Padronização no modo de ver o futebol x expectativas locais

­Est. Soc. [online]. 2013, vol. 2, n. 19


Habitus’ dos torcedores brasileiros e adoção do ‘padrão Fifa’ nos estádios da Copa do Mundo de futebol 2014 1


'HABITUS' OF THE BRAZILIAN SUPPORTERS AND ADOPTION OF THE 'FIFA-STANDARD' IN THE STADIUMS OF THE WORLD CUP 2014


Cristiano Nascimento 2

Túlio Velho Barreto 3

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RESUMO: O trabalho discute possíveis aproximações entre o ‘habitus’ do torcedor de futebol e a arquitetura dos estádios no Brasil a partir das noções de ‘habitus’ de Pierre Bourdieu e ‘habitus social’ de Norbert Elias e a literatura no campo da arquitetura. Parte-se da atual realidade dos estádios no Brasil e as perspectivas que se abrem com a construção de arenas multiusos, segundo o ‘padrão FIFA’. Pretende-se discutir ainda um aspecto do legado da Copa 2014, que não tem recebido atenção da mídia e dos estudiosos do tema. Ou seja, em que medida a adoção do ‘padrão FIFA’ para os estádios construídos ou reformulados modificará o perfil dos torcedores que os frequentam e sua forma de participar dos eventos futebolísticos pós-Copa.


PALAVRAS-CHAVE: futebol, torcedores, arena multiuso, habitus

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ABSTRACT: The article discusses possible correlations between the "habitus" of the football supporters and the architecture of stadiums in Brazil based on Pierre Bourdieu's notion of "habitus", Norbert Elias' notion of "social habitus" and literature in the architectural field. Beginning with the current reality of Brazilian stadiums and the new perspectives resulting from the construction of multi-purpose arenas according to the "FIFA-Standards". Also aiming to discuss an aspect of the 2014 World Cup legacy which has not been largely contemplated by the media nor the researchers of such topic. In other words, to what degree the incorporation of the FIFA-Standards to the built or reconstructed stadiums will affect the profile of the football supporter and the way they participate on football events posterior to the 2014 World Cup.


KEYWORDS: football, football supporters, multi-purpose arena, 'habitus'


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1. Introdução


A partir do momento em que o Brasil foi confirmado como sede da Copa do Mundo de Futebol para o ano de 2014, a organização local escolheu doze subsedes (doze capitais) para a realização dos jogos, tendo em conta as suas condições macroestruturais para receber o público dos jogos (capacidade de atração turística, infraestrutura urbana, tradição em realização de grandes eventos, segurança pública, transporte, rede hoteleira).


Tornou-se mandatório, ainda, que todas as suas subsedes contassem, cada uma, com um estádio adequado às demandas contemporâneas para o futebol, embora àquele momento, nenhuma delas efetivamente possuísse nenhum equipamento com tal perfil (DE LA CORTE, 2009). Imediatamente, portanto, foram exigidas urgentes reformas dos antigos equipamentos – ou mesmo a construção de novos – para que se atinja o padrão contemporâneo, nivelado ao dos melhores e mais moderno exemplares do cenário internacional – o chamado “padrão FIFA” (FIFA, 2007; 2011).


Sabe-se, contudo, que nos países em que tal padrão se tornou usual para os novos estádios, foi verificada uma mudança forçada no comportamento do torcedor em campo. Mas, até que ponto se pode inferir sobre a existência de tal relação?


Segundo Hillier e Hanson (1984), para cada evento social que se deseja promover, configuram-se uma série de possíveis relações entre os indivíduos que são traduzidas na arquitetura pela delimitação de séries de unidades espaciais e pela permissão ou restrição ao estabelecimento de conexões entre elas.


Pode-se ainda fazer uma interpretação mais profunda para o entendimento desta relação: é possível afirmar que o espaço é um elemento constituinte da sociedade e que um não existe sem o outro (GIDDENS, 2003). A arquitetura não é um produto isolado nem há viabilização de relações sociais sem a determinação de distintas posições para distintos indivíduos no espaço edificado – há uma eterna dualidade nos papéis desempenhados por um e ou por outro, e não um determinismo direto.


De acordo com Bafna e Shah (2007), edifícios são criados a partir de prescrições e programações de uso que atendem a demandas específicas de uma sociedade. No seu processo de definição, as regras sociais que motivam a sua elaboração, e que o precedem, influenciam no modo em que potenciais situações de encontros entre agentes tenderão a se dar no seu sistema espacial. Entretanto, posteriormente, os mesmos edifícios têm, também, a capacidade de potencializar e/ou restringir determinadas utilizações – o sistema espacial imprime determinadas condições de uso para os agentes, ou exercem, probabilisticamente, um certo grau de influência sobre o comportamento dos indivíduos, sendo possível, através da sua descrição, estimar certos padrões de uso no edifício.


A relação, então, não é estática. O indivíduo, e a sociedade, também possuem a liberdade de se apropriar da estrutura espacial que lhe é dada de modo particular e redefinir regras de utilização, até mesmo subvertendo certas predefinições da concepção de uso original. Na verdade, o que se estabelece é uma relação necessária e inevitável entre sociedade e espaço que, quando consolidada, termina por fazer da dimensão espacial um componente desta própria sociedade.


De tal modo, e partindo-se do pressuposto de que existe uma lógica social subjacente ao espaço edificado (HILLIER; HANSON, 1984), seria possível afirmar que o habitus do torcedor, não se restringe apenas a aspectos de sua vida social a-espacial ou a-arquitetônica – o conjunto de regras sociais, rotinas e padrões de relações entre indivíduos, seus rituais. Ele também é composto pela chamada vida espacial do torcedor – padrões de utilização do espaço edificado do estádio, considerando que sua utilização é, em certa medida, condicionada pelas possibilidades impostas pelas variáveis dos padrões espaciais, próprios da arquitetura de cada edificação (HOLANDA, 2002). Portanto, pode-se efetivamente falar que desenvolvimento da relação entre clube e torcedor e os estádios ao longo da história consolida um padrão de vida espacial – um habitus espacializado – típico a cada estádio e a cada torcida.


