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				<journal-title>Revista Brasileira de Cirurgia Plástica</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. Bras. Cir.
					Plást.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">1983-5175</issn>
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				<publisher-name>Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.51359/2448-0215.2019.243786</article-id>
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					<subject>Artigos</subject>
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			<title-group>
				<article-title>O mito da ampliação da jornada no programa mais
					educação</article-title>
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					<trans-title>The myth of the enlargements of journey in “Mais Educação”
						Program</trans-title>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-4044-7072</contrib-id>
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						<surname>Barbosa</surname>
						<given-names>John Mateus</given-names>
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					<institution content-type="orgname">Universidade Federal de
						Pernambuco</institution>
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						<city>Pernambuco</city>
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					<country country="BR">Brasil</country>
					<institution content-type="original">Centro Acadêmico do Agreste Universidade
						Federal de Pernambuco (UFPE) (Pernambuco-Brasil)
						https://orcid.org/0000-0002-4044-7072 johnmateusbar@gmail.com</institution>
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					<email>johnmateusbar@gmail.com</email>
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				<day>06</day>
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				<year>2021</year>
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			<pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">
				<season>Jan-Jun</season>
				<year>2019</year>
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			<volume>25</volume>
			<issue>1</issue>
			<fpage>19</fpage>
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					<license-p>This is an Open Access article distributed under the terms of the
						Creative Commons Attribution Non-Commercial License which permits
						unrestricted noncommercial use, distribution, and reproduction in any medium
						provided the original work is properly cited.</license-p>
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			<abstract>
				<sec>
					<title>RESUMO</title>
					<p>Este trabalho visa apresentar os resultados de uma pesquisa de mestrado que
						analisa a dinâmica de adequação do espaço e do tempo escolares em escolas
						públicas municipais de Caruaru-PE, sob a indução do programa <italic>Mais
							Educação</italic>. Para tanto, realizamos entrevistas com gestores
						escolares de quatro escolas da rede municipal de Caruaru visando identificar
						quais as estratégias desenvolvidas para a ampliação da jornada, os espaços
						utilizados e as justificativas de sua materialização. Constatamos a
						existência de manipulações de tempo e espaço no interior das escolas como
						condição para contemplar parte das normas do programa. Assim,
						estrategicamente, truques de gestão que revelam encurtamentos são realizados
						na oferta formativa, os quais desqualificam a educação pública e tornam a
						ampliação da jornada um mito no Brasil.</p>
				</sec>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<sec>
					<title>ABSTRACT</title>
					<p>This paper aims to present the results of a master's research that analyzes
						the dynamics of school space and time adjustment in municipal public schools
						in Caruaru-PE, under the induction of the <italic>Mais Educação</italic>
						#091;More Education#093; program. For that, we conducted interviews with
						school administrators from four schools of the Caruaru municipal network to
						identify the strategies developed for the extension of the journey, the
						spaces used and the justifications for their materialization. We verified
						the existence of manipulations of time and space inside the schools as a
						condition to contemplate part of the program norms. Thus, strategically,
						management tricks that reveal shortenings are realized in the training
						offer, which disqualify the public education and make the extension of
						journey a myth in Brazil.</p>
				</sec>
			</trans-abstract>
			<kwd-group>
				<title>Palavras-Chave:</title>
				<kwd>Mais Educação</kwd>
				<kwd>tempo-espaço escolar</kwd>
				<kwd>ampliação de jornada</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group>
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Mais Educação</kwd>
				<kwd>school time-space</kwd>
				<kwd>extension of journey</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Este artigo busca contribuir com o debate histórico e intensificado nas últimas
				décadas acerca das políticas de educação (em tempo) integral no Brasil. Mais
				especificamente, busca desnaturalizar as justificativas apriorísticas em torno da
				ampliação dos tempos e espaços escolares como um valor pedagógico em si mesmo
				virtuoso, ou seja, deslocado do conjunto de relações sociais mais amplas
				(econômicas, políticas, culturais, dentre outras) que disputam e dão sentido a
				produção da escola.</p>
			<p>No que tange a produção bibliográfica sobre a temática da educação (em tempo)
				integral, notamos uma preocupação demasiada nos aspectos pedagógicos como chave
				exclusiva de compreensão da relação tempo-espaço escolar. Desta forma, partimos da
				hipótese que questiona essa primazia, uma vez que secundariza ou, na pior das
				hipóteses, despreza todas as determinações extraescolares da escola que interagem e
				participam da produção dos sentidos e funções atribuídos pelo tempo-espaço escolar.
				Explicamos: pouco se questiona como se relaciona o tempo-espaço escolar na oferta de
				jornada ampliada com as funções que a escola assume em seu território. Em geral, os
				debates pedagógicos tendem a tratar noções de tempo e espaço escolar (elementos que
				participam diretamente da formação de tipos de escola) como questões já
				resolvidas.</p>
			<p>Na contramão desta posição, os estudos de <xref ref-type="bibr" rid="B1">Algebaile
					(2009)</xref> apontam que a ampliação do acesso à escola por frações sociais
				dela excluídas se deu por meio de encurtamentos do tempo-espaço escolar mesmo na
				oferta formativa mais elementar do ensino. Esses encurtamentos se operacionalizaram
				por meio de manipulações no tempo e no espaço. Trata-se de um recurso de gestão de
				pronto-atendimento da demanda em larga escala e sem grandes esforços em outros
				setores que garantiram a ampliação da escola em termos quantitativos. Além do mais,
				ainda segundo a autora, esse processo contribuiu para a produção de um tipo de
				escola pública diferenciada da formação escolar das elites, a saber, amparada em
				funções sociais geralmente ligadas ao assistencialismo, voltada à gestão da pobreza
				e robustecida por programas que não necessariamente são de natureza pedagógica.</p>
			<p>Nesse sentido, acreditamos que, anterior à questão ‘O que se faz na escola?’, é
				preponderante entender ‘O que é a escola?’. Como se ajusta a escola em seus tempos-
				espaços escolares na dinâmica de ampliação da jornada? Quais funções são atribuídas
				a ela nessa dinâmica, considerando o território em que ela é constituída e
				constituinte?</p>
			<p>É sob a senda destas questões que buscamos neste trabalho superar estas formas de
				avaliação da política de educação (em tempo) integral (e da escola pública), em que
				a prerrogativa dos encurtamentos históricos no tempo-espaço escolar e sua relação
				com a formação dinâmica e inconclusa de funções voltadas à escola pública não possa
