera Inocência Mata, o lirismo percorre a escrita de Lima mesmo predominando acentuada dimensão épica. Os poemas de Conceição Lima expressam uma consciência com “certa amargura [...] pela utopia não realizada” (MATA, 2010, p. 76) o desejo de uma sociedade tocada e construída com justiça e dignidade.


Os heróis evocados que não tiveram tempo para ecoarem suas perguntas são retomados com seus “olhos abertos”, através da imagem dos “pássaros em pânicos”, agora inquirindo sobre suas lutas e perdas no processo de [re]construção da nação. “Os heróis” referidos poeticamente aludem à memória viva da coletividade, qual seja a retomada de um passado doloroso para clarear os olhos do presente e assim sinalizar para novos e diferentes passos que parecem ter só na poesia o lugar de reconstrução da fala e dos sentidos enterrados sob o mastro da praça. Seguindo Margarida Ribeiro (2011), em “Patrimônio da palavra: o nome, a casa, a ilha”, ensaio sobre o uso da língua nos poemas de Lima, podemos aceitar, a respeito das vozes persistentes neste solo poético, que explicitamente estão as dos subalternizados (SPIVAK, 1988), e estes não são aqueles que não falam, mas os que ainda têm suas vozes condenadas à irrelevância, cujas interpretações correntes vêm reforçar seu silenciamento.


Neste sentido, continuamos pela via de pensamento de Margarida Ribeiro (2011) quando percebemos que os sujeitos agentes nos poemas de Conceição Lima são portadores de vozes que “reivindica[m] herdeiro de um patrimônio poético, cultural, histórico e de sofrimento de longa duração temporal” (RIBEIRO, 2011, p. 199). E, ainda, que eles estão imersos em um estado e condição resultantes dos deslocamentos e disjunções que se procederam, ditos e reescritos a partir das perspectivas de si mesmos, como “minorias destituídas” (BHABHA, 1998, p. 25).


Para Bhabha, no ensaio introdutório sobre os locais da cultura, quando se detém a exemplificar suas reflexões, inserindo a postura dos sujeitos ficcionais na produção de Toni Morrison, Gordimer e outros, as narrativas de reescrita da nação, pelo ponto de vista dos que se situam na periferia, trazem uma “revisão do próprio conceito de comunidade humana. O que seria esse espaço geopolítico, como realidade local ou transnacional, é o que se interroga e se inaugura” (BHABHA, 1998, p.25).


Nas diversas leituras críticas de poemas de Conceição Lima vigoram a tônica interpretativa de uma abordagem das dores da história dos sujeitos são-tomenses provocadas pela o processo colonial e expansionismo europeu. Por esta via, seus escritos se enunciam tanto como “implosão” na literatura são-tomense, já referida por Inocência Mata (2010), quanto como uma escrita que coloca sob suspeita as narrativas eurocêntricas e canonizadas, conferida por Margarida Ribeiro (2011). Como exemplo visualizador dos rastros herdados e deixados na ilha – casa – útero dilacerado – detemo-nos no poema 1975, a seguir.


2.3 Poema 3 – 1975

E quando te perguntarem

Responderás que aqui nada aconteceu

Senão na euforia do poema.


Diz que éramos jovens éramos sábios

E que em nós as palavras ressoavam

Como barcos desmedidos


Diz que éramos inocentes, invencíveis

E adormecíamos sem remorsos sem presságios


Diz que engendramos coisas simples perigosas:

Caroceiros em flor

Uma mesa de pedra a cor azul

Um cavalo alado de crinas furiosas


Oh, sim! Éramos jovens, terríveis

Mas aqui – nunca o esqueças – tudo aconteceu

Nos mastros do poema.

(LIMA, 2004, p. 24-25)


Intitulado com a data da independência de São Tomé e Príncipe, o poema “1975” condensa o momento histórico não para re-narratizá-lo na tentativa de apenas registrar o ocorrido, mas para vigorar uma reflexão crítica e contundente sobre as ações do processo de construção da independência. Pelo tom de desencanto e distanciamento que o sujeito enunciador deixa transparecer, marcado pela violência e a dor das ações desmedidas, o poema intriga o olhar de agora que ousa pensar o passado.

E quando te perguntarem

Responderás que aqui nada aconteceu

Senão na euforia do poema.


Chama-nos atenção novamente a estratégia de interlocução para que o eu poético enuncie a dissonância, numa revisão da posição coletiva nos fatos históricos. O outro, ao ser indagado, responderá aquilo que está internalizado na memória afetiva. Dizer o que o outro deve dizer, no corpo do poema, enuncia um testemunho exercício de avaliação como se a passar a história a limpo.