É de se prever, portanto, que uma inevitável mudança dos edifícios deve trazer possíveis mudanças no comportamento e no perfil do torcedor brasileiro, acarretando uma sensível transformação na cultura socioespacial do futebol no Brasil. Questiona-se se a padronização das estruturas espaciais dos estádios também não deverão acarretar uma padronização no modo de se assistir às partidas de futebol no Brasil, a ponto de caracterizar um iminente processo de elitização no público do futebol nacional.


O interesse deste artigo é de justamente discutir a relação entre o habitus (ou a mudança de) do torcedor de futebol e o espaço do futebol – o contexto urbano e a arquitetura dos estádios – no intuito de se estabelecer uma questão para futuros aprofundamentos teóricos e analíticos a serem desenvolvidos no decorrer do próprio processo de realização da competição internacional no Brasil. Para tanto, consideramos as noções de habitus, de Pierre Bourdieu (1996; 2007; 2011), para quem estes “são princípios geradores de práticas distintas e distintivas”, individuais ou coletivas, estruturados por meios da socialização, e de habitus social, de Norbert Elias (1994; 1997), ou seja, o que este chama de “composição social dos indivíduos”.


Operacionalmente, a discussão sobre esta possibilidade se realizar no contexto brasileiro se baseia nos caso da cultura do futebol da cidade do Recife – exemplo paradigmático de como o futebol se estabelece como dado constituinte da sociedade urbana brasileira contemporânea. Para tanto, serão utilizados alguns exemplos da relação entre indivíduos e espaço identificáveis no habitus dos seus três maiores clubes – Clube Náutico Capibaribe, Sport Club do Recife e Santa Cruz Futebol Clube – mediante a iminente implantação de dois novos estádios com o padrão FIFA na cidade: a Arena Pernambuco, construída para a Copa do Mundo 2014, que passará a sediar os jogos do Náutico, e a Arena do Sport.


2. Espaço, Sociedade e futebol – do Brasil ao Recife


A maioria dos estádios de futebol brasileiros são edifícios surgidos num intervalo de cerca de 30 anos, entre as décadas de 40 (os mais antigos, do Rio de Janeiro e São Paulo) e 70, com exceção do estádio das Laranjeiras, do Fluminense, de 1919. Agregados às sedes sociais dos clubes, localizavam-se no contexto urbano já estabelecido, comumente associando o seu nome ao próprio local de sua instalação nas cidades.


Quando surgiram, o rádio já era um veículo de mídia importante, mas a televisão ainda não, embora tenham se tornado célebres as coberturas cinematográficas dos jogos de futebol nas décadas de 40 e 50 pelo chamado Canal 100, a cultura da transmissão do futebol no Brasil nasce e se perpetua através do rádio, meio que sempre demandou menos aparatos infra-estruturais dos edifícios (DE LA CORTE, 2009).


Sendo assim, para que se pudesse ver o futebol e conhecer pessoalmente os atletas, o estilo de jogo e mesmo o padrão dos uniformes, era necessário ir presencialmente ao estádio. Em principio, considerando as dificuldades de deslocamento por transporte público na época, quanto mais próximo da casa do potencial torcedor, mais provável seria a sua identificação com o clube.


Por outro lado, em descompasso com a profissionalização, tanto do futebol como da imprensa desportiva, as normas de segurança não eram específicas para a atividade. Tal condição faz surgirem certos hábitos próprios do esporte brasileiro. Uma vez que nem a educação do público era satisfatória e nem a segurança pública sabia lidar com multidões, desenvolvem-se estruturas espaciais de segregação entre os espectadores e o evento esportivo, como a existência de cercas ou fossos para separar público de atletas e deixar mais definidas as restrições de acesso e as separações de grupos de visitantes (DE LA CORTE, 2009).


Só os estádios que surgem nas décadas de 60 e 70 são os que começam a apresentar espaços próprios para os equipamentos de televisionamento. Entretanto, com exceção dos grandes centros de Rio e São Paulo, nesta época, apenas algumas poucas cidades apresentavam uma estrutura de fomento ao esporte de caráter mais profissional (Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Recife e Belém). A organização da partida, portanto, ainda se mantinha próxima do amadorismo, mantendo uma tendência à permissividade entre público, imprensa e atletas (DE LA CORTE, 2009).


O que se entende é que, até então, as instalações e a estrutura de espaços era pouco especializada, fazendo com que o estádio fosse basicamente dividido entre: (a) assentos para o público; (b) campo de jogo; (c) vestiários; (d) cabines de imprensa. Não havendo maior separação de fluxos, menor era a quantidade de circulações e maior a necessidade de se instalarem barreiras improvisadas, como os alambrados, para que a hierarquia entre usuários fosse definida.


A visibilidade também não era especialmente projetada, o que fazia com que a simples sustentação do maior número de assentos possível fosse suficiente. Curvas de visibilidade e subdivisão de grupos de assentos em relação a áreas de acesso e de escape não eram claramente percebidos – dificilmente se torna possível ao torcedor assistir aos jogos sentado.


Segundo De La Corte – pesquisador brasileiro interessado nos aspectos técnicos e construtivos dos estádios nacionais – a visibilidade de alguns dos principais estádios brasileiros, como o Pacaembu e o Morumbi em São Paulo, o Mineirão em Belo Horizonte e o Maracanã no rio de Janeiro, sofrem de algum tipo de obstrução visual às suas fileiras de assentos. Respectivamente, 65%, 63%, 49% e 60% das fileiras desses estádios, hoje, sofrem tais obstruções. Se convertidos a um padrão contemporâneo, inevitavelmente sofreriam redução nas suas capacidades de público (perdas entre 30% e 40% nestes estádios citados). Considerando que estes são edifícios voltados aos torneios mais importantes e ricos do país (paulista, carioca e mineiro), a situação só tende a piorar nos demais estados (SOUZA, 2004).


