Análise do conceito tecnologia educacional para a prevenção do vírus da imunodeficiência humana em adolescentes

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial da Saúde (OMS)1 define a adolescência como o período compreendido entre 10 e 19 anos, e caracteriza como uma fase de transformações biológicas, psicológicas, sociais e comportamentais. Esta também é reconhecida como uma etapa de vulnerabilidades e riscos, principalmente no contexto das descobertas e experiências das relações sexuais2,3.

Na adolescência, a iniciação sexual é considerada um marco importante para os adolescentes na formação e na expressão da identidade e da autonomia, que sofre forte influência social, econômica e cultural pelas representações sociais vivenciadas. Na atualidade, a maior liberdade sexual dos adolescentes e a falta de acesso à educação sexual têm favorecido comportamentos sexuais de risco, levando a uma maior incidência de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), como o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) sem qualquer tratamento, levando a rápida progressão para a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS)4-6.

Apesar dos inúmeros avanços voltados à prevenção e o controle do HIV/Aids no mundo, dados globais alertam que nos últimos 10 anos tem sido verificado um aumento nos casos HIV/Aids em adolescentes e jovens7,8. Segundo a UNAIDS, em 2019, 1,7 milhões de adolescentes viviam com HIV no mundo, sendo nesse ano 34 mil mortes notificadas relacionada à AIDS entre adolescentes nesse ano9. Em 2021, esses dados chegaram a 2,2 milhões de adolescentes, sendo 37 mil mortes10. No Brasil, os dados Ministério da Saúde mostraram que entre 2011 e 2021 foram notificados mais de 22 mil adolescentes com HIV, destes 52 mil jovens entre 15 e 24 anos evoluíram para a AIDS8. Esse aumento esteve relacionado à diminuição e à interferência de políticas públicas voltadas à prevenção e ao controle do HIV/Aids, devido à pandemia da COVID-19 e outras crises globais7,8. O que demonstra que os esforços empregados para conter a epidemia do HIV/Aids se mantêm insuficientes e necessitam ser reavaliados11.

Para que as mudanças ocorram, a educação sexual se mostra uma intervenção necessária com o potencial para fornecer o conhecimento a essa população, inclusive sobre as medidas de prevenção para o HIV/Aids5. Dentre os profissionais da saúde responsáveis que atuam nas ações de educação sexual e prevenção ao HIV/Aids, se destaca o enfermeiro. Mas, as dificuldades e as barreiras na realização de atividades e as ações como a falta de reconhecimento das representações e dos contextos que envolvem os adolescentes, e a utilização de métodos de ensino limitados e pouco atrativos para fortalecer a temática com os adolescentes, reforçam a necessidade por novas estratégias6,11,12,13.

Nesse sentido, as Tecnologias Educacionais (TE) são apontadas como uma importante estratégia na educação dos adolescentes aplicados aos diversos cenários e finalidades13,14, mas o real potencial educativo requer uma maior compreensão segundo as características individuais e coletivas de cada tecnologia, para a incorporação na realidade dessa população14,15. Entender o conceito educativo das tecnologias na prevenção ao HIV voltado aos adolescentes tem por finalidade facilitar as ações de educação em saúde voltadas a essa população, sem perder de vista a diversidade das experiências e dos recursos disponíveis, e que pode ser utilizado pelo enfermeiro.

A relevância deste trabalho se volta à possibilidade de oferecer elementos que auxiliem na identificação e na caraterização do conceito das TE, de modo a contribuir com a Ciência da Enfermagem, à medida que impulsiona a prática clínica e a pesquisa a respeito desses recursos tecnológicos frente às características especificas dos adolescentes. Pois, acredita-se que a adolescência é protagonista de muitas transformações em todos os aspectos da vida, e possui fortes características que podem ser aproveitadas para essa mudança de cenário. Se adequadamente orientados sobre seu protagonismo, podem gerar um forte impacto direcionados a toda uma sociedade, afinal, serão eles as gerações futuras.

Diante do exposto, verifica-se a necessidade de esclarecer o conceito “Tecnologia Educacional” e, sua aplicação nos fenômenos que envolvem prevenção do HIV em adolescentes, a partir do modelo de análise conceitual de Walker e Avant16

OBJETIVO

Analisar o conceito “Tecnologia Educacional” para a prevenção do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) em adolescentes.

