­Est. Soc. [online]. 2013, vol. 2, n. 19


VIOLÊNCIA E AJUSTAMENTO NA COLONIZAÇÃO DO TRÓPICO: notas sobre as interpretações de Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre


VIOLENCE AND ADJUSTMENT IN THE TROPICS: NOTES ON SÉRGIO BUARQUE E HOLANDA AND GILBERTO FREYRE INTERPRETATIONS



Allan Monteiro1


______________________________________________________


Resumo

Este ensaio compara as interpretações formuladas por Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda a respeito da colonização portuguesa nas terras do Brasil, com destaque à relação entre os homens e o meio tropical nessa fase de ocupação. Um primeiro aspecto a ser destacado é a relativa correspondência de foco e temática em torno de concepções gerais sobre o processo de colonização, demarcando posições interpretativas por vezes distintas, por vezes complementares a respeito da natureza dos trópicos, das características do elemento colonizador e de sua relação com os grupos indígenas habitantes da terra e com os africanos trazidos como escravos. Um segundo aspecto refere-se ao tratamento regionalizado conferido por esses autores em trabalhos voltados a uma compreensão mais detalhista e localizada desse processo, resultando numa descrição comparativa entre manchas socioculturais com valores e práticas distintas de interação com o meio natural: de um lado o Nordeste da civilização da cana, como apresentado por Freyre no livro "Nordeste"; de outro, São Paulo dos bandeirantes, conforme descrito por Sérgio Buarque de Holanda nos livros "Caminhos e fronteiras" e "Monções".


Palavras-chave: Pensamento social, Brasil colônia, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda

______________________________________________________


Abstract

The essay compares the interpretations made by Gilberto Freyre and Sérgio Buarque de Holanda about Portuguese colonization of Brazil, with special attention to the relation between men and tropical nature. A first aspect to be highlighted is the thematic correspondence around general conceptions concerning the Portuguese colonization, marking interpretive positions about the nature of the tropics, the characteristics of the colonizer element and its relationship with indigenous groups inhabitants of the land and with africans brought as slaves. A second aspect refers to the local treatment given by these authors in studies related to a more detailed understanding about the colonization adjustment to the tropics, resulting in a comparative description of socio-cultural spots with different values and practices of interaction with the environment: on one side, the sugar cane civilization of Northeast Brazil, as shown by Freyre in the book " Nordeste"; on the other side, São Paulo of the pioneers, as described by Sérgio Buarque de Holanda in the books "Caminhos e Fronteiras” and " Monções".


Keywords: Social thought; Colonial Brazil; Gilberto Freyre; Sérgio Buarque de Holanda

______________________________________________________


Este ensaio trata, em perspectiva comparativa, as interpretações formuladas por Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre a respeito da colonização portuguesa nas terras do Brasil, com especial destaque à relação entre os homens e a natureza nessa fase de ocupação. Suas principais obras – Raízes do Brasil e Casa Grande & Senzala, respectivamente – impuseram na década de 1930 uma reformulação na maneira de se pensar a sociedade brasileira, ao estabelecerem o olhar para o passado como passo importante na compreensão do presente e, eventualmente, do seu futuro. Ambos vasculharam nosso período colonial em busca dos elementos formadores de nossa sociedade, nossas instituições e que, em forma de resquícios ou permanências, explicariam suas feições contemporâneas. Há nesses trabalhos uma relativa correspondência de foco e temática em torno de concepções gerais sobre o processo de colonização, demarcando posições interpretativas por vezes distintas por vezes complementares a respeito da natureza dos trópicos, das características do elemento colonizador e de sua relação com os grupos indígenas habitantes da terra e com os africanos trazidos como escravos. Raízes do Brasil e Casa Grande & Senzala são as principais referências para essa comparação de ordem mais geral, apresentada na primeira parte do texto.


A segunda parte do ensaio estende essa comparação para o tratamento regionalizado presente em trabalhos voltados a uma compreensão mais detalhada e localizada desse processo de ajustamento, apresentadas por esses autores como manchas socioculturais com valores e práticas distintas de interação com o meio natural: de um lado o Nordeste da civilização da cana, apresentado por Freyre no livro Nordeste, de 1937; de outro, São Paulo dos bandeirantes, conforme descrito por Buarque de Holanda nos livros Caminhos e fronteiras (1957) e Monções (1945). Nas obras aqui tratadas, essa relação histórica entre sociedade e o meio aparece sob a linguagem do ajustamento, da adaptação (ambos referindo-se ao binômio colonizador-trópico)2, da exploração (própria ao sistema colonial), da miscigenação, do trópico, do nomadismo e estabilidade de modos de vida e sociabilidades, compondo um estilo de pensamento próprio de uma época. Cada qual a seu modo, esses autores iluminam, por meio de um panorama histórico, algumas das nossas raízes mais profundas. Inclusive as que se referem às questões ambientais, um tema de nosso tempo.3


A primeira edição de Casa Grande & Senzala foi publicada em dezembro de 1933, recebendo prontos elogios e tornando-se obra de referência para interpretação da sociedade brasileira. Atualmente, o livro encontra-se em sua 51ª edição nacional, tendo sido publicado em mais de dez países. Nesse denso ensaio, Gilberto Freyre se valeu do arsenal metodológico da antropologia, da sociologia e da história para apontar as bases de nossa estrutura social a partir do modelo da família patriarcal, escravocrata e latifundiária do então Norte do país. Apesar da merecida fama de clássico, inúmeras críticas foram feitas a Gilberto e sua principal obra, com destaque para “suas contradições, seu conservadorismo, o gosto pela palavra sufocando o rigor científico, suas idealizações e tudo o que, contrariando seus argumentos, era simplesmente esquecido” (CARDOSO, 2006, p. 19).