Da mesma forma, em muitos estádios dificilmente se torna possível ao torcedor assistir aos jogos sentados ou, mesmo quando há assentos, estes se tornam de pouca utilidade, pois os torcedores tendem a permanecer de pé (até mesmo de pé sobre os assentos).


Outro fato chama a atenção. Também não havia coberta em grande parte dos assentos dos estádios. No Pacaembu, em São Paulo, inaugurado em 1940, todos os lugares são descobertos. Por outro lado, os estádios que foram construídos tendo como modelo o Maracanã, como o Morumbi e o Mineirão, têm apenas a ala nobre dos assentos – com cadeiras alugadas, vendidas ou reservadas a sócios e personalidades de maior status social – com cobertura, reforçando a tendência segregacionista da época.


Além disso, a falta de gestores profissionais (são patrimônio dos próprios clubes ou dos governos) termina por provocar o desgaste das estruturas físicas, sendo que muitos apresentam graves problemas de segurança. As condições físicas somam-se ao comportamento do torcedor. Edifícios com pouca definição espacial tendem a permitir um comportamento menos controlado. É comum que torcedores, na busca por melhor visibilidade, ocupem áreas como marquises e alambrados, sentem-se em guarda-corpos, potencializando as possibilidades de acidentes (DE LA CORTE, 2009).


Por outro lado, historicamente, o Brasil desenvolveu uma relação muito íntima entre o futebol e os mais variados aspectos da sua sociedade. Tal processo levou à construção não de uma só cultura futebolística hegemônica, mas de variadas maneiras de se relacionar com o futebol – inclusive perceptíveis nos diversos “modos de torcer” do brasileiro.


Como não havia padronização nas soluções arquitetônicas, distintas localidades desenvolveram estádios com características próprias. Tal variação, ao longo do tempo, termina por levar também os torcedores a desenvolverem distintos padrões de comportamento, intimamente relacionados às particularidades das estruturas espaciais das suas respectivas praças desportivas tradicionais.


Para além das restrições técnicas, o que se percebe é que algumas torcidas terminaram por desenvolver certos tipos de comportamento dentro das condições permitidas pelos estádios.


Para citar apenas um exemplo, que não deixa de paradigmático, pode-se lembrar a existências dos chamados ‘geraldinos’, isto é, os torcedores que assistiam às partidas de futebol em pé e quase no mesmo nível do gramado de jogo. Tais torcedores se notabilizavam por um comportamento diferenciado e sua condição econômica em função do baixíssimo valor dos ingressos de acesso àquelas dependências.


Entretanto, fora dos centros mais ricos e mais influentes do futebol brasileiro – nomeadamente, São Paulo e Rio de Janeiro, seguidos de Porto Alegre e Belo Horizonte – entende-se que o caso do Recife emerge como um exemplo especialmente interessante para o estudo, sendo tratado a seguir no artigo.


2.1 O caso Recife: emergência, apogeu e (possível) crise de uma cultura de futebol


O estudo fará uso da cidade do Recife como caso exemplar para a discussão que se propõe a realizar porque se entende que o cenário da cultura do futebol na cidade apresenta alguns aspectos que o fazem particularmente eficiente para tratar da ameaça de uma padronização – ou globalização, ou elitização – do torcedor e da sua relação com a estrutura espacial dos estádios.


Primeiramente, o Recife detém uma notável história relacionada à implantação e à adoção do futebol como elemento constituinte da sua identidade cultural. A prática competitiva e sistemática do futebol no Recife tem início ainda na primeira década do século XX, tendo produzido quatro clubes de expressão, em termos de presença de torcedores e tradição – Clube Náutico Capibaribe (fundado em 1901), Sport Club do Recife (1905) – imediatamente seguidos pelo Santa Cruz Futebol Clube e o América Futebol Clube (ambos de 1914).


Na cidade há, visivelmente, a construção de um perfil de cada grupo de torcedor, associado à história de cada clube. Seria possível afirmar que a identificação com determinado clube é, também, a construção de uma distinção social.


A cidade conta com três estádios dentro do seu núcleo urbano, cada um associado a um dos três maiores clubes e reconhecido pelo nome do bairro em que se situa: (a) o José do Rego Maciel, ou do Arruda, pertencente ao Santa Cruz; (b) o Adelmar da Costa Carvalho, ou da Ilha do Retiro, pertencente ao Sport; e (c) o Eládio de Barros Carvalho, ou dos Aflitos, pertencente ao Náutico.


Curiosamente, dos quatro clubes principais, apenas o Sport detém títulos nacionais expressivos em sua categoria profissional principal, e, ainda assim, o título mais recente conquistado foi o da Copa do Brasil, em 2008, de menor importância que o do campeonato nacional. Seu outro título nacional, de 1987, embora judicialmente reconhecido, é ainda alvo de controvérsias dado o caráter particular do campeonato daquele ano. E, junto ao Náutico, não apresenta constância na participação na divisão de elite nacional nesta última década.


E o Santa Cruz, time considerado “maior”, com grande destaque nacional na década de 80, viveu a experiência de descer de divisão no campeonato nacional por três anos consecutivos, estando, hoje, apenas na chamada Série D, uma divisão de acesso, sem presença garantida – sempre dependente da classificação no campeonato estadual anterior.


Mas, curiosamente, no Recife tudo se passa como se a rivalidade local tivesse mais peso que a projeção nacional das equipes. A adesão dos torcedores aos clubes parece se manter inabalada. Tal adesão está também relacionada a uma fidelidade clubística local, muito particular ao Recife e pouco perceptível em demais cidades brasileiras que se encontram fora do circuito hegemônico da economia do futebol nacional. No Recife, é notável a torcida exclusiva a apenas um dos seus clubes, sem nenhuma filiação a nenhum outro clube tido como nacional, como é comum ocorrer em demais localidades da região Nordeste – quando torcedores se dizem filiados a um clube local e mais outro tido como “nacional”, como no caso de Flamengo e Corinthians, por exemplo. Sobre tal questão, inclusive, são comuns os comentários, entre os torcedores recifenses, independentemente do time, de que os adeptos dos clubes nacionais das cidades vizinhas não possuem times para os quais torcer, como também não é raro que sejam chamados nos confrontos realizados no Recife de “vergonha do Nordeste”.