MÉTODO

Trata-se de uma análise de conceito realizada a partir do modelo proposto por Walker e Avant, que é um método de análise que possui oito etapas: seleção do conceito; determinação dos objetivos e propostas para a análise conceitual; identificação dos usos do conceito; determinação dos atributos definidores; identificação de um caso modelo; identificação de casos borderline, contrários, inventados e ilegítimos; identificação dos antecedentes e consequentes do conceito; definição de referentes empíricos16,17.

Para a condução deste estudo, cinco das oito etapas que compõem o modelo foram abordadas. As etapas que se referem à identificação de um caso modelo, à identificação de outros casos, e os referentes empíricos, não foram desenvolvidos. Pois a condução deste estudo foi realizada a partir de uma revisão integrativa da literatura.

Para condução da revisão integrativa foram seguidas seis fases: elaboração da pergunta norteadora; busca ou amostragem na literatura; coleta de dados; análise dos estudos incluídos; discussão dos resultados; apresentação da revisão integrativa18.

Para a formulação da pergunta foi utilizada a estratégia PICO, a saber: (População) - Adolescentes; (Intervenção) - Tecnologias Educacionais; (Controle) – Métodos educacionais tradicionais ou sem outros métodos; e (Outcomes/Desfecho) - Prevenção do HIV.

Na busca pela identificação do conceito, seus atributos, antecedentes e consequentes, foram definidas as seguintes questões norteadoras: “Quais os conceitos das TE para a prevenção do HIV em adolescentes? E quais os atributos, antecedentes e consequentes associados à utilização das TE para a prevenção do HIV em adolescentes?”

A busca dos artigos foi realizada nos meses de janeiro e fevereiro de 2024, a partir do acesso à Comunidade Acadêmica Federada (CAFe) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), nas fontes de dados: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), National Library of Medicine (MEDLINE/PubMed), Web of Science (WOS) e Scopus Elsevier (SCOPUS). A utilização da BVS englobou achados na Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), na Base de Dados de Enfermagem (BDENF), na Medical Literature Analysis and Retrievel System Online (MEDLINE) e no Committee on Undergraduate Medical Education (CUMED). Foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Heading (MeSH) por meio do operador booleano AND, que resultou no cruzamento: Educational Technology (Tecnologia Educacional) AND HIV (HIV) AND Adolescent (Adolescente). Em todas as fontes pesquisadas foi empregado os descritores MeSH, e apenas na BVS foi utilizado o DeCS.

Para a seleção dos estudos foram utilizados os seguintes critérios de inclusão: artigos originais, disponíveis na íntegra e gratuitamente nas fontes selecionadas, cujo objeto de estudo estivesse relacionado à temática. Não foi realizado o recorte temporal ou de idioma. Foram excluídos os editoriais, cartas ao editor, protocolos, estudos de validação, revisões, relato de experiência/casos, teses e dissertações e resumos em anais de eventos.

O levantamento dos dados ocorreu de forma dupla e independente, por revisores devidamente treinados para a finalidade. Para a coleta foram determinados data e horário de início, sendo o término definido após esgotar a fonte selecionada. Um terceiro revisor foi responsável por sanar as discrepâncias entre os revisores.

Por meio da estratégia de busca, foram identificados 1.184 estudos. Destes, 551 eram artigos completos e de acesso livre, 101 artigos foram pré-selecionados com a leitura do título e resumo, sendo estes computados apenas uma vez. Em seguida, os artigos que apresentavam conformidade com os critérios de inclusão desta revisão foram avaliados na íntegra. Para esta revisão foram selecionados 15 artigos, como mostra o fluxograma 1 e o quadro 1.

Figura 1.  Fluxograma do processo de seleção dos estudos. Natal (RN), Brasil, 2024.

Quadro 1. Seleção dos artigos por cruzamento nas fontes de dados. Natal (RN), Brasil, 2024.

Cruzamentos/ Fonte de Dados

BVS

MEDLINE/ PubMed

WOS

SCOPUS

TOTAL

(Educational Technology) AND (HIV) AND (Adolescent)

55

284

112

704

1155

(Tecnologia Educacional) AND (HIV) AND (Adolescente)

29

0

0

0

29

Encontrados

84

284

112

704

1184

Selecionados (após a leitura na integra)

9

5

3

8

25

Incluídos

6

3

2

4

15

Para a coleta de dados, utilizou-se um formulário estruturado e adaptado18 com as seguintes variáveis: identificação do estudo (título, autores, ano de publicação, periódico, país, idioma), características metodológicas do estudo (delineamento e abordagem do estudo, nível de evidência, objetivo, amostra, tratamento dos dados, tecnologia educacional utilizada e local de aplicação), resultados e implicações.