Em relação a Raízes do Brasil, sua primeira edição foi lançada em 1936, inaugurando a coleção Documentos Brasileiros, então coordenada por Gilberto Freyre para a editora José Olympio. O livro ganharia texto definitivo a partir da quinta edição, de 1967, tendo sofrido modificações substanciais ao longo das primeiras versões.


Tanto em Raízes do Brasil quanto em Casa Grande e Senzala, o tema da relação entre homem e ambiente nas origens da sociedade brasileira está presente, em boa medida sob o enfoque da adaptação do elemento colonizador à paisagem dos trópicos e das implicações dessa adaptação no modo de vida, nos costumes e na sociabilidade dos antigos povoadores, ou seja, nas decorrências dessa adaptação à formação dessa sociedade. É com ele, por exemplo, que Sérgio Buarque de Holanda inicia as primeiras palavras de Raízes do Brasil:


A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra (HOLANDA, 1998, p. 31).


É também o tema com o qual Gilberto Freyre abre Casa Grande e Senzala:


Quando, em 1532 se organizou economicamente e civilmente a sociedade brasileira, já foi depois de um século inteiro de contato dos portugueses com os trópicos; de demonstrada na Índia e na África sua aptidão para a vida tropical. Mudado em São Vicente e em Pernambuco o rumo da colonização portuguesa do fácil, mercantil, para o agrícola; organizada a sociedade colonial sobre base mais sólida e em condições mais estáveis que na Índia ou nas feitorias africanas, no Brasil é que se realizaria a prova definitiva daquela aptidão (FREYRE, 1938, p. 1).


Os sentidos que revestem as duas passagens são distintos e demarcam as divergências na forma como seus autores interpretaram o contato inicial entre colonizador e o ambiente do trópico. Enquanto para Sérgio a vida portuguesa em um ambiente desfavorável e hostil era largamente estranha à sua tradição milenar, para Gilberto a aptidão portuguesa para a vida tropical estava fundamentada em uma experiência histórica secular. Enquanto um enxergou o conflito entre uma forma de vida milenar e um ambiente hostil, o outro apontou o caráter de prova definitiva da pré-adaptação ensaiada em colônias anteriores.


Essa diferença obedece às intenções e propósitos específicos da argumentação que abre cada uma dessas obras: no primeiro caso, para apontar a necessidade de compreensão das “formas de convívio, instituições e ideias de que somos herdeiros” (HOLANDA, 1998, p. 31) como passo fundamental ao entendimento da sociedade brasileira; no segundo, para enfatizar a positividade plástica do elemento colonizador como fator de sucesso adaptativo ao meio e, consequentemente, de sucesso da empresa colonizadora como um todo. A partir daí, tanto Sérgio Buarque de Holanda quanto Gilberto Freyre, centram o foco na sociedade portuguesa ao período das grandes navegações, buscando aspectos distintivos e peculiares desse elemento colonizador, estrangeiro, invasor.


Para Sérgio Buarque de Holanda, o fato da península Ibérica se apresentar como “zona de transição, com a qual a Europa se comunica com os outros mundos”, associado a seu “ingresso tardio no coro europeu”, é o que justifica grande parte das características peculiares de Portugal e Espanha, nações que teriam se desenvolvido à margem das demais europeias. A exaltação extrema da personalidade, a obediência cega, a repulsa a toda moral fundada no culto ao trabalho e a indisposição a iniciativas associativas são os pilares da mentalidade e do espírito que marcou a conquista dos trópicos, missão histórica da qual os portugueses foram “não somente os portadores efetivos como os portadores naturais” (HOLANDA, 1998, p. 43). A ética da aventura, contraposta à ética do trabalho, explicaria boa parte do sucesso da empresa colonizadora ibérica no seu estágio de adaptação. “Num conjunto de fatores tão diversos, como as raças que aqui se chocaram, os costumes e padrões de existência que nos trouxeram, as condições mesológicas e climatéricas que exigiam longo processo de adaptação”, o gosto da aventura diz Buarque de Holanda,


foi o elemento orquestrador por excelência. Favorecendo a mobilidade social, estimulou os homens (...) a enfrentar com denodo as asperezas ou resistências da natureza e criou-lhes as condições adequadas a tal empresa. (...) Onde lhes faltasse pão, aprendiam a comer o da terra. (...) A exploração dos trópicos não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono. Dir-se-ia mesmo que se fez apesar de seus autores (HOLANDA, 1998, p. 43-47).