				ser relativizada.</p>
			<p>Para tal desafio, escolhemos o <italic>Materialismo Histórico e Dialético</italic>
				como referencial teórico-metodológico e político-ideológico, por entendermos que
				tanto em sua filosofia onto-histórica como na lógica de análise dialética estão
				abertas as possibilidades de reprodução do movimento ideal do objeto em suas
				múltiplas determinações (<xref ref-type="bibr" rid="B22">NETTO, 2011</xref>). Ou
				seja, esse referencial torna possível investigarmos a escola a partir do que “se faz
				nela, por meio dela, na relação com ela, seja isso educação ou não” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B1">ALGEBAILE, 2009</xref>, p. 29). No caso do objetivo
				principal deste trabalho - que visa compreender a dinâmica de ampliação dos
				tempos-espaços escolares e as funções sociais atribuídas às escolas de Caruaru -,
				faz-se necessária antes uma descrição das particularidades e determinações mais
				gerais do Programa Mais Educação e da estratégia dos <italic>territórios
					educativos</italic> junto à problemática do tempo-espaço e funções da escola,
				tarefa que empreenderemos a seguir.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>1. Programa Mais Educação, Territórios Educativos e o debate sobre tempo-espaço
				escolar: (novos) truques na escola pública brasileira?</title>
			<p>O Programa Mais Educação (PME), um dos quarenta programas previstos pelo Plano de
				Desenvolvimento da Educação (PDE), vem sendo a política indutora de um modelo
				contemporâneo de escola (em tempo) integral, com o mínimo de sete horas diárias para
				a promoção de atividades relacionadas a: acompanhamento pedagógico; educação
				ambiental; esporte e lazer; direitos humanos em educação; cultura e artes; dentre
				outras.</p>
			<p>Desde a sua instituição na Portaria Interministerial nº 17 <xref ref-type="bibr"
					rid="B10">(BRASIL, 2007b)</xref> e, posteriormente, sua regulação por meio do
				Decreto nº 7.083 (<xref ref-type="bibr" rid="B5">BRASIL, 2010</xref>), o programa
				vem sendo legitimado por meio de um aparato jurídico-institucional mais amplo, como
				é o caso da Proposta de Emenda à Constituição - PEC n. 134/07 (<xref ref-type="bibr"
					rid="B12">BRASIL, 2007c</xref>), que propõe implantar o mínimo de sete horas
				diárias em todas as escolas da educação básica, tomando a estratégia indutora do
					<italic>Mais Educação</italic> como referência. O referido programa também
				inspira o Plano Nacional da Educação - PNE (<xref ref-type="bibr" rid="B7">BRASIL,
					2014</xref>), que prevê a oferta de educação em tempo integral para 50% das
				escolas públicas de educação básica até 2024 e o Programa Ensino Médio Inovador,
				sinalizando a replicação desse projeto de ampliação da jornada escolar também para o
				ensino médio.</p>
			<p>Segundo os principais formuladores da proposta, dentre eles <xref ref-type="bibr"
					rid="B21">Moll (2007)</xref>, a prerrogativa básica para uma escola atualizada
				em relação aos problemas, necessidades e anseios contemporâneos é a ampliação do
				próprio conceito de escola em seus tempos- espaços escolares, sintetizados sob o
				lema ‘educar e proteger integralmente’. Nesse sentido, além da ampliação do tempo
				para melhor proteger, a ampliação das oportunidades educativas busca realização na
				construção de territórios educativos<italic>.</italic> Essa é outra novidade do
				programa que orienta a reformulação do espaço escolar, buscando sua ampliação para o
				bairro e para a cidade, como orienta os princípios das <italic>Cidades
					Educadoras</italic><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>.</p>
			<p>Assim, esta modernização da escola pública, visando dar respostas contemporâneas aos
				antigos problemas da escolarização no Brasil, vem sinalizando positivamente para
				alterações significativas na dinâmica escolar. Por outro lado, seus objetivos
				apresentam-se subordinados a um conjunto de velhas estratégias de integração da
				pobreza por meio de medidas parcas e paliativas, como orienta a frente política
				neodesenvolvimentista dos governos petistas<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>
					(<xref ref-type="bibr" rid="B3">BOITO JR.; BERRINGER, 2013)</xref>.
				Historicamente, esse é um tipo de política assistencialista que procura compensar as
				profundas desigualdades socioeconômicas que “estruturam a extração de excedentes na
				periferia do capitalismo, <italic>sem confronto com o capital”</italic> (<xref
					ref-type="bibr" rid="B29">SINGER, 2012</xref>, p.13, grifos do autor).</p>
			<p>Isso ocorre porque uma escola pública com uma oferta igualitária em seus tempo-
				espaços escolares é uma bandeira histórica da classe trabalhadora no Brasil. Na
				verdade, mesmo havendo indicativos de expansão de projetos modernos (principalmente
				nos centros litorâneos do país), esses se mostraram de baixo alcance na medida em
				que o padrão de qualidade não se manteve na ampliação da quantidade. É o caso de
				experiências históricas, tais como: as escolas de <italic>sistema Platoon</italic>
				(escolas nucleares e parques escolares), também chamadas
					<italic>Escolas-Parque,</italic> construídas no Rio de Janeiro-RJ (1931- 1935);
				o <italic>Centro de Educação Carneiro Ribeiro</italic> em Salvador-BA (1947-1951);
				os <italic>Centro de Educação Elementar</italic>, implementados em Brasília-DF
				(1960-1964) e os <italic>Centros Integrados de Educação Pública</italic> (CIEPs),
				implementados em duas etapas no estado do Rio de Janeiro-RJ (1983/1986 e 1991 a
				1994).</p>
			<p>O descompromisso da burguesia brasileira com a oferta da uma educação igualitária e
				de qualidade fez com que estas escolas ficassem restritas a uma parcela pequena da
				população, coexistindo com a produção de escolas precárias para a maioria dos
				estudantes. Isso implica dizer que essa oferta formativa diferenciada em seus tempo-
				espaços é um forte traço de classe social no país, que serve tanto para interditar o
				acesso da classe trabalhadora ao conhecimento sistematizado como para ajustar a
				escola pública brasileira à fluidez e às mudanças das orientações hegemônicas.</p>
			<p>Podemos constatar que a produção de ajustes e encurtamentos no tempo-espaço escolar
				sempre foi orgânica à história educacional brasileira em seus projetos e estratégias
				de promoção da ‘diferenciação da oferta’ (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ALGEBAILE,
					2009</xref>). Os estudos de <xref ref-type="bibr" rid="B23">Nunes (1996)</xref>
				sobre as instituições escolares no Rio de Janeiro na década de 60, por exemplo,
				confirmaram que a escola como equipamento público estruturado era realidade de
				poucos prédios no centro da cidade, pois predominava a política precária de aluguel
				de casas para dar conta das matrículas.</p>
			<p>Na década de 1960 metade dos prédios escolares era ainda de adobe, madeira, taipa ou
				material similar. “13.946 tinham piso de terra; 79.604 não tinham qualquer
				abastecimento de água; 61.324 não tinham instalações sanitárias” (idem). Já 52.136
				estabelecimentos de ensino não dispunham de espaços para práticas recreativas
				típicas dos intervalos escolares. Longe de representarem questões superadas ou
				vinculadas ao passado, as soluções de pronto-atendimento da demanda escolar, por
				meio de ajustes (encurtadores) no tempo-espaço da escola, passaram a ser
				sistematicamente utilizadas como recursos de ação em diversas administrações
				públicas no final do século XX e início do século XXI, inclusive alcançando o âmbito
				institucional.</p>
			<p>Na década de 90 foi a vez da difusão de programas voltados à aceleração da
				aprendizagem e correção de fluxo escolar. Esses programas aprofundam a
				diversificação da oferta formativa através do encurtamento do percurso escolar.