Os estudos incluídos foram avaliados segundo o nível de evidência utilizando um sistema de classificação composto por sete níveis, sendo: Nível I – evidências oriundas de revisões sistemáticas ou metanálise de relevantes ensaios clínicos; Nível II – evidências derivadas de pelo menos um ensaio clínico randomizado controlado bem delineado; Nível III – ensaios clínicos bem delineados sem randomização; Nível IV – estudos de coorte e de caso-controle bem delineados; Nível V – revisão sistemática de estudos descritivos e qualitativos; Nível VI – evidências derivadas de um único estudo descritivo ou qualitativo e Nível VII – opinião de autoridades ou relatório de comitês de especialistas19.

A apresentação dos resultados foi feita por meio de quadros e de forma descritiva e analisados mediante a literatura pertinente.

Este estudo foi desenvolvido por meio da utilização da literatura científica disponível nas fontes de dados supracitadas, e por isso dispensa a apreciação em Comitê de Ética e Pesquisa (CEP)/Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). Entretanto, ressalta-se que os preceitos da Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) foram seguidos com vistas a preservar e respeitar as ideias, conceitos e definições dos autores dos estudos primários selecionados.

RESULTADOS

Os 15 estudos que atenderam aos critérios previamente estabelecidos foram incluídos nesta revisão integrativa, e estão dispostos no quadro 2, apresentando a caracterização dos estudos segundo o país, o ano de publicação, a fonte de dados, o título, a citação, o método, o nível de evidência, a tecnologia educacional e o local de aplicação.

Quadro 2. Caracterização dos estudos incluídos nesta revisão integrativa. Natal (RN), Brasil, 2024.

PAÍS/ ANO

FONTE DE DADOS

TÍTULO

MÉTODO

NE

TECNOLOGIA EDUCACIONAL/ LOCAL DE APLICAÇÃO

Brasil/ 2009

BVS - LILACS

Education in health on DST/AIDS with adolescents of a public school, using the educational technology as instrument20

Estudo descritivo/ Qualitativo

VI

Oficinas educativas em grupo (gincanas, discussão, músicas, filme, corte e colagem), ambiente escolar.

Estados Unidos/ 2010

SCOPUS

Reducing HIV and AIDS through Prevention (RHAP): A Theoretically Based Approach for Teaching HIV Prevention to Adolescents through an Exploration of Popular Music21

Estudo descritivo/ Quantitativo

VI

Música hip-hop/rap, ambiente escolar.

Estados Unidos/ 2010

SCOPUS

It's Your Game: Keep It Real: Delaying Sexual Behavior with an Effective Middle School Program22

Ensaio randomizado controlado/ Quantitativo

II

Atividades em sala de aula, em grupo e exercícios interativos virtuais por computador, ambiente escolar.

Estados Unidos/ 2011

MEDLINE/

PubMed

Educational effectiveness of an HIV pretest video for adolescents: a randomized controlled trial23

Ensaio randomizado controlado/ Quantitativo

II

Aconselhamento presencial e por vídeo, ambiente de saúde.

China/ 2012

MEDLINE/

PubMed

Effectiveness of school-based education on HIV/AIDS knowledge, attitude, and behavior among secondary school students in Wuhan, China24

Quase-experimental/ Quantitativo

VI

Palestra e vídeo, ambiente escolar.

Estados Unidos/ 2012

SCOPUS

Sexual Risk Avoidance and Sexual Risk Reduction Interventions for Middle School Youth: A Randomized Controlled Trial25

Ensaio randomizado controlado/ Quantitativo

II

Atividades em sala de aula em grupo e exercícios interativos virtual por computador, ambiente escolar.

Estados Unidos/ 2013

BVS - MEDLINE

Analysis of HIV testing acceptance and risk factors of an adolescent cohort using emergency department-based multimedia HIV testing and counseling26

Estudo transversal/ Quantitativo

VI

Vídeos de aconselhamento, ambiente de saúde.

Estados Unidos/ 2013

BVS - MEDLINE

Text-Messaging-Enhanced HIV Intervention for African American Adolescents: A Feasibility Study27

Estudo descritivo longitudinal/ Quantitativo

VI

Recursos multimídia (fotos, vídeos e mensagens de texto) por celular, ambiente digital.

Tanzânia/ 2018

BVS - MEDLINE

Improving Sexual Health Education Programs for Adolescent Students through Game-Based Learning and Gamification28

Ensaio de controle randomizado/ Quantitativo

II

Aprendizagem baseada em jogos e a gamificação por computador, ambiente escolar.

