Apresentação


O presente dossiê agrega textos sob diferentes perspectivas, inserindo-se a um rol de escritos produzidos sob o impacto e as perplexidades provocadas pelas manifestações ocorridas no mês de junho de 2013, nomeadas como “Manifestações do Vinte Centavos”, “Ajuntamentos de Junho”, “Manifestações de Junho”, “Jornadas de Junho” etc. Como uma voga, os protestos precipitaram-se a partir de um ponto (redução do preço das passagens-SP), disseminando-se num movimento sincrônico em diferentes partes do Brasil. Um evento imprevisto que causou espanto e perplexidade, um sentimento de vazio sem “explicação lógica” na falta, ou insuficiências, de enquadramentos explicativos mormente mobilizados para captar ou atribuir significados, identificar causas e alvitrar prognósticos.


Em si, estas formas de manifestações não seriam causa de surpresa, as quais se alinham a eventos de igual ou maior magnitude em outras partes do mundo. A exemplo: A Revolução de Jasmin, na Tunísia, que se expandiu por todo o Norte da África ao Oriente Médio (2010); Occupy Wall Street, nos Estados Unidos (2011); Movimiento de los Indignados, Espanha (2011); Revolta do Pão, em Moçambique (2008 e 2010), entre outros. Manifestações que marcaram sua presença em diferentes continentes, com diferentes motivações e em distintos contextos políticos. O espanto e a perplexidade causada pelas Manifestações de Junho, no Brasil, podem ser atribuídos ao inesperado, ao ineditismo, à agilidade e à dimensão que elas assumiram.


Considerando a precipitação de manifestações, com características semelhantes em diferentes partes do mundo e sua repercussão em diferentes campos, desde o político ao âmbito acadêmico, permite-nos fazer uma analogia com os movimentos que emergiram na década de 1960. Na área das ciências sociais, aqueles eventos colocaram em causa as teorias tradicionais centradas nos movimentos tradicionais, de caráter classista, que resultou em novos paradigmas para interpretar a presença de novos atores cujas demandas impunham visões mais plurais e questionamento de instituições e formas de representação. Naquele contexto, as teorias sobre as sociedades passaram por profundas transformações e, no âmbito específico das análises dos movimentos sociais, emergiu uma pluralidade de abordagens para dar conta do que genericamente se denominou novos movimentos sociais. As manifestações contemporâneas parecem dar nova visibilidade reproblematizando temas colocados na pauta nos anos 1960. Apesar destas possíveis aproximações, determinadas características parecem distanciá-las, entre as quais destacam-se o recurso às novas mídias e seus aplicativos (Facebook, Twitter, Email etc.), sua horizontalidade, a não identificação de agentes organizadores, a pluralidade de demandas, por vezes contraditórias e antagônicas, formando uma imagem caleidoscópica em que, a cada movimento, alteram-se suas configurações.


Diferentes leituras, sob diferentes ângulos e com tons otimistas e outros mais pessimistas, vêm sendo difundidas, cujas análises se inserem num campo de altercações para captar e atribuir significados às atuais mobilizações. Neste sentido, são colocadas em suspenso pressupostos epistemológicos, conceituais e metodológicos frente às inovações trazidas à baila. Mas o que é novo? Quais os desdobramentos em termos políticos e sociais? Seriam estas manifestações efeitos de superfície ou, como afirma Francisco de Oliveira, um espasmo diluído na falta de demandas claras, ou, ainda, arautos de articulações políticas fora do domínio das grandes empresas de comunicação de massa, do Estado e das formas tradicionais de representação como os partidos, sindicatos, movimentos sociais, e para além dos espaços institucionalizados de participação? Estaria insurgindo uma redefinição do espaço público e da forma do fazer política?


Tendo como objeto as Jornadas de Junho e questões que daí se insurgiram, os textos apresentados neste dossiê, fruto de discussões dos autores em seminários e de suas reflexões, alinham-se ao debate contemporâneo sobre protestos e mobilizações sociais. Desta forma, retomam e revisam diferentes perspectivas teóricas com o intuito de apontar caminhos teóricos e metodológicos para análise desses acontecimentos, os quais passaram a ser uma constante nos processos sociais contemporâneos. Nesta direção emergem diferentes temas, tais como a imprevisibilidade desses processos e seus desdobramentos, as relações entre espaços institucionalizados e suas fissuras, disputas em relação à construção da democracia, ambiguidades e as diferentes iniciativas, seja por parte da mídia, de partidos ou do governo, em canalizar as demandas em torno de pontos nodais como lógicas de disciplinamento do social e revelador da exaustão de um programa de diferença social que sustenta uma estrutura liberal, jogos de atração e repulsa à violência que os ajuntamentos manifestaram, relações entre o instituído e o instituinte, entre outros


Desta forma, ao organizar este dossiê, a Revista de Estudos de Sociologia se propôs contribuir e adensar o debate frente aos desafios visibilizados pelas manifestações em suas diferentes dimensões e implicações políticas, sociais e, consequentemente, analíticas.


Ao dossiê são agregados textos que enfocam dimensões culturais relativas à reprodução e produção do racismo pelas mídias, a partir da análise de como crianças, no âmbito de uma escola privada, negociam a identidade racial a partir das representações da telenovela Fina Estampa da Rede Globo. Segue, ainda, a análise da realização de megaeventos esportivos e a lógica de organização do espaço metropolitano do Recife como composição entre o público e privado subordinada ao senso do mercado das instituições privadas. Por fim, insere-se um ensaio, o qual compara as interpretações formuladas por Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda a respeito da colonização portuguesa nas terras do Brasil e o caráter regionalizado de suas análises.


Desta forma, longe de esgotar o debate, o dossiê elenca diferentes aspectos relativos às manifestações, inserindo tópicos relativos à cultura, formação e ações que de alguma forma subjazem àqueles eventos. Trata-se de um debate aberto e que continuará desafiando analistas e atores sociais inseridos nos processos de construção social, cujos prognósticos assumem sua precariedade diante da imprevisibilidade de seus desdobramentos.

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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

ISSN Impresso 1415-000X

ISSN Eletrônico 2317-5427