A Razão da Poesia

Luis Dolhnikoff

Resumo


Resumo: Nos anos 1990, após o fim das certezas clássicas e das vanguardas artísticas, no contexto da crise final das grandes utopias políticas, a poesia perde suas principais referências histórico-culturais e, igualmente, suas principais referências formais. O resultado é a atomização das vozes poéticas, caracterizada pela idiossincrasia formal e pelo solipsismo temático. Ambos encontram respaldo conceitual em uma releitura lata de alguns preceitos modernistas, notadamente o fim das formas fixas e dos temas tradicionais. Ao mesmo tempo, há a retomada e o reforçamento de um interdito epistemológico cujas origens podem ser rastreadas até a Poética de Aristóteles, segundo o qual a poesia é um objeto indescritível ou indefinível, além de (ou porque) separada da linguagem poética, que deixa de ser determinante – mesmo se determinável a partir das contribuições dos teóricos modernistas. A perda da antiga presença cultural da poesia (apesar de qualquer aumento do número de poetas e de poemas publicados em vários meios) é a consequência mais evidente e relevante desse quadro. Trata-se de questionar por duas vias a consistência de tal interdito. Primeiro, em termos conceituais, pela análise sintética do aristotelismo na história da crítica de poesia (dominante até o modernismo e, outra vez, desde os anos 1990). Segundo, em termos formais, pela identificação da poesia com a linguagem poética, do mesmo modo que a prosa é indissociável da linguagem prosaica – condição para que a poesia deixe de recair, paradoxalmente, no campo da metafísica, depois de ter sido trazida pelo modernismo para o campo da crítica. Em consequência, torna-se necessário descrever as características gerais determinantes da linguagem poética.

Palavras-chave: Poesia, Poeticidade, Descrição abrangente da linguagem poética, Recursividade discreta semântica, Morfossemântica, Aristotelismo poético, Poesia versus prosa.

 

Abstract: In the 1990s, following the end of classical certainties and avant-garde art, in the context of the final crisis of the great political utopias, poetry loses its main historical and cultural references as well as its main formal references. The consequence is the atomization of poetic voices, characterized by formal idiosyncrasy and thematic solipsism. Both obtain conceptual support from a wide reinterpretation of some modernist principles, notably the end of fixed forms and traditional themes. At the same time, an epistemological interdiction, whose origins can be traced back to Aristotle's Poetics, was revived and reinforced, according to which poetry is an elusive and indefinable object, in addition to being  (or because it is) separate from  poetic language, which ceases to be decisive – even if ascertainable from the contributions of modernist theorists. The loss of poetry’s traditional cultural place (despite the rise in the number of poets and poems published in a variety of media) is the most obvious and important consequence of this situation. The question (and the quest) is to challenge that interdiction through a two-pronged approach: conceptually, through the synthetic analysis of Aristotelianism in the history of poetry criticism (that was dominant until modernism and, again, since the 1990s); and formally, through the identification of poetry with poetic language, just as prose is inseparable from prosaic language. The latter is mandatory so that poetry does not fall again, paradoxically, into the field of metaphysics, having been brought by modernism into the field of criticism. Consequently, it becomes necessary to describe the general determining features of poetic language.

Keywords: Poetry, Poeticity, Comprehensive description of poetic language, Semantic discrete recursion, Morphosemantic, Poetic Aristotelianism, Poetry vs. prose.


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DOI: https://doi.org/10.19134/eutomia-v1i09p%25p

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