Estados Unidos/ 2019

BVS - MEDLINE

A multilevel mHealth drug abuse and STI/HIV preventive intervention for clinic settings in the United States: A feasibility and acceptability study29

Estudo descritivo/ Métodos mistos

VI

Aplicativo móvel de questionário e mensagens de texto, ambiente de saúde.

Brasil/ 2021

BVS - LILACS

Development of chatbot for adolescents about sexually transmitted infections30

Estudo descritivo/ Quantitativo

VI

Aplicativo de mensagens de texto e voz, por inteligência artificial, ambiente virtual.

México/ 2021

SCOPUS

Gamifying Sexual Education for Adolescents in a Low-Tech Setting: Quasi-Experimental Design Study31

Estudo quase-experimental/ Quantitativo

VI

Serious game e gamificação por computador e sala de aula, ambiente escolar.

África do Sul/ 2022

MEDLINE/

PubMed

Effects of a multimedia campaign on HIV self-testing and PrEP outcomes among young people in South Africa: a mixed-methods impact evaluation of 'MTV Shuga Down South'32

Estudo descritivo /métodos mistos

VI

Intervenção multimídia (eventos, vídeos, quadrinhos, TV, rádio), a partir de série popular de TV, ambiente digital.

Camarões/ 2022

WOS

A randomized controlled trial on mobile phone text messaging to improve sexo-reproductive health among adolescent girls in Cameroon33

Ensaio randomizado controlado/ Quantitativo

II

Mensagens de texto por celular e educação tradicional, ambiente escolar e de saúde.

China/ 2022

WOS

Evaluation of an AIDS Educational Mobile Game (AIDS Fighter Health Defense) for Young Students to Improve AIDS-Related Knowledge, Stigma, and Attitude Linked to High-Risk Behaviors in China: Randomized Controlled Trial34

Ensaio randomizado controlado/ Quantitativo

II

Jogo e grupo de bate-papo por celular, ambiente escolar.

Nos artigos analisados, predominaram os estudos descritivos e os ensaios randomizados. Dos artigos analisados, nove estudos possuem nível de evidência VI, o que corresponde ao delineamento metodológico abordado em estudos descritivos ou qualitativos. E seis estudos possuem nível de evidência II, dos ensaios clínicos randomizados controlados. Quanto ao recorte temporal de publicação, os estudos possuem intervalo entre 2009 e 2022, com maioria a publicada nos últimos dez anos. No que se refere ao país de publicação e idioma, a maioria dos manuscritos foram desenvolvidos nos Estados Unidos e estão em inglês. Quanto ao ambiente de aplicação do estudo, 12 estudos foram aplicados em ambiente escolar ou de saúde.

Dentre as tecnologias mais frequentes nos estudos estão as digitais e virtuais - jogos, gamificação, bate-papo, exercícios interativos e recursos multimídia (fotos, vídeos, mensagens de texto, de voz ou áudio) - que são aplicadas por meio de computadores e celulares. E, as demais tecnologias pontuadas foram: oficinas educativas (gincanas, discussão, músicas, filme, corte e colagem), palestras de aconselhamento, música, quadrinhos, multimídia (TV e rádio).

Após a análise dos artigos, e a identificação dos usos do conceito, destacaram-se a síntese dos atributos, antecedentes e consequentes que representam a melhor compreensão do conceito de TE voltado à prevenção do HIV em adolescentes, mostrado no quadro 3.

Quadro 3. Síntese dos atributos, antecedentes e consequentes identificados para o conceito. Natal (RN), Brasil, 2024.