				Outra estratégia amplamente executada, esta última a nível municipal, foi o
					<italic>tresdobramento</italic><xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref> de turnos
				ou, como ficaram conhecidos, <italic>turnos da fome</italic>. Ao acrescentar mais um
				turno no período diurno, das 11h às 14h ou 15h, realiza-se o truque de “transformar
				o mínimo de quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula em máximo de horas de
				atividade educativa escola” (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ALGEBAILE, 2009</xref>,
				p. 294). Essa ampliação do número de turnos possibilitando incorporar mais turmas à
				escola resulta no encurtamento do tempo pedagógico, ou seja, há um ajuste dos tempos
				escolares para atender a demanda por novas matrículas.</p>
			<p>Em paralelo às manipulações de tempo mencionadas, ocorreram também ajustes e
				encurtamentos no espaço escolar. O truque da incorporação de mais crianças no turno
				da fome, por exemplo, fez com que algumas escolas em municípios e bairros mais
				precários sofressem com a superlotação e instituíssem a conhecida política de
				anexos, usando espaços próximos à escola ou mesmo readequando seu ambiente
				interno.</p>
			<p>Uma expressão atual desta estratégia de produção da escola pública brasileira pode
				ser observada na cidade de São Paulo<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>, onde
				novas fórmulas de ajustes no tempo- espaço escolar da rede pública de educação estão
				sendo postas em prática sob a administração do governo de Geraldo Alckmin. A medida
				que ficou conhecida como a <italic><ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://www.cartacapital.com.br/educacao/ocupacao-de-escolas-coloca-reorganizacao-em-xeque/"
						>reorganização</ext-link> do ensino público paulista</italic><xref
					ref-type="fn" rid="fn5">5</xref> encontrou forte resistência dos estudantes e
				foi provisoriamente interrompida em 2016. A proposta visava o fechamento de 92
				escolas e a transferência de 310 mil alunos da rede pública municipal. Apesar do
				recuo da secretaria, no ano seguinte, 1.043 turmas foram fechadas sem qualquer aviso
				prévio à comunidade, fazendo com que centenas de crianças se deslocassem cerca de
				quatro quilômetros para chegar à escola. Isso demonstra que os velhos mecanismos de
				encurtamentos e ajustes podem ser atualizados em novas práticas.</p>
			<p>Em estudos mais recentes, a saber, <xref ref-type="bibr" rid="B25">Rosa (2011)</xref>
				e <xref ref-type="bibr" rid="B28">Silva (2013)</xref>, temos encontrado a
				demonstração de novos truques de ajustes do tempo-espaço escolar instrumentalizados
				e institucionalizados no campo educativo. Alguns deles apontam que a tendência
				maisrecente vem dando-se no campo das políticas de ampliação do tempo escolar. Nesse
				caso, a utilização de espaços extraescolares na jornada ampliada, justificada
				através de teorias pedagógicas consideradas progressistas, vem escamoteando a
				ausência de investimento na infraestrutura física da escola para a educação (em
				tempo) integral.</p>
			<p>Nesse sentido, trata-se de um refinamento das estratégias que operam por truques e
				ajustes na produção da escola pública brasileira. Esses truques em sua aparição
				(pós)moderna assumem diversas nomenclaturas progressistas, tais como: territórios
				educativos, cidades educadoras, bairro-escola, etc. Sua expressão de maior destaque
				no contexto brasileiro é o PME do governo federal. Essa é a nova face da escola da
				pobreza que, imbuída por teorias e correntes pedagógicas de maior aceitação no campo
				educacional, tenta camuflar os encurtamentos de seus tempos-espaços como uma de suas
				faces históricas mais precárias. O desvelamento de sua aparência progressista e
				necessária é o intento a que nos prestamos a realizar na seção seguinte.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2. Estrutura socioeconômica e escolar de Caruaru como chaves analíticas dos
				truques</title>
			<p>Nesta seção pretendemos apresentar as inúmeras estratégias operacionalizadas pelos
				gestores visando à ampliação do tempo-espaço escolar, como orienta o PME. As escolas
				investigadas estão situadas em áreas do campo e da cidade e compõem parte da rede
				municipal de Caruaru em Pernambuco. Escolhemos quatro escolas da rede municipal
				através dos seguintes critérios:</p>
			<table-wrap id="t2">
				<label>Quadro 1</label>
				<caption>
					<title>Escolas escolhidas para pesquisa de campo</title>
				</caption>
				<table frame="box" rules="all">
					<colgroup>
						<col width="33%"/>
						<col width="33%"/>
						<col width="33%"/>
					</colgroup>
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" valign="top">LOCALIZAÇÃO DAS<break/>ESCOLAS</th>
							<th align="left" valign="top">QUANTIDADE</th>
							<th align="left" valign="top">CRITÉRIOS</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td rowspan="2" align="left" valign="top">
								<bold>Escolas urbanas</bold>
							</td>
							<td rowspan="2" align="left" valign="top">2 (duas)</td>
							<td align="left" valign="top">1 (uma): Maior escola urbana</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">1 (uma): Menor escola urbana</td>
						</tr>
						<tr>
							<td rowspan="2" align="left" valign="top">
								<bold>Escolas do campo</bold>
							</td>
							<td rowspan="2" align="left" valign="top">2 (duas)</td>
							<td align="left" valign="top">1 (uma): Maior escola do campo</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">1 (uma): Menor escola do campo</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</table-wrap>
			<p>Como veremos, as estratégias de ampliação do tempo requerem a operação de truques e
				ajustes internos da escola para atender às demandas do programa, mas também
				repercutem, dialeticamente, no plano pedagógico (ensino-aprendizagem) e escolar
				(funções da escola no território). Comecemos por tratar dos aspectos socioeconômicos
				e escolares do território caruaruense como mediações necessárias à compreensão do
				objeto. Caruaru é um <ext-link ext-link-type="uri"
					xlink:href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Munic%C3%ADpio">município</ext-link>
				<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil"
					>brasileiro</ext-link> do estado de <ext-link ext-link-type="uri"
					xlink:href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Pernambuco">Pernambuco</ext-link>
				situado na região do Agreste. Caracteriza-se por ser a cidade mais populosa e
				influente do interior do estado, traços que lhe renderam os títulos de Capital do
				Agreste. O município, que se encontra a 130 km do <ext-link ext-link-type="uri"
					xlink:href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Recife">Recife</ext-link>, tem,
				segundo dados do IBGE (2010), uma população residente de 314.912 habitantes que
				vivem numa área territorial de 921 quilômetros quadrados. Isso seria equivalente a
				quase 1% de todo o território pernambucano.</p>
			<p>Do ponto de vista do trabalho e de seu modelo econômico, o município integra o
					<italic>Pólo de Confecções do Agreste</italic> (artigos de vestuário), sendo
				este o principal arranjo produtivo local, forma dominante de trabalho e de oferta de
				emprego. Segundo dados do <xref ref-type="bibr" rid="B26">Sebrae (2012)</xref> o
				trabalho nas confecções é 2,5 vezes maior que a contribuição conjunta de todos os
				setores industriais para o emprego em Caruaru. Essa atividade absorve 9% da
				população ativa no município. Esse número representa mais que o dobro da absorção