A identificação com os times chega mesmo a extrapolar o limite clubístico e, em alguns momentos de confronto com equipes de fora do estado, ouve-se nas torcidas alusão ao próprio estado de Pernambuco – como se o time contivesse a representação de um sentimento de territorialidade.


Quantitativamente, as médias de público nos estádios locais dos três maiores clubes – Sport, Náutico e Santa Cruz – mesmo no torneio estadual, estão sempre entre as melhores do país. Ressalta-se, inclusive, que este último apresenta as melhores médias do ano de 2011 mesmo atuando na quarta divisão do campeonato nacional de clubes.


Outra característica de destaque no caso do Recife é uma histórica e notável relação dos clubes – personificados nos seus torcedores – e seus aspectos urbanos e arquitetônicos. Esta espacialização da cultura do futebol recifense é tratada com maior detalhamento na sequência.


2.1.1 Futebol e espaço no Recife


A cultura futebolística no Recife é intimamente ligada a questões de ordem espacial, desde a escala urbana, até a relação da torcida com as idiossincrasias da arquitetura dos seus estádios.


Antes de tudo, e como antecipado acima, a própria localização das praças desportivas é um componente de identificação das torcidas com os seus clubes. Além das alcunhas dadas aos três estádios principais – Aflitos, Arruda e Ilha – a história de formação dos perfis dos torcedores possui, também, um caráter locacional, diretamente associado à formação urbana da cidade e ao contexto histórico em que cada clube se estabeleceu.


O Náutico – o mais antigo dentre os três – e o seu estádio situam-se em na região de mais alta qualidade de vida do Recife. Aflitos, Espinheiro e Jaqueira são os bairros com os mais altos IDHs da cidade (entre 0,93 e 0,97). Além disso, é uma zona de alto grau de urbanidade (HOLANDA, 2002), ou seja, ruas de pouca extensão, muitas variações de direção, reduzidas dimensões de caixa e alta conectividade entre si, associada a uma considerável oferta de espaços públicos – praças, jardins, parques – e um padrão de uso e ocupação denso e diversificado (com equilíbrio entre uso residencial, comercial e de serviços). O estádio, enclausurado em meio à densa ocupação do solo, funciona praticamente como mais um equipamento do sistema urbano da região.


A torcida do clube ainda é predominantemente composta por moradores desta mesma região. O acesso ao campo, em dias de jogo, é notavelmente realizado a pé. Uma característica própria, e decorrente desta condição, é de certa “pontualidade” do torcedor do Náutico – o estádio tende a permanecer pouco ocupado até os últimos minutos que precedem o início da partida, haja vista a facilidade de deslocamento até o estádio, que não demanda uma antecipação do horário de chegada.


Por outro lado, a chegada do adversário – torcedor ou equipe visitante – mesmo por meio ônibus, inevitavelmente se dá pelas mesmas ruas locais, onde vive o torcedor do Náutico. A pressão de “invadir” o terreno do adversário, ainda no contexto urbano, é, também, uma particularidade locacional do clube.


As dimensões restritas do estádio (22 mil pessoas) fizeram com que a distância entre as arquibancadas e o campo seja mínima. O torcedor se vê muito próximo aos participantes do jogo e a movimentação entre os degraus das arquibancadas e a beira do campo – com a separação do alambrado – é constante e rápida.


Tal intimidade, somada às dimensões reduzidas do campo e do próprio tipo de gramado, é tida como um fator potencializador do chamado ‘mando de campo’ do clube – a proximidade favorece a pressão psicológica sobre o adversário.


O estádio do Santa Cruz, por sua vez, está localizado no Bairro do Arruda. Diferentemente do anterior, surge praticamente como um marco urbano monumental e referencial à região em que se insere, dado o seu porte (60 mil pessoas) e algumas características arquitetônicas marcantes – o seu anel superior de arquibancadas suspenso como se flutuasse sobre o inferior, apoiado sobre pilares de concreto que se montam por sobre um canal adjacente ao estádio, como se constituísse pórticos de passagem para a via.


A região do próprio Arruda, e de seus bairros vizinhos de Água Fria, Encruzilhada e Campo Grande apresenta uma menor densidade que o anterior, também seno bem menos verticalizado – ou seja, é constituído predominantemente por casas e não por edifícios de habitação multifamiliar. O estádio se situa na confluência de duas vias estruturantes do sistema viário da Zona Norte da cidade, localmente: Avenida Beberibe e Avenida Professor José dos Anjos. Embora haja também uma marcada territorialização da torcida, os deslocamentos até o estádio nos dias de jogo, praticamente passeatas ritualizadas, compõem o cenário que prepara os ânimos para os momentos das partidas.


As dimensões do estádio, que fazem com que o torcedor se localize mais distante do campo, obriga a uma programação de chegada – chegar mais cedo significa ocupar melhores lugares para assistir à partida.


Se a distância é maior, a capacidade do estádio também o é. A referida pressão psicológica sobre o adversário procura se realizar pela dimensão da massa de torcedores. A ocupação dos dois anéis de arquibancadas é uma demonstração de apoio ao time dono da casa, de verdadeira devoção e identificação com toda a sua representatividade.


Já o estádio Adelmar da Costa Carvalho, pertencente ao Sport, no bairro da Ilha do Retiro está às margens de uma via radial do sistema viário da cidade, a Avenida Abdias de Carvalho, com uma importância, inclusive, metropolitana, pois é um dos eixos de saída da cidade que se liga diretamente a outra via estruturante da cidade, inclusive me termos de transporte público – a primeira perimetral, constituída pela Avenida Agamenon Magalhães.