ATRIBUTOS

ANTECEDENTES

CONSEQUENTES

1.  Práticas educativas dinâmicas e interativas;

2.  Ferramenta de comunicação;

3.  Adaptada às necessidades individuais;

4.  Estabelecimento de vínculo e confiança;

5.  Privacidade;

6.  Feedback imediato;

7.  Interação adolescente-educador;

8.  Consciência crítica- reflexiva;

9.  Aprendizado ativo;

10. Acessível;

11. Baixo custo;

12. Promoção de mudanças sociocultural e comportamentais;

13. Interação de mais de uma tecnologia;

14. Formação continuada dos profissionais.

1.  Conhecimento deficiente;

2.  Iniciação sexual precoce;

3.  Não uso do preservativo;

4.  Consumo de substâncias psicoativas;

5.  Gravidez não planejada;

6.  Falta de diálogo com pais, escola e os profissionais;

7.  Problemas na discussão de gênero, segundo a cultura, religião e crenças;

8.  Carência de recursos humanos e materiais;

9.  Falta de políticas públicas eficazes.

1.  Promoção do conhecimento;

2.  Comportamento sexual seguro;

3.  Fortalecimento do diálogo;

4.  Empoderamento;

5.  Pensamento crítico-reflexivo;

6.  Tomada de decisão;

7.  Aprendizagem significativa;

8.  Prevenção do IST/HIV/ Aids/gravidez precoce;

9.  Fortalecimento do acesso aos serviços de saúde;

10. Mudanças socioculturais e comportamentais;

11. Construção de políticas públicas integrais.

DISCUSSÃO

Identificação dos possíveis usos do conceito “Tecnologias Educacionais”

Segundo Walker e Avant, um conceito é uma ideia ou construção mental elaborada sobre um fenômeno. São representações de uma realidade perceptível formada por experiências individuais que descrevem situações para se comunicar efetivamente16,17.

Inicialmente, os termos do conceito “Tecnologia Educacional” foram pesquisados a partir da origem da palavra. Em que a palavra Educação, vem do termo Latim, “'Educere” (que significa extrair, tirar, desenvolver), portanto, uma ação consciente que possibilita o crescimento, e visa levar o ser humano a realizar e alcançar as suas potencialidades. O resultado dessa ação é a aquisição do conhecimento e o despertar para uma nova visão de mundo. Desse modo, o termo educacional, se volta aos fins pedagógicos e sociais35.

Enquanto a palavra Tecnologia tem origem grega “Teckné ou tekne” (que significa, arte, técnica ou ofício) e “Logos” (conjunto de saberes), e resultam de um processo criativo do ser humano, com vistas a satisfazer as necessidades humanas e modificar o meio. Na educação, as tecnologias são consideradas ferramentas com a capacidade de formar o elo entre os conhecimentos acadêmicos adquiridos ou mesmo vivenciados a partir do controle do processo de ensino e aprendizagem35,36,37.

Assim, Tecnologia Educacional é o conjunto de técnicas, processos e métodos que utilizam os recursos disponíveis como ferramentas de apoio aplicadas ao ensino, com a finalidade de enriquecer o ambiente educacional e facilitar a construção de conhecimentos a partir de uma atuação ativa, crítica e criativa, transformando as atividades em processos fáceis e dinâmicos36,37.

Ao buscar entender os recursos utilizados em sala de aula ao longo dos anos e as mudanças nos processos educativos, verificam-se que Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) são amplamente utilizadas, e podem ser exemplificadas por meio de ferramentas como: a televisão, o rádio, o jornal, o gravador de som, o retroprojetor, o vídeo, o computador, o tablet, o smartphone, os softwares, a Internet, e atualmente, pela Inteligência Artificial (IA)36. E, embora as TE sejam conceituadas como instrumentos facilitadores do processo ensino-aprendizagem, estas somente serão consideradas eficazes se tiverem alcançado a aprendizagem significativa38.

Atualmente, a educação perpassa por uma intensa transformação digital que visa equipar os estudantes com as habilidades técnicas, cognitivas, sociais e emocionais necessárias para o aprendizado do século XXI. E, a necessidade em facilitar o processo de aprendizagem de forma atraente para os estudantes, faz da tecnologia uma aliada na melhoria do desempenho acadêmico, pela rápida aceitação, sendo apontada como uma ferramenta de melhoria do desempenho acadêmico, por fazer ampliação da sala de aula. A partir de então, novos avanços são esperados com a web 4.0, junto à IA36.

No contexto dos estudos selecionados nesta revisão, as TE no contexto da prevenção do HIV para os adolescentes estão fortemente vinculadas às ações de educação em saúde, com o objetivo de aumentar ou desenvolver o conhecimento sobre a educação sexual e IST/HIV/Aids. Estes com o objetivo de modificar os comportamentos de risco, a percepção de risco e/ou vulnerabilidade dos adolescentes20-34. Dentre os estudos analisados as tecnologias virtuais e digitais tiveram maior aceitação pelos estudantes que os métodos tradicionais de ensino, o que favoreceu o processo de ensino-aprendizagem e a ampliação do conhecimento.

Determinação dos atributos definidores

Os atributos definidores identificam a essência do conceito e permitem que o autor tenha um amplo discernimento do conceito, a fim de modificar ao longo do tempo ou de acordo com o ambiente em que é utilizado16,17.