				dessa atividade no estado (menos de 4%) e vem crescendo, já que no periodo de 2002-
				2010 aumentou em mais de 90% (idem).</p>
			<p>A alta capilaridade e a elevação do PIB do município, no entanto, escondem as marca
				do atraso e do trabalho precário que constituem essa forma de produção. Suas
				principais características são: a predominância “#091;...#093; de micro e pequenos
				empreendimentos; a divisão do trabalho produtivo entre empresas e facções; a alta
				incidência da informalidade; e a produção majoritária de artigos de consumo popular”
				(ibidem, p. 16).</p>
			<p>O peso da informalidade é tão forte na produção de confecções que ela se expressa nos
				dois segmentos da unidade produtiva. Esta é constituída por: a) empresas (fabricos):
				realizam a etapa de acabamento no processo produtivo (produtos finais), geralmente
				em locais próprios para esse tipo de produção; possuem recursos mais modernos e
				complexos; predomina o vinculo empregatício assegurado; b) empreendimento
				complementar (ou facção): realizam etapas primárias do processo produtivo das
				confecções; produzem em domicílios do próprio conjunto familiar; dispõem de recursos
				instrumentais mais simples e de menor grau de tecnologia; não possuem vínculo
				empregatício. Há uma grande incidências de mulheres e jovens nesse último segmento,
				também caracterizado pela baixa remuneração, devido às condições ainda mais
				informais de trabalho (idem).</p>
			<p>Entendemos, portanto, que, apesar da informalidade estar presente nos dois segmentos,
				é possível notar que o trabalho realizado nas faccções tem características ainda
				mais arcaicas e danosas aos trabalhadores.</p>
			<p>Apesar disso, vêm ocorrendo em Caruaru processos que sinalizam dinâmicas de
				precarização do trabalho, como podemos verificar nos números. Um deles é a
				faccionalização das unidades produtivas. É possível verificar que o trabalho
				informal e realizado nas facções absorve quase 10% da população em idade ativa no
				município (idem).</p>
			<p>Em relação aos aspectos populacionais, esse número vem aumentando: 24% no período de
				2000-2010 (<xref ref-type="bibr" rid="B18">IBGE, 2010</xref>). No entanto, essa
				ampliação vem sendo acompanhada de sua má distribuição no território através de uma
				alta concentração populacional na sede, que possui uma extensão territorial bem
				menor que os distritos. É possível que a expansão do polo de confecções e de sua
				oferta de emprego tenha relação com essa ampliação da população urbana, por meio de
				fluxos migratórios do campo para a cidade. Por outro lado, também é possível que a
				urbanização desenfreada e a produção de uma população vulnerável resultante desse
				fenômeno também esteja sendo uma via funcional à expansão do trabalho informal,
				arcaico e precário das unidades produtivas, com ênfase nas facções, no território
				caruaruense.</p>
			<p>O impacto das condições de trabalho informal e precário das facções vem criando em
				Caruaru um cenário de profundas desigualdades. Tomando como referência a renda
				mensal domiciliar em salários mínimos, observamos que mais da metade dos domicílios
				investigado em Caruaru (51, 4%) sobrevive com até dois salários mínimos (idem). Este
				cenário é expressivo dos custos do valor-trabalho sob a forma das facções como
				trabalho dominante para a maioria. Esse tipo de trabalho vem produzindo no município
				uma alta concentração de renda que se expressa nos pouco mais de 5% dos domicílios
				com mais de 10 salários mínimos (idem).</p>
			<p>Buscamos também analisar dados escolares de Caruaru que nos fornecessem informações
				relacionadas à distribuição das escolas no território caruaruense. Um primeiro
				aspecto mais geral a ser evidenciado é a alta taxa de analfabetismo registrado no
				município em 2010: passa dos 15% (SEBRAE, op. Cit). Esse é um número que guarda
				intrínsecas relações com a forma constituinte e constituída do padrão produtivo e
				das demandas de qualificação para o trabalho dominante. Por outro lado, esse dado
				também ajuda a localizar as funções da escola no município.</p>
			<p>Já no que diz respeito às pessoas sem instrução nenhuma e/ou com ensino fundamental
				incompleto, estas representam 152.950, ou seja, 48,56% de sua população (IBGE, op.
				cit.). Dos 43.703 jovens com idade de 7-14 anos, 41.607 (95,2%) estão na escola
				(idem). Julgamos que a taxa de jovens com essa idade fora da escola é baixa no
				município.</p>
			<p>Pensando na relação entre trabalho e educação como um elemento indispensável na
				análise da interconexão entre perfil estudantil e formativo, temos os seguintes
				dados: dos 61.979 (23,3%) da população que frequenta a escola em Caruaru, 18.717
				(30%) possuem algum tipo de ocupação profissional. Já em relação aos 203.229 jovens
				que estão fora da escola, 127.548 (62,7%) possuem algum tipo de ocupação. Via de
				regra, parte destes jovens que estão fora da escola e/ou que trabalham e estudam é
				resultado da absorção rápida, viabilizada pela flexibilização e informalidade do
				vínculo do trabalho nas facções e fabricos que constituem parte significativa da
				economia caruaruense.</p>
			<p>Por último, buscamos problematizar os arranjos da oferta para o ensino fundamental no
				município. Assim, objetivamos compreender como vem sendo produzinda a escola pública
				na rede municipal no que tange ao ensino fundamental, considerando: a) número de
				matrículas; b) números de escolas; c) número de professores. Vejamos a tabela<xref
					ref-type="fn" rid="fn6">6</xref> abaixo:</p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Tabela 1</label>
				<caption>
					<title>Matrículas, docentes e escolas por ano - ensino fundamental de Caruaru
						(2007-2012)</title>
				</caption>
				<table frame="box" rules="all">
					<colgroup>
						<col width="25%"/>
						<col width="25%"/>
						<col width="25%"/>
						<col width="25%"/>
					</colgroup>
					<thead>
						<tr>
							<th align="left">ANOS</th>
							<th align="left">MATRÍCULAS</th>
							<th align="left">DOCENTES</th>
							<th align="left">ESCOLAS</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left">
								<bold>2007</bold>
							</td>
							<td align="left">25.614</td>
							<td align="left">948</td>
							<td align="left">123</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">
								<bold>2009</bold>
							</td>
							<td align="left">26.532</td>
							<td align="left">984</td>
							<td align="left">118</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">
								<bold>2012</bold>
							</td>
							<td align="left">27.895</td>
							<td align="left">1028</td>
							<td align="left">116</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: Secretaria Municipal de Educação de Caruaru (2016)</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>Acreditamos que esta diminuição do número de escolas, a despeito do aumento do número
				de matrículas (como mostra a tabela acima), é um fator fundamental para
				problematizarmos a qualidade da oferta de tempo-espaço escolar para a educação (em
				tempo) integral no município.</p>
			<p>Além do mais, a ampliação do número de alunos em detrimento do número de escolas
				tende a gerar um inchaço nas instituições escolares. Sem falar que muitas destas
				escolas com o PME passaram a incluir em seus espaços alunos dos dois turnos o dia
				todo. A disponibilidade de espaços, portanto, tende a ser um fator decisivo nas
				formas de reformulação do tempo e do espaço escolar para a educação (em tempo)
				integral do PME e dos territórios educativos. Nesse caso, passemos a análise das