O bairro possui uma ocupação bastante heterogênea, tanto do ponto de vista morfológico quanto no seu perfil-econômico e social. Áreas de ocupação irregular e zonas de interesse social se localizam ao redor do estádio, enquanto que em um dos seus flancos, voltado para a margem do rio Capibaribe, principal rio do Recife, desenvolve-se nos últimos anos um intenso polo imobiliário para a classe média alta e alta da cidade. Novas torres de alto gabarito têm suas janelas posteriores voltadas para o estádio. Seria até precipitado fazer uma comparação com o próprio perfil do torcedor do Sport, que, por ter conquistado maior número de adeptos nas últimas décadas, é composta tanto por membros da classe média alta como por torcedores assumidamente ligados às comunidades de mais baixa renda da região, como o Coque.


Entretanto, outros espaços púbicos locais detêm o caráter de congregação da torcida do Sport Clube do Recife, como é o caso do pequeno largo que dá acesso ao estádio, entre a avenida, as avenidas Abdias de Carvalho e Prefeito Lima Castro e o complexo viário do túnel Chico Science e da ponte Professor Lima de Castilho. Nos dias de jogos, a concentração de torcedores na praça demarca o território pertencente ao clube ante os rivais.


O estádio, de dimensão média (37 mil torcedores) repete o modelo socioeconômico supracitado – se por um lado as cadeiras cativas e os camarotes se localizam nos pontos de melhor visibilidade e são parte do patrimônio dos sócios do clube, a arquibancada oposta, bastante inclinada, é o palco para massa das torcidas organizadas se apresentarem, inclusive às imagens de televisão.


A representatividade que possuem, hoje, se deve à própria história de apropriação dos torcedores e da identificação com os seus lugares na cidade. Tal identificação – todos aqueles modos de torcer – compõe à idiossincrasia de cada clube, assim como suas cores ou seus gritos de guerra. Fazem parte do sistema de signos que e de posturas que mantém a rivalidade local acirrada e a integra à própria identidade recifense.


Como dito acima, porém, nenhum dos três estádios existentes na cidade se enquadra nos modelos exigidos para uma Copa do Mundo. Diante da provocação advinda do mundial, o governo estadual decidiu pela construção de um novo estádio, independente dos três maiores clubes. Com mais de quarenta e seis mil lugares, está em fase de execução no município de são Lourenço da Mata, na Região Metropolitana do Recife (RMR), mas totalmente à parte de qualquer bairro tradicional da cidade. Em verdade, é proposta uma nova zona urbana, advindo de um projeto urbanístico completo para o ordenamento da expansão territorial dos municípios da zona Norte da RMR.


Tal decisão, pode-se dizer, levou, por outro lado, à decisão do Sport em ter a sua própria arena de padrão internacional, um edifício novo, substituindo o atual estádio. O Náutico também aponta para uma parceria com investidores internacionais que poderiam, em troca do terreno do estádio dos Aflitos, localizado em uma área nobre, com interesse do mercado imobiliário de habitação da cidade, construir um novo edifício. Muito provavelmente, este novo estádio seguiria os mesmos moldes dos anteriores, sendo fiel ao caderno de encargos da FIFA e localizado fora da área urbana tradicional.


Antes de discutir o que tal mudança poderá representar aos clubes, ao futebol e à própria identidade cultural da cidade, convém descrever em que medida os novos projetos se distanciam dos exemplares hoje existentes e utilizados pelos clubes.


3. O estádio FIFA


Alguns estádios vêm assumindo papéis simbólicos de grande destaque na cultura global contemporânea (BALE, 1993; BAUDRILLARD, 2007), pois têm servido como representação das identidades culturais de programas de desenvolvimento urbano em diversas cidades do mundo – quando se constituem em verdadeiros empreendimentos-âncora em processos de especulação/valorização imobiliária (BALE, 1993; SHEARD, 2005; FAVERO, 2009).


Estas funções e características são percebidas na realização de eventos internacionais recentes, como os jogos olímpicos e os campeonatos de futebol – casos de cidades, como Barcelona, Atenas, Pequim (Olimpíadas) e Rio de Janeiro (Jogos Panamericanos) ou de países como África do Sul, Alemanha, Japão e Coréia do Sul (copas do mundo de futebol) e Áustria, Suíça e Portugal (campeonatos europeus de futebol) (FAVERO, 2009).


Assim, estima-se que tal papel deverá se intensificar nos próximos eventos programados, como sugerem os planejamentos de Londres (Olimpíadas de 2012) e Brasil (Copa do Mundo de Futebol de 2014), onde neste, muito provavelmente, a arquitetura das praças desportivas suscitará o interesse da opinião pública internacional (SHEARD, 2005).


Para Sheard (2005) – realizador de estudos sistemáticos sobre a arquitetura dos estádios – ao longo dos anos, além da padronização das regras e procedimentos internos aos esportes, tem cabido às confederações, também, uma padronização cada vez mais estrita dos ambientes em que eles serão realizados (em termos de dimensões dos edifícios, capacidade de público, serviços de recepção/acomodação de delegações). A tendência se manifesta, inclusive, na versão mais recente do manual técnico da FIFA (Fédération Internationale de Football Association), com indicações estritas de dimensionamentos, organização de plantas e fluxos de usuários (FIFA, 2011). Tais evidências confirmam a ideia de um tipo de edifício praticamente universal (GERAINT; SHEARD; VICKERY, 2007).