Nos artigos analisados, os atributos voltados às TE estão fortemente pautadas na inovação, para o melhor alcance da aprendizagem. Nesse contexto, as tecnologias devem buscar novidade, dinamismo, interação e acessibilidade para os adolescentes que as utilizam. E, a acessibilidade deve estar voltada a uma linguagem mais compatível ao público (de acordo com a idade e nível de escolaridade), e o baixo custo das tecnologias utilizadas24,30.

Ao considerar o avanço das tecnologias e a expansão da Internet, verifica-se que o acesso ao conhecimento tem se modificado e ampliado, pois a informação passa ser realizada com rapidez e de qualquer lugar39,40. Logo, as TE devem ser utilizadas de forma a estimular a curiosidade dos alunos, visando sempre o incentivo e a busca pelo conhecimento37.

Com isso, alguns estudos propõem que a educação em saúde sexual realizada no âmbito virtual ou digital, mediadas por computadores e celulares, tem sido melhor aceita pelos adolescentes em comparação aos métodos tradicionais28,29,33, e podem ser um método mais fácil e motivador de educar e promover o aprendizado ativo28,30. A educação ativa por TE resulta da realização de atividades mais interativas e participativas, que exigem o pensamento crítico-reflexivo, e facilita o desenrolar do processo de aprendizagem necessária para que aconteçam as mudanças comportamentais necessárias28,29.

Essas tecnologias também promovem a comunicação assertiva, o vínculo e a confiança entre os adolescentes e os profissionais, e proporciona privacidade, feedback, e uma solução autodirigida às necessidades individuais e específicas do adolescente27-29. Mas, nas localidades em que acesso a essas tecnologias digitais ou virtuais não ocorre de forma satisfatória, têm sido empregadas as tecnologias mais acessíveis e de baixo custo, e os resultados a essas intervenções podem oportunizar algum crescimento sobre o conhecimento23,27,31,33.

Nesta pesquisa, poucos estudos abordaram a utilização das TE no âmbito das instituições de saúde, devido à falta de interação desses adolescentes com os serviços de saúde. Mas, tendo em vista o potencial das TE e a sua aplicabilidade nos cenários de ensino, destaca-se que estas são instrumentos que complementam, mas não substituem a ação do professor em sala de aula ou do profissional de saúde, que são reconhecidos como os mediadores do conhecimento. Nesse sentido, é fundamental investir na atualização constante e na educação continuada de profissionais das áreas de ensino e saúde, para facilitar o uso e ampliar a utilização dessas tecnologias nas ações disseminadas juntos aos adolescentes29,31,37.

Identificação dos antecedentes e consequentes do conceito

Os antecedentes compreendem fenômenos anteriores à ocorrência e à utilização do conceito. Enquanto os consequentes se referem ao resultado da ocorrência do conceito, e são importantes para determinar as ideias, as variáveis ou as relações que podem fornecer importantes direcionamentos para a observação de possíveis efeitos16,17.

Com base nos antecedentes e consequentes encontrados, verifica-se que a identificação de fatores de risco se mostra um importante dado a ser compreendido. Segundo a literatura, práticas como: início precoce da atividade sexual, relação sexual com indivíduo do mesmo sexo (com destaque para homens que fazem sexo com homens), múltiplas parcerias sexuais, uso incorreto ou inconsistente de preservativos, gravidez não planejada, o uso de substâncias psicoativas (frequentemente associado às atividades sexuais desprotegidas), e o conhecimento deficiente, oferecem um maior risco de transmissão do HIV29,33,34.

Para a maioria, o conhecimento que poderia vir do ambiente familiar enfrenta a falta de diálogo com os pais sobre essa temática, e no ambiente escolar e de saúde, existe a relutância dos responsáveis em permitir que seus filhos participem de ações educativas sobre a sexualidade, principalmente adolescentes pré-púberes (10-14 anos)41. Isso resulta em uma consciência limitada sobre os riscos potenciais e o despreparo para enfrentar as situações de exposição20. Alguns estudos mostram que a educação quando realizada antes da atividade sexual resulta em práticas seguras, incluindo atrasar o comportamento sexual geral22,25.

Frequentemente, as principais fontes de informações dos adolescentes são os pares (adolescentes da mesma faixa etária), que por também não terem acesso à educação sexual e orientação, trazem conceitos equivocados, incompletos, inconsistentes e/ou até distorcidos sobre a sexualidade, carregados de mitos e tabus20. Na era da Internet, dos smartphones e do computador, e do fácil acesso à informação pelas redes móveis, os adolescentes tem cada vez mais utilizado esses meios para buscar o conhecimento. Mas, embora seja uma ferramenta que proporciona um meio rápido e confidencial de acesso às informações, nem sempre é um ambiente favorável, pois pode fornecer informações errôneas ou equivocadas30.