				estratégias de ampliação nas quatro escolas investigadas.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3. Os truques dos gestores para a oferta da jornada ampliada em escolas de
				Caruaru.</title>
			<p>Nesta seção apresentaremos os dados da pesquisa que demonstram a dinâmica de
				ampliação dos tempos-espaços escolares nas escolas de Caruaru, destacando os truques
				utilizados pelos gestores no processo de ampliação. De maneira mais abrangente,
				observamos que a ampliação do tempo-espaço educativo não vem ocorrendo para além dos
				muros da escola, como orienta a estratégia dos territórios educativos do PME. Na
				verdade, identificamos que, tanto no nível da compreensão como no das estratégias
				implementadas e suas justificativas, os eixos balizadores da proposta são
				invertidos, abandonados e ressignificados em novas fórmulas.</p>
			<p>Esse movimento contraditório pode ser identificado como uma produção às avessas dos
				territórios educativos nas escolas. No entanto, identificamos também que ‘às
				avessas’ é apenas a expressão imediata e fenomênica dessa dinâmica. Em essência, a
				forma da ampliação dos tempos-espaços escolares reproduz as contradições inscritas
				na produção dos tempos-espaços sociais em Caruaru. Chegamos a estas conclusões
				através das mediações que apresentaremos a seguir.</p>
			<p><bold>3.1. Valorização da instituição escolar como espaço atrativo, seguro e
					doméstico</bold></p>
			<p>A valorização da escola é o resultado da forma como os gestores compreendem e
				subordinam a oferta escolar da educação (em tempo) integral defendida nos documentos
				às finalidades instituídas pelo contexto socioespacial do qual a escola faz parte e
				adotadas, particularmente, como de responsabilidade escolar. As finalidades
				relacionadas à educação (em tempo) integral identificadas foram: a) acesso a bens e
				serviços, b) proteção da rua; c) combate ao trabalho infantil; d) educação doméstica
				(disciplina); e) preenchimento do tempo ocioso. Observemos o quadro abaixo:</p>
			<table-wrap id="t3">
				<label>Quadro 2</label>
				<caption>
					<title>Compreensão das finalidades da educação</title>
				</caption>
				<table frame="box" rules="all">
					<colgroup>
						<col width="10%"/>
						<col width="90%"/>
					</colgroup>
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" valign="top">FINALIDADE</th>
							<th align="left" valign="top">FALA DOS GESTORES</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">
								<bold>Acesso a bens e</bold>
								<break/>
								<bold>serviços</bold>
							</td>
							<td align="left" valign="top">"[...] Então, na escola ele vai servir
								também de apoio ali, de ele ter professor, aquele monitor, tem um
								colega pra conversar, tem almoço, como você disse, tem o banho, tem
								aquela troca, tem o que ele tá sendo aproveitado" (GESTOR 1, 2014)
								.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">
								<bold>Proteção da rua</bold>
							</td>
							<td align="left" valign="top">"[...] a criança quando está na escola ela
								tem um aprendizado. Ela não está na rua" (GESTOR 3, 2014).</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">
								<bold>Combate ao trabalho</bold>
								<break/>
								<bold>infantil</bold>
							</td>
							<td align="left" valign="top">"Antes eles passavam o dia na agricultura,
								trabalhando e agora não, eles passam o dia na escola" (GESTOR 4,
								2014).</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">
								<bold>Educação doméstica</bold>
							</td>
							<td align="left" valign="top">"[...] eles têm aquela disciplina,
								entendeu? Eles ficam mais... é... a gente observa que muda o
								comportamento de muitos ali. Muitas coisas que a gente já faz que a
								escola que é responsável de tudo, né? Hoje em dia dá educação
								doméstica, de tudo" (GESTOR 1, 2014).</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">
								<bold>Preenchimento do</bold>
								<break/>
								<bold>tempo ocioso</bold>
							</td>
							<td align="left" valign="top">"[...] o tempo dele está sendo utilizado
								em áreas esportivas, de adquirir mais conhecimento, de ele estar em
								uma aula de música, de ele estar envolvido como alguma outra coisa,
								ele está fora do mundo das drogas..." (GESTOR 3, 2014).</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</table-wrap>
			<p>Considerando as diversas ausências e contradições já conhecidas nos territórios
				brasileiros, o estabelecimento dessas finalidades como escolares valoriza sua
				presença enquanto equipamento social. Renova-se a velha crença salvacionista da
				escola para incluir os mais pobres que remonta aos ideais escolanovistas. Seu
				resgate vem se hibridizando com a orientação moralista e disciplinadora, mais
				afinada com os ideais da escola tradicional presente nas falas dos sujeitos. Esses
				aspectos levam os gestores a opinarem contrariamente à ampliação dos espaços
				escolares para fora das escolas, como podemos observar na fala do Gestor 3 (2014):
				“#091;...#093; o menino tem que estar inserido na escola. Passando o dia todo na
				escola ele está aprendendo coisas boas”.</p>
			<p>No que tange ao que é preconizado nos documentos, a valorização escolar é mais uma
				inversão operada na proposta original pelas seguintes razões: nos documentos
				identificamos que a missão dos territórios educativos é ser uma alternativa para o
				problema do centralismo escolar através de uma rede de cooperação de pessoas, tempo,
				saberes e espaços nas cidades com a “finalidade de ampliar as possibilidades de
				aprendizagem e a qualidade de vida de um determinado local” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B16">ESCOLA APRENDIZ, 2011</xref>, p. 37).</p>
			<p>Inclusive os documentos dão orientações contrárias à “proposta de retirar a criança
				das ruas a fim de protegê-la dos perigos da convivência com os estranhos” (ibidem,
				p. 9), dizendo que “#091;...#093; faz-se necessário e urgente que as cidades
				possibilitem às crianças saírem às ruas, adquirindo autonomia na sua relação com o
				território” (idem). Identificando que isso não vem sendo realizado, os gestores
				invertem a relação alternativa-problema, passando agora à presença e afirmação da
				instituição escolar como alternativa para os problemas identificados nos territórios
				e nas cidades.</p>
			<p>Essa inversão, operada no plano das finalidades implica em outra inversão, agora, no
				âmbito da forma da oferta, a saber, a promoção da educação comunitária. Tal
				promoção, encarada nos documentos como um ideal/objetivo a ser perseguido na
				proposta dos territórios educativos, é ressignificada pelos gestores e passa a ser
				meio para a legitimação das finalidades de proteção, disciplinamento, formação moral
				e acesso a bens e serviços, os quais legitimam a valorização do espaço escolar.
				Nessa ressignificação, no entanto, os princípios que orientam a oferta de uma
				educação comunitária são reduzidos a questões didático-curriculares e organização da
				oferta para fomentar atividades identificadas como não-tradicionais e deixar o
				ambiente escolar apenas mais atrativo. É o que podemos observar, por exemplo, na
				fala do Gestor 4 (2014): “#091;...#093; Agora sim, a pintura é uma coisa diferente.
				E eles irão ficar encantados com essa nova oficina. Isso tudo é novidade para
				eles”.</p>
			<p>O aspecto diferencial da oferta, no entanto, vem sendo a incorporação de atividades
				mais lúdicas no contraturno que vem permitindo aos gestores diminuir taxas de evasão
				no momento em que a escola passa a ser um ambiente mais atrativo para os jovens.