Diz que éramos jovens éramos sábios

E que em nós as palavras ressoavam

Como barcos desmedidos


Diz que éramos inocentes, invencíveis

E adormecíamos sem remorsos sem presságios


No modo de dizer do eu enunciador o que deve ser dito por si ao outro, o/a leitor/a (re)conhece então o frescor dos anseios da geração da Jota, a quem o poema é dedicado, com vistas a questionar o domínio colonial e os feitos nacionalistas. Contexto em que os termos como “barcos desmedidos” reforçam o sentimento nacionalista por mentes “inocentes, invencíveis” em busca da conquista de uma sociedade mais justa. O que se verifica, portanto, é uma postura questionadora dos atos e da história no solo da ilha sob o chão poético lírico cujos sentidos surgem engendrados em signos deslocados e estranhos através de “coisas simples perigosas”.

Diz que engendramos coisas simples perigosas:

Caroceiros em flor

Uma mesa de pedra a cor azul

Um cavalo alado de crinas furiosas


Oh, sim! Éramos jovens, terríveis

Mas aqui – nunca o esqueças – tudo aconteceu

Nos mastros do poema.


Caroceiros em flor”, “mesa de pedra a cor azul”, “cavalo alado” mais do que evocar elementos oníricos “coisas simples perigosas” distendem as rasuras do discurso engessado e torturante pregado pela ordem imposta. É, portanto, no espaço do poema que o sujeito enunciador encontra a capacidade de expor liricamente o ato destemido, porém inocente, que se contrapõe a calcificação do discurso hegemônico. Esse processo que Inocência Mata considera a “descolonização da palavra” e a “internalização do olhar sobre a identidade” repercute de forma a desvelar os “lugares fracturantes que ficaram à margem do ‘relato de nação’” (MATA, 2010, p.140).


Inocência Mata outra vez nos aponta uma reflexão importante para o entendimento do lugar de Conceição Lima na literatura são-tomense no contexto da contemporaneidade, quando enfoca duas vertentes no processo de descolonização da poesia são-tomense: uma que se relaciona com “o processo de catarse da visão (quase) monogenista da harmonia identitária”, cujo sentido é de revelação dos “lugares fracturantes” permanecidos às margens do “relato de nação” e outro que diz respeito aos segmentos bifados no presente “agenciamento identitário da nação”, identificado com a noção de “comunidade imaginada”, lembrando o já citado Benedict Anderson.

No fazer da nação, a lógica colonial de exclusão se manteve. Por isso, o sujeito enunciador encontra alento na afectividade, que quer regenerativa do seu ser e da sua são-tomensidade, expressa, aqui e acolá, com uma certa amargura, afinal, pela utopia não realizada. (MATA, 2010, p. 141)


1975” ressoa para além da rememória do processo de construção do sentimento de nacionalidade e sinaliza para a força da poesia quando, ao expressar o desapontamento dos que lutaram, sinaliza subrepticiamente a esperança que persiste no cenário de desesperanças. O poema carrega a euforia, a desmedida teimosa e a determinação da juventude consciente e politizada sobre sua realidade em tempos idos. Talvez o propósito da poética de Conceição Lima seja desbravar com a palavra poética aquilo que não foi possível realizar, visto que só através dela (a poesia) pode-se desobliterar a narrativa em uma nação marcada por uma “herança sonegada” e “sedenta de heróis”.


Quando atentamos para a dedicatória que a poetisa faz no poema “1975”, outras leituras podem ser realizadas, considerando o que Inocência Mata expõe em um dos seus ensaios “A poesia de Conceição Lima: o sentido da história das ruminações afectivas”. Ao referir-se ao poema de Lima, a pesquisadora considera que se por um lado o título sinaliza para a celebração de um tempo, no caso a Independência de São Tomé; por outro, a dedicatória “à geração de Jota”, “(JMLSTP, “braço jovem” do MLSTP, partido da independência e do regime monopartidário, organização juvenil a que a autora pertenceu)” mostra um sujeito que rompe com o sentimento celebrativo, tomado pelas vias da desilusão. Ou seja, a quebra da imagem lírica expõe uma distopia porque “nada aconteceu / senão na euforia do poema”. O “tom de perfeita disforia”, consoante Mata, resvala tensões que repercutem em outros poemas como “Segunda revolta de Amador”, a busca de novos “símbolos de resistências”, na perspectiva de um re-começo da “marcha”. Percurso que em nenhum tempo ou lugar será pacífico. Segue o poema:

[...]

De novo imprevistas

Subirão as marés

Para lavar dos caminhos

As folhas mortas

E os passos perdidos.

(LIMA, 2004, p. 26)


3. Considerações finais


Conceição Lima é considerada hoje um dos nomes mais importantes da poesia africana de língua portuguesa. Esse lugar conquistado é fruto de uma escrita meticulosa na escolha dos termos e vocábulos, sem falsos floreamentos, sintaxe concisa e parcimoniosa construção semântica que revaloriza os signos e sinais geográficos de sua terra, construção de imagens poéticas cujos efeitos de sentidos asseguram uma postura estética coerente e crítica como cidadã preocupada com a realidade de seu país. Por isso, entendemos que, para além de resgatar as figuras familiares, a recordação e a ressignificação dos fatos do plano histórico-social de São Tomé e Príncipe, como atestam alguns estudiosos que se debruçam sobre a poesia de Conceição Lima, sua poética até então contida nos três livros de poemas publicados empreende um projeto de autoria literária que, como bem aponta Russel Hamilton, vincula a perspectiva intimista à sócio-histórica, sob o aspecto memorialístico para repensar a nação poeticamente.