Diante da ausência desses jovens no âmbito dos serviços de saúde, a educação sexual passa a ser responsabilidade das instituições de ensino, que nem sempre estão preparadas para as necessidades dos adolescentes29,31,33. Dentre os problemas identificados estão: os métodos tradicionais de ensino, as questões culturais e de contexto social, que não permitem uma discussão aberta e direcionada28,29. E, ainda, a utilização de métodos coletivos e passivos, que são formas limitadas e pouco atrativas aos adolescentes20,28,29,31.

Dentre os assuntos mais abordados estão: informações biológicas sobre o corpo, desenvolvimento de características sexuais, principais IST (como o HIV/Aids), e métodos contraceptivos. Mas, outras informações extremamente necessárias, como: transmissão vertical do HIV, métodos de testagem e controle de ISTs, uso de drogas lícitas e ilícitas, identidades de gênero e as sexualidades alternativas (como LGBTQIA+), são menos trabalhados nessa população28,29. Quanto às questões de gênero, quando a abordagem acontece, esta é quase sempre discriminatória e sem o conteúdo adequado, o que interfere diretamente na resposta desses adolescentes em relação às medidas de prevenção42.

 Ainda, a falta de interação desses adolescentes com os serviços de saúde, dificulta o acesso à informação necessária e às ações para a prevenção e o controle do HIV, pautada pelas políticas de saúde, principalmente no contexto da testagem do HIV e da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP)23,32. Alguns estudos mostram que a utilização de TE podem ter um impacto na triagem, testagem e vinculação de jovens vulneráveis aos serviços de saúde23,27,29,32. E, que as atividades de educação sexual quando realizados em serviços não específicos (como serviço de emergência) podem incentivar a testagem para o HIV, e ser uma forma de acessar a população de alto risco que tem menos acesso aos serviços específicos de saúde23,27.

Nesse contexto, a OMS, desde 201943, aborda a importância do uso das tecnologias digitais e virtuais como oportunidades reais para atender às necessidades e enfrentar os desafios dos sistemas de saúde, com o potencial de melhorar a qualidade e a cobertura dos serviços e promover as políticas públicas mais eficazes e integrais. Mas, algumas dificuldades como a carência de recursos humanos qualificados e a falta de acesso em algumas localidades aos recursos tecnológicos (como o celular e computador, ou mesmo a Internet) pela população adolescente podem gerar interferência na aplicabilidade das TE28,29,31. A cultura, a religião e as crenças da sociedade, também são vistas como barreiras ao uso das TE21,25,28.

Na atualidade, mudanças educacionais têm sido sugeridas nos sistemas de ensino e de assistência. Acredita-se que articulação por meio de as ações direcionadas e programadas entre os profissionais da saúde, professores, e a família, possibilitaria a eficácia das ações direcionadas ao adolescente com foco às necessidades desse público, de forma a minimizar as situações de vulnerabilidade em diferentes contextos44.

Assim, os estudos mostram que as TE podem ampliar o conhecimento, aumentar o engajamento dos adolescentes e favorecer o feedback imediato com o esclarecimento de dúvidas, que resultariam em mudanças de comportamentos e na tomada de decisão28-30. Essas tecnologias podem facilitar a comunicação entre os adolescentes e os profissionais de saúde, de forma a promover estratégias de prevenção direcionadas, com a privacidade necessária para discutir aos comportamentos de risco específicos22,27-30,34.

Em lugares onde as discussões sobre a educação sexual em público são um tabu, os métodos de ensino baseado em jogos e gamificação foram mais bem aceitos pelos adolescentes e tiveram uma classificação mais alta para os componentes de conhecimento do que aqueles na condição de ensino tradicional28,31,34. Mas, um estudo destacou que o uso excessivo de smartphones pode provocar o desequilíbrio cognitivo e gerar sintomas e prejuízos semelhantes à dependência química. E, pode potencializar os transtornos e trazer prejuízos no desenvolvimento, no comportamento e no aprendizado40, o que faz necessária sua associação com outros métodos e tecnologias.