A ética da aventura tornou a experiência de adaptação ao trópico em algo no mínimo suportável e, no máximo, bem-sucedida, embora não pareça ter resolvido o conflito por completo: somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. Não foi, portanto, a ética do trabalho (segundo o autor, de papel quase insignificante nesse processo) o fator decisivo no sucesso dessa obra de colonização, mas esse gosto e predisposição para a aventura, para a prosperidade sem custo, para as riquezas fáceis – “riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho” (HOLANDA, 1998, p. 49). Caio Prado Júnior (1961, p. 114) expressou visão semelhante ao explicar que nosso colono europeu não “é o trabalhador, o simples povoador; mas o explorador, o empresário de um grande negócio”. Nas bases da sociedade agrária que aqui se estabeleceu, as características da grande lavoura colonial – de natureza perdulária, movida pelo trabalho escravo, nutrida pela fartura de terra disponível a ser explorada, e carente de progressos técnicos que elevassem o nível de produção ou apenas evitassem o desperdício – descredenciam, na visão de Buarque de Holanda, o resultado do esforço colonial como formador de uma “civilização tipicamente agrícola”, embora fosse certamente uma “civilização de raízes rurais” (HOLANDA, 1998, p. 49 e 73).


Não o foi [uma civilização tipicamente agrícola], em primeiro lugar, porque a tanto não conduzia o gênio aventureiro que os trouxe à América; em seguida, por causa da escassez da população do reino, que permitisse emigração em larga escala de trabalhadores rurais, e finalmente pela circunstância de a atividade agrícola não ocupar então, em Portugal, posição de primeira grandeza (HOLANDA, 1998, p. 49).


Enquanto sistema produtivo, a grande lavoura não avançou muito além das técnicas aprendidas com os naturais da terra, ditadas pelo mínimo esforço e cristalizadas pela rotina avessa a inovações e incrementos. Em relação a esse assunto, Gilberto Freyre notaria que “do indígena quase que só aproveitou à colonização agrária no Brasil o processo da coivara, que infelizmente viria empolgar por completo a agricultura colonial” (FREYRE, 1938, p. 62). Esse rudimento técnico seria testemunho da passividade do colonizador em relação aos obstáculos impostos pelo ambiente, “cedendo às sugestões da terra e dos seus primeiros habitantes, sem cuidar de impor-lhes normas fixas e indeléveis” (HOLANDA, 1998, p. 52).


A esse espírito de aventura que animava o colonizador português, Sérgio acrescentou outro, responsável pela sua grande plasticidade social: o fato do português já ser, ao tempo dos descobrimentos, um povo mestiço, isento de sentimentos de orgulho de raça. Decorre daí, que “o Brasil não foi teatro de nenhuma grande novidade. A mistura com gente de cor tinha começado amplamente na própria metrópole” (HOLANDA, 1998, p. 53). Contudo, essa predisposição à mistura não teria sido suficiente para diminuir certo pessimismo com que Holanda descreve a tentativa de implantação de um modelo de vida europeu nos trópicos:


Nem o contato e a mistura com raças indígenas ou adventícias fizeram-nos tão diferentes dos nossos avós de além-mar como às vezes gostaríamos de sê-lo. No caso brasileiro, a verdade, por menos sedutora que possa parecer a alguns dos nossos compatriotas, é que ainda nos associa à península Ibérica, a Portugal especialmente, uma tradição longa e viva, bastante viva para nutrir, até hoje, uma alma comum, a despeito de tudo que nos separa. Podemos dizer que de lá nos veio a forma atual de nossa cultura; o resto foi matéria que se sujeitou mal ou bem a essa forma (HOLANDA, 1998, p. 40).


A crítica é direcionada a Gilberto Freyre, que identificou na miscigenação a mola propulsora da identidade nacional. Em Casa Grande & Senzala, a predisposição do português à mistura tem papel fundamental para explicar sua habilidade adaptativa aos trópicos, não para tentar resolver um conflito de ajustamento, tal como a perspectiva de Raízes do Brasil, mas para conferir uma naturalidade positiva e otimista a esse processo de adaptação. Tal como Sérgio, Freyre também encarou Portugal como uma região fronteiriça – no caso, entre Europa e África – entretanto, para pensar o português não como povo marginal, mas como povo indefinido; de uma indecisão étnica e cultural que se concretizou na imprecisão de um tipo determinado do que seria o português. O longo histórico de relação com outros povos vizinhos ou invasores da península Ibérica teriam lhe conferido essa plasticidade social e física que lhe garantiria uma predisposição quase hereditária à vida tropical. Como salienta o autor, é da mobilidade, da vocação quase natural para a mistura, da aclimatabilidade e da experiência anterior em colônias estabelecidas em outros territórios que decorre o sucesso do empreendimento colonizador português. Sem a primeira,

não se explicaria ter um Portugal quase sem gente, um pessoalzinho ralo, insignificante em número – sobejo de quanta epidemia, fome, sobretudo guerra afligiu a península na idade média – conseguido salpicar virilmente do seu resto de sangue e de cultura populações tão diversas e a tão grandes distâncias umas das outras (FREYRE, 1938, p. 6).