				Isso pode ser constatado quando verificamos o perfil das atividades das escolas
				através de seus planos de atendimentos e observamos que dentre os dez macrocampos
				disponíveis os mais utilizados nas escolas são: a) <italic>Cultura e Artes</italic>
				com seis atividades, sendo: peças teatrais, dança, capoeira, instrumento de corda,
				percussão e flauta doce<italic>;</italic> b) <italic>Esporte e Lazer</italic> com
				três atividades, sendo: judô, recreação e tênis de mesa<italic>.</italic> Assim,
				ficam de fora os macrocampos mais conteudistas, formalizados e menos
				atrativos/recreativos dentro do universo infantil, tais como: a) <italic>Direitos
					Humanos em Educação</italic>; b) <italic>Cultura Digital</italic>; c)
					<italic>Iniciação à Investigação das Ciências da Natureza</italic>; d)
					<italic>Educação Econômica</italic>.</p>
			<p><bold>3. 2. Rebaixamento de critérios de qualidade dos tempos-espaços
					educativos</bold></p>
			<p>Neste quesito identificamos que as escolhas que os gestores vêm fazendo dos espaços
				são muito mais consequências das limitações estruturais e das <italic>normas
					locais</italic> presentes tanto no território como na escola do que expressões
				de uma vontade individual ou coletiva daqueles que compõem a escola.</p>
			<p>Desse modo, os critérios relatados para as escolhas dos espaços, ao invés de estarem
				orientados para as “potencialidades educativas do território” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B16">ESCOLA APRENDIZ, 2011</xref>, p. 25), como orientam os documentos,
				priorizam elementos mínimos que deveriam já estar garantidos como meios para se
				promover a educação. Grosso modo, a oferta às avessas se caracteriza aqui como o
				abandono dos fins (mapeamento dos espaços através de redes comunitárias como
				procedimentos educativos) originalmente previstos pelo programa e a instituição dos
				meios mínimos (que já deveriam estar garantidos) como os novos fins referenciadores
				para a escolha dos espaços, a saber: a) localização; b) condições físicas; c)
				custos.</p>
			<p>Para o critério localização, dois elementos são citados pelos gestores: a) distância
				da escola; b) proteção.</p>
			<table-wrap id="t4">
				<label>Quadro 3</label>
				<caption>
					<title>Justificativas do critério localização</title>
				</caption>
				<table frame="box" rules="all">
					<colgroup>
						<col width="10%"/>
						<col width="90%"/>
					</colgroup>
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" valign="top">LOCALIZAÇÃO</th>
							<th align="left" valign="top">FALA DOS GESTORES</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">
								<bold>Distância da escola</bold>
							</td>
							<td align="left" valign="top">"[...] A gente faz no teatro porque é aqui
								pertinho, no entorno da escola" (GESTOR 1, 2014).</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">
								<bold>Proteção</bold>
							</td>
							<td align="left" valign="top">"[...] A gente também tem que prezar pela
								segurança dos meninos" (GESTOR 3, 2014)<break/>&#x00A0;<break/>"Eles
								não iriam se sentir seguros [...] se a gente pegasse essas crianças
								e levasse para outros espaços" (GESTOR 2, 2014).</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</table-wrap>
			<p>Estes subcritérios que orientam a escolha dos espaços pela localização evidenciam uma
				preocupação dos gestores com os riscos que podem ser encontrados fora da escola, uma
				vez que essa questão da ampliação dos espaços escolares para a cidade não é vista
				como uma opção segura. Mesmo quando saem, como aponta Gestor 1 (2014), tem que ser
				‘pertinho’ e num local fechado, como é o caso do teatro. As opções por lugares
				fechados e que estejam num raio de ação da tutela escolar são evidências que remetem
				à ideia de ‘instituições panópticas’ de <xref ref-type="bibr" rid="B2">Bentham
					(2000)</xref>. Agora, a escola passa a vigiar os alunos mesmo quando estão em
				outros espaços do território. Esse sentido de controle e disciplina é mais um
				elemento que se distancia do que é apontando nos documentos, uma vez que uma das
				prerrogativas básicas do PME é a superação de práticas de controle nas escolas, por
				meio da “#091;...#093; transformação do currículo escolar ainda tão impregnado das
				práticas disciplinares da modernidade” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">BRASIL,
					#091;2014?#093;</xref>, p. 5).</p>
			<p>Já em relação ao critério condições físicas, os gestores consideram como fundamentais
				questões ligadas a: a) adequação dos espaços às atividades; b) tamanho; c)
				infraestrutura, como podemos visualizar na fala de Gestor 2 (2014): “#091;...#093;
				Assim eu não vou colocar os alunos, por ordem até da secretaria em um lugar que não
				tem condições”. Gestor 1 (2014), na mesma senda, afirma: “#091;...#093; A gente
				ensaia na sala do professor que é grande #091;...#093; na quadra, nas salas embaixo
				da quadra que são maiores”.</p>
			<p>O fato é que esse truque permite adentrar outros espaços da escola que servem para
				funções importantes no contexto escolar, como: refeitório, banheiros, almoxarifado,
				secretarias, depósitos, calçadas das escolas, lavanderia, cozinha, entre outros.</p>
			<p>Se pensarmos que as experiências educacionais da década de 50, levadas a frente
				principalmente por Anísio Teixeira, que consideravam como primordiais a construção
				de uma arquitetura escolar funcional às demandas e objetivos educativos, foram um
				grande avanço no campo das políticas educacionais, podemos afirmar que estamos
				diante de uma regressão de mais de 70 anos quando esta questão é simplesmente
				relativizada nos documentos do PME e abandonada nas normas locais.</p>
			<p>Por último, os gestores também mencionaram a questão dos custos como critério de
				escolha dos espaços. Mais especificamente, é Gestor 2 (2014) que trata dessa questão
				quando diz: “#091;...#093; então, o clube dos bancários estava disponível. E no
				valor melhor para aluguel e tudo. Tudo que é necessário para o funcionamento do
				projeto com um aluguel de baixo custo”.</p>
			<p>Identificamos que a fala do gestor traduz três questões inter-relacionadas. A
				primeira delas é que se identifica outra forma de pronto-atendimento da demanda na
				ampliação dos tempos-espaços através da locação de espaços em entidades privadas. Em
				um nível mais imediato, isso implica dizer que vem havendo o repasse direto de
				fundos públicos na forma de consumo de serviços para setores privados. Em um nível
				mais local, a segunda questão diz respeito ao excedente de poder que esse processo
				pode vir a gerar para tais entidades, permitindo que ampliem seus horizontes de
				influência no território utilizando-se da capilaridade da escola como moeda de
				troca.</p>
			<p>Por último, a busca pelo mais barato é próprio da lógica gerencial já bem acomodada
				na educação que amarra o parco financiamento ao cumprimento de metas, punindo as
				escolas quando improdutivas. Isso gera a sistematização de práticas produtivistas na
				escola por intermédio da gestão que reforça e amplia as formas de minimalismos na
				educação para gerir questões tão complexas e de ordem estrutural que envolvem o
				conjunto da sociedade. Esse quadro guarda familiaridades com o que prega o
					<italic>Movimento Todos Pela Educação:</italic> que os recursos para educação
				são suﬁcientes e que o problema da educação no Brasil relaciona-se com a falta de
				eﬁciência e de instrumentos técnico-operacionais que permitam torná-la mais
				produtiva (<xref ref-type="bibr" rid="B4">BRASIL, 2007a</xref>).</p>
			<p><bold>3.3. Manipulações no espaço-tempo escolar: encurtamentos, precarizações e