Segundo Sheard (2005), porém, estádios contemporâneos compõem o momento culminante do processo de evolução do tipo não só em termos cronológicos, mas também quanto à sua complexidade programática e à sua função social. Para o autor, o momento atual dos estádios seria precedido por outros quatro4. O primeiro é representado pelos edifícios mais simples da segunda metade do século XIX, logo após a consolidação da revolução industrial na Inglaterra. Embora admita a existência de praças desportivas desde a Grécia antiga (pelos próprios jogos olímpicos da antiguidade), o autor compreende que o estádio se caracteriza, de fato, quando os esportes modernos são regulamentados – deixam de ser atividades recreativas restritas à nobreza e passam a ser apreciados como espetáculos pelas massas. Neste primeiro momento, as estruturas físicas dos estádios eram voltadas apenas a permitir a atuação dos atletas e a acomodação de expectadores (SHEARD, 2005).


O segundo momento é caracterizado pela adaptação das estruturas às transmissões televisivas, na década de 1950. O processo de especialização programática se intensifica e repercute no conjunto de regras para os edifícios destinados a cada modalidade desportiva. Este momento é representado pela maioria dos estádios ainda existentes no mundo, muitos em processo de obsolescência (ou de adaptação) das suas capacidades de utilização para as exigências atuais dos esportes (BALE, 1993; SHEARD, 2005; GERAINT; SHEARD; VICKERY, 2007; FAVERO, 2009).


Já o terceiro momento é notável pela transformação do esporte em um produto cultural, oferecido regularmente por clubes e patrocinadores e comprado por um público cativo de torcedores/expectadores (BAUDRILLARD, 2007; FAVERO, 2009).


Nos edifícios, as empresas responsáveis pelos eventos iniciam um processo de padronização programática, com agregações de outros programas, como salas VIPs, restaurantes, bares, lojas e equipamentos de lazer não necessariamente vinculados ao momento de realização dos jogos. Estes passam a ser voltados para o público em geral – não só torcedores ou sócios – possuindo acesso mais franco e ficando à parte da programação de uso e das restrições típicas ao momento de realização da atividade desportiva propriamente dita. O esforço é destinado a garantir a lucratividade dos edifícios, também, como empreendimentos imobiliários (SHEARD, 2005).


O quarto, e penúltimo momento, define-se quando os esportes passam a ser comercializados em escala global como um produto-evento altamente lucrativo – atletas são associados a marcas e a estilos de vida – e os edifícios passam a ser administrados por corporações especializadas que muitas vezes lhes emprestam seus nomes de fantasia, ao invés de utilizar os nomes dos clubes (SHEARD, 2005).


Atualmente, as determinações são guiadas por três eixos fundamentais: (a) segurança – principalmente motivada pelo exemplo dado pelos estádios ingleses, que reduziram seus índices de acidente e vandalismo após uma reforma massiva das condições dos seus edifícios5; (b) lucro - gerar mais visibilidade e, consequentemente, mais lucro para o mercado internacional desportivo (as marcas de materiais desportivos, patrocinadores em geral e as próprias “marcas” internacionais das equipes); e (c) conforto - garantir maior padronização em níveis de conforto e de acordo com as responsabilidades das entidades e federações internacionais que regem os esportes e fazer justiça ao preço cobrado pelos ingressos (SHEARD, 2005; DE LA CORTE, 2009; FAVERO, 2009).


No caso específico do futebol, o mercado e a gestão federativa atuam em parceria. Campeonatos nacionais (como o inglês, o espanhol e o italiano) são vitrines para os melhores jogadores do mundo, ao mesmo tempo em trabalham para a divulgação de suas marcas patrocinadoras. A copa do mundo FIFA – principalmente a partir da sua edição de 1994, realizada nos Estados Unidos – passou a ser um evento não só voltado para a celebração da esportividade e para a eleição do melhor futebol. Torna-se evidente como os interesses políticos (a escolha do local do mundial) e econômicos (participação de marcas e atletas vinculados às marcas, preço dos ingressos, venda conjunta de ingressos e pacotes turísticos) dominam a realização do evento (FAVERO, 2009).


A credibilidade para o investimento do público em um ingresso cada vez mais caro ocorre ao mesmo tempo em que se procura garantir a presença cada vez maior dos patrocinadores. Em paralelo, têm-se a presença do poder da imprensa internacional, que dá visibilidade aos atletas, às marcas e à própria instituição promotora. A partir da geração de imagens oficiais, redes de televisão de todos os países compram os direitos de transmissão – ou seja, tornam-se, também, clientes do evento.


A recepção em condições adequadas e o controle das atividades jornalísticas na transmissão dos jogos, então, se estabelecem como um quarto eixo do “produto futebol” contemporâneo, paralelo aos de segurança, conforto e lucratividade.


Os estádios contemporâneos são, mais do que nunca, dispositivos desenvolvidos para participar do ciclo produtivo do futebol internacional (KALTENBACH, 2005). Preocupada com a adequação a todas essas demandas, a FIFA (2007; 2011) publica, de modo sempre atualizado, seu caderno de encargos, definindo o que deve constar em cada edifício.


Os encargos vão desde definições e determinações de caráter desportivo – dimensões do campo e dos componentes do jogo – até recomendações de viés mais indireto, como a manutenção do gramado e estratégias para garantir a sustentabilidade econômica do equipamento (daí a tendência às arenas multiuso).


Esquemas de organização espacial, como a relação entre os vestiários das equipes e dos árbitros, a sala de exame antidoping e a zona mista são precisamente indicados, inclusive com as dimensões mínimas exigidas; fluxogramas muito bem definidos determinam como cada grupo social envolvido no espetáculo da partida deve ou pode se movimentar no edifício (FIFA, 2011).


Em termos de operação do edifício, a visibilidade é uma das questões mais valorizadas nos encargos da FIFA, uma vez que o preço pago pelo público deve ser proporcional à capacidade de apreciação do esporte – os preços podem até variar de acordo com a proximidade do campo. A localização e o dimensionamento de áreas VIPs – nos pontos de melhor visibilidade dos estádios – aparecem com especial destaque (NIXDORF, 2005; FIFA, 2011).