Em relação à miscibilidade, os portugueses não encontraram em nenhum outro povo colonizador moderno quem os igualasse na facilidade de intercurso sexual e na produção de mestiçagem. Também nesse aspecto o longo contato com outros povos teria contribuído para sua constituição híbrida, “processo pelo qual os portugueses compensaram-se da deficiência em massa ou volume humano para a colonização em larga escala e sobre áreas extensíssimas” (FREYRE, 1938, p. 7).


Já no que diz respeito à aclimatabilidade, o argumento de Freyre dá mais atenção à proximidade de Portugal com a África – em termos de condições físicas de solo, de clima e temperatura – do que propriamente da Europa, inferindo como consequência que as próprias características da terra natal já teriam preparado o português para se aventurar nos trópicos, estabelecendo uma vantagem em relação aos demais povos colonizadores oriundos de países de clima frio.


Assim, enquanto Sérgio Buarque de Holanda enxerga no personalismo e no caráter aventureiro do colonizador português a originalidade própria da península Ibérica, Gilberto Freyre recorre ao contato com outros povos (africanos, sarracenos e semitas), mas igualmente ao contato com outros territórios e outros climas, para explicar uma aptidão praticamente biológica do português ao ambiente tropical. A mistura desse português já híbrido com o elemento nativo e com o negro importado para escravo contribuiria ainda mais para o sucesso colonizador, produzindo uma geração de mestiços insuperável em termos de adequação à vida tropical. Essa diferença de perspectiva é sintomática da maneira como ambos olharam para o processo de formação da sociedade brasileira, mas também das consequências teóricas desses distintos pontos de partida. Menos preocupado com a forma, Sérgio Buarque de Holanda procurou dissecar as raízes do Brasil em sua essência, menos palpável, portanto, que a imagem da casa-grande e da senzala que dão corpo ao sistema patriarcal, latifundiário e escravocrata apresentado como modelo explicativo por Freyre.4 Apesar dessas divergências de enfoque, um ponto comum a essas duas interpretações é o modo como os elementos que contribuíram para essa adaptação são igualmente importantes no entendimento da formação da sociedade brasileira como um todo. Não são recursos explicativos apenas dessa fase de ajustamento, descartáveis após a acomodação do português em solo novo, mas elementos que explicam e acompanham o que se seguiu a partir de então.


Estabilidade e nomadismo


Em relação ao que Casa Grande & Senzala e Raízes do Brasil fornecem de discussão abrangente sobre a formação da sociedade brasileira, Caminhos e Fronteiras e Nordeste representam uma investigação mais minuciosa sobre o processo histórico dessa adaptação a dois contextos distintos e específicos: São Paulo dos bandeirantes e Pernambuco da cana-de-açúcar, segundo Freyre (1938, p. 10), “os dois grandes focos de energia criadora nos primeiros séculos da colonização”. Analisados comparativamente, os argumentos expostos nesses dois livros sugerem que nesse quadro comum de ajustamentos emergiram experiências distintas, com suas colorações locais.


No prefácio à primeira edição de Nordeste, Freyre já alertava para o caráter ensaístico de sua obra, dedicada a um “estudo ecológico” do Nordeste, tendo como foco o homem colonizador e suas relações com a terra, o nativo, as águas, as plantas e os animais da região ou importados de outras partes do mundo. Por “homem colonizador” ele considera não apenas o europeu, mas também o africano. Seu estudo ecológico busca traçar um panorama dos processos de adaptação e domínio desse “homem colonizador” sobre o meio regional, ora fundamentado em ajustamentos, ora em violências. A peculiaridade desse Nordeste retratado por Freyre reside na exclusividade da cana-de-açúcar, o que exclui, portanto, o Nordeste das secas, do sertão. É o Nordeste da monocultura latifundiária, escravocrata e monosexual, que encontrou no senhor de engenho sua metáfora de referência, e na cana de açúcar seu motivo exclusivo. Ao recontar a experiência colonizadora na Zona da Mata nordestina a partir do enfoque ecológico, balizando sua narrativa a partir da monocultura canavieira, Freyre antecipou em algumas décadas a pauta programática da História Ambiental (DRUMMOND, 1991; DUARTE, 2005). Dessa forma, o ensaio se divide em seis capítulos, quatro deles associando a cana a elementos do meio natural (a terra, a água, a mata e os animais), e os dois últimos tomando por referência a relação entre a cana e o homem.


A primeira característica distintiva do Nordeste da Zona da Mata é qualidade da terra. Ao contrário da terra dura e da areia seca que vigoram no Nordeste sertanejo, este, da cana, se distingue pelo solo de massapê, argiloso, rico de um húmus gorduroso.


Há quatro séculos que o massapê do Nordeste puxa para dentro de si as pontas da cana, os pés dos homens, as patas dos bois, as rodas vagarosas dos carros, as raízes das mangueiras e das jaqueiras, os alicerces das casas e das igrejas, deixando-se penetrar como nenhuma outra terra dos trópicos pela civilização agrária dos portugueses. (...) O massapê é acomodatício (FREYRE, 1951, p. 37).