					informalizações</bold></p>
			<p>Localizamos que é a partir das mediações referentes ao campo das estratégias
				desenvolvidas pelos gestores para a ampliação do tempo-espaço que o fenômeno de
				ampliação às avessas da oferta dos territórios educativos é mais expressivo. Para
				que a ampliação desse alcance intraescolar ocorra, os gestores tornam sistemáticos
				ajustes que, se por um lado permitem o alargamento do atendimento da demanda com
				urgência, por outro trazem sérios prejuízos ao espaço, tempo e conhecimento
				escolar.</p>
			<p>A primeira delas, como não poderia deixar de ser, diz respeito aos ajustes que são
				realizados no próprio espaço escolar, com a produção de novos espaços precários e
				informais no interior da escola. A intenção é reformular o espaço interno,
				ampliando-o e nomeando estes novos espaços como educativos. Esse processo é
				realizado de diversas maneiras, por exemplo, adaptando, adequando e improvisando
				espaços ou realizando pequenas reformas na escola. A fala de Gestor 1 (2014) é
				expressiva destes ajustes quando afirma: “#091;...#093; mesmo que não tenha espaço,
				a gente vai ter que criar um espaço. A gente desativa uma sala, a gente coloca um
				biombo, coloca um cercado”.</p>
			<p>No caso das escolas investigadas, esta forma improvisada e precária de produção de
				espaços educativos vem produzindo uma espécie de escolas-de-improviso. Se antes, a
				informalização da educação tinha como uma de suas expressões a utilização de locais
				fora da escola, agora eles vão para dentro do ambiente escolar sob a configuração de
				adaptação e improvisação de novas áreas, fracionando ainda mais o território
				escolar. Dentre os espaços mais utilizados pelos gestores encontramos: pátio
				externo, refeitório, pátio, área de entrada, corredor, salas dos professores,
				anexos, garagens, calçada da escola e terrenos baldios.</p>
			<p>No que tange às outras estratégias fundamentais para a reconfiguração dos espaços
				internos da escola os gestores apontaram os ajustes no tempo escolar como um apoio
				necessário nessa empreitada, como podemos observar na fala de Gestor 1 (2014):
				“#091;...#093; A gente conseguiu adequar o horário do recreio, o horário do lanche
				dos meninos #091;...#093; A gente utiliza até o horário do intervalo para agregar
				todo mundo”. Também expressando ajustes no tempo escolar, Gestor 4 (2014) afirma:
				“#091;...#093; A adequação dos espaços para a atividade foi a questão do horário,
				para que uma oficina não chocasse uma com a outra”.</p>
			<p>Como vimos nas primeiras seções deste trabalho, formas e práticas de ajuste no tempo
				de aprendizagem não são fenômenos novos. Remontam até mesmo às primeiras décadas do
				século passado no governo de Washington Luiz no Estado de São Paulo (1905), no qual
				a redução da jornada escolar foi um recurso de ação que possibilitou liberar espaço
				para ampliar o alcance da oferta (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ALGEBAILE,
					2009</xref>).</p>
			<p>Nesse caso do PME nas escolas, o encurtamento e o fracionamento do tempo escolar não
				está tão somente orientado para uma agregação padronizada de alunos na mesma oferta.
				Ao mesmo tempo, assume um caráter de segregação, demarcando horários, tempos e
				espaços para as atividades dos alunos regulares e dos alunos do <italic>Mais
					Educação</italic>. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B24">Pereyra
				(2014)</xref>, esse universo de controle rígido do tempo escolar vem sendo estudado
				pela <italic>cronobiopsicologia</italic><xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref> no
				que se refere a ajustes e configurações de tempos educativos “#091;...#093; de
				acordo com as características das aprendizagens e dos biorritmos dos educandos”
				(ibidem, p. 22).</p>
			<p>Conforme o exposto pelo autor, é possível levantar a hipótese de que a estratégia do
				PME nas escolas, considerando os limites espaciais já apontados, intensifica e
				obriga os gestores a produzir novas fórmulas de controle e organização rígida e
				fracionada do tempo para que as “duas escolas” não entrem em choque. Esse processo
				acaba por dar mais importância ainda ao tempo público, “derivado do tempo de corte
				industrial construído sobre o tradicional tempo do relógio linear e homogêneo”
				(ibidem, p. 23). Para disciplinar tecnicamente o ambiente escolar, concebe-se uma
				noção de tempo de aprendizagem reduzido ao tempo público dentro da escola. Esse é
				mais um aspecto das normas locais que inverte as proposições basilares da estratégia
				dos territórios educativos do PME, já que encontramos nos documentos a seguinte
				premissa: “Afinal, pelo olhar da Educação Integral o ‘tempo de aprender’ não está
				restrito ao tempo escolar” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">ESCOLA APRENDIZ,
					2011</xref>, p. 88).</p>
			<p>Quando as alternativas de tempo e espaço não são suficientes, os gestores combinam
				essas manipulações ao desenvolvimento de outras práticas complementares para liberar
				tempo e espaço. Uma delas, orgânica a esse movimento de reconfiguração interna dos
				tempos-espaços (territórios às avessas), é a que estamos denominando de manipulação
				das/nas turmas. No plano prático se expressa das seguintes formas: a) enturmação; b)
				revezamento. A fala de Gestor 2 (2014) é tributária da estratégia do enturmamento
				quando este diz: “#091;...#093; No espaço pequeno que a gente tem, cabem no máximo
				dez alunos. Mas a gente está tentando colocar dezoito”. Já a questão do revezamento
				das turmas ocorre da seguinte forma, presente no depoimento de Gestor 4 (2014):
				“#091;...#093; Tem um ônibus que vem buscar os alunos de manhã e à tarde e
				vice-versa. Tem este revezamento de outras turmas”.</p>
			<p>Práticas de aumento do número de alunos por turma vêm sendo uma tendência cada vez
				mais frequente no território brasileiro, evidenciada em estudos e debates da
				educação na atualidade. O caso da reorganização do ensino público paulista, por
				exemplo, vem se valendo de processos de enturmação como forma de racionalização dos
				custos e poupança de recursos humanos e físicos, produzindo, assim, microprocessos
				de privatização. Também podemos observar esse fenômeno principalmente em escolas do
				campo, como consequência do fechamento das unidades escolares de pequeno porte ou
				unidocentes (como são chamadas).</p>
			<p>Como esforço de síntese, podemos destacar que as particularidades da forma como se
				configura a ampliação do tempo-espaço nas escolas investigadas parecem, no plano
				imediato, sinalizar para uma ampliação às avessas. O caráter particular dessas ações
				se expressa nas inversões, rupturas e ressignificações dos princípios basilares da
				proposta do PME pelos gestores, nas dimensões da compreensão, justificativas e
				estratégias. No entanto, a análise aqui empreendida constatou que essa contradição
				interna (às avessas) dos tempos-espaços escolares é coerente com as contradições
				mais amplas e genéricas do tempo-espaço social no qual as escolas são constituintes
				e constituídas e, neste caso, aos truques de ajustes operados para camuflar a
				não-ampliação concreta dos tempos e espaços escolares como promete o PME. Nesse
				sentido, temos como truques:</p>
			<list list-type="bullet">
				<list-item>
					<p>Hipervalorização da presença da instituição escolar no território com
						atividades recreativas e esportivas para tornar o ambiente escolar mais
						atrativo e controlar taxas de evasão e rejeição ao programa;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>Moderação na definição dos critérios de qualidade dos tempos e espaços, tendo