Em termos do funcionamento desportivo propriamente dito, a programação de uso prevê todos os fluxos, restrições e direcionamentos das diferentes categorias de usuários em dias de jogo. Atletas e comissões técnicas chegam e circulam por ambientes isolados dos árbitros e da imprensa. Os profissionais de imprensa têm acesso direto aos atletas apenas na chamada “zona mista”, por exemplo, sem possibilidade de invasão fora dos momentos programados do campo ou de entrada nos vestiários (GERAINT; SHEARD; VICKERY, 2007; FIFA, 2011).


O controle sobre o espectador, por exemplo, é muito mais rígido que nos primórdios da história do tipo. Hoje existem vários momentos de filtragem, que dirigem o visitante-espectador para seu respectivo assento, sempre comprado com antecedência. O controle de bilhetes e ou credenciais – o código que define não só a posição do indivíduo dentro do edifício como sua a categoria e o status – é feita já a uma grande distância do edifício (até 500m). O direcionamento é executado pela empresa gestora do edifício no dia do jogo, que distribui grupos de indivíduos para outros pontos de verificação de credenciais e bilhetes mais próximos das entradas, que por fim dirigem o espectador para a sua respectiva ala (GERAINT; SHEARD; VICKERY, 2007; FIFA, 2011).


A distribuição de assentos, inclusive, é diretamente ligada à capacidade de evacuação do estádio, reforçando a preponderância de elementos de circulação vertical interna e externa (normalmente rampas, pois permitem o movimento de pedestres de modo mais fácil e seguro que as escadas), além da segregação dos corredores comuns dos corredores VIPs. Mesmo para os assentos comuns, são garantidas ares de descanso e circulação por trás das arquibancadas. O torcedor circula e descansa sem interferir na capacidade apreciação do evento desportivo dos demais, que preferem continuar nos setores de assentos (GERAINT; SHEARD; VICKERY, 2007; FIFA, 2011).


A existência e exigência dessas salas e corredores, ambientes comerciais e de reunião, fazem o estádio se tornar um edifício com diversos níveis de circulação, vertical e horizontal. As indicações reforçam o interesse em contar com espaços com atividades paralelas ao evento esportivo, como lojas, bares, cafés, restaurantes e demais equipamentos de entretenimento, assumindo a alcunha de “arenas multiuso”. Esta tendência vem fazendo com que o programa desportivo se hibridize com todos os demais agregados, constituindo praticamente uma derivação contemporânea do tipo original: estádios fechados e com aspecto de bloco compacto, semelhante a grandes “pneus” ou “tigelas”6, bem diferentes dos exemplares mais antigos, formalmente reconhecíveis pela imagem dos planos e elementos lineares das suas estruturas construtivas – praticamente toda aparente7 (NIXDORF, 2005; THOMPSON; TOLLOCZKO; CLARKE, 2005).


Em paralelo, a ideia de sustentabilidade econômica – interesse direto das cidades que deverão receber os jogos – passa a ser um paradigma para a concepção dos projetos. A manutenção do equipamento – respeitando-se os padrões de segurança e conforto, além das próprias condições do gramado – é de alto custo. O empreendimento, portanto, precisa ser rentável mesmo quando não estiver recebendo as partidas – ou seja, acredita-se que o futebol não é suficiente para o equipamento. Sendo assim, o modelo contemporâneo da "arena multiuso" é o preferido porque contempla outros programas complementares que ajudariam a gerar renda para a manutenção do equipamento.


Na verdade, a arquitetura de estádios “padrão FIFA”, hoje, é item mandatório para que qualquer cidade, clube ou empresa faça parte do círculo econômico do futebol internacional atual e possa pleitear, quiçá, a sua inclusão como uma subsede de uma copa do mundo ou outro torneio internacional (THOMPSON; TOLLOCZKO; CLARKE, 2005; FAVERO, 2009).


4. Considerações finais: estádios padrão, torcedores padrão?


Como proposto no início, aqui, a intenção é provocar uma discussão – ou um pensamento crítico-reflexivo – sobre como os novos espaços do futebol globalizado, segundo o modelo preconizado pela FIFA para as chamadas arenas multiusos (FIFA, 2007; 2011), podem vir a afetar a relação entre a sociedade do futebol e os espaços urbanos e arquitetônicos tradicionais e regionalizados do futebol.


Considerando que foi utilizado o caso particular da cidade do Recife – e seus clubes – como exemplo emblemático de como a cultura do futebol se especializa e, ao mesmo tempo, se torna constituinte da própria identidade de uma dada sociedade, convém manter o mesmo caso como referência para algumas elucubrações a respeito do processo por que passam as cidades brasileiras, subsedes da Copa de 2014.


A primeira preocupação sobre as consequências do aporte dos novos estádios à cidade diz respeito ao impacto urbanístico da provável nova condição. Se for considerado o projeto proposto pelo Sport Club do Recife, uma primeira questão se apresenta: que repercussões uma arena multiuso, dotada não só do campo de jogo, mas toda uma nova oferta de serviços, poderá acarretar à sua zona de inserção?


É sabido que grandes investimentos no setor de comércio e serviços, quando centralizados em um modelo shopping center, tendem a modificar a dinâmica do pequeno comércio e dos pequenos ofertantes de serviços da região. Não tendo condições de oferecer a mesma densidade de concorrência que um equipamento de grande porte oferece, termina por se processar um declínio, com posterior esvaziamento da área. Tal fenômeno, muito comum em áreas centrais – e inclusive já verificado no Centro do Recife após a implantação de alguns shoppings centers – pode ser agravado pela proximidade que a arena-shopping do Sport tem sobre o bairro do Derby, imediatamente contíguo e complementar ao centro tradicional da cidade.


Este fenômeno, inevitavelmente virá atrelado a outro – o apelo ao mercado imobiliário residencial nas suas proximidades. Tal pressão de mercado tenderá a dar continuidade ao processo de especulação sobre o solo urbano que já acontece na região de beira-rio imediatamente contígua ao terreno da Ilha do Retiro. Considerando que em outras áreas próximas existem, hoje, comunidades de baixa renda, sem serviços de infraestrutura, pode-se supor que uma substituição tipológica e socioeconômica tende a se desenvolver. Entretanto, dado o histórico em eventos de tal tipo na cidade, estima-se que se desenvolverá um adensamento rápido e em descompasso com infraestrutura instalada, além de um posterior problema de migração intraurbana não planejada da população de baixa renda original.