Esse solo de riqueza profunda teria propiciado uma civilização marcada pela estabilidade da cultura da cana, das habitações sólidas de pedra e cal em que gerações de senhores se sucediam sem a necessidade do nomadismo agrário induzido por terrenos menos férteis, que se esgotam rapidamente em decorrência de cultivos sucessivos. Há outros fatores que explicam o triunfo do açúcar na região, dentre os quais a menor distância em relação à Europa e centros africanos fornecedores de escravos, bem como a qualidade dos elementos colonizadores, tanto o africano quanto o europeu, este último, “gente boa e sã, habituada à vida rural e ao trabalho agrícola, gente talvez geneticamente superior aos simples artesãos”. Entretanto, esses fatores acessórios não chegam a deslocar o peso talvez excessivo depositado pelo autor nessa terra gordurosa, fonte dos sucessos dessa civilização agrária que primeiro se formou na colonização – “civilização moderna mais cheia de qualidades, de permanência, e ao mesmo tempo de plasticidade que já se viu nos trópicos” (FREYRE, 1951, p. 38). Terra que se tornou a


base física não simplesmente de uma economia ou de uma civilização regional, mas de uma nacionalidade inteira (...) [onde] primeiro se fixaram e tomaram fisionomia brasileira, os traços, os valores, as tradições portuguesas que junto com as africanas e as indígenas constituiriam aquele Brasil profundo, que hoje se sente ser o mais brasileiro (FREYRE, 1951, p. 43).


A apologia nostálgica que faz desse Nordeste canavieiro dos primórdios da colonização ganah ainda maior destaque quenda ao Nordeste de engenho é contraposto o seu substituto histórico, o Nordeste das usinas, contemporâneo ao momento em que o livro foi escrito. É já no segundo capítulo – A cana e a água – que esse contraste entre dois Nordestes históricos se estabelece. Usada para irrigação ou como força motriz da moagem da cana, a água tinha também uma valor simbólico e estético fundamental à paisagem dos engenhos, com as margens dos rios e ribeirões acomodando a civilização patriarcal e aristocrática minuciosamente descrita em Casa Grande & Senzala. A decadência dessa civilização, associada à substituição do dono de engenho pelo usineiro, refletiu-se também na decadência e degeneração dos rios, como se nota em diversas passagens:


A água foi elemento nobre na velha paisagem de engenho do Nordeste, onde a usina degradaria principalmente os rios. O engenho honrou a água; não se limitou a servir-se dela (FREYRE, 1951, p. 68-69).

O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório das caldas fedorentas de suas usinas. (…) Quase não há um rio do Nordeste do canavial que alguma usina de ricaço não tenha degradado em mictório. As casas já não dão a frente para a água dos rios: dão-lhe as costas com nojo. Dão-lhe o traseiro com desdém. (...) A água nobre hoje é a do mar. (FREYRE, 1951, p. 82-84).


Mas é o terceiro capítulo, intitulado A cana e a mata, que traz algumas das proposições mais interessantes do livro, ao enfocar os desequilíbrios impostos pelo exclusivismo da cana de açúcar na paisagem ecológica e social “dessa sub-região do Nordeste que um tanto ironicamente se chama Zona da Mata” (FREYRE, 1951, p. 95). Para Gilberto, o caso da cana não se assemelha ao de outras espécies exóticas indesejadas e invasoras, causadoras de desequilíbrios ecológicos em outras regiões do mundo. Ao contrário,


A cana é um dos casos de transplantação mais felizes. Encontrou terra ótima. O drama que se passou e se passa no nordeste não veio do fato da introdução da cana, mas do seu exclusivismo brutal em que, por ganância de lucro, resvalou o colono português, estimulado pela Coroa na sua fase já parasitária (FREYRE, 1951, p. 97).


O exclusivismo com que a cana de açúcar dominou a paisagem ecológica e social dessa região se refletiu no desprezo pela mata nativa. Nesse processo em que a variedade e diversidade da natureza foram substituídas pela monotonia da planta única, as relações “líricas” de reciprocidade entre homem e natureza – segundo Freyre, comumente associadas às sociedades camponesas – não puderam ali se desenvolver. Em seu lugar, o que se estabeleceu foi uma distância profunda que também se manifesta, como supôs o autor, no desconhecimento que essa civilização das terras de açúcar nutriu em relação à vegetação nativa. “A cana separou-o [o brasileiro do nordeste canavieiro] da mata até esse extremo de ignorância vergonhosa. Na mata ele vê vagamente o pé de árvore e às vezes, quase desdenhosamente, o pé de pau” (FREYRE, 1951, p. 99). Essa assimetria seria o produto de um sistema que se refletia também numa profunda distância social. “Com a destruição das matas para a cana dominar sozinha sobre o preto, o roxo ou o vermelho dessa terra crua”, diz ele,


a natureza do Nordeste – a vida toda – deixou de ser um todo harmonioso na sua interdependência para se desenvolverem relações de extrema ou exagerada subordinação: de umas pessoas a outras, de umas plantas a outras, de uns animais a outros; da massa inteira da vegetação à cana imperial e todo-poderosa; de toda a variedade de vida humana e animal ao pequeno grupo de homens brancos – ou oficialmente brancos – donos dos canaviais, das terras gordas, das mulheres bonitas, dos cavalos de raça. Cavalos de raça tantas vezes tratados melhor que os trabalhadores da bagaceira (FREYRE, 1951, p. 99-100).