Para Russel Hamilton (2006), na poesia de Conceição Lima, a voz poética intimista junto à voz coletiva “exprime sentido de idealismo revolucionário”, característica dos jovens da “geração da utopia”2. O crítico também não deixa de perceber a acuidade e a qualidade estética que há na produção da poetisa, demarcada pela pesquisa, pela vivência e pelo diálogo com outras artes, elemento característico de seu tempo.


A poetisa são-tomense produz uma poesia que prima pela interlocução entre os sujeitos envolvidos nos fatos históricos, ressaltando os segmentos étnicos e as tensões provocadas. Sua poesia incidindo sobre o eu/nós coletivo levanta temas de origem que condizem com as subjetividades do eu poético agregadas aos de origens étnicas dos sujeitos são-tomenses, sobretudo aqueles que por muito tempo foram silenciados, conforme já referido.


No desenvolvimento de seu projeto de reescrita poética da nação, Conceição Lima que, segundo Inocência Mata, insere-se no contexto de reescrita do discurso da identidade, concilia o lirismo com o épico “que se actualiza na reconstituição memorial da narrativa da nação” (MATA, 2010, p. 76). Para a pesquisadora santomense, O útero da casa trata-se de poemas que “a poetisa, percorrendo vários lugares da sua memória histórica e política de tempos de vivência eufórica, encontra alento na afectividade, que quer regenerativa do seu ser e da sua são-tomensidade, que já requer, por causa dos muitos desencantos, fôlego revitalizador” (MATA, 2010, p. 76).


Reforça-se, portanto, a ideia de que a novidade que Conceição Lima traz para a poesia são-tomense está na “conciliação do labor poético com a eficácia extratextual”. Por tal visão, Inocência Mata reafirma:


A sua poesia tem procedido à implosão de uma mitologia literária inaugurada por Francisco José Tenreiro, cuja poesia, apesar de ser considerado o primeiro poeta negritudinista de língua portuguesa, se fixou na imagem da “ilha de nome santo”, em que a inefável docilidade do ilhéu e seus pares (o contratado) se sobrepunha à dolorosa invenção da sociedade que ficava suavizada no “relato” que dela faz o poeta-historiador (MATA, 2010, p. 77).


A força da poesia de Conceição Lima também está, sobretudo, nessa implosão de posições literárias e estéticas que seus predecessores vinham alimentando ao longo do mesmo tempo. Enfim, seu projeto poético revitaliza-se no diálogo com as narrativas históricas do passado e presente, seja ao incidir o olhar, a partir das dedicatórias dos poemas, nos sujeitos ativos e afetados no processo de construção identitária da nação; seja ao aludir imagens e signos que compõem o imaginário dessa nação, revelando as forças e tensões que movem as relações de poder; seja para evocar pessoas e lugares afetivos que consubstanciam o fôlego da vida.



1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais- PUC Minas, com doutorado sanduíche na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professora Assistente da Universidade Federal do Piauí e da Universidade Estadual do Piauí. Email: asmaria06@gmail.com

2 Geração da utopia é o título do romance do angolano Pepetela que narra a história de jovens estudantes angolanos no intento de um projeto utópico para Angola. PEPETELA, A geração da utopia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.



Referências


ANDERSON, Benedict. 2009. Comunidades imaginadas – reflexões sobre a origem e a expansão do nacionalismo. BOTTMAN, D. (trad.) São Paulo: Companhia das Letras, p. 26-70.


BHABHA, Homi. K. 1998. Locais da cultura. In. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG.


HAMILTON, Russel G. 2006. A dolorosa raiz do micondó: a voz poética intimista, são-tomense, pan-africanista e globalista de Conceição Lima. Veredas: revista da associação internacional de lusitanistas, Porto Alegre, v. 7, p. 253-265. Disponível em: <http://veredas.lusitanistasail.net/wordpress/wp-content/ uploads/2010/07/veredas_7.pdf>. Acesso em: 10 ago. 2009.


LIMA, Conceição. 2004. O útero da casa Poesia. Lisboa: Ed. Caminho, SA.


MATA, Inocência. 2010. Poligonias insulares Cultura e literatura de São Tomé e Príncipe. Lisboa: Ed. Patrocinada pelo BISTP. (Extra-collecção).


______. Apresentação In. LIMA, Conceição. 2004. O útero da casa Poesia. Lisboa: Ed. Caminho, SA.


RIBEIRO, Margarida Calafate. 2011. Patrimônio da palavra: o nome, a casa, a ilha. In. RIBEIRO, M. C.; JORGE, S. R (Orgs.). Literaturas insulares. Leituras e Escritas Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Porto: Edições Afrontamento.




Artigo Recebido em: 28/01/2013

Aprovado em: 11/05/2013

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