O caso da arena prevista oficialmente para a Copa do Mundo, por sua vez, inspira uma atenção diferente. Localizada em São Lourenço da Mata, é alvo de um projeto urbanístico mais detalhado. Em teoria, deve servir para o ordenamento da expansão da RMR. Entretanto, sua maior ameaça está na possibilidade de ser a moeda de troca utilizada por um clube como o Náutico.


Como era esperado, o Náutico aderiu ao projeto da nova arena. Assim, é de se esperar que o terreno hoje destinado aos Aflitos virá a ser ocupado por um empreendimento imobiliário que fará do atual bairro uma zona ainda mais adensada, porém dentro de uma estrutura de vias nitidamente desproporcional – concebidas como vias locais para residências unifamiliares, como se daria a relação entre infra e superestruturas urbanas? Além do mais, a cidade perderia mais uma área de solo natural permeável em uma região já deficitária em tal quesito.


Pode-se discutir, ainda, os deslocamentos até o novo estádio, uma vez que a maioria dos seus torcedores se localiza no seu bairro original. Embora exista o planejamento de dotação de transporte público para o local e de toda uma zona residencial nova no seu entorno, a relação do deslocamento local, a pé, será perdida. Considerando a faixa de renda dos torcedores do clube, é provável que o percurso de se dê de carro, ao mesmo tempo em que não se pode garantir que os moradores da nova nucleação do município de São Lourenço serão identificados com o clube detentor do campo. A cidade perderá uma dinâmica urbana tradicional e optará por uma dinâmica rodoviária para os dias de jogo?


Finalmente, pode-se discutir as mudanças no padrão da utilização dos edifícios, os estádios, interfaces últimas entre o público e o clube e seus representantes, o motivo de uma série de padrões de interações sociais tão caros à identidade da cidade.


Em primeiro lugar, destaca-se uma diferença fundamental entre os estádios FIFA e os exemplares tradicionais da cidade: o fim das arquibancadas. Os novos estádios são dotados exclusivamente de cadeiras, assentos que são numerados e comprados antecipadamente. A característica principal da arquibancada é indiferenciação. Como não há programação de posicionamento, os encontros entre usuários se tornam mais aleatórios. Não há um ordenamento visível de permanência ou de movimento.


Certas manifestações típicas das torcidas espontâneas tendem a não poderem mais se desenvolver. O vai-e-vem de torcedores dos Aflitos, entre pontos mais altos e o alambrado, se torna impossível. A construção de palco para a apresentação da bandeira da Ilha do Retiro pode não ser permitida, uma vez que todos torcem sentados.


O ritual de ocupação dos anéis do estádio do Arruda deixam de fazer sentido, uma vez que que a distribuição das cadeiras busca a homogeneidade.


Outro ponto que tende a ser definidor de um novo perfil de torcedor é o próprio preço dos ingressos. Considerando que todos os assentos são cadeiras, deverá haver uma substituição do torcedor de menor poder aquisitivo por uma elite mais próxima ao perfil dos sócios e detentores de camarotes nos atuais estádios.


Corre-se o risco de se ter um público mais contemplativo que participativo. Esta tendência, já verificada em jogos de seleções – principalmente nas Copas do Mundo – podem se repetir nas partidas dos clubes locais. Porém, considerando o perfil socioeconômico do Recife, será possível manter as médias de público hoje observadas no estádio do Arruda por exemplo, em um estádio elitizado?


A mudança do público e do seu comportamento pode levar ao afastamento do torcedor mais aguerrido, que dá suporte à clássica rivalidade local. Entende-se que em um cenário como o do Recife, onde a técnica e o status nacional são menos importantes do que a tradição, o fenômeno pode vir a desencadear uma fragilização das estruturas do futebol da cidade. Se os resultados são secundários hoje, e mais importante é a reprodução do habitus, o que poderá se esperar quando houver a quebra do habitus e os clubes não tiverem condições de compensar tecnicamente?


1 Este artigo é uma versão de trabalho apresentado pelos autores no 35º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, realizado entre os dias 24 a 28 de outubro de 2011, em Caxambu (MG).

2 Assistente de Ciência e Tecnologia da Fundação Joaquim Nabuco (cristiano.borba@fundaj.gov.br)

3 Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (tulio.fundaj@gmail.gov.br)

4 De modo semelhante, mas com menos aprofundamento, Bale (1993) também propõe estágios de evolução do estádio como um objeto cultural que acompanha tanto o desenvolvimento do esporte como a sua apropriação pela sociedade.

5 As normativas inglesas passaram a ser conhecidas pelo termo “green guide”, e são base para o padrão FIFA atual. Como exemplo das recomendações mais imediatamente perceptíveis, estão as práticas de dotar os estádios de cadeiras, ao invés de arquibancadas simples, só vender assentos numerados e abolir fossos e alambrados, aproximando mais o público do evento esportivo. Segundo seus princípios, maior definição física e espacial, também garante maior conforto, segurança e controle sobre o público – expectativas comprovadas pelas estatísticas medidas após a implantação dos novos padrões (SHEARD, 2005; DE LA CORTE, 2009; FAVERO, 2009).

6 Ou “bowl”, em inglês (THOMPSON; TOLLOCZKO; CLARKE, 2005; SHEARD, 2005; GERAINT; SHEARD; VICKERY, 2007).

7 Considerando que os estádios mais antigos costumavam ter sua forma geral definida só pelas placas horizontais das arquibancadas e os elementos verticais e/ou inclinados da estrutura portante.


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Artigo recebido em: 01/08/13

Aprovado em: 20/12/2013

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