Nesse cenário, a relação com o meio natural reproduzia e ao mesmo tempo refletia as relações sociais fundamentadas em extremada hierarquia. Ambas caminhavam em paralelo. Por meio dos antagonismos que tanto caracterizam o conjunto de sua obra, a cultura da cana no Nordeste


aristocratizou o branco em senhor e degradou o índio e principalmente o negro, primeiro em escravo, e depois em pária. Aristocratizou a casa de pedra-e-cal em casa-grande e degradou a choça de palha em mucambo. Valorizou o canavial e tornou desprezível a mata. Nesse sistema de relações que dividiu os homens e as suas habitações e a própria paisagem em metades tão diferentes e até antagônicas, pode-se dizer, para efeito de generalização, que o cavalo ficou no primeiro e o boi no segundo grupo (FREYRE, 1951, p. 123).


Na lógica da exploração monocultora – lógica espacial, preocupada com extensões territoriais virgens a se conquistar (tal qual a lógica militar); lógica que elege a mata como inimiga a ser vencida a fogo e machado; lógica do tempo imediato, tempo do lucro rápido; lógica, enfim, despreocupada com a parte propriamente agrícola dessa exploração –


não era preciso que se desenvolvesse aqui a figura do lavrador: bastava a do senhor de engenho gritando para o negro do alto da casa grande ou de cima de seu cavalo; bastava a do escravo cumprindo as ordens do senhor ou do feitor; bastavam as mãos e os pés do negro; bastava seu o sexo capaz de larga procriação. (FREYRE, 1951, p. 106).


Essa distância social só não foi maior por conta do intercurso sexual entre brancos, indígenas e africanos, conforme já havia sido alertado pelo autor no prefácio à primeira edição de Casa-Grande & Senzala:


A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que doutro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária e escravocrata realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, (…) foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigenação (FREYRE, 1938, p. XIII).


Essa passagem contem uma pista interessante para situar a importância de Nordeste no conjunto de sua obra ao longo da década de 1930. Enquanto a tese principal de Casa-grande & Senzala exalta a miscigenação como elemento redentor, revalorizando positivamente os efeitos do intercurso racial “no sentido da democratização social do Brasil” (FREYRE, 1938, p. XIII), Nordeste é um ensaio essencialmente pessimista e melancólico dos efeitos negativos da violenta experiência colonizadora resultante desse modelo de sociedade patriarcal, escravocrata e latifundiária, sem, contudo, deixar de relativizar a experiência dos engenhos em comparação ao sistema das usinas, duramente criticado por Freyre.


Nessa comparação entre dois sistemas de produção e organização social, o dos engenhos e o das usinas, Freyre inclui o papel do negro, não o escravo, mas o negro “elemento colonizador”, representado quase que exclusivamente pelos habitantes de quilombos. A eles, Gilberto Freyre atribuiu uma notável capacidade de ajustamento ao meio tropical, “em parte, adaptando-se à floresta, em parte, adaptando a floresta às suas necessidades de evadido da monocultura escravocrata e latifundiária” (FREYRE, 1951, p. 110). Tomando o exemplo de Palmares como “curiosa organização socialista baseada sobre a policultura” (FREYRE, 1951, p. 228), o autor atacava a concepção que via o africano estabelecido em terras brasileiras como um “mau agricultor”:


uma coisa é o homem dentro do seu próprio sistema de cultura e outra coisa é ele desenraizado desse sistema e sujeito pela conquista militar ou pelo regime de trabalho escravo a um gênero de vida artificial, estranho aos seus desejos, aspirações e interesses mais íntimos (FREYRE, 1951, p. 227).


A figura do colonizador africano tem o papel de fornecer um contraponto à figura do senhor de engenho e seu sucessor histórico, o usineiro: de um lado o elemento africano, de fácil adaptação, adepto de uma acomodação mais suave, ou incapaz de uma ambientação baseada em grandes violências; no outro extremo o dono da usina, capitalista, sem relação com a terra e com seus trabalhadores que não fosse a exclusivamente produtiva, dono de uma usina possuída à distância, onde os “cabras” trabalham sem saber direito para quem, substituindo assim a sociabilidade própria da antiga vida do engenho pela artificialidade da exploração industrial e comercial do açúcar – “açúcar dono dos homens e não a serviço da gente da região” (FREYRE, 1951, p. 107):


Já não se trata de uma civilização como foi a patriarcal, nesse mesmo Nordeste da cana, com seus sinais de + e de –, embora o de – preponderando. O açúcar de usina parece que deixou de entrar com qualquer contingente na valorização da vida e da cultura do Nordeste, para ser apenas o sinal de – em tudo: a diminuição da saúde do homem; a diminuição das fontes naturais da vida regional; a diminuição da dignidade, e da beleza da paisagem; a diminuição da inteligência, da sensibilidade, ou da emoção da gente do Nordeste (...) A usina não teve força para acrescentar nada de positivo a essa civilização: só tem feito diminuí-la (FREYRE, 1951, p. 258-259).