As TE mais fáceis de serem trabalhadas com os adolescentes são aquelas baseadas em vídeo e mensagem de texto, que são considerados métodos amplamente utilizados para melhorar o conhecimento sobre o HIV23,24,27,33, e podem melhorar as atitudes em relação aos preservativos e maior percepção do risco de HIV27, e aumentar as taxas de teste de HIV23. Segundo um estudo, atualmente, os telefones celulares estão mais baratos, portáteis e acessíveis. E com a chegada da Internet móvel as informações podem ser acessadas, entregues e gerenciadas com mais facilidade pelos serviços de saúde33. Este é um domínio que vale a pena explorar, especialmente nesta era de maior aceitação e dependência de telefones celulares.

Embora as TE mais utilizadas, segundo os estudos selecionados, tenham sido os jogos, vídeos e mensagens de texto. Um estudo destacou a música como uma tecnologia interessante e alternativa à abordagem de ensino sobre o HIV junto aos adolescentes. Sendo usada como uma tecnologia de autorreflexão e autorregulação, ajudando os indivíduos a compreender o problema, estimular as discussões, comunicar os valores e a desenvolver consciência e soluções. Serve como um meio poderoso para envolver os adolescentes em discussões sobre os comportamentos que os colocam em risco de contrair HIV e outras IST21.

Logo, o conhecimento quando oferecido por meio mais interativo, participativo, e por métodos diferenciados facilita a aprendizagem significativa, pois, permite o desenvolvimento de funções cognitivas, que potencializam o raciocínio e gera a compreensão de situações presentes no cotidiano28,31,45. Mas, apesar do fortalecimento do conhecimento sobre essa temática ser um fator protetivo, ainda não há garantias para que as mudanças nos comportamentos sexuais sejam realizadas pelos adolescentes46.

Enfatizar os aspectos novos e importantes do estudo. Comparar e contrastar os resultados com os de outros estudos atuais e apresentar possíveis mecanismos ou explicações para os resultados obtidos. Apresentar as limitações do estudo e os avanços ao conhecimento científico).

CONCLUSÃO

A era da sociedade tecnológica trouxe novos rumos para o processo de ensino-aprendizagem. Esta análise conceitual identificou e avaliou o conceito das TE para a prevenção do HIV entre adolescentes. Dos artigos incluídos, predominaram os estudos descritivos e ensaios randomizados, com intervalo de tempo de 2009 a 2022, e a maioria publicada nos últimos dez anos. No que se refere ao país de publicação e idioma, a maioria dos manuscritos foram desenvolvidos nos Estados Unidos e estão em inglês. Quanto ao ambiente de aplicação do estudo, a maioria se volta ao ambiente escolar ou de saúde. Dentre as tecnologias mais frequentes nos estudos estão as digitais e virtuais – que inclui jogos, gamificação, bate-papo, exercícios interativos e recursos multimídia (fotos, vídeos e mensagens de texto, de voz ou áudio) - que são aplicadas por meio de computadores e celulares.  Mas, outras tecnologias aplicadas por meio oficinas educativas, palestras de aconselhamento, música, quadrinhos, multimídia (TV e rádio) também foram citadas. Os resultados foram discutidos com base nos 14 atributos, nove antecedentes e 11 consequentes do conceito estudado.

Este trabalho contribui diretamente com o avanço da Ciência à medida que fornece subsídios para a compreensão do fenômeno, dinamiza as atividades segundo os recursos tecnológicos disponíveis. O que estimula a pesquisa e a produção de novas tecnologias, a partir da clareza do conceito estudado, por ser possível identificar as lacunas preexistentes. Uma outra importante contribuição é a concretude do entendimento entre a relação entre tecnologia, educação e saúde, considerando que tal tríade influencia na aprendizagem, na mudança de comportamento individual e coletivo, quando tal exploração de perspectivas teóricas acontecem.

Logo, este trabalho também impulsiona a prática clínica, com a produção ou readequação dos novos recursos tecnológicos de modo a superar o modelo tradicional. E fornece suporte teórico por meio da discussão do fenômeno nos diferentes espaços, contribuindo para a realidade das políticas públicas de saúde.

Ao considerar que a humanidade está em constante transformação é necessário a atualização de informações e habilidades na aprendizagem e na execução da prevenção de doenças com o olhar voltado à inovação. Os resultados deste estudo podem suscitar a realização de novas pesquisas que esclareçam os novos conceitos sobre a temática, minimizando as lacunas na formação do enfermeiro, possibilitando a utilização de novas formas de aprender e ensinar e, consequentemente, um aprimoramento na prática clínica com as melhores tomadas de decisões.

CONFLITO DE INTERESSES

Nada a declarar.

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Correspondência

Isabelle Christine Marinho de Oliveira

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