Como fazer imagens com palavras: sobre a imaginação semântica a partir da poética simbolista e sua apropriação no Ulisses de Joyce

Nazareno Eduardo de Almeida

Resumo


Resumo: Este artigo apresenta, de modo bastante geral, a hipótese da existência de uma operação da imaginação ao nível do sentido concernente aos termos e enunciados que compõem discursos. Deste modo, em contraste coma visão tradicional da imaginação, no presente texto sugere-se que a imaginação não se limita a criar ou a lembrar imagens extra-linguísticas, mas também é capaz de criar imagens linguísticas. Primeiramente, o texto apresenta sumariamente a necessidade de se aceitar a existência desta operação semântica da imaginação tanto para se poder explicitar adequadamente o caráter intersubjetivo da compreensão dos textos literários quanto para a tarefa mais geral de uma teoria abrangente das condições de sentido da linguagem em geral, bem como a importância de se tomar a sério o discurso literário (especialmente da literatura de vanguarda) como lugar-limite da significação discursiva capaz de ajudar na tarefa de "verificação" desta mesma teoria. Em seguida, apresento uma análise do simbolismo na literatura como primeiro movimento de vanguarda literária em que a imaginação semântica pode ser explicitada através da noção semiótica de jogo livre sobre símbolos. Depois disso, analiso dois aspectos da obra revolucionária Ulisses de Joyce como momentos privilegiados para a explicitação da imaginação semântica postulada aqui como uma das condições de sentido do discurso em geral (e não apenas do literário). O primeiro aspecto consiste na construção de palavras-valise. O segundo aspecto, de caráter mais geral, consiste em apresentado através do discurso o espaço de interação entre o nível informacional e o nível proposicional da experiência mental tal como tem sido proposto a partir do trabalho de Fred Dretske.

Palavras-chave: imaginação; semântica; Joyce.

 

Abstract: This paper presents, quite generally, the hypothesis of the existence of one operation of imagination on the level of sense concerning the terms and statements that compound discourses. Thus, contrasted with the traditional view on imagination, in this text it is suggested that imagination does not limits itself to create or to remember extra-linguistic images, but also is able to create linguistic images. Firstly, the text briefly presents the need to accept the existence of this semantic operation of imagination both in order to make a proper account of the intersubjective character of our understanding of literary texts, and in order to the more general task of a comprehensive theory on the sense conditions of language in general; as well as in order to take seriously the literary discourse (specially the avant-garde one) as limiting-place to the discursive signification, which helps us to carry out the task of "verify" such theory. Further, I present an analysis of the symbolism in literature as the first avant-garde literary movement in which the semantic imagination can be visualized through the semiotic notion of free game on symbols. After that, I make an analysis of two aspects of Joyce's revolutionary work Ulisses as privileged moments that allow us to show the semantic imagination here postulated as one of the sense conditions to the discourse in general (and not only to the literary one). The first aspect consists in the construction of portmanteaus. The second and more general aspect consists in presenting through the discourse the interaction space between the informational level and the propositional level of mind's experience such as it have been proposed from Fred Dretske's work onward.

Keywords: imagination; semantics; Joyce.


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DOI: https://doi.org/10.19134/eutomia-v1i14p488-516

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