É da oposição entre esses dois modelos de sociabilidade e interação com o meio – o do “colonizador africano” e o do usineiro – que brotam as considerações melancólicas e afetivas com que o autor lamenta o fim daquele Nordeste senhorial de outrora, dos engenhos, das casas-grandes, das senzalas, da sociedade patriarcal e escravocrata que, apesar de toda destruição, exclusão e desigualdade que promoveu, comportava nobreza, esplendor e criatividade:


Por baixo dessa civilização aristocrática e voluptuosa (...) deixou-se secar tanta fonte de vida que era natural que a exploração da cana de açúcar fosse o que foi nesse trecho do Brasil: uma fase, em certo sentido, criadora e sob vários aspectos brilhantíssima; mas tão separada de certos elementos da natureza regional e tão artificial em algumas de suas condições de vida, que apodreceu ainda verde: sem amadurecer direito (FREYRE, 1951, p. 113).


Diferentemente da experiência nordestina da grande lavoura colonial e canavieira, marcada pela estabilidade da família patriarcal em relação à terra e pela rígida hierarquia social, a realidade colonial paulista – representada pelo espírito bandeirante e brilhantemente descrita por Buarque de Holanda em Caminhos e Fronteiras, publicado originalmente em 1957 – pautou-se no nomadismo intenso, temperado pelo improviso, instabilidade, aventura e, muito mais do que o que ocorreria no Nordeste da cana, pelo contato intenso e orgânico do colonizador com a gente da terra (HOLANDA, 1994). Uma rápida comparação entre os sumários dos dois livros basta para pontuar alguns elementos de distinção entre essas realidades regionais. Veredas de pé posto e Samaritanas do sertão, os dois capítulos com que Sérgio Buarque inicia Caminhos e Fronteiras, por exemplo, guardam uma correspondência de tema, enfoque e sequência com os dois primeiros capítulos com que Freyre inicia seu Nordeste: A cana e a terra e A cana e a água. Ao contrário de A cana e a terra, que associa o massapê à estabilidade da lavoura colonial e canavieira no Nordeste, Veredas de pé posto evoca os caminhos, trilhas e atalhos, explorando os complexos sistemas de orientação espacial, de interpretação dos rastros deixados por bichos ou outros homens, além das estratégias usadas para dissimular os rastros próprios. Técnicas que no contexto paulista e bandeirante foram imprescindíveis, sendo uma marca simbólica distintiva da mobilidade e nomadismo dessa sociedade surgida nas terras paulistas dos primórdios da colonização, cuja “vocação estaria no caminho, que convida ao movimento; não na grande propriedade rural que forma indivíduos sedentários” (HOLANDA, 1994, p. 9). Sob outra perspectiva, Freyre já havia estabelecido a mesma comparação:


Em contraste com o nomadismo aventureiro dos bandeirantes – em sua maioria mestiços de brancos com índios – os senhores das casas-grandes representaram na formação brasileira, a tendência mais caracteristicamente portuguesa, isto é, pé-de-boi, no sentido da estabilidade patriarcal. Estabilidade apoiada no açúcar (engenho) e no negro (senzala) (FREYRE, 1938, p. XX).


Esse contraste também se estende à ênfase dada à água. Diferentemente de A água e a cana – no qual esta surge como outro elemento fundamental da estabilidade do Nordeste canavieiro, com os engenhos dispostos ao longo dos rios e demais cursos d’água – em As samaritanas do sertão, Sérgio esmiúça o complexo processo de localizar e obter água durante as longas caminhadas pelo sertão, exigindo perícia dos sertanistas em encontrar uma aguada, um olho d’água, de saber onde cavar um poço, ou mesmo de reconhecer os vegetais que fornecem quantidades de líquido suficientes para aplacar a sede durante suas jornadas.


Em capítulos seguintes, Sérgio fornece outros exemplos que confrontam a experiência paulista com a descrita por Freyre. Enquanto o brasileiro da cana é pintado como um profundo desconhecedor da natureza a sua volta, os hábitos e técnicas do antigo paulista mobilizavam uma enorme variedade de conhecimentos em relação à caça, à pesca, às plantas e ervas usadas na cura de doenças e também às técnicas de criação doméstica de abelhas silvestres. Em todos esses aspectos, a herança do contato com o indígena se faz presente de maneira decisiva, em contraponto à experiência dos engenhos, para qual Freyre destaca a influência preponderante do contato com o africano, principalmente as escravas. A mobilidade e o improviso, frutos dessa herança, marcariam o início dessa sociedade paulista e sertaneja. “Sabemos como era manifesta nesses conquistadores [bandeirantes paulistas] a marca do chamado selvagem, da raça conquistada. Em seu caso”, continua o autor,


ela não representa uma herança desprezível e que deva ser dissipada ou oculta, não é um traço negativo e que cumpre superar; constitui, ao contrário, elemento fecundo e positivo, capaz de estabelecer poderosos vínculos entre o invasor e a nova terra. O retrocesso a condições mais primitivas, a cada novo contato com a selva e com o habitante da selva, é uma etapa necessária nesse feliz processo de aclimação (HOLANDA, 1994, p. 21).