						em vista os limites estruturais e condições de precariedade e informalidade
						dos territórios e das escolas;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>Criação, ressignificação e utilização de normas, regras, práticas e recursos
						de gestão para o ajuste necessário entre tempo e espaço escolar. Tais
						práticas acabam tornando-se novas formas de interdição nos tempos-espaços
						escolares da oferta igualitária do ensino público dentro da própria escola,
						impossibilitando o acesso equânime ao conhecimento historicamente acumulado
						por setores da sociedade.</p>
				</list-item>
			</list>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais: truques que não ampliam a jornada, mas, robustecem a
				escola</title>
			<p>A tese da configuração às avessas no plano fenomênico tem suas particularidades e
				determinações inscritas no movimento contraditório da realidade em que a escola está
				constituída e é constituinte em Caruaru. Isto confirma um pressuposto central do
				nosso trabalho, a saber, de que o movimento que constitui a configuração tempo e do
				espaço escolar está atrelado, contraditoriamente, ao movimento referente ao
				tempo-espaço social que se reflete nas funções escolares. Este trabalho pode
				constatar que tais funções guardam nexos dialéticos com inúmeras determinações do
				movimento histórico- contraditório de produção da escola pública, tais como: a)
				imposições hegemônicas formuladas no âmbito internacional de reestruturação da
				educação escolar em função do contexto de crise e recomposição do capital; b) nexos
				referentes à reconfiguração do papel e das responsabilidades do Estado,
				principalmente com a política social, na escala nacional e suas relações com as
				escalas estaduais e municipais para a gestão da pobreza, que vem ampliando as
				funções da escola para menos; c) nexos com propósitos políticos locais de ajuste da
				educação às necessidades de gestão da população.</p>
			<p>Neste caso, os truques utilizados pelos gestores escolares, os quais culminaram num
				processo de reconfiguração às avessas da ampliação do tempo-espaço educativo para a
				educação (em tempo) integral do PME, servem de evidência empírica da expressão de
				contradições basilares dos processos sociais e que, portanto, apesar de
				influenciarem, extrapolam o universo escolar. Para fins de delimitação deste
				trabalho podemos mencionar apenas três: a) a existência de um abismo entre a
				proposta dos territórios educativos e os limites estruturais materiais e imateriais
				em que se encontram a escola e o território do qual ela faz parte; b) a ampliação do
				tempo e/ou do espaço escolar, que, necessariamente, não resulta em ampliação das
				possibilidades aprendizagem; c) o desgoverno como marca da política educacional no
				Brasil, permitindo que ações locais se sobreponham aos objetivos mais amplos,
				inclusive, negando-os ou desvirtuando-os completa ou parcialmente.</p>
			<p>Estas contradições, intrínsecas à natureza dos processos sociais reconfiguradores dos
				tempos-espaços escolares (reunidos aqui neste estudo sob o termo “ampliação às
				avessas”), fazem com que a escola, ao se ajustar, através dos truques, redefina o
				horizonte de suas funções também no plano local. Nesse sentido, levantamos algumas
				(novas) funções que são atribuídas às escolas no processo de reconfiguração dos
				tempo-espaços escolares: 1) revitalização de espaços precários para tornar a escola
				uma mercadoria atrativa e melhorar o desempenho municipal nas estatísticas nacionais
				e internacionais (evasão e aprovação); 2) institucionalização de formas improvisadas
				e informais de contratação e organização do trabalho pedagógico, permitindo a
				economia de recursos e regulação do trabalho, sendo essa outra marca da “nova
				escola” dos pobres no agreste; 3) aperfeiçoamento das formas de diferenciação da
				oferta, através de novas formas de delimitação e controle dos potenciais perigos à
				coesão social, fazendo uma limpeza nos bairros mais periféricos com o recrutamento
				diurno (dois turnos) dos alunos dentro da escola.</p>
			<p>À guisa de conclusão, esperamos que as questões aqui levantadas incitem novas
				problematizações, estudos e debates entre gestores, educadores, pesquisadores,
				alunos, movimentos sociais, lideranças comunitárias, enfim, que contribuam para a
				discussão dos entraves e possibilidades da educação (em tempo) integral no Brasil,
				bem como os abismos entre a normas legais da educação e suas normas utilizadas nos
				territórios e nas escolas, acabando por reproduzir, dialeticamente, as desigualdades
				sociais no plano escolar. Ressaltamos a importância de ampliação e socialização do
				debate sobre as marcas de informalidade, improviso e precariedade presentes na
				natureza contraditória de produção da escola pública no país através de velhos
				truques, mas que podem assumir novos contornos, ainda mais quando o Estado
				brasileiro vem sinalizando o desejo de aprofundar a indução dessas estratégias como
				solução para a melhoria da educação pública.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Estratégia firmada em 1990 com o I Congresso Internacional de Cidades Educadoras,
					realizado em Barcelona. Desse congresso se originou, em 1994, a Associação
					Internacional das Cidades Educadoras (AICE). No congresso foram formulados 20
					princípios sistematizados em um documento intitulado “Carta das Cidades
					Educadoras: declaração de Barcelona” (1990).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Governo Lula (2003-2006/2007-2010); Governo Dilma (2011-2014).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Termo utilizado por Algebaile (2009) para caracterizar a cisão dos turnos
					escolares diurnos em 3 (três) ao invés de 2 (dois), contrariando às formas mais
					habituaais do processo de organização dos tempos escolares no Brasil.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>No período entre os anos de 2015-2016. Fonte:
					&lt;http://avaliacaoeducacional.com/2015/11/23/reorganizacao-paulista-copia-nova-york&gt;.
					Acesso em: 20/01/2016</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Para maiores detalhes, acessar o link:
						&lt;<italic>http://avaliacaoeducacional.com/2015/11/23/reorganizacao-paulista-copia-nova-york</italic>/&gt;
					Acesso em: 20/01/2016</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Os dados foram retirados dos três últimos censos divulgados no site do IBGE
					(2007; 2009; 2012).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Área de estudos dos ritmos biológicos. Vem sendo utilizada para definições dos
					ritmos e tempos necessários e eficientes de aprendizagem.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>Referências bibliográficas</title>
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					<person-group person-group-type="author">
						<name>
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							<given-names>Eveline Bertino</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source><bold>Escola Pública e Pobreza no Brasil</bold> - ampliação para
						menos</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
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							<surname>BENTHAM</surname>
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						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>O Panóptico ou a casa de inspeção</chapter-title>
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							<surname>SILVA</surname>
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					<source>O Panóptico</source>
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							<surname>BOITO</surname>
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