O autor já havia formulado colocação semelhante em Monções, livro publicado originalmente em 1945 e que serviu de matéria para a elaboração de Caminhos e Fronteiras:


Desenvolvendo-se com mais liberdade e abandono do que em outras capitanias, a ação colonizadora realiza-se aqui por um processo de contínua adaptação a condições específicas do ambiente americano. Por isso mesmo, não se enrija logo em formas inflexíveis. Retrocede, ao contrário, a padrões rudes e primitivos: espécie de tributo exigido para um melhor conhecimento e para a posse final a terra. Só muito aos poucos, embora com extraordinária consistência, consegue o europeu implantar, num país estranho, algumas formas de vida, que já lhe era familiares no Velho Mundo. Com a consistência do couro, não a do ferro ou do bronze, dobrando-se, ajustando-se, amoldando-se a todas as asperezas do meio (HOLANDA, 1990, p. 16).


Essa diferença entre os antigos paulistas e os homens do engenho no Nordeste não deriva, contudo e na visão do autor, dos portugueses que desembarcaram em São Vicente e os que aportaram em Pernambuco. Para ele, o espírito de aventura e a predisposição à mistura seriam comuns a ambos. Tampouco ela se explica pelos nativos que primeiro habitavam esses territórios e sobre o qual, a despeito das diferenças de etnia, o europeu impôs absoluto domínio:


É verdade que essas diferenças têm caráter relativo e que delas não é lícito tirar nenhuma conclusão muito peremptória. A mobilidade dos paulistas está condicionada, em grande parte, a certa insuficiência do meio; insuficiência para nutrir os mesmos ideais de vida estável, que nas terras da marinha puderam realizar-se quase ao primeiro contato mais intimo entre o europeu e o novo mundo. Distanciados dos centros de consumo, impossibilitados, por isso, de atrair em grande escala os negros africanos, deverão eles contentar-se com o braço indígena, com os “negros” da terra; para obtê-los é que são forçados a correr sertões inóspitos e ignorados. Em toda parte é idêntico o objetivo dos colonos portugueses. Diverge unicamente, ditado pelas circunstâncias locais, o compasso que, num e noutro caso, regula a marcha para esse objetivo (HOLANDA, 1990, p. 16).


Para Sérgio, as circunstâncias locais e sua relação com o cenário mercantilista teriam condicionado as feições com que tais experiências de colonização se materializaram. Nesse conjunto de fatores, o meio tomou parte como regulador da implantação, em solo estranho, de um modo de vida exótico.


Estabilidade e nomadismo são, portanto, as características que emanam do diálogo entre essas obras. Se é certo que o meio exerce algum peso na formação das sociedades originadas nesses dois contextos de colonização, seja impondo restrições, seja fornecendo estímulos, há que se notar também que essas experiências e padrões de interação com o meio encontram-se – na interpretação desses dois autores – associados à própria constituição das sociedades que descrevem, como se a primeira refletisse padrões próprios da segunda. A miscigenação entre portugueses e indígenas no ciclo bandeirante tem papel fundamental na vocação seminômade dos antigos paulistas e sua familiaridade com o ambiente tropical. Ao mesmo tempo, a rigidez hierárquica da sociedade de engenho é refletida na forma violenta como a monocultura canavieira se impôs no Nordeste mercantilista, expressando formas de dominação sobre o meio natural que refletem padrões de dominação social.


1Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. Pesquisador do Centro de Estudos da História Brasileira (Cehibra) da Fundação Joaquim Nabuco.

2Vale conferir a oportuna crítica de Alfredo Bosi ao conteúdo ideológico dessa linguagem do ajustamento e adaptação (BOSI, 2001, p. 28).

3O revisionismo feito pela História Ambiental brasileira tem destacado a importância precursora desses autores na constituição desse campo de estudos. Ver, por exemplo, DRUMMOND (1991), PÁDUA (2002) e DUARTE (2005).

4Sobre forma e conteúdo no diálogo entre obras de Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, conferir artigo de Élide Rugai Bastos (BASTOS, 2005).


Bibliografia


BASTOS, Élide Rugai. Raízes do Brasil - Sobrados e Mucambos: um diálogo. Perspectivas. São Paulo, 28: 19-36, 2005.


BOSI, Alfredo. A dialética da colonização. 4ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras. 2001.


CARDOSO, Fernando Henrique. Um livro perene. In: FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala: Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51ª edição. São Paulo: Global, 2006


DRUMMOND, José Augusto. A história ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 4, n. 8, [p. 177-197]. 1991.


DUARTE, Regina Horta. História & Natureza. Belo Horizonte: Autêntica. 2005.


FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regimen de economia patriarchal. 3ª Edição. Rio de Janeiro: Schmidt. 1938.


FREYRE, Gilberto. Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil. 2ª Edição. Rio de Janeiro/São Paulo: Livraria José Olympio Editora. 1951.


HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e Fronteiras. 3ª edição. São Paulo: Companhia das Letras. 1994.


HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. 3ª edição. São Paulo: Brasiliense. 1999.


HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª edição. São Paulo: Companhia das Letras. 1998.


PÁDUA, José Augusto. Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2002.


PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo: colônia. 6ª Edição. São Paulo: Ed. Brasiliense. 1961.


Artigo recebido em: 01/08/13

Aprovado em: 20/12/2013

Apontamentos

  • Não há apontamentos.




@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

ISSN Impresso 1415-000X

ISSN Eletrônico 